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27.9.08

O CASEBRE



O CASEBRE

De Oscar Mendes


A estrada interminável parecia carregar consigo a morte.

Às suas margens nenhum sinal de vida nos últimos quilômetros. Era como se a noite tivesse dominado todas as formas de vida existentes com sua escuridão.

A esperança era a de encontrar um restaurante, uma pousada ou uma residência qualquer onde aquele exausto motorista pudesse descansar.

Ele ardia em febre, fato esse denunciado pelos calafrios que lhe percorriam o corpo e pela sudorese que já tornava sua camisa desconfortavelmente molhada.

- Preciso descansar, tem que aparecer algum lugar por aqui, não é possível.

Seu estado realmente parecia ser grave e a escuridão da estrada somada ao mal estar generalizado que o acometia fazia com que seus olhos por diversas vezes se fechassem por frações de segundos. Um acidente parecia ser eminente.

- Vou encostar e dormir no carro mesmo, não agüento mais. – ao pensar nessa hipótese, como por encanto, uma débil luz se fez surgir logo adiante, do lado direito da estrada, em meio à escuridão.

Sem pensar duas vezes ele entrou com o carro pelo estreito caminho que levava até a casa, e em poucos instantes já estacionava a enorme pick up defronte à porta de entrada.

Ao descer ele pôde sentir o ar frio da mata contrastando com o calor do interior do carro. Seu mal estar pareceu aumentar com esse choque térmico e ele bateu à porta num misto de desespero e esperança.

O silêncio que tomava conta do local foi quebrado pelos lentos passos que, no interior da modesta casa, faziam ranger o assoalho. Logo a porta se abriu.

- Pois não meu fio, im que o preto véio podi ti ajudá? – atendeu amistosamente um senhor que, mesmo com a aparente idade avançada, não largava seu fétido cachimbo.

Disfarçando a náusea que aquele cheiro lhe causara o rapaz prosseguiu.

- Por favor meu senhor. Estava indo pra capital mas parece que a gripe me pegou de jeito, não estou me sentindo nada bem e precisava de um lugar para descansar essa noite. Se não for incômodo, o senhor não teria um quarto pra mim? Eu posso lhe pagar a estadia, se preferir. – respondeu o motorista com os braços cruzados no peito e batendo o queixo de frio.

- Ô meu fio, num carece de pagá nada não pro véio não. Tem um montão de quarto aqui, pode usá um, pode escoiê o que quisé. É difícir aparecê alguém pur aqui, fica a vontadi. Só tem um pobreminha, meu fio. Essa noiti vai tê festa aqui na casa do véio, ispero qui ocê num si incomode. Fora issu, num tem pobrema ninhum não. – prosseguiu o simpático senhor afastando-se de lado para que o pobre rapaz entrasse na sala iluminada somente pela luz de um lampião.

- Problema nenhum meu senhor, fico muito agradecido pela sua ajuda. Pode ficar tranqüilo que, nesse estado em que estou, acho que nem a bomba atômica será capaz de me acordar.

- Intão podi ficá a vontadi. – disse o ancião fechando a porta.

Não demorou praticamente nada para que o motorista se acomodasse em um dos quartos.
O cômodo empoeirado, a cama pouco confortável, a friagem que adentrava pelas frestas das paredes de madeira... nada parecia perturbar o pobre homem que acabou adormecendo mesmo com sua camisa encharcada de suor e sem coberta alguma.

As horas se seguiram envoltas pelo mais absoluto silêncio e escuridão.

Mas o tranqüilo sono do motorista não permaneceria assim por muito tempo. Num dado momento ele foi desperto pelo som de fortes batuques e uma monótona cantoria entoada por inúmeras vozes, como se fossem lamentos.

Ele se ergueu ligeiramente na cama e percebeu que lá de fora vinha uma débil luz, provavelmente de uma fogueira. Aguçou os ouvidos e atentou-se à melodia que era entoada. A melancólica melodia assemelhava-se, em certos momentos, a um choro de dor e tristeza.

- Meu Deus, é isso que chama de festa por aqui? Imagino como devam ser os velórios então... – resmungou ele afundando o rosto no colchão empoeirado.

Por alguns minutos sua mente acompanhou as diferentes melodias que eram entoadas, mas a exaustão do seu corpo falou mais alto e ele voltou a adormecer antes que ele se sentisse envolvido pela intensa tristeza que aquelas melodias carregavam.

Algumas horas se passaram e o motorista tremia ainda mais de febre na simplória cama. Sem saber se devido aos calafrios que atormentavam seu corpo ou por algum outro motivo, ele, já de barriga para cima, abriu lentamente seus olhos.

Mesmo debilitado pela enfermidade que o acometia, pulou na frágil cama ao perceber diversos vultos a rodeá-lo. Seus olhos se arregalaram, seu coração disparou e ele fez menção de se levantar, mas um mal súbito, como um forte golpe em sua cabeça, fez com que ele tombasse desacordado novamente.

O Sol já estava iluminando todo o casebre e raios de sua intensa luz penetravam por todo o aposento através das inúmeras frestas presentes tanto no teto quanto nas paredes, ainda assim o rapaz permanecia imerso no mundo de Morfeu.

Mas seu sono não prosseguiu por muitas horas além do raiar do astro-rei.

Assustado e com uma terrível dor de cabeça o motorista acordou com um forte cutucão nas costelas.

Novamente seus olhos se arregalaram e mais uma vez seu corpo pulou na débil cama.

- O que está acontecendo agora? – indagou ele ao observar o uniforme do sisudo homem de óculos escuros que o olhava com um cacetete nas mãos.

- O que faz aqui rapaz? Está tudo bem? – indagou ele firmemente.

- Ora essa, estava descansando. O dono da casa deixou eu passar a noite aqui. Acho que já estou melhor, a gripe parece ter passado, tirando essa dor de cabeça insuportável. – respondeu o motorista sentando-se na cama e apertando a cabeça com as mãos.

- O dono da casa? Você andou bebendo rapaz? – prosseguiu o policial gesticulando para que saíssem do aposento.

- Eu não bebo guarda, como disse, estava passando muito mal essa noite. E sim, o senhor simpático que me atendeu ontem à noite deixou que eu dormisse aqui. O dono da casa, presumo eu. – respondeu ele caminhando através da porta, seguido pelo policial.

Enquanto seguiam para fora, o motorista, já sentindo-se melhor e refeito do susto, estranhou a aparência abandonada da sala que atravessavam. Não conseguia se recordar direito dos pormenores da noite anterior, mas com certeza a sala não estava daquele jeito. Era uma casa abandonada.

- Olha rapaz. Lamento informar mas essa casa está vazia já a muitos anos. Antes mesmo de eu vir para essa região ela já estava assim. Quando ia rumo ao posto policial logo adiante na estrada estranhei o seu carro estacionado aqui e vim verificar, foi quando te encontrei. O que alguém, com um carrão como o seu, poderia estar fazendo num lugar como esse? Imaginei que se tratasse de alguém precisando de ajuda, ou alguma outra coisa qualquer, alguma ocorrência. Fiquei assustado quando te vi dormindo naquele quarto imundo, parecia estar morto. Realmente não sei como conseguiu. E vir parar aqui nesse lugar abandonado de noite, realmente você é corajoso, essa casa me dá arrepios nesse horário, de noite eu acho que nunca entraria aqui. O motorista coçava nervosamente a cabeça, sem entender o que estava acontecendo.

Realmente a casa estava em péssimo estado e causava mesmo arrepios, mas ele se recordava perfeitamente do amável sorriso do preto velho que o recebera amavelmente naquele lugar.

- Mas um senhor me recebeu aqui ontem quando cheguei, disso eu tenho certeza.

- Lamento, mas não tem ninguém morando aqui à anos, como já te disse. Quer tirar a prova? Vamos verificar o terreno, eu te acompanho. – convidou o policial rezando por uma negativa do rapaz diante da aparência tenebrosa do lugar.

- Tudo bem, vamos sim, preciso tirar essa cisma. Teve até uma festa aqui ontem à noite, com fogueira, batuques e tudo o mais. Lá atrás deve ter alguma coisa que prove isso. Não estou enlouquecendo.

- Certo, vamos verificar. – consentiu o policial já desconfiado da sanidade do forasteiro que seguia à sua frente.

Caminharam ao redor da casa lentamente verificando cada detalhe.

O policial olhava ao redor, ressabiado. O rapaz estava indignado pois não havia nenhum sinal da festa que ocorrera. Fogueira? Nada...

- Como isso é possível policial? Juro por Deus que acordei de noite com a música que o pessoal tocava e cantava. Deviam haver mais de vinte pessoas aqui pelo barulho que faziam e...

O rapaz cessou sua narrativa e seus passos ao sentir um arrepio na espinha que jamais imaginou poder sentir na vida.

Os olhos esbugalhados do policial comprovavam que ele não era o único a ver aquela sinistra cena: ao centro de um descampado logo adiante eles avistaram um pelourinho que vertia sangue fresco pelas frestas da madeira envelhecida...

Um comentário:

Tânia Souza disse...

Caramba... assombroso!

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