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31.10.08

DOM


Escritora Tânia Mara Souza retorna à Câmara com um conto fantástico sobre a intolerância, o preconceito e a alienação de massa. Boa leitura!

DOM


Tânia Mara Souza


Uma densa neblina cobria o vilarejo naquela madrugada fria. Uma garoa fina aprofundava a sensação de desamparo na moça que apressadamente cruzava a pequena vila. As batidas na porta foram suaves, mesmo acordado, padre Bernardo assustou-se e não demorou a abrir. A jovem encolhida dentro do poncho de lã tremia de frio, e ergueu os olhos assustados:

— Eu vi, padre Bernardo! Eu vi a desgraça na vila, eu vi a morte...— Os lábios tremiam de frio, apesar do capuz cobrindo os cabelos.

— Calma minha filha. Entre! Você vai congelar ai fora. O que aconteceu?

— Mas os olhos são azuis, os olhos da morte... O senhor também deve partir padre, não pode ficar, eu...— A moça não se movia, até que o velho homem abraçou os ombros frágeis e a levou para a pequena sala.

— Esse é o meu lar Madeleine, não verei outros caminhos enquanto respirar. E aqui também é o seu lar, onde estão os restos de sua mãe, de sua avó. O povo sempre dependeu do Dom.— Enquanto falava, padre Bernardo a conduzia para um cadeira ao lado do velho fogão a lenha, onde um caneca de louça encheu-se de chá, aquecendo as mãos da moça, que lentamente sorveu a bebida.

Ela balançou a cabeça, repetindo as palavras que a assombravam, os olhos perdidos nas chamas:

— Eu vi o mal, ele tem olhos azuis...— A respiração estava mais calma, e a moça tirou o capuz de lã, ainda trêmula, sentou-se perto do fogão que aquecia o ambiente, fitando as brasas, mas de repente, assustou-se, e desviou os olhos. Os cabelos avermelhados refletiam a luz, caindo em cascatas pelas costas.

Padre Bernardo observava a jovem, pensativo, murmurando consigo que aquilo não estava certo.

— Você não deveria andar sozinha, minha filha, já faz um ano que sua avó se foi, mas temo por sua segurança naquele lugar abandonado. Poderia pensar em um casamento, o jovem...

— Não padre, sabe que não posso, o Dom é ao mesmo tempo benção e maldição que carrego. O destino dele não cruzara com o meu, ele merece uma boa mulher, filhos, eu não os terei jamais...

— Não queira ser dona do destino filha, o seu dom...

— Meu dom é uma maldição! — A moça voltou a afirmar, mas interrompeu-se quando o padre sentou-se ao seu lado com um pequeno gemido.

— O que foi? As suas dores padre, eu posso ajudar. — Tocou suavemente a testa do velho padre, que suspirou aliviado, mas desviou-se das mãos delicadas.

— Não Madeleine, as dores agora são mais constantes, elas me acordaram hoje, e muitas noites não durmo, mas são parte do meu destino, devo apenas aceitar.— Era o que o semblante sereno revelava, aceitação e sofrimento.

— Eu conheço algumas ervas padre, deixe-me cuidar de você, é a única família que tenho...

—Não!— A voz era suave, mas firme. — Não devo combater minha sina, só lamento não mais ter forças para conduzir meu rebanho, que anda por ai, pelas madrugadas. - Um sorriso suavizou a leve ironia. —Agora que esta mais calma, diga minha filha, que maléfico pesadelo te fez cruzar a vila nessa neblina, a esse horário? Sabe que é arriscado...

Madeleine quase sorriu, desde os onze anos acostumara-se a andar pela cidade, ou em busca de ervas, ou levando conforto, e não raras vezes, a cura ao povoado. Aprendera com a avó o segredo das plantas e das visões, um dom que nem sempre entendia, mas que jamais negava sua força. O silêncio aquecia a pequena cozinha e a os restos de lenhas crepitavam no fogão, quando a jovem suspirou.

— Não foi um sonho. Tive uma visão, e apesar das nevoas, foi o mal que ela trouxe que me fez correr ate aqui, padre. Eu vi a maldade, e vi o povoado ardendo em ódio, a desgraça espalhando-se pela vila, e.. e, de algum modo, serei a culpada, por isso tenho que ir embora, deveria deixar a vila ainda hoje, mas... agora sei que já não vou...

Depois de dizer essas palavras, num repente a moça levantou-se, caminhando em direção a porta, abrindo-a antes que o som das batidas ecoasse. Parado na soleira da porta, um menino pedia a ajuda do padre, a mãe estava sentindo dores fortes, mas ao ver Madeleine, ele sorriu, puxando-a pelas mãos. Antes de sair, ela ainda olhou para trás, um olhar triste, mescla de aceitação e desamparo, mas seguiu com o menino. Nuvens escuras permitiam que o sol nascesse tímido naquela manhã.

Quase dois anos eram passados, quando uma nova manhã, desta vez ensolarada e radiante, dava a vila uma imagem de insana beleza, quando a dor e a angústia eram a única realidade do povo que ali vivia. Aos poucos, a rua despertava, mas o silêncio assombrava aos poucos que varriam os cantos e preparavam-se para mais um dia de trabalho. Quando de longe ouviram-se gritos, a densidade da quietude enfim se quebrou. Uma cantinela cruel e perigosa ecoava, cada vez mais perto:

—Bruxa! Bruxa

A pequena multidão carregava a garota pelas ruas, e quando ela caía, não esperavam que se levantasse. A cada rosto conhecido, ela implorava por ajuda, mas os olhos se desviavam, alguns em sussurros, afirmavam suspeitas antigas, outros benziam-se e juravam tê-la visto dançando nua no riacho, carregando animais estranhos pela noite... e enquanto os gritos ecoavam pela vila, por mais que Madeleine se debatesse, os braços que a agarravam eram muitos, ninguém a ajudava.

— Meretriz, morra! Queime-a!

— Queima! Queima! — Era o que se ouvia da turba enraivecida.

E quando finalmente caiu sem forças, o corpo frágil foi agarrado, e Madeleine foi arrastada pelo vilarejo, seus pés ardiam arranhando-se pelo chão, os pedregulhos ferindo a pele. Ao chegaram ao centro da vila, em frente à loja do ferreiro, a pequena e raivosa multidão parou e a moça foi jogada ao chão frio. Enquanto um círculo fechava­­­-se ao seu redor, ela repetia:

— Eu não tenho culpa, não é minha culpa... - O rosto outrora tão bonito estava sujo e arranhando, o barro cobria quase toda a pele clara, e o vestido rasgado deixava entrever o corpo que a jovem encolhida tentava cobrir da melhor forma possível.

A sua frente, viu o rosto duro de Samantha, e implorou piedade, mas a inveja de tantos anos endureceu a face da moça que outrora fora sua amiga, e agora voltava às costas a Madeleine e trocava olhares com o homem loiro que guiava a sinistra procissão.

— É dela a culpa de nossa desgraça, a noiva do demônio está mentindo... Era a voz retumbante do clérigo que irradiava-se. Os cabelos loiros grudados na testa, o suor escorrendo, os olhos furiosos faziam com que as pessoas abrissem passagem para aquela figura impressionante.

— A seca não está nos castigando? A chuva não vem, a água do poço não está envenenada?

— Sim! Gritava a multidão, — Vamos morrer de sede!

— O gado não morre de fome no pasto?”

—Sim!— E a cada pergunta, o fanatismo crescia, instigado pelas palavras veementes do louro Raul.

Madeleine tremia, os cabelos avermelhados sujos de barro, as pessoas gritando a sua volta.

— Meu gado morreu, e não temos mais leite, meu John morreu de fraqueza — Murmurou uma senhora, cabelos cobertos por um lenço escuro, sinal de luto, — Se ela é a culpada, devemos fazê-la parar. Antes que leve meu neto, ela deve parar agora! — Gritou a mulher.

Madeleine arrastou-se em direção a velha senhora, para quem muitas vezes servira chá nas tardes e cuidara dos reumatismos.

— Não Maria, você é boa, lembre-se, minha avó era sua amiga, sempre cuidou de seus filhos —. Mas a mulher abaixou os olhos

— Eu... o pequeno precisa de leite Madeleine, não sei mais o que fazer...

—Parem! — Gritou Raul, vendo algumas pessoas sensibilizando-se diante das palavras da moça. — Não escutem a voz doce do demônio, ela quer enfeitiçar-nos, é de uma família de bruxas, a velha já está com os demônios, agora é sua vez amante do diabo, não vai nos destruir, Deus nos iluminou. Então não vêem irmãos, que a vila afunda em doença e pobreza?”

—Simmmm!— Uivou a pequena multidão.

— Deus me enviou para limpar o mal, para recomeçarmos sem bruxarias, sem feiticeiras. Eu tenho a cura meus irmãos, aceitem e o mal irá embora.

Todo sofrimento daqueles dias de seca e privações crescia na mente do povo ouvindo a voz do pregador. Fora um ano difícil, de muita provação, um estranho mal assolava a vila, alem da fome, a morte e a doença estavam espreitando pelas ruas, pela casas. Três crianças haviam morrido, um menino ainda no ventre da mãe e outro que nascera deformado e morrera em seguida. No entanto, foi a água envenenada do poço, causando muitos males a quem a consumia que levara o povo ao clamor, incitado pelo novo clérigo. Aos gritos, seguiram até a casa da moça. Madeleine separava ervas medicinais quando foi brutalmente agarrada pelos cabelos pelo homem que se dizia emissário de Deus. “Pequena meretriz” ele murmurara, “Bruxa!”, foi o seu grito para o povo.

Para Madeleine, aquele povo era também sua família, desde que a avó se fora, continuava com o seu dom, mesmo sabendo que um dia este lhe causaria dor. Estava em suas mãos o dom da cura, mas as visões que a atormentavam desde menina estavam caladas por uma estranha opacidade nos últimos anos. Lembrava-se agora dos olhos azuis que uma madrugada fria lhe revelara, reconhecendo-o no ódio presente nos olhos do novo clérigo, que desde que chegara na vila estivera perseguindo-a. Ao ver que não conseguiria o que desejava, e que a moral da moça era irredutível, o homem começara uma guerra calada, plantando a semente da discórdia e da inveja, sempre atormentando-a com seus desejos, que Madeleine repudiava constantemente. Assim, a moça resolveu mais uma vez clamar por justiça, apesar dos joelhos feridos, levantou-se e falou ao povo a sua volta:

— Vocês me conhecem desde criança, eu cresci aqui, mestre Ramão, com suas filhas, por favor... — Mas o homem fechou os olhos e começou a rezar. Uma outra jovem mulher, gorducha e baixinha, tinha os olhos baixos, ao lado do marido de cara feroz, mas ergueu os olhos quando o ensandecido Raul pegou-a pelo braço:

— Diga quem foi, diga Dona Joaquina, quem lhe deu o chá que roubou a vida do seu bebe ainda no ventre, diz...— As lagrimas caiam sem parar pela rosto de Madeleine quando via as pessoas acusando-a. Amigos, pessoas a quem ela, a mãe e a avó sempre cuidaram.

— Não! Não foi assim, ele já estava mal, eu só quis ajudar, a senhora sabia... Um soluço a interrompeu.

— Mentira, você matou o meu filho! — Gritou o homem ao lado da mulher... — Bruxa.. matou para devorar a sua carne ainda no túmulo, matou, matou meu único filho... — Abaixando-se, juntou nas mãos um grande quantidade de barro e grama. Em desespero, a moça implorou ainda:

— Do-dona Joaquina, não, por Deus me ajude, sabe que não é verdade, a senhora sabia... A voz foi interrompida pelo monte de barro que sujou ainda mais o vestido e os cabelos de Madeleine. A risada mórbida de Raul completava o quadro de crueldade e dor.

— Você enfeitiçou a todos, mas Deus é bom, e descobrimos sua maldição. — Os olhos azuis brilhavam de ódio e maldade, enquanto ele gritava com a multidão ensandecida: —Morte a bruxa! Morte a bruxa!

Quase todos os moradores da pequena vila estavam ali, com exceção de algumas crianças, que pareciam ser as mais atacadas pela peste. O grupo de roupas escuras e ódio no olhar viam na jovem caída a chance de mudar a existência de sofrimento.

— O sangue inocente não deve ser derramado! — Um grito interrompeu temporariamente a acusação. E de repente, a multidão começou a afastar-se, dando passagem a um bramido desesperado, era a voz do velho pároco — Madeleine é uma criatura de Deus — O padre trêmulo e doente olhava acusadoramente a multidão, e vociferava, com uma voz estranhamente forte, olhando nos olhos daqueles a quem conhecia a cada pecado, a cada fraqueza cometida — Voltem para suas casas, deixem-na! Suas crianças esperam, vamos, estão tomados pelo ódio. Deixem-na! — Dizendo essas palavras, padre Bernardo aproximou-se de Madeleine, que apavorada com as visões que tivera no passado, pedia que ele fosse embora.

O povo calado, esperava, olhando ansiosos para o novo clérigo, o jovem de faces angelicais que pregava a paixão e a contrição total. Diante da voz do ancião, afastado dos serviços da igreja pela saúde frágil, o corpo tomado pelo câncer, mas cuja autoridade era inquestionável no povoado, aguardavam. Olhando aquele que se intitulava emissário divino, o velho pároco afirmou:

— Você está endemoniado irmão Raul, cobiça a jovem, mas ela não cedeu aos seus caprichos, deixe-a, não aumente ainda mais os seus pecados, ainda podemos arrumar essa confusão...

A face de Raul contorceu-se enquanto gritava:

— Blasfêmia! Não ouçam, ela o enfeitiçou também, eu a vi meus irmãos, ela dança nua na igreja e debocha da cruz! E ele gosta, está enfeitiçado e agora vem defendê-la, vamos, segurem-no. Deus me enviou para salvá-los, não duvidem, vamos irmãos. Ou querem que a morte os espere em casa? Querem que ela entregue as suas crianças ao demônio?

Diante dessa última sentença, alguns homens tentaram imobilizar o velho padre, arrastando-o para dentro da loja do ferreiro, no calor da luta, o velho padre caiu pelo solo, e uma mancha rubra foi tragada pela terra seca. Um fio de sangue escorreu pelos lábios murchos.

— Nãoo! — O grito de agonia de Madeleine percorreu o povoado, enquanto tentava correr para aquele a quem considerava um pai. Mas os braços de Raul a seguraram.

— Mais um inocente morreu por causa da bruxa, mas agora ele esta livre dos malefícios da sedução irmãos, a doença foi um aviso que padre Bernardo ignorou, não vamos deixar que outro aviso seja ignorado. A bruxa deve ser marcada, tragam o ferro abençoado!

Raul afastou os cabelos grudados na testa, com um sorriso satisfeito quando mestre Ramão aproximou-se como o ferro em brasa em forma de cruz, rezando fervorosamente com os lábios semicerrados, e muitos braços agarraram Madeleine, segurando seus cabelos vermelhos.

Quando o ferro tocou a pele suave, todos esperavam pelo seu grito de dor, mas o que ouviram foi um estranho rumor que percorria a terra seca, e raios começaram a cair por todo lado, um lastro de fogo invadiu as plantações de milho ressecadas. Alguns correram em direção à plantação, enquanto o medo invadia os olhares dos que ficavam. A pele de Madeleine continuava intacta, apesar do pavor nos olhos castanhos.

Os olhos de Raul escureceram-se, mas ainda assim, ele tornou a aproximar o ferro da testa pálida, e mais uma vez, a pele não queimou. Duvidando do que via, quis tocar a cruz em brasa, mas a sua pele chiou, num queimado forte. A dor da queimadura o fez jogar a cruz para longe. O povo começou a murmurar, temeroso da ira divina. Mas Raul, enlouquecido, apanhou a pequena faca que carregava, e olhando para as pessoas ali reunidas, reafirmou:

— É o demônio, não é Deus, não temam seus simplórios! — E avançou em direção a moça, mas antes que chegasse perto, o céu se abriu com um estrondo, e quando Raul virou-se em direção aos céus, seus olhos refletiram um raio certeiro vindo em sua direção, que atravessou-lhe o corpo, queimando-o. Assustadas, as pessoas começaram a correr, enquanto o fogo alastrava-se pela vila, queimando as casas uma a uma. Crianças tentavam correr para longe do fogo, mas logo tudo desmoronou com a força das chamas.

Quanto a Madeleine, permanecia encolhida, os olhos arregalados pelo medo, indiferente ao tempo, até que os últimos raios caíram. A moça por fim levantou-se e caminhou em direção ao velho padre, largado no chão esfumaçado, um sopro de vida ainda restava, e os poucos que ainda estavam por ali aproximaram-se, mantendo uma distância segura. A jovem levantou a cabeça branca, apoiando-a nas pernas dobradas, e a voz de padre Bernardo se fez ouvir, entrecortada pela dor.

— Minha filha, Deus esteve contigo hoje, pois Ele não pune aos inocentes, a prova do fogo revelou que a maldade está no coração dessa gente Madeleine, e por isso sua vida foi poupada. Seu coração é puro, assim como os seus atos...— O padre estremeceu no esforço de falar, mas Madeleine tocou-lhe os lábios.

—Eu não entendo, há muita dor padre, todos sofrem, eu posso sentir, as crianças padre, eu... não, não fale mais padre, poupe seus esforços...

— Minha hora chegou minha filha, mas o seu caminho apenas começa, Deus jamais te deixará, pois seu Dom é a maior prova da misericórdia divina. Você sabe o que fazer, minha filha, você...

Madeleine assentiu... contendo as lagrimas...

— Nunca mais estaremos juntos para ver o sol cobrir as amoreiras. — Com essas palavras murmuradas, aquele homem que viera de tão longe encontrou por fim seu destino. E a jovem ajoelhada cerrou os olhos tranqüilos do ancião. Levantou-se, e ao seu redor encontrou a visão de dois anos antes, o fogo consumindo o que restava da plantação, as casas desmoronando, muitos feridos pelo chão. E as pessoas apavoradas, fitando-a com misto de medo e vergonha. Sem coragem para se aproximar. Sim, Madeleine sabia o que deveria fazer.

Naquela manhã, a vila acordara com os gritos de Madeleine, mas agora que a dor consumia as mães e os pais, os clamores eram baixos. A Última, como às vezes chamavam Madeleine, de maneira silenciosa e triste, tratou dos doentes, ajudou a enterrar os mortos, cuidou os feridos, mesmo dos que lhe atiraram pedras e lama, e na velha igreja, improvisou uma pequena enfermaria. A noite toda velou pelos moribundos, preparou ungüentos e poções. No dia seguinte, a despeito dos pedidos de perdão, seguiu pela estrada que nunca conhecera, saía enfim da vila para onde viera ainda menina, acompanhada pela mãe, a procura da avó que ali nascera. O Dom seguiria com ela, para o destino que lhe estivesse reservado.

Do outro lado da vila, um vulto afastava-se lentamente em direção a floresta, os olhos azuis envoltos em sombras, os lábios cerrados, nas costas das mãos, a marca da cruz. Voltou-se ainda uma vez em direção a vila. O povoado jazia abandonado, punidos pela ira divina, punidos pela fraqueza, punidos pela maldade e pela vingança dos corações endurecidos pela tentação, convencidos por suas palavras. Sim, tivera êxito, mas seu êxito fora menor, quase deixara que a paixão o envolvesse, e mais uma vez, o Dom permaneceria, a vila renasceria apesar do sofrimento, e para as poucas crianças que restavam, a Última seria sempre lembrada como um anjo salvador. Com um movimento, já dentro da floresta antiga, livrou-se das roupas queimadas e da aparência que tivera, mas percebeu, com um gesto de raiva, que a marca na mão permanecia, assim como os olhos azuis. Mesmo tomando o destino oposto, Raul sabia que o destino de Madeleine ainda cruzar-se-ia com o dele, e desta vez, não poderia falhar.



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29.10.08

O POÇO


O conto O POÇO retorna à página principal da Câmara, primeiro por insistencia de amigos generosos e segundo por que simpatizamos com ele. Boa leitura!

O POÇO


Henry Evaristo


Chovia a cântaros na noite em que joguei minha esposa nas águas frias e escuras do poço de minha mansão. O vento sinistro da tormenta açoitava como um gélido flagelo minhas roupas encharcadas enquanto eu a ouvia agonizar afogando-se em algum ponto em que as trevas já impossibilitavam a visão.

Depois entrei aliviado em minha residência e tudo parecia ter adquirido uma coloração diferente do cinzento ao qual eu estava já tão habituado. Olhei para todos os lados e aquele novo colorido me fez lembrar os tempos de infância e de liberdade. As lágrimas escorreram por meu rosto onde um inelutável sorriso se estampara sem que nem ao menos pudesse percebê-lo antes de deparar-me, inesperadamente surpreso, com o imenso espelho na parede esquerda da sala. Ali, pela primeira vez em vinte anos, vi a minha própria imagem refletida sem que sobre ela restasse a sombra medonha da criatura odiosa com quem eu havia contraído um matrimônio peçonhento e trágico. Felizmente a esta tragédia eu havia dado um ponto final esta noite! Mais tarde, já alta madrugada, subi ao quarto principal; deitei-me na imensa cama de casal e não pude conter as gargalhadas por senti-la tão espaçosa, tão definitivamente minha!!! Era exatamente isso que eu ansiara por tanto tempo: espaço, privacidade, silêncio. Oh, o silêncio era tão precioso para mim! E aquela bruxa horrenda nunca o respeitara. Agora respeita! Coberta que está, por litros e litros de água fria e escura, no fundo do poço onde a joguei, pois, com exceção do leve ruído dos galhos das árvores roçando as paredes do lado de fora da casa, movidos pela força do vento, tudo mais é quietude.

Quando despertei mais tarde nem mesmo percebera que adormecera e, ao olhar em meu relógio de pulso, descobri que passava um pouco das três da manhã. De início fiquei aturdido tentando imaginar o que me arrancara de um sono reconfortante como há muito não tinha. Depois percebi que o vento lá fora ainda estava furioso, pois os fortes galhos das árvores ao redor da casa continuavam a arranhar e forçar portas e paredes.

Decidi levantar-me e ir até a janela desfrutar um pouco da paisagem de minha propriedade sob aquela chuva torrencial, pois paisagens noturnas, sob tormenta ou nevoeiro, sempre me agradaram com seus aspectos lúgubres. Ao abrir as cortinas sobre a vidraça que era a janela de meu quarto, no entanto, tive uma enorme e perturbadora surpresa, pois, apesar de ainda estar ouvindo o uivo do vento e o arranhar dos galhos nas paredes, toda a chuva já passara e o céu estava límpido e carregado de estrelas.

No entanto, os barulhos continuavam e de repente assumiram um novo aspecto. Agora que a convicção da precipitação como causadora não mais existia, minha mente abrira um novo leque de possibilidades e o gemido que ouvia não era mais do vento e tampouco os arranhões nas paredes estavam do lado de FORA da casa. Pelo contrário: pareciam vir subindo rapidamente as escadas para o segundo andar onde eu estava.

Fiquei parado, paralisado, na sacada de meu quarto e senti minhas pernas dobrarem quando, do corredor, em um ponto bem em frente à porta, veio um uivo pavoroso que era um misto de dor, medo e ódio; um lamento que era animal, mas, antes de tudo, continha uma humanidade desesperada. Caí de joelhos pedindo à providência que me poupasse daquele horror, fosse ele o que fosse, e baixei a cabeça com os olhos fechados em alguma espécie de oração mal articulada.

Neste momento ouvi a porta do quarto ceder sob uma incrível pressão e em seguida uma maligna rajada de vento quente invadiu o ambiente. No final eu não podia me mover; os grilhões do medo me haviam aprisionado para além das possibilidades humanas, pois não era humano aquilo que entrou em minha casa aquela noite. Em meio ao calor que me atingia ainda tive duas sensações antes de desmaiar: a de um tênue cheiro de um perfume, que me era bastante conhecido dos tempos de casado, e a de que jogavam em mim, de um ponto mergulhado na escuridão a minha frente, gotas de alguma água fria e pegajosa. No entanto o que me tirou os sentidos não foi, de maneira alguma, uma impressão e sim uma percepção bem concreta, pois senti quando alguma fera diabólica, com um hálito frio e fétido, se abaixou sobre mim e me sussurrou no ouvido:

"Maldito, tu nunca mais dormirás de novo!".


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28.10.08

O DIABO JOGA COM O MORDOMO

A Câmara dos tormentos apresenta aos seus amigos e colaboradores mais um clássico da literatura fantástica universal; um dos contos de uma série de estórias de fantasmas do escritor Daniel DeFoe, criador do célebre Robinson Crusoe


O DIABO JOGA COM O MORDOMO


Daniel DeFoe


Um cavalheiro na Irlanda, que morava perto da casa do conde de Orrery, mandou seu mordomo para a aldeia a comprar cartas-de-baralho. Já a caminho este percebeu, num descampado, um grupo de gente sentado à mesa, sobre a qual se viam variadas iguarias. Ao se aproximar, os comensais se levantaram e o saudaram, convidando-o a sentar-se, partilhando da comida. Indo até o mordomo, um deles o aconselhou sussurrando: - Não aceite nada do que eles oferecerem! Então, tendo ele recusado a comida que lhe ofereciam, todas as iguarias desapareceram e o grupo passou a dançar e cantar ao som de instrumentos invisíveis.

Novamente ele foi convidado a participar, mas também se negou a acompanhá-los. Diante disso, interromperam a dança e começaram a trabalhar, convidando mais uma vez o mordomo para que se juntasse a eles. Seguindo o conselho recebido, ele se recusou mais uma vez e então todos desapareceram, deixando-o sozinho. Assustado, depois de se recuperar de uma vertigem, o mordomo retornou à casa, sem ter comprado os baralhos, relatando ao patrão o que lhe havia acontecido.

Um dos fantasmas surgiu junto à sua cama na noite seguinte ameaçando arrastá-lo pelas ruas caso saísse do seu quarto. Resignado, manteve-se fechado até o final da tarde, mas, com a necessidade de urinar arriscou-se a sair. Mal pôs um pé para fora quando uma corda o laçou pela cintura, arrastando-o pela rua em grande velocidade. Várias pessoas assistiram a cena e correram atrás, sem contudo conseguirem sequer se aproximar do coitado.

Um cavaleiro, montando um fogoso cavalo, presenciando a correria e percebendo que os seguidores não conseguiam alcançar o homem, aprestou-se a interrompê-la segurando a corda; quase caiu com o tranco que recebeu um tranco pelas costas, com a extremidade da corda; mas em se tratando de um bom cristão, forte demais para o diabo, salvou o mordomo das mãos dos espíritos, entregando-o de volta aos amigos.

O lorde Orrery, sabendo do acontecido, curioso em saber a verdade, mandou chamar o mordomo, com a anuência do seu empregador, e pediu que ele passasse algumas noites em sua casa, no que foi atendido pelo empregado. No dia seguinte o empregado informou ao conde que o fantasma viera visitá-lo, dizendo que antes de terminar o dia, ele seria novamente raptado e desapareceria nas mãos dos espíritos do mal, a despeito de qualquer medida de proteção que lhe fosse feita. Diante disso ele foi levado a um amplo aposento onde um grande número de pessoas santas iriam defendê-lo de Satã. Entre elas estava o famoso exorcista, senhor Geatrix, que morava na região e sabia como tratar o diabo. Havia ainda dignitários eminentes, entre eles dois bispos, todos aguardando o inexplicável e prodigioso acontecimento.

Até meados da tarde nada aconteceu, mas logo depois notou-se que o paciente começava a levitar, sem qualquer ajuda visível, fato que levou o senhor Geatrix, e outro homem de compleição muito forte, a tentarem segurá-lo junto ao chão. Mas o diabo se mostrou mais poderoso e, retirando de suas mãos o mordomo, passou a transportá-lo por sobre as cabeças dos presentes, atirando-o de um lado para o outro, como se fosse um brinquedo. As pessoas corriam desatinadas por baixo do homem pretendendo evitar que ele caísse no chão. Inesperadamente a brincadeira dos espíritos terminou e o mordomo recolocado na sua posição inicial, surpreendendo a todos pelo fato de não ter sofrido sequer um arranhão, o que demonstrou que o demônio é poderoso e brincalhão.

Tendo os espíritos abandonado o seu passatempo e deixado o objeto de escárnio repousar, restava a todos se recolherem e o lorde ordenou que dois dos seus empregados dormissem com o mordomo, evitando que outra entidade viesse raptá-lo.

Apesar disso, na manhã seguinte o mordomo veio contar ao lorde que o espírito voltara, com a aparência de um médico, trazendo um prato de madeira cheio de um licor verde. Contou que tentou acordar os companheiros e que o espírito lhe informara que eles estavam encantados, mergulhados em profundo sono, mas para não temer, porque ele era o mesmo espírito que lhe aconselhara no campo para que não se juntasse ao grupo, quando partira para comprar as cartas-de-baralho, e acrescentou que se ele não tivesse recusado o que oferecia o grupo, teria passado a sofrer a vida inteira. O espírito estranhou o fato dele ter escapado no dia anterior porque haviam lhe preparado grande maldição, mas que no futuro não haveriam novas tentativas. O mordomo contou ainda que o espírito lhe havia diagnosticado dois males, mas, para demonstrar sua boa vontade, lhe trouxera um remédio, feito à base de raízes de bananeira.

Como o mordomo, já cansado daqueles charlatões vestidos de médico, não se deixou convencer e negou-se a tomar o remédio, enfureceu-se o espírito, que mesmo proclamando afeição por ele, se eximia de responsabilidades, alertando-o de que sofreria dos acessos até o fim da vida.

Nessa altura o doutor espiritual, senhor Geatrix, lhe perguntou se já conhecia o espectro e o mordomo enfatizou que nunca o havia visto antes do dia em que saíra para comprar as cartas-de-baralho. Sabia apenas que o próprio se identificava como o fantasma errante, a alma penada de seu velho conhecido John Hobby, falecido há sete anos, e insistia que, por causa do mal que fizera na vida, tinha que andar com aqueles maus espíritos que o mordomo conhecera. Lamentava-se por ser levado de um lado para outro, sem condições de repouso, fadado a continuar no mesmo estado miserável até o dia do juízo final. Em seguida, em tom de reprimenda concluíra:

- Se você tivesse servido o seu Criador nos dias da juventude, rezado diariamente, inclusive no dia em que saiu para comprar as cartas-de-baralho, não teria despertado nos espíritos a ansiedade de atormentá-lo.

Terminado o relato diante da família do lorde, dos bispos e outros dignitários, todos se reuniram para definir e julgar o comportamento do mordomo que seguira os conselhos da alma penada e depois se negara a tomar o remédio de raízes de bananeira. A questão se iniciou dando a impressão de que o debate seria longo e mistificador, mas os bispos entenderam por conta deles, que, se por um lado o mordomo havia se portado como um bom cristão aceitando o conselho da alma penada, abstendo-se de aceitar os convites dos espíritos, por outro lado negara-se a obedecer a mesma, não bebendo o remédio. Chegaram os bispos à simplória conclusão de que nenhum homem deve usufruir do mal, mesmo com a esperança de conseguir o bem.

Pobre mordomo que depois de todos os sofrimentos não obteve nenhuma recompensa, seja por alguma benção ou título, ou pelo remédio da alma penada que lhe amainaria seus sofrimentos nos acessos.
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23.10.08

ENTREVISTA DE HENRY EVARISTO A IS MAGAZINE


O proprietário e moderador deste blog, eu (rsrsrrs!), concedeu uma entrevista à revista IS MAGAZINE, da confraria literária Irmandade das Sombras, para a sua edição número dois. Eis aqui a integra da publicação.



ENTREVISTA DE HENRY EVARISTO A IS MAGAZINE


(Revista eletrônica IS Magazine, Edição nº 2. Entrevistador: Escritor Paulo Soriano, do site CONTOS GROTESCOS)



IS MAGAZINE – Henry, a quanto remonta o interesse pelo horror e pela fantasia?

Nossa! Acho que eu não saberia precisar uma data exata. Hoje, depois de tanto tempo de envolvimento com tumbas, caveiras e afins, fica difícil lembrar. Sei que desde pequeno tenho este interesse por coisas além do normal, por aquilo que transcende o ordinário do cotidiano. Um de meus sonhos de infância era ser viajante, não ter endereço fixo e estar sempre nos lugares mais inusitados, mais exóticos; no Haiti vendo os cultos voodoo ou na África que é a origem de tudo.

Costumo dizer que a primeira lembrança de algo fantástico em minha vida é a de um filme em branco & preto que minha mãe não me deixou assistir por eu ainda ser muito novo, isso lá pelos idos de 79/80. Até hoje não sei que filme era mas me lembro bem da imagem: Um gigante que atacava uma base ou acampamento e destruía tudo, tombava os carros e caminhões que encontrava pelo caminho.

Depois começaram a passar séries de terror na televisão: Além da imaginação, Sexta Mistério e Galeria Do Terror, nos anos 80, estão, por assim dizer, na base primordial de minha concepção artística.

IS MAGAZINE – Um dos seus contos deu origem ao que Rogério Silvério de Farias chamou de "delirantismo". Você poderia falar um pouco sobre essa vertente literária?

Eu gosto de estar identificado dentro de um estilo ou gênero; acho isso importante para um escritor (mesmo um desconhecido como eu!). Credito esta necessidade ao instinto gregário do ser humano, aquele que determina a nossa "urgência de pertencimento".

Acredito que a palavra delirantismo defina um tipo de texto quase indefinível. Ora, se ele é delirante, ele pode ser qualquer coisa menos convencional. Porém, eu vejo o delirantismo mais ligado à ficção-científica do que a qualquer outra coisa. Se olharmos bem, REFLEXÕES DE GARDÊNIO é um pequeno conto de ficção-científica. O protagonista está no limiar do mundo que, para ele, assim como para tantos outros personagens de nossa vida real, é terrível, infernal; e ele vê/causa a sua destruição por bombas atômicas. Ele encontra-se num estado mental tal, que tem em seus delírios a única saída para suas agruras. Ele então dá cabo da obra divina num vôo fantástico convolado em corvo.

Talvez possamos estabelecer daí que as características principais do delirantismo sejam a personagem mentalmente desorientada, as imagens surreais criadas por esta mente, a pressão do ambiente sobre uma mente delirante e o resultado fantástico de toda esta mistura.

Por outro lado creio que haja no estilo outra forma de estabelecê-lo como tal. A maneira como o texto é desenvolvido também é determinante. A escrita de um texto delirantista tem que ser, ela mesma, delirantista. Não se pode predeterminar muito como será o desenvolvimento de estória; ele tem que ser tão inusitada para o escritor quanto para o leitor. É quase como uma psicografia que se recebe em partes separadas. Uma "bagunça organizada" na mente de quem a elabora. Falar mais sobre o delirantismo, acho, é tirar seu aspecto primordial: o delírio.

IS MAGAZINE – Você é, também, historiador. Essa ciência, de alguma forma, contribui para com a sua produção literária?

Sim. Foi no curso de História que eu aprendi a escrever de uma forma mais consistente e entendi que não se pode dar informações erradas a respeito de nada do que se escreve. Também aprendi a colocar minha imaginação em ordem de forma a elaborar textos fantasiosos, delirantes até, mas nunca completamente descabelados. Os textos dos mestres pensadores da filosofia, da sociologia e da historiografia ensinaram-me a ordenar os pensamentos e traduzi-los em palavras aceitáveis para os leitores.

No que diz respeito ao conteúdo que costumo abordar, não poderia dizer que o curso de história me auxilie muito. Eu lido com a fantasia!

Quando comecei a estudar História Medieval eu ficava louco esperando a hora em que o professor iria começar a falr da inquisição, das bruxas e dos demônios que habitavam o imaginário medieval. Acabei o curso sem ouvir mais que um ou dois parágrafos sobre isso. Me arrisco a dizer que o curso de história, neste aspecto, é muito normal e careta; prefere se ater aos modos de produção, aos maneirismos das épocas, as noções subjetivas de tempo e espaço e a relação cultura/meio ambiente. Coisas triviais do nosso mundo, que, mesmo passando despercebidas pela maioria das pessoas, ainda assim, não se habilitam como "entidades preternaturais". Penso que no curso superior de história deveria haver mais uma disciplina: "Ciências ocultas à luz das ciências humanas", ah, isso sim tornaria o estudo mais interessante!

IS MAGAZINE - Você é músico. Conte-nos um pouco sobre isto.

Nossa! Esta entrevista terá quantas páginas?

Minha vida como músico percorre 20 anos de minha vida. Comecei nos anos 80, com 12 anos. Antes, porém, minha primeira manifestação musical foi ganhar três concursos de imitador do Michael Jackson! Depois meti na cabeça que eu era um dos integrantes do Menudo. Quer dizer: comecei como dançarino! Foi ouvindo as músicas das coreografias que desenvolvi o gosto pelas melodias e pelos rítmos.

Nos anos 80, mais especificamente de 85 em diante, aqui no meu estado estourou a onda do Heavy Metal. Todo mundo tinha que gostar de Iron Maiden e Kiss (olha o sentimento de pertencimento aí de novo!). Eu costumava dar festas em minha casa, enchia a varanda de pré-adolescentes fedidos e descabelados, amigos do colégios, gatinhas das redondezas. Eu sempre fui bastante introspectivo, calado, quieto. Nesta época esta característica me fez estar sempre mais perto das mesas de som do que das pistas de dança (cheias de pessoas!). Com isso passei a me envolver cada vez mais com as sonoridades dos lps, a valorizar a pesquisa de coisas novas na área musical, a apreciar mais o som que saía das caixas acústicas do que a festa em sí. Andava pra todo canto segurando dezenas de discos. Virei o disc-jockey oficial da minha turma. Em casa minha mãe se preoculpava cada dia mais em ver seu filho almoçar e jantar em frente ao aparelho de som.

Em 1987 conheci a música eletrônica e deixei de lado as podreiras do heavy metal (é, eu também não tomava banho!). Vangelis, Jean Michel Jarre, kitaro e Kraftwerk tomaram conta totalmente da minha alma. Larguei todos os outros estilos (eu era fã do Sidney Magal também!) e passei a pesquisar sobre o novo estilo. Achei na única loja de discos de Rio Branco um lp ao vivo do Jarre e aquilo mudou minha vida! Eu entendia que aquele estilo era predominado pelos sintetizadores e passei a aperrear minha mãe para que me comprasse um imediatamente. Pouco tempo depois, num natal maravilhoso, consegui o que queria. Comecei a bolinar o instrumento cedo na manhã do dia 25 e, à noite, já estava tocando a minha primeira composição, sem jamais ter tido nenhum contado com as teclas ou com qualquer outro instrumento musical. Tinha doze anos então.

Em 1991 montei minha primeira banda. Em fortaleza juntei uns amigos de escola e formei a banda Nexus. Tocávamos clássicos do Synthpop, do Spacesynth e da New Age; além de apresentarmos composições próprias. Acredito hoje que esta passagem seja uma das mais importantes de minha vida. Cometi muitos erros e muitos acertos neste tempo.

Depois, no fim dos anos 90, já de volta ao Acre, envolvi-me com as bandas profissionais da noite. Não há muito que valha a pena falar sobre este tempo. Eram muitas dificuldades, muito desrespeito e muita desilusão. Aqui em meu estado a profissão de músico é vista com desconfiança generalizada. A mentira, a trapaça, a hipocrisia são as palavras de ordem no meio e não há amizade que dure além do tempo de existência do próprio grupo. Uma tristeza esmagadora para alguém com a sensibilidade sempre a flor da pele como eu. Quando entendi que para continuar eu precisava me embrutecer, me transformar numa espécie de Hulk florestal, eu desisti e me "aposentei". Ganhei muito dinheiro no período entre 1995 e 2003, depois foi apenas perda de tempo e cansaço.



IS MAGAZINE – O contista amador Paulo Soriano, certa feita, disse que você é um mestre na arte de induzir no leitor à sensação de medo. Esta é, realmente, a tônica de seus contos?

Sim. O medo primordial do sobrenatural, daquilo que pode ou não espreitar no escuro onde nada se vê. Mas esta é uma busca constante para mim, não creio que já a tenha alcançado alguma vez.

Mas tenho também certo lado existencial nas coisas que escrevo em forma de prosa poética. E tenho também alguns trabalhos de cunho mais político-social guardados em velhos cadernos, mas, no momento, não tenho muito interesse em tornar públicos. São textos de crítica ferrenha a filosofias como o socialismo, o comunismo, o cristianismo e o capitalismo e, de certa forma, apologias ao que eu chamo de Anarquismo científico ou consciente e até mesmo ao satanismo.

Como já falei, sou muito emotivo e acho que com a idade, as doses de emoção vão tendo que ficar cada vez mais fortes para poderem fazer efeito. O mundo corrompe a poesia humana! Gosto de emoções fortes, provocantes, que mexem com os princípios e com as crenças; que dão um nó na garganta.

A maior base de avaliação para o que eu escrevo sou eu mesmo. Escrevo aquilo que eu acho que vai funcionar; ou aquilo que eu gostaria de ler. Tendo em vista que ando envelhecendo muito rápido e que as doses de terror para mim precisam ser cada vez maiores sempre, creio que aquilo que me assusta sempre estará se reformulando e, por conseqüência, minha busca pelo texto mais assustador está ainda longe de ter fim.

IS MAGAZINE – Henry, como você vê o mercado literário no Brasil, especialmente no gênero do terror?

Já se convencionou dizer que o brasileiro não gosta de ler. Há, no entanto, quem defenda que o brasileiro não lê porque não tem oportunidades, não tem acesso à leitura. Entre uma vertente e outra, tenho observado um número notável de pessoas escrevendo terror tanto no universo virtual como no real. Hoje se ouve falar em nomes como André Vianco, Giulia Moon, Daniel Salgado e Helena Gomes e tem-se a impressão de que há mais nomes do que o normal envolvidos no assunto. Isso é bom, em face do histórico nacional de literatura fantástica.

Por outro lado, apesar de ver como positiva a atual conjuntura da "Litfant" (como costumo abreviar) em nosso país, com certeza ainda há um longuíssimo caminho a ser percorrido antes que este se torne um gênero popular ou, pelo menos, de maior apreciação e credibilidade. Esta caminhada abrange aspectos como a seriedade da postura do escritor, o conhecimento dos meandros que tornam um texto coeso e coerente, o desenvolvimento da própria técnica da escrita, da descrição e do vernáculo mesmo. É preciso que os escritores de terror se especializem nisto com seriedade. Penso que o caminho para um futuro da Litfant brasileira seja este.

Você pode pensar: De que adianta escrever textos com esmero se os editores não dão bola? E eu digo: De que adianta os editores darem bola para o seu trabalho se ele é ruim, fraco, mal feito?

Antes de tudo os escritores de literatura fantástica têm que mostrar serviço; por isso creio que a grande revolução do gênero no Brasil pode sim vir da internet, dos escritores virtuais, dos amadores. Existe muita coisa ruim, medíocres, mas se o leitor souber procurar com atenção, existem escritores muito bons. Eles estão apresentando trabalhos excepcionais. Amadores que, diga-se de passagem, são bem melhores (excetuando eu, é claro!) que muitos dos profissionais que estão soltos por aí.

IS MAGAZINE – Algum projeto literário em vista?

Eu sou a pior pessoa deste e de outros universos para elaborar projetos. Mesmo assim, como sou brasileiro e não desisto nunca, atualmente estou escrevendo um pequeno livro chamado A PRIMA MORTA. Também preparo a terceira parte de um conto chamado O ESPELHO DE MORANUS. Vamos ver se até o final do ano consigo concluir um dos dois. Aliás, esta minha incapacidade parcial de concluir meus projetos é algo que me incomoda bastante. Não gosto de ver trabalhos inacabados mas, às vezes, é algo que foge de meu controle. Acho um tremendo desrespeito com o leitor que acompanha minha obra. E aproveito para pedir desculpas aos amigos que aguardavam a conclusão de trabalhos como O DEGHAMMON, A ESTRADA PARA A VILA DOS LÁZAROS e INCIDENTE NA SERRA DE MARANGUAPE cujos projetos foram paralisados indefinidamente.

IS MAGAZINE - Como mestre do terror, quais as leituras que você recomenda aos nossos leitores?

Sem dúvida, qualquer amante de literatura de terror deve e precisa ler o conto A PATA DO MACACO de W.W. Jacobs. Indico também OS SALGUEIROS de Algernon Blackwood, o romance A ASSOMBRAÇÃO DA CASA DA COLINA de Shiley Jackson, o surpreendente A COR QUE CAIU DO CÉU de Lovecraft, O EXORCISTA do William Peter Blatty, O CASO DE CHARLES DEXTER WARD também do mestre H.P Lovecraft, A QUEDA DA CASA DE USHER e BERENICE de Edgar Allan Poe.

Ufa! Acho que isso aí já dá para umas boas noitadas de calafrio e pesadelos. Mas existem milhares de textos maravilhosos por aí, na net, de graça! Quem quiser mais indicações pode entrar em contato comigo que fornecerei com prazer na medida do possível.


IS MAGAZINE – Fale-nos um pouco sobre a Irmandade das Sombras.

A Irmandade das Sombras é a minha principal atividade hoje em dia na internet. Quase tudo o que faço quando estou on line é sobre e/ou para ela. É um grupo e um projeto muito especial para mim. Quando entrei para o site que nos serve de sede, o Recanto das Letras (http://www.recantodasletras.com.br/), jamais pensava acabar fazendo parte de algo assim.

Ocorre na I.S algo muito interessante. As pessoas que participam conosco, mesmo as mais novas, as recém-chegadas, sentem-se envolvidas por tal clima de cordialidade e calor humano que são capazes de desenvolver afinidades umas com as outras como se se conhecessem no mundo real. Este sentimento de grupo (olha ele aí de novo!) tem nos proporcionado conquistas. Neste momento ainda estamos todos exultantes com o livro que nosso grande amigo Paulo Soriano fez publicar contendo contos dos membros do grupo. Isso é um ato heróico tanto nestes tempos aculturados que vivemos quanto na atual conjuntura econômica (que parece ser sempre a mesma!) do Brasil. Não preciso me estender muito para expressar o que é a Irmandade das sombras para mim, sem ela é provável que eu jamais veria algum trabalho meu publicado em papel de verdade, num livro de verdade, com capa, com caracteres e tudo mais. Segurá-lo nas mãos pela primeira vez foi uma emoção que ainda tenho que evoluir mais para poder explicitar.

Estas felicidades e esperanças são todas possibilitadas pela existência da Irmandade. Logicamente é um grupo que precisa evoluir em termos de políticas internas (seja o que for que isso quer dizer!) em busca de um rumo mais lógico; ou seja, mais organizado e mais crível. O livro foi um passo de suma importância para a ampliação destes conceitos; uma maneira de anunciar nosso advento; que nós existimos; que estamos no páreo e que queremos ficar. O tempo e a experiência se encarregarão de nos dar o devido polimento.

A I.S congrega hoje alguns nomes que, tenho certeza, fazem parte da construção do futuro da literatura fantástica nacional. Mesmo que algumas destas pessoas não venham a se tornar escritores fora do mundo virtual, mesmo assim, suas obras estarão registradas para quem quiser ver e comprovar suas qualidades.


IS MAGAZINE – Como Henry Evaristo define-se a si mesmo?

Nossa! Acho que sou fraco, covarde, irresponsável, mimado, egoísta, egocêntrico e até meio etnocêntrico (apesar de ser do norte!). Que feio, eihn! Mas é verdade! Se tem algo que sou realmente é auto-crítico. Quase tudo o que faço me soa feio e desajeitado.

Mas sou também muito bem humorado, sarcástico, observador (quando quero somente!). Sou liberal ao extremo, acho que todo mundo deve fazer absolutamente tudo o que quiser, onde, como, quando e com quem quiser. Não gosto de regras, nem de imposição de ideais de nenhuma espécie. Não gosto de religião, nem de futebol, nem de jazz, nem de verdura de nenhuma espécie. Odeio leite de vaca e não ando de barco de jeito nenhum. Também não durmo em rede!

Tenho sérias dificuldades em fazer amigos e mais dificuldades ainda em manter as poucas amizades que tenho. Sou bem anti-social, calado demais, contemplativo demais. Esqueço dos amigos e de tudo mais. Fico apenas lá parado, olhando as nuvens, calado, parado, como uma montanha solitária. Não vejo nada, não ouço nada, não sei de nada. Sou quase nulo em minha vida cotidiana!

IS MAGAZINE – Você gostaria de deixar uma mensagem aos nossos leitores?

A Literatura fantástica é a melhor literatura. Ela fasta o leitor dos males cotidianos apresentando a ele males outros que não o podem atingir. Ela o faz “mergulhar em mares nunca dantes navegados” e exerce profundo e grande poder sobre a sua capacidade imaginativa. A Litfant é para pessoas imaginativas ou que querem se tornar.

Amigos, o mundo é para os imaginativos compreenderem! Não há compreensão do mundo, e consequentemente não há poesia no mundo, sem a imaginação. Uma sociedade que não tem criatividade, que não exercita a imaginação, está ainda mais adiante no processo de extinção, a extinção da beleza da própria alma antes de tudo. A literatura fantástica aproxima-nos das esperanças que residem nos mundo oníricos pois é onírica e subjetiva toda a esperança. Lia os textos dos autores clássicos e busque conhecer os novos escritores. Leve a sério sua busca e selecione o que há de bom, e há muita coisa. Assim você estará entrando em contato com um universo que ainda guarda maravilhas em face dos horrores reais que nos reserva este nosso pavoroso mundo real.






22.10.08

A MULHER QUE TEMIA A CHUVA


Escritor A.S Vieira retorna à Câmara com mais um conto obrigatório da literatura fantástica nacional. Boa leitura!




A MULHER QUE TEMIA A CHUVA

Um conto de A.S. Vieira



Dedicado à Rosângela Nazaré S. Vieira


Casas antigas...

Noites escuras...

Lugares sombrios...

Florestas...

Cemitérios...

Por que tudo precisa ser tão clichê?

Por que essas criaturas, seres das sombras, precisam desses lugares?

Porque eles precisam do nosso medo para surgir, pois o nosso medo cria a atmosfera ideal para que eles venham até nós. E em situações chave, ou clichês, o medo erradia de nós como ondas de rádio. E então eles vêm.

Depois do que vi, do que presenciei, comecei a buscar explicações. Acabei lendo notícias sobre cenas de crime, ataques terroristas e acidentes onde fotógrafos capturaram imagens ou vultos assustadores. Presenças macabras que seguiram o medo até aqueles lugares. Quanto maior a quantidade de medo, mais deles aparecem. Por isso não me surpreende que tantos deles tenham chegado à Manhattan naquele fatídico 11 de setembro, assim como não me surpreende que apenas um deles tenha chegado à casa de dona Rosália naquela noite tempestuosa de janeiro. E logo ela que tanto temia as chuvas.

Dona Rosália era minha vizinha desde que eu me entendo por gente no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Sua casa era um sobrado antigo, mas muito bonito, no estilo que só é encontrado mesmo nesse bairro. Se você já esteve aqui, sabe bem do que estou falando.

Minha vizinha era uma viúva de 51 anos; ainda nova, é verdade, mas já enterrara três maridos pelo menos. Nós, quando crianças, a chamávamos de viúva negra, mesmo que mal soubéssemos o significado daquilo.

Ela, assim como minha mãe, morava com um único filho. Mas ao contrário de mim, que sempre estou em casa, já que trabalho como revisor de textos, Cleiton, seu filho, passava a maior parte do tempo na rua por causa da faculdade e do trabalho. Por isso, pra compensar a solidão, dona Rosália começou a alugar os quartos do sobrado. Era uma forma de fazer amigos (Pois lá se hospedavam pessoas de todo o mundo) e ter também uma renda extra. Era uma mulher batalhadora, forte, digna de admiração. Não temia bandidos, assim como baratas ou ratos. Seu único medo eram as tempestades. Seus três maridos haviam morrido durante tempestades.

O primeiro foi atingindo por um raio, ainda quando ela morava numa fazenda no interior do estado, quando tentava levar uma vaca de volta para o celeiro. O segundo, pai de Cleiton, a levou para o Rio de Janeiro e a deixou com uma situação de vida confortável ao morrer em um acidente no cento da cidade durante um forte temporal. O terceiro a levou para sua casa em Santa Teresa e era um primo de segundo grau de minha mãe. Foi o casamento mais longo e mais feliz dela. Ele trabalhava numa companhia elétrica e certo dia, durante uma tempestade, saiu para restabelecer a luz em um dos bairros e nunca mais voltou pra casa.

Naquele janeiro, porém, não houve mortes. A tempestade nada levou, apenas trouxe.

Eu o vi saltar do bonde da minha janela. Era um sujeito estranho, de barba lisa e branca como os seus cabelos. Suas sobrancelhas eram grossas e negras. A despeito disso, não me parecia ser muito velho. Usava roupas negras, longas, e tentava se proteger da chuva sob um chapéu ordinário. Na mão, nada além de uma valise. Reparei que ele conversava sozinho, nada muito anormal. Estou acostumado a pessoas estranhas, dada a grande quantidade desses tipos aqui no bairro.

Como eu esperava, ele se dirigiu a casa de dona Rosália. Conversaram à porta por alguns minutos e então ele entrou. Mais um hóspede.

Pouco soubemos sobre Pazú, o hóspede, nos dias que se seguiram. Eu o via raramente, mas nas poucas vezes eu sentia algo sinistro nele. Algo estranho na forma como fumava e conversava com algum ser imaginário. Dona Rosália disse que ele passeava pelo país, conhecendo e fotografando lugares. Pagara para ficar hospedado por um mês, mas disse que se gostasse ficaria por mais tempo. Ela não se importou, afinal, em sua casa as pessoas vêm e vão e ninguém nunca pergunta nada. Como em um hotel. Você conhece pessoas, mas não cria laços. Uma vez me apaixonei por uma hóspede da minha vizinha, uma bela húngara. Pra mim foi intenso, pra ela foi casinho de verão; nunca mais nos vimos. Meu primeiro e frustrado amor.

Bem, no bairro, tudo continuava a mesma coisa. Nada alterava nossa rotina de bairro turístico. Pelo menos uma vez por semana eu ia até a editora onde eu trabalhava para entregar o material revisado e pegar a nova leva. Trabalhar em casa tinha suas vantagens, mas eu sempre tinha tanto o que fazer que acabava ficando sem tempo para iniciar o meu romance. Na verdade, eu escrevia bem, mas nunca achei que pudesse ter inspiração para uma história. Até então.

Nesse dia em que desci até a zona sul, tudo parecia normal. Exceto pela volta pra casa, onde eu encontrei Pazú. Poderia ter sido um encontro casual, mas eu resolvi segui-lo por alguma razão. Não entendi o porquê, mas em poucos minutos eu o vi adentrar o cemitério São João Baptista. Não fui adiante, pois fiquei com medo. Assumo, cemitérios me apavoram bastante. Por isso voltei pra casa; talvez ele estivesse apenas visitando algum conhecido enterrado ali.

Da minha janela, eu vi quando ele voltou. Ele me olhou rapidamente e acenou pra mim. Meio reticente, retribuí o aceno. Mas algo nele me assustou, não sei explicar o que. Não consegui parar de pensar nele antes de dormir.

Na manhã seguinte, encontrei dona Rosália conversando com minha mãe na cozinha. Parecia assustada. Quando perguntei o que havia acontecido, ela respondeu nervosa.

- Pazú.

- O que há com ele?

- Ontem a noite – ela disse – antes de me recolher, passei pela casa pra checar se as portas e as janelas estavam fechadas, como sempre faço. Quando passei pela porta do quarto de Pazú, ouvi uma conversa. Ele parecia rir com algumas pessoas ali dentro. Aquilo me enfureceu, pois, você sabe, tenho algumas regras no sobrado. E uma delas é que não permito visitantes após as dez da noite. Por segurança.

- Claro – concordei – a senhora está muito certa.

- Então bati na porta. A mulher que ria, logo se calou. Alguns segundos depois Pazú abriu a porta. “Pois não”, disse ele. Expliquei que na casa havia regras e como já havia passado das dez da noite, não gostaria que ele tivesse visitas no quarto. “Mas não há ninguém aqui”, falou ele abrindo a porta. O quarto estava vazio. Eu lhe disse que havia ouvido vozes, mas insistiu que estava sozinho e me convidou a inspecionar o quarto. Não havia ninguém lá, nada. A janela estava trancada por dentro, então não teria saída. Olhei sob a cama, dentro do armário e no banheiro. Nada, menino. Nada. O que eu podia fazer? Desculpei-me e saí do quarto. Assim que a porta se fechou, as mesmas pessoas voltaram a conversar. Mas não havia ninguém lá. Saí para checar os outros hóspedes. Todos estavam sós em seus quartos e eu os conheço bem o bastante pra saber que não levariam ninguém para dentro da minha casa sem minha autorização. Os barulhos vinham mesmo do quarto de Pazú.

- Você não falou nada com ele? – perguntou minha mãe, indignada. As duas eram muito amigas.

- Falar o que? Eu mesma chequei o quarto. Mas o pior foi hoje de manhã.

- O que houve? – eu perguntei.

- Fui preparar o café da manhã do Cleiton e ele me perguntou se havia hóspedes novos na casa. Respondi que não, lógico. Então ele me perguntou quem era a mulher e a criança que ele vira nos corredores quando ele chegou em casa ontem, por volta da meia-noite.

- Meu Deus, Rosália! – disse minha mãe, pálida – Eu estou toda arrepiada.

- Você não acha que...?

- Fantasmas, meu filho. Tem fantasmas na minha casa. E eles chegaram com o Pazú.

Depois daquilo, passei a ter mais medo da figura de Pazú. Achava que dona Rosália era muito corajosa por manter em sua casa pessoas das quais ela não conhecia a procedência. Proibi minha mãe de falar com aquele homem e pedi que ela convencesse dona Rosália a pedir que ele fosse embora. Mas minha vizinha já usara o dinheiro que ele pagara previamente, portanto, não poderia mandá-lo embora até o fim do mês.

À época do carnaval, as comemorações de rua aqui no bairro foram canceladas por causa das chuvas ininterruptas. A cidade mais abaixo estava um caos, que todos tentavam abafar por causa das festividades.

Num desses dias, Cleiton me convidou para dar uma volta com ele na Lapa. Não sou muito chegado a noitadas, menos ainda quando chove. Mas Cleiton raramente me convidava para sair e eu muito apreciava sua companhia por causa de sua inteligência. Fui encontrá-lo no sobrado às nove da noite, como combinado.

Já havia estado naquele lugar tantas vezes, nada era novo pra mim. Enquanto aguardava por ele, dona Rosália me serviu um chocolate quente. O que ela preparava era o melhor, sem dúvida.

- Pazú está em casa? – perguntei, pois não queria encontrá-lo.

- Não. Esteve fora o dia inteiro. Já conversamos e ele disse que não pretende ficar mais do que o combinado. Só mais uma semana e estarei livre dele.

- E os outros hóspedes?

- Todos na rua.

Cleiton desceu as escadas logo. Estava arrumado demais para ir a Lapa, eu disse, mas ele não deu a mínima. Quando dona Rosália nos levava à porta, ouvimos passos no andar de cima.

- Mãe – falou Cleiton, assustado – Você disse que estávamos sós em casa.

- E estamos.

- Então quem está correndo no andar de cima?

Cleiton pediu minha ajuda para investigar o sobrado e me passou uma lanterna. Admito que estava assustado demais, mesmo assim fui com ele por todos os lugares do sobrado. Ouvimos passos e risadas pela casa, mas não havia nem sinal de qualquer ser vivo ali dentro. Ser vivo.

O clima para sair já não existia mais e diante do pavor de dona Rosália, a levamos pra minha casa. Minha mãe tratou de acalmá-la contando suas piadas (Deus a abençoe) e logo dona Rosália estava refeita.

Cleiton, porém, parecia furioso. Trouxe-o ao meu quarto para uma conversa e ele se dizia irritado com o que estava acontecendo no sobrado desde a chegada de Pazú.

- Esse nome dele – ele falou – é o que mais me intriga. Pazú. Sabe o que me lembra? Pazuzu.

- O que é isso?

- O demônio da Mesopotâmia. Diz lenda que ele chegava com os ventos do verão, levando o flagelo aonde quer que ele fosse. Era conhecido como o agarrador, pois gostava de carregar espíritos junto a ele.

- Caramba, cara, Pazú já me dava medo antes de eu o associá-lo a essa história... Agora então... Eu o vi entrar no cemitério há alguns dias atrás.

- Mesmo? Onde?

- Em Botafogo.

- Tem alguma coisa muito errada com esse homem e hoje ele vai ter de me explicar o que é.

Cleiton sempre foi muito calmo. Era a primeira vez que eu o via tão irritado. E quando faltou energia, sua irritação pareceu aumentar ainda mais. Só disfarçou quando minha mãe subiu até meu quarto acompanhada de dona Rosália. Juntos, ficamos olhando a noite chuvosa e as ruas escuras. Lembram do que eu falei sobre o medo? Pois é, ele era quase palpável naquele momento.

Quando a chuva estiou, ouvimos barulhos na rua. Alguém se aproximava segurando uma vela. Pazú. Não posso dizer se foi efeito da luz da vela sobre ele, mas sei que quando ele chegou vi dezenas de vultos escuros ao seu redor. Me apavorei.

- Vocês ficam aqui – falou Cleiton – Vou ter uma conversinha com esse cara.

- Cleiton, não... Espere a luz voltar! – falou sua mãe.

Mas ele insistiu que ela ficasse. Vi quando ele atravessou a rua e adentrou o sobrado. Nada foi ouvido por vários minutos. Nada. Os dois então saíram do sobrado juntos, mas cada um seguiu um lado. Pazú seguiu a rua principal. Cleiton voltou a minha casa.

- E então? – perguntei.

- Eu disse que vamos fazer obra no sobrado e que seria melhor que ele procurasse outro lugar pra ir. Indiquei os albergues da rua principal e ele foi até lá checar se havia quartos disponíveis. Podemos ir pra casa.

Quando os dois atravessavam a rua, a energia voltou. Os dois acenaram pra nós sorrindo. Minha mãe fez uma piadinha qualquer que eu não consigo lembrar e Cleiton respondeu de volta, rindo bastante. Foi a última vez que o vimos vivo.

Fomos acordados por dona Rosália, pedindo por ajuda. Ela dizia que Cleiton não havia acordado para ir para a faculdade e não abrira a porta do quarto quando ela chamara. Fui até lá, com a adrenalina correndo nas minhas veias, e arrombei a porta.

Cleiton estava na cama, com uma expressão de pânico no rosto. Morto. Com lágrimas nos olhos, passei mão em seu rosto para amenizar suas feições. Quando sua mãe adentrou o quarto, era o desespero encarnado. Eu não podia assistir àquilo.

Enquanto minha mãe cuidava dela, eu cuidava de entrar em contato com a polícia e do enterro. Ataque cardíaco; um rapaz de apenas vinte e três anos. Quando nos preparávamos para ir ao cemitério, no dia seguinte, Pazú voltou pra casa. Ele apenas nos olhou, pois estávamos com dona Rosália, e entrou no sobrado.

- Esse homem... – murmurou minha mãe – O que ele ainda faz aqui?

- Não deve ter conseguido outro lugar pra ficar.

Enquanto dona Rosália chorava e Cleiton era enterrado, eu não conseguia parar de pensar que de alguma forma o encontro com Pazú aquela noite decretara a morte do meu vizinho.

Dona Rosália passou os dias que se seguiram ao enterro de seu filho nos evitando, mas nós ouvíamos discussões e gritos todas as noites no sobrado. Algo estava indo mal ali. Minha mãe pediu que eu interviesse e eu liguei pra polícia. Quando eles chegaram, eu trouxe a dona Rosália pra dormir conosco. Ela estava em um estado lastimável.

- Eu vi... – disse ela – meu filho naquela casa. Ele estava conversando com Pazú.

- Isso é impossível, Rosália – falou minha mãe – Cleiton se foi. Não está mais entre nós.

- Não em corpo, mas seu espírito está lá. Sabe o que eu descobri? Que ele, Pazú, é um colecionador. Ele coleciona fantasmas. Estão todos em seu quarto, aprisionados de alguma forma naquela valise. São eles que me acordam a noite, que fazem barulhos, que perturbam os cães, que conversam... Meus hóspedes, os mais antigos, foram embora hoje. Eles têm medo do que viram... E não os culpo. São homens, mulheres, crianças... Todos no meu sobrado, agarrados por Pazú.

- Você está perturbada com a morte do Cleiton, Rosália, é só isso.

- Não é. Ele coleciona fantasmas, me ouça. Eu sei disso – ela estava trêmula – A polícia o obrigou a sair e ele vai embora amanhã. Mas eu preciso ir até o quarto dele... Preciso destruir aquela valise e libertar os espíritos. Preciso libertar meu filho.

- Isso está errado, Rosália! Você não vai lá. Você vai dormir aqui e pronto.

- Não posso... Não posso...

Mesmo assim ela adormeceu. Minha mãe se recolheu algumas horas depois. Eu fiquei acordado boa parte da noite. A maior parte eu passei ouvindo gritos e risos que vinham do sobrado do outro lado da rua. Era assustador, mas não sei até que ponto eu poderia ou não acreditar no que dona Rosália disse. Aquela valise... Colecionador de fantasmas... Então dormi. E não vi minha vizinha voltar ao seu sobrado.

Quando minha mãe me avisou que dona Rosália estava morta, na manhã seguinte, eu corri até sua casa. O corpo dela estava sobre sua cama, dando a impressão de que morrera dormindo. Porém, as meias em seus pés estavam sujas de terra, como se por toda a noite ela estivesse andando pela casa ou pelo quintal. Não fora uma morte natural. Pelo menos não de todo.

Seu hóspede, Pazú, estava acabando de sair do quarto. Foi a primeira vez que eu o vi tão de perto e senti meu coração bater descompassado. Havia algo estranho em seu olhar. Uma certa melancolia, ou ódio... Nunca poderia dizer ao certo. Deixou a chave sobre a mesa da cozinha, com uma certa quantia de dinheiro, e carregava sua velha valise. A tal valise. Eu nunca saberia o que acontecera ali naquela noite entre minha vizinha e aquele estranho.

- Sabe que ela morreu, não é? – eu disse.

- É o destino de todos nós – respondeu com sua voz rouca.

- E você não viu nada?

- Como disse à sua mãe, a encontrei no chão da cozinha e a trouxe para o quarto.

- Você não teve nada a ver com isso?

Ele não se ofendeu como eu achei que faria. Pelo contrário, acendeu um cigarro preto e sorriu.

- Quisera eu que a morte tivesse um razão.

- E eu queria que você deixasse o espírito dela livre.

Ele me encarou e riu. Riu tanto que quase engasgou.

- Deixe-me ir, rapaz, já está chovendo outra vez e eu preciso de um novo lugar pra ir. A polícia me quer longe daqui.

Ele saiu do sobrado, deixando seus passos na lama. Então, apavorado, eu vi que outros passos eram deixados atrás deles. Muitos passos. Senti um frio percorrer meu corpo, pois ele não saía sozinho da casa. Cheguei até a soleira do portão e enquanto ele seguia a rua sob a chuva até o ponto do bonde, pude ver as pegadas nas poças d`água atrás dele. Ele conversava com alguém. Quando o vento bateu, soprando a chuva na diagonal, eu vi formas distintas de pelos menos treze pessoas que o seguiam. Ele olhou pra trás e riu, me dando a certeza de que dona Rosália estava certa. Aquele homem maldito, que chegou com a chuva e se foi com ela, colecionava fantasmas. E ela, assim como seu filho, era agora uma das peças da coleção.

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