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29.10.09

EU REÚNO AS FORÇAS DOS ABISMOS - HENRY EVARISTO

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EU REUNO AS FORÇAS DOS ABISMOS!

Henry Evaristo


Na minha última noite sobre esta terra logrei reunir-me com meus conselheiros subterrâneos. Alguns vieram em carruagens de luz que deixaram estacionadas do lado de fora de meu decrépito solar. No céu negro de tempestade, eram como navios ancorados nas nuvens! Uns vieram em asas, onde traziam ainda outros presos como apêndices supurados.

Depois entraram pela janela, sem cerimônia. Não eram formosos, de uma maneira que pudesse agradar aos olhos de qualquer mortal. Mas suas presenças, ali diante de mim, estupefato, representavam tudo que poderia haver de mais belo no universo. A maneira como se locomoviam por meu quarto de escrever, se arrastando sobre as paredes em hordas como sangue-sugas intumescidas e amontoadas, e até largando sobre os móveis um limo esverdeado e mau-cheiroso, era mesmo arrasadora. Alguém menos versado nos caminhos da ciência teria enlouquecido no momento. Mas eu, que com eles convivera por toda minha vida, limitei-me a descrever em meus cadernos de manuscritos tudo o que faziam. E sorria quando se aproximavam no escuro e roçavam suas peles molhadas em mim! Posso mesmo admitir que experimentava algum tipo de prazer extremo e infernal...

Depois eles se acalmaram. Se sentaram onde podiam, pelas estantes e balaustradas, pousados como espectros alados, pelas bancadas, cadeiras e estantes de minha paupérrima biblioteca. E ficaram por ali, suspirando, dando gargalhadas aqui e acolá, e revirando os olhos. Às vezes sopravam em meus ouvidos suas opiniões escabrosas a respeito de nosso mundo, e eu podia sentir meus pelos se eriçarem ante as possibilidades por eles propostas.

Ficamos todos no recinto, como se nos estudassemos, mesmo após tantos anos de parceria. Aquele, no entanto, era um momento especial. Era a noite em que eles vieram atender minhas necessidades, concedendo-me um reconhecimento por meus serviços prestados. Creio que foi Gargalon(1) que olhou pela janela, para as sombras que vagavam pelas ruas, e apontou orgulhoso a igreja negra que erigi em seu nome. Outro, desta feita Metraton(2), com seus muitos olhos, observou minha coleção de compêndios ocultos e sorriu orgulhoso. E o som que produziu estilhaçou todas as minhas taças de cristal.

Depois, ouvi uma intensa risadagem que vinha do subsolo da casa. Eram três de meus amigos que se divertiam com os rituais que encontraram por lá. Descontraídos, Mormo(2), Naamah(2) e Adramelech(2) fluiam por entre os corpos de meus sacrifícios e creio que se entretiveram com alguns pois pude ouvi-los estalar na escuridão do porão.

Passou-se muito tempo, e quando eu já havia escrito tudo o que poderia haver para escrever, um outro amigo se aproximou de minha casa. Todos já esperavam sua presença e até reclamavam de sua demora. Augusto como a água mais límpida, adentrou minha biblioteca o honrado irmão Sammael(2)e trazia com ele, pendurado em um de seus peitos, o diabo Abaddon!(2)

Ai que alegria! Agora poderiamos dar continuidade a tudo! Ergui-me, pois, altivo como se eu mesmo fosse um deles. E apontei para a janela. Moloch(2) se acercou de mim, e me olhava com um certo escárnio. Me tocou na fronte, e sobre minha testa imprimiu um estigma. No mesmo instante, vi surgir nas nádegas de Astaroth(2) o nome de minha alma e ele era: SOBERBA.

Foi então que muitos vieram, brotando de todos os cantos mais escuros da casa, e me conduziram à sacada. Lá fora a noite pétrea grassava pelas esquinas do mundo e nuvens negras se reuniam num céu de pesadelos. Olhei para o horizonte e vi quando milhões de naves incandescentes brotaram de lá. Como um bando de insetos malignos, enxamearam por todos os lados e tomaram toda a abóbada celeste. Extinguiram-se todas as luzes da terra, e o mundo mergulhou nas mais profundas trevas do caos.

De minha janela eu testemunhei o destino do homem ouvindo a gritaria das mulheres e das crianças; e todo aquele que lamentava, em todas as partes da terra, eu o ouvia em minha cabeça como se a própria trompa de Heimdall(3) é que soasse dentro de minhas entranhas!

Sammael se aproximou. Veio do interior casa e pousou suas garras sobre meus ombros. Olhamos juntos para o céu e depois para o horizonte. E vimos a terra toda, ao mesmo tempo, pois tinhamos o poder. O Veneno de Deus(4) me olhou nos olhos e queria que eu llhe falasse. Assim o fiz:

"Eis!" Disse eu e minhas palavras soaram como que amplificadas por algum sortilégio maravilhoso. Continuei: "Eis que vos entrego este universo de dores e escravidões em escâmbio por vosso reino no tártaro!". Dito isso ergui meus braços para o céu vendo surgir em minhas mãos duas bolas de fogo incandescentes. Ao meu ato todos os diabos me reverenciaram e saltaram para fora da casa, emanando dali como matilhas de coisas proscritas tomando todo o ar e todo o espaço da terra.

Vi então as massas comovidas se precipitando em abismos de desespero ante aquilo que viam se anunciando no céu. E de todos os rincões das matas mais distantes, vi saltarem as colunas de demônios, como hordas ígneas de morcegos gigantescos, que eu trouxera.

E foi assim que os diabos subiram para vosso mundo.

E foi assim que desci aos infernos onde reino incólume.


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1 - Demônio criado para este conto.

2 - Demônios da demonologia universal.

3 - Heimdall é um deus da mitologia nórdica que se anuncia tocando uma trompa gigantesca.

4 - O significado da palavra Sammael na cultura hebraica.


* Este conto é um dos resultados do 2º exercício de elaboração de contos realizado pelo forum da Câmara dos Tormentos.

21.10.09

A PROMESSA - Lafcádio Hearn

-Olá amigos, colaboradores e visitantes da Câmara! Apresentamos agora mais uma homenagem a um grande escritor clássico da literatura fantástica. Desta vez trazemos, para o deleite de nosso público sempre ávido por uma boa dose de verdadeiro horror, um obra de grande impacto; um dos contos mais assustadores de todos os tempos que tem sido bastante negligenciado ao logo dos anos. De Lafcádio Hearn, A promessa. Leia de dia!











A Promessa



Lafcádio Hearn





Não temo a morte – disse a esposa agonizante. – Só tenho uma preocupação neste momento: Quisera saber quem ocupará meu lugar nesta casa.

Minha querida – replicou o marido aflito – ninguém ocupará jamais teu lugar na minha casa. Nunca, nunca tornarei a casar-me. Ao dizer isto, dizia-o com o coração, porque amava a mulher que estava a ponto de perder.

- Jura pela fé do samurai? – perguntou ela, com um sorriso apagado. - Pela fé do samurai – respondeu ele, acariciando-lhe o rosto consumido e pálido.

- Então, amado meu, - continuou ela – sepultar-me-ás perto daquelas ameixeiras que plantamos a um canto do jardim. Havia muito que queria pedir-te isso, mas pensei que, se voltasses a casar-te, não gostarias de ter meu sepulcro tão perto. Agora que prometeste que nenhuma mulher ocupará o meu lugar, não é mais necessário que eu titubeie em formular meu desejo... Tenho tanta vontade de ser sepultada no meu jardim! Imagino que ali ainda ouvirei, às vezes, tua voz e que verei as flores na primavera.

- Far-se-á como desejas, - respondeu o marido – mas não fales agora disso; não é tão grave assim o teu mal para que tenhamos perdido a esperança.

- Eu a perdi; - replicou ela – morrerei amanhã... Mas, enterrar-me-ás no jardim?

- Sim; - disse ele – à sombra das ameixeiras que plantamos, e terás um belo sepulcro.

-Dar-me-ás uma campainha?

- Uma campainha?

- Sim, quero que, no ataúde, ponhas uma campainha, como essas que levam os peregrinos budistas. Prometes?

- Terás a campainha... E tudo quanto mais desejares.

- Nada mais desejo... amado meu, sempre foste muito bom para mim. Agora posso morrer feliz.

Fechou os olhos e expirou com a mesma facilidade com que as crianças cansadas adormecem. Mesmo morta, continuava bela, e havia um sorriso em seu rosto.

Enterraram-na no jardim, à sombra das árvores que amara, e colocaram uma campainha dentro do seu esquife. Sobre a sepultura erigiu-se um formoso monumento, ornado com o escudo da família e ostentando o seguinte Kaymio: Grande Irmã Maior, Sombra Luminosa da Câmara da Flor de Ameixeira, moras na Casa do Grande Mar da Compaixão.

Todavia antes que transcorresse um ano da morte de sua esposa, os parentes e amigos do samurai começaram a instá-lo que contraísse novo matrimônio.

- Ainda és jovem, - diziam-lhe – és filho único e não tens descendentes. Um samurai tem o dever de tomar esposa. Se morres sem filhos, quem fará as oferendas? Quem recordará os antepassados?

Com muitos argumentos dessa índole, persuadiram-no, por fim, a casar-se novamente. A nova esposa tinha apenas dezessete anos; e o samurai a amou ternamente, apesar do mudo protesto da tumba no jardim.


II
Nos seis primeiros dias que se seguiram ao casamento, nada turvou a felicidade da jovem esposa. No sétimo, o samurai recebeu ordem de cumprir certos deveres, que requeriam sua presença, à noite, no castelo. Na primeira noite em que se viu obrigado a deixar só a esposa, ela sentiu-se amedrontada, sem poder explicar por quê. Deitou-se, mas não pôde dormir. Havia uma estranha opressão no ambiente, um peso indefinível na atmosfera, como o que precede uma tormenta.

À hora do Boi, ouviu ela, no silêncio noturno, uma campainha... uma campainha de peregrino budista, e perguntou quem seria o peregrino que atravessava as possessões do samurai a tal hora. Depois de uma pausa, a campainha soou de novo, mas muito mais próxima; mas por que se aproximava pelo fundo, onde não havia caminho algum?... De repente os cachorros começaram a gemer e a latir e modo estranho e horrível e um temor, como o que se experimenta em certos pesadelos, apossou-se da jovem... Era indubitável que a campainha soava no jardim... Tratou de levantar-se para chamar um criado, mas compreendeu que não podia mover-se nem falar... E o som da campainha se ouvia cada vez mais próximo, mais próximo... E como ladravam os cachorros!... De repente, com a ligeireza com que desliza uma sombra, entrou no aposento uma mulher – ainda que todas as portas estivessem fechadas e todas as cortinas descidas – uma mulher envolta em um sudário, trazendo uma campainha de peregrino. Não tinha olhos... Porque, desde havia muito, estava morta; seus cabelos soltos caíam-lhe em cascata sobre o rosto e ela olhava sem olhos através do emaranhado dos cabelos e falava sem língua:

- Nesta casa, não; nesta casa não ficarás! Aqui ainda sou eu a dona. Vai-te! A ninguém dirás o motivo de tua partida. Se o disseres a ele, far-te-ei em pedaços.

Assim dizendo, o fantasma desapareceu. A jovem esposa desmaiou de terror e, até ao amanhecer, permaneceu inconsciente.

À alegre luz do dia, duvidou da realidade do que havia visto e ouvido. Ainda que a recordacao da advertência pesasse tanto em seu coração que não se atreveu a falar a seu esposo, nem a pessoa alguma sobre a visão da noite, esteve a ponto de convencer-se de que havia sido vítima de um pesadelo que a fizera doente.

Na noite seguinte, no entanto, suas dúvidas se dissiparam. Uma vez mais, à Hora do Boi, os cachorros começaram a uivar e gemer; uma vez mais ouviu-se o som da campainha aproximando-se lentamente pelo jardim; uma vez mais, a jovem tentou, em vão, levantar-se e chamar por socorro; uma vez mais a morta entrou no aposento e disse, com voz sibilante:

- Vai-te. A ninguém dirás por que deves ir-te. Sim, se o disseres a ele, mesmo que num sussurro, far-te-ei em pedaços.

Desta vez a aparição aproximou-se do leito e inclinou-se sobre a moça, resmungando e fazendo caretas...

Na manhã seguinte, quando o samurai regressou do castelo, sua jovem esposa se prostrou diante dele, implorante:

- Suplico-te – disse – que perdoes minha ingratidão e minha grande descortesia ao falar-te deste modo, mas quero voltar para casa; quero ir-me imediatamente.

- Não és feliz aqui? – perguntou ele sinceramente surpreso. – Alguém se atreveu a ser pouco cortês contigo durante minha ausência?

- Não se trata disso – respondeu ela, soluçando. – Todos têm sido bons comigo... Mas não posso continuar a ser tua esposa. Devo ir-me.

- Minha querida – exclamou ele – é tremendamente doloroso saber que encontraste nesta casa motivo para ser infeliz. Mas não posso sequer imaginar por que queres ir-te... a menos que alguém tenha sido muito descortês contigo... Naturalmente, não queres dizer que desejas o divórcio? Ela respondeu temerosa, chorando:

- Se não me concedes o divórcio, morrerei.

O samurai permaneceu um instante em sliencio, tratando em vão de adivinhar o motivo daquela assombrosa declaracao. Por fim, sem revelar qualquer emoção, respondeu:

- Devolver-te à tua casa, sem que hajas cometido falta alguma, seria um ato vergonhoso. Se me revelares o motivo do teu desejo – qualquer motivo que me permita explicar as coisas honradamente – dar-te-ei o divórcio. Mas se não me ofereceres motivo, um motivo razoável – não to darei, porque a honra de nossa casa deve manter-se invulnerável a qualquer censura.

Então, ela se sentiu obrigada a falar, e lhe contou tudo, acrescentando no auge do terror:

- Agora que contei tudo, ela me matará! Me matará! Embora homem valente e pouco propenso a acreditar em fantasmas, o samurai sentiu-se, no primeiro instante, consideravelmente alarmado. Porém, logo veio-lhe ao espírito uma explicacao fácil e natural para o caso.

- Minha querida – disse – estás muito nervosa e temo que alguém tenha estado a contar-te histórias tolas. Não posso conceder-te o divórcio apenas porque tiveste um pesadelo. Mas lamento muito que tenhas sofrido tanto durante a minha ausência. Esta noite também deverei ir ao castelo, mas não te deixarei só. Mandarei dois de meus soldados montarem guarda aos teus aposentos, assim poderás dormir em paz. São bons homens, e saberao cuidar de ti. E falou-lhe com tanta segurança, com tanto carinho, que ela quase sentiu vergonha de seus temores e resolveu continuar na casa.


III
Os dois soldados encarregados eram homens robustos, valentes e simples, experimentados guardiães de mulheres e crianças. Contaram à jovem histórias agradáveis para mantê-la alegre. Ela conversou com eles durante muito tempo, festejando-lhes as tiradas isentas de malícia, e quase esqueceu seus temores. Quando por fim se recolheu para dormir, postaram-se eles a um canto do aposento, atrás de um biombo, e começaram a jogar uma partida de go, falando em voz biaxa, para não despertar a jovem, que dormia como uma criança.

Porém, uma vez mais, à Hora do Boi, despertou ela com um gemido de terror... A campainha! Já estava próxima e se aproximava cada vez mais. Ergueu-se; deu um grito, mas no quarto não se ouvia nada... só um silêncio de morte, um silêncio que crescia, um silêncio que se avolumava. Correu para os soldados; estavam sentados diante do tabuleiro, imóveis, olhando-se com os olhos fixos. Gritou-lhes, sacudiu-os: estavam como que gelados...

Depois, contaram os guardas que haviam ouvido a campainha e o grito da jovem, e que havia mesmo sentido quando ela os sacudira para despertá-los; todavia, não haviam podido mover-se nem falar. A partir desse momento, deixaram de ouvir e de ver: um sono negro havia-se apoderado deles.

Ao amanhecer, quando na câmara nupcial, o samurai viu, à difusa luz de uma candeia, o cadáver decapitado de sua jovem esposa, que jazia num charco de sangue. Os dois guerreiros dormiam ainda, acocorados, diante da partida inconclusa. Ao ouvirem o grito de seu amo, acordaram num átimo e ficaram a olhar estupidificados aqueles horror que jazia a seus pés.

A cabeça desaparecera e a espantosa ferida mostrava que não havia sido cortada, e sim arrancada. Um caminho de sangue ia desde a câmara até um canto da galeria exterior, onde as cortinas pareciam haver sido rasgadas. Os três homens seguiram o rastro; embrenharam-se pelo jardim, atravessaram grupos de ciprestes e caminhos aquosos, contornaram um tanque bordejado de lírios, passaram sob densas ramagens de cedros e bambus. E de repente, em um recanto, repararam com uma figura de pesadelo, que guinchava como um morcego: a figura de uma mulher, sepultada havia muito, de pé, diante de sua tumba; numa das mãos trazia uma campainha e, na outra, a cabeça ensangüentada. Por um instante, permaneceram os três aturdidos. Depois, um dos soldados desembainhou a espada, pronunciando uma oração budista, e assentou um golpe na aparição, que se desfez instantaneamente num desarticulado montão de panos de sudário, cabelos e ossos, ao mesmo tempo em que, dessa ruína, se desprendia a campainha, rodando e tilintando.

Mas a descarnada mão esquerda, mesmo depois de cortada, continuava a se retorcer, os dedos segurando ainda a cabeça ensangüentada, rasgando-a, lacerando-a como as pinças de um caranguejo amarelo, tenazmente cravado a uma fruta caída...


Essa é uma história perversa – disse eu ao amigo que ma havia contado. – A vingança da morta, no caso de cumprir-se, deveria recair sobre o homem.

- Isso é o que crêem os homens – respondeu-me. – Mas não é o que sente uma mulher.

E tinha razão.

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CRÉDITOS: ESTANTE DIGIVIRTUAL http://victorian.fortunecity.com/postmodern/135/

14.10.09

ALGO SELVAGEM - Henry Evaristo

















CAPÍTULO I

Só me disponho agora a relatar o que ocorreu na estrada do antigo presídio, durante a madrugada de 25 de dezembro de 1975, por que sinto subitamente uma incontida necessidade de aliviar, por pouco que seja, minha mente desta dúvida cruel que me assola há mais de 30 anos.

Serei breve, muito breve, pois tudo aquilo ainda me assusta deveras e neste momento estou sozinho, é tarde da noite, e a escuridão grassa nos cantos ocultos do lado de fora.

Esta maldita noite eu passara em casa de meu tio materno, cuja filha, minha prima Paula, me era de muita estima e até ensaiávamos um romance meio incestuoso e certamente proibido pelos ditames de nossa família ultra-conservadora.

Por volta das 23h30m saí da residência iluminada pelas diversas e festivas luzes e vozes do Natal e me dirigi para a estrada de acesso a meu próprio endereço que se situava numa localidade rural afastada 20 quilômetros do centro da cidade. Para me locomover fazia uso de uma antiga bicicleta guardada desde os tempos de menino.

No caminho, além de velhas fazendas com construções estranhas mergulhadas nas altas horas escuras, ficavam o velho cemitério dos padres católicos e o antigo e abandonado presídio municipal.

Observei, não sem grande estranheza, que justamente naquela data tão supostamente festiva todas as sedes de fazenda pelas quais passei se encontravam imersas nas mais pétreas trevas; e uma quietude angustiante passou a me oprimir a garganta. O único pensamento que me assaltou então era o de que ali estava a ocorrer algo muito errado.

E meu imaginário realmente deve ter trabalhado com afinco naquela noite para produzir os horrores que se avizinhavam, sem que eu deles sequer suspeitasse, apesar da estranheza que o ambiente me transmitia.

De repente, ao longe, avistei diversos clarões refletindo-se nas matas ao redor da estrada. Eram como muitas luzes coloridas oscilando na escuridão; luzes de carros de polícia.

Imediatamente parei a bicicleta e fiquei a perscrutar o horizonte logo adiante com bastante atenção para tentar visualizar melhor o que quer que fosse em meio às densas trevas que me circundavam. Não me custou entender que realmente se tratavam de luzes de sirenes silenciosas em meio a reflexos brancos e amarelados que por certo seriam focos de inúmeras lanternas cruzando o ar nervosamente.

Pensei então que se havia algo errado por ali melhor seria mesmo que a polícia estivesse presente. E foi este pensamento, em primeira instância reconfortante, que me fez dar movimento novamente a meu "veículo" e rumar em direção ao pior pesadelo de minha vida.

CAPÍTULO II

A lembrança que mais se insinua pelos meandros de minha velha razão vacilante é a da sensação de pânico que experimentei naquela terrível escuridão. O frio também ainda é bem nítido em minha memória; aquele maldito frio de dezembro em que uma garoa pegajosa desabava do céu furioso como uma saliva aziaga que se incrustava nas roupas, na pele, em tudo.

Ah, como ainda me causam arrepios aqueles clarões na madrugada! E como me arrependo de não ter dado mais atenção aos sons que deles vinham reverberando pelas matas como sinais de perigo. E não digo sons de coisas maquinais, pois estas estavam silentes naquele momento; refiro-me, sim, aos lamentos humanos que brotavam e ecoavam do horizonte negro; e ainda a um terrível som de algo muito grave que retumbava como trovão pela noite. Mas a isso não dei importância, pois apenas o visual me hipnotizava.

No entanto, ao me aproximar, depois que comecei a ver vultos de pessoas nervosas que corriam e se apertavam em torno de um círculo no meio da estrada deserta e escura, tudo o que vi ao longe perdeu toda a importância e os sons e as novas visões dali em diante é que dominaram e modificaram para sempre este velho relator.

Estando eu mais próximo agora do grupo de pessoas, já podia ouvir melhor os sons desesperados e estupefatos que provinham de suas bocas entreabertas. Elas gritavam e se lamentavam no escuro para algo que parecia estar no chão, no meio do asfalto, ou em algum ponto da margem esquerda da estrada.

Por entre pernas iluminadas pelos reflexos das luzes das sirenes de inúmeras viaturas estacionadas por todo o terreno, e pelas luzes de dezenas de lanternas faiscando e formando raios brancos em contraste com a poeira da noite, eu pude divisar um vulto escuro que se agachava e variava de posição conforme a multidão parecia se insinuar para ele. Algo que me pareceu estar tentando desesperadamente se esquivar da proximidade daquelas dúzias de homens e mulheres.

A primeira impressão, de um acidente de automóvel, não mais podia resistir aos novos fatos que se descortinavam diante de meus olhos. Sem dúvida não havia carros avariados em parte alguma. Todos que ali existiam estavam de prontidão e, agora, eu podia avistar homens com armas em riste em direção ao chão; homens da polícia. Havia também vários civis com rifles, e até mesmo mulheres que por ali estavam apontando armas em direção a alguma coisa que se arrastava inquieta ao nível do solo.

Ao meu lado um novo carro estacionou de repente quase atingindo a traseira de minha bicicleta e dele saltou uma mulher muito abalada e chorosa seguida de um homem alto e magro aparentando andar entre os 50 anos ou mais.

"Espere Hannah!" Gritou o homem passando bem ao meu lado. Por um instante nossos olhos se encontraram e os dele me transmitiram um terror tão real e palpável que todos os pelos de meus braços se eriçaram imediatamente. "Não é ela! Não é ela!" Repetia o homem. A mulher, já bem a diante, não mais se conteve e desatou a gritar quando, avançando furiosa sobre a multidão, avistou seja lá o que fosse jogado ao chão da estrada.

Aqui tenho que parar um pouco. Meus nervos não permitem mais que continue pois me veio, agora com cores ainda mais nítidas, uma lembrança que o trauma se havia encarregado de apagar parcialmente de minha memória. A lembrança da multidão armada dando passagem para a mulher de meia idade, como se num movimento em câmera lenta, e seus gritos desesperados na madrugada escura e fria:

"Oh, meu Deus! Tirem esta coisa de cima de minha filha! Não a deixem cravar-lhe os dentes desse jeito! Por Deus, ajudem!"


CAPÍTULO III

Em 1995, ao visitar minha amada Paula na cidadezinha onde ela viveu por quase toda a sua vida, tive que cruzar pela primeira vez em vinte anos a região onde o horror da madrugada de Dezembro sucedeu. Parei no acostamento e fiquei a contemplar as duas árvores imensas que margeavam a estrada bem no ponto onde as cenas terríveis tiveram lugar. As tristes lembranças então tomaram conta mais uma vez de minha memória e não pude conter uma agitação incômoda no coração que se traduziu por uma centena de lágrimas em meus olhos.

Ao longe pude ouvir o som de um trator de esteira que cultivava a terra de algum produtor rural e, desafiando o brilho escarlate do sol poente para olhar com mais atenção a diante, pude mesmo reconhecer as cores vermelhas e brancas de um veículo imenso que operava nas terras de uma fazenda.

Ouvi passos furtivos atrás de mim e me virei com o coração quase explodindo. A tensão verdadeira me fez erguer os punhos não sei se numa tentativa de ataque ou de defesa. Mas o homem que estava parado às minhas costas era apenas Zacarias Lavern, outro que ali estivera na madrugada fatídica.

"Eu sempre venho aqui... Durante o dia." Disse ele sem nem mesmo olhar em meus olhos, como se estivesse envergonhado por me encontrar; como se fosse, assim como eu, o guardião de um segredo abjeto. "Ajuda a suportar!" Disse por fim e se calou completamente.

Ficamos calados a fitar o espaço entre as duas árvores do mesmo lado da estrada, num ponto em que o terreno após o acostamento já começava a se elevar em direção à cerca de proteção da fazenda dos Narva. Eu queria perguntar o que mais havia ocorrido naquela madrugada antes do amanhecer mas Lavern, parecendo perceber minha intenção, me deu as costas e saiu caminhando pela estrada em direção à cidade. Seriam 15 quilômetros até chegar ao centro, se este fosse seu destino, e seus passos eram lentos e encurvados como os de um velho triste a carregar uma cruz de peso quase insuportável.

De algum lugar muito distante o som de uma briga de cães chegou a meus ouvidos. Eram gritos animalescos de dor e ódio que evocaram ainda mais angustias do passado. Juntos com o assobio triste do vento a se chocar contra os galhos balouçantes das árvores, aqueles brados agônicos foram se tornando cada vez mais assustadores para mim até que todo o meu corpo foi tomado por tremores incontidos. Sentei-me a beira da estrada e dei livre vazão à enxurrada de recordações que me assolavam.

Em minhas memórias vi novamente o rosto contorcido de dor da mulher que saltara do carro e as armas das pessoas apontadas para uma coisa que se arrastava no solo. Um homem triste e amedrontado passara por mim deixando atrás de si arrepios que me eriçaram os pelos. Uma sensação de medo indizível estava se apossando de tudo e de todos; e o frio só intensificava o mal estar.

À minha frente a multidão continuava a assistir aturdida a agonia da mulher que, agora contida pelos braços do homem que a acompanhava, somente podia limitar-se a gritar enlouquecida.

Resolvi me aproximar mais. Não podia continuar sem procurar saber o que realmente estava acontecendo.

Entre os rostos assustados e repugnados que vi nas sombras que se esgueiravam disputando espaço com os lampejos de luz artificial pude reconhecer alguns moradores da região; pessoas que habitavam aquelas fazendas desertas pelas quais eu passara poucos quilômetros antes. E percebi que alguns homens armados e de semblantes graves saíam das matas enlameados e agitados como se estivessem envolvidos numa caçada febril.

Espero que entendam o que vou tentar narrar de agora em diante, e se não entenderem, não se preocupem! Ponham a culpa neste velho senil que escreve. Mas peço que não me considerem um mentiroso mesmo que pensem de mim as coisas mais extraordinárias. Não estou mentindo! Não estou delirando quando afirmo que, de repente, do meio do círculo formado pela multidão, veio o mesmo som de barítono que eu já ouvira antes. E desta vez pude entender do que se tratava. Não era, de forma nenhuma, um trovão! Era um grito! Um urro! Como o clamor de ódio de um leão feroz prestes a atacar.

Olhei a diante novamente, por entre as pernas das pessoas a minha frente, e a sombra continuava arremessando-se de um lado para o outro. A poeira da estrada pairava no ar em contraste com as luzes formando barras translúcidas e um vapor branco de respiração forte subia do nível do solo pairando sobre as cabeças das pessoas estupefatas. Muitos recuavam ante algum cheiro terrível que parecia vir de lá.

"Matem essa coisa! Em nome de Deus!" Ouvi a mulher histérica gritar bem ao meu lado ainda contida pelo homem aterrorizado e por algumas outras pessoas que a olhavam penalizadas.

A sombra no meio do circulo de pessoas rosnou novamente; um apavorante urro de ódio que me gelou o sangue nas veias.

Resolvi me aproximar ainda mais e então o circulo pareceu se abrir um pouco me permitindo ver além das pessoas.

Havia muito sangue no asfalto; grandes poças que se avolumavam rapidamente. Uma coisa corpulenta corria sobre o líquido espesso, de um lado para o outro, espalhando pegadas rubras por toda parte, no interior do circulo, como uma fera acuada; um terrível tigre assassino enjaulado e colérico. Mas algo na própria essência do ar da noite parecia indicar que não era mesmo um animal comum que ali estava e não estava só! Havia algo que ele arrastava consigo de um lado para o outro como um cão que carrega uma presa abatida entre os dentes.

Ao menor sinal de movimento das pessoas, o vulto avançava como para atacar. Duas mulheres armadas de potentes rifles saíram da minha frente; estavam chorando copiosamente. Aproveitando a deixa para me aproximar definitivamente do interior do circulo me espremi contra as costas de alguns velhos caçadores locais famosos que ali estavam de olhos arregalados e tremendo.

Vi uma coisa que nunca mais quero ver e que mudou toda a minha vida. O barulho lamentoso da multidão era assustador e eu mesmo senti sair de meus pulmões um grito incontido de pavor e repulsa enquanto calafrios violentos percorreram todo o meu corpo fazendo minhas pernas arquearem involuntariamente.

Havia uma criança jazendo no chão ensangüentado. Seu corpinho branco estava despido e seus cabelinhos loiros e encaracolados estavam encharcados de um sangue negro e espesso que brotava borbulhante de seu crânio esfacelado. Oh, meu senhor, nunca mais esquecerei a visão de seus olhos azuis arregalados mas sem vida; o olhar de terror e de súplica que, por certo, foi o último emitido antes do golpe que eliminou sua vida inocente. Não podia ter mais que dez anos aquela criança e uma de suas mãozinhas pálidas estava erguida como num último movimento para pedir ajuda; os dedinhos avermelhados, rígidos e espraiados, traziam minúsculas unhas quebradas.

Ao seu lado, sentado como um alucinado cão de guarda, estava um homem nu, de aparência feroz; anormal. Quase não podia ser reconhecido por muitos dos presentes devido a quantidade repugnante de sangue em seu rosto e aos pedaços de carne e ossos enredados em seus cabelos compridos. Seus olhos rodavam nas órbitas e deixavam à mostra a parte branca do globo ocular. De repente voltavam ao normal e exibiam uma coloração amarelada como a dos olhos das feras. Suas mãos, postas no chão com vigor, arranhavam o asfalto e deixavam nele profundas marcas de garras que eram afiadas e compridas como se nunca na vida as tivesse aparado.

Soltando vapores brancos no escuro aquela criatura rosnou novamente e seu hálito fétido invadiu o ar frio da madrugada fazendo a multidão recuar outra vez. Ela estampava no semblante uma careta insana e zombeteira; uma espécie de sorriso maquiavélico de cuja boca uma substância avermelhada gotejava e escorria pelo queixo comprido; descia pelo peito arquejante e ia se espalhar no chão ao seu redor. Todo o seu corpo volumoso emanava um vigor sobrenatural como se a qualquer momento ele pudesse simplesmente saltar e estraçalhar todos ao seu redor.

Em meu horror, onde um torpor dominava todo o meu ser envolvendo-me num estado onde o desmaio parecia ser a próxima etapa, ouvi novamente a mulher gritar atrás de mim.

"Matem! Matem! Ele está devorando minha filha! A cabeça dela! A cabeça dela!"

Alguém mais próximo de mim apoiou-se em meus ombros e gritou em direção ao centro do círculo:

"Demônio! És um demônio!".

A coisa agachada rosnou mostrando os dentes que brilharam sob a luz das lanternas e sirenes. Oh, meu Deus! Eles não eram os de um homem! Eram presas afiadas! Presas de animal! E, quando a boca escura se abriu para gritar, todo o maxilar pareceu se alongar dando ao rosto furioso um formato afunilado como o dos cães. Deus me perdoe, mas durante o movimento da cabeça acho que vi suas orelhas assomarem do meio dos cabelos desgrenhados e elas eram finas e compridas na parte de cima.

À medida que o tempo passava as pessoas e os ânimos se exacerbavam ainda mais. Alguns, com os nervos em frangalhos, caiam no chão com tremores e fraquezas nas pernas. Alguém gritou de longe: "Atire logo nesse bicho! Atire! Atire! A criança já está morta!” Mas outro respondeu que deveriam tentar pegar o cadáver primeiro. E tudo que se dizia com relação à coisa na estrada era respondido com berros violentos por ela.

Em dado momento voltei-me para trás, pois a ausência dos gritos da mãe da menina finalmente me chamou a atenção. O carro em que viera estava de portas abertas e um pequeno grupo de pessoas estava lá ao lado do homem que a acompanhava. A mulher desmaiara.

Uma súbita agitação na multidão me fez voltar à antiga posição. A criatura não estava mais onde estivera!

Ouvi armas de todos os tipos sendo engatilhadas. Gritos de horror se espalharam novamente pela noite escura e vieram então os primeiros tiros seguidos por uma saraivada que jamais deixei de ouvir em todos estes anos.

De início não soube para onde olhar além da estrada. O corpo da criança havia desaparecido. Foi o rastro deixado por seu sangue que me reorientou.

Entre as duas árvores enormes que ficavam na margem esquerda do asfalto, envolta por uma cortina de fumaça de pólvora, estava a coisa-homem parada, mais alta do que eu havia imaginado. Ela segurava com suas garras o corpo da menininha e o sacudia de um lado para o outro tentando arrancar pedaços com a boca e as grandes presas. As balas que a atingiam não a derrubavam. Os homens da polícia estavam atônitos e gritavam por reforço nos rádios das viaturas.

Meu estômago revirou no momento em que o monstro, com os dentes cravados ao pescoço da criança morta, abocanhou-o tão violentamente que conseguiu parti-lo com um som terrível de ossos e pele se rompendo. O sangue jorrou escuro sobre sua cara medonha e ele separou a cabeça do corpo como se faz com uma boneca de plástico.

Homens e mulheres, enlouquecidos de pavor, avançaram para a coisa disparando seus projéteis trêmulos; alguns outros que estava mais distantes, apossando-se de qualquer arma que encontrassem à mão, correram com fúria assassina em sua direção. Zacarias Lavern passou por mim com um revolver e seu olhar era o de um homem louco.

Os tiros ecoaram na noite. A cerca de madeira da fazenda mais próxima foi destruída pelo horror que seguira para os campos iluminados tenuemente por uma lua mortiça e encoberta. Atrás dela iam aqueles que habitavam a região e os cães faziam uma algazarra que aos poucos se ia tornando maior que os estampidos de armas de fogo e os berros da besta humana que a pouco estivera tão perto de mim.

Sozinho em meio a todo o sangue da pobre criança que banhava o asfalto, e aos soluços de choro das mulheres que ficaram a cuidar dos pais da menina, me abaixei próximo ao corpinho largado entre as árvores na margem da estrada mas não pude mais fitar seu semblante pois a coisa havia levado consigo a cabecinha branca de olhos azuis.

Depois me ergui com dificuldades e fui até o carro dos pais. O homem estava em pé ao lado da mulher desmaiada no banco do motorista. Eu o olhei nos olhos e devo ter lhe devolvido o ar de espanto com que ele me olhara ao chegar porque, sem que eu dissesse nada, ele veio a mim e falou com uma voz oprimida e trêmula:

"Eu te conheço! Sempre te vejo passar por esta estrada. Saiba que aqui guardamos nossos segredos!"

Ele então lançou um olhar de profunda tristeza ao corpo de sua filha jazendo na estrada e continuou:

"Hoje, às sete da noite, este animal invadiu nossa fazenda. Matou os cães e devorou quase todos os porcos. Depois entrou pela janela do quarto de nossa menina e a arrastou para a mata. Fomos nós que chamamos todos os vizinhos para juntos adentrarmos estes pântanos encharcados a procura de nossa garotinha e da abominação que a levara.

Não é a primeira vez que ele aparece saído sabe-se lá de onde nesta terrível floresta que nos cerca. Todos por aqui já sabiam do perigo que nos rondava mas nunca se pensou que ele pudesse atacar as pessoas nas casas. No início ele se contentava em roer as carcaças dos cadáveres do velho cemitério dos padres e as dos criminosos enterrados nos fundos do prédio abandonado do velho presídio mas, depois, passou a rondar as fazendas querendo os nossos animais... E nossos filhos pequenos. Sabe-se lá quantos meninos e meninas ele devorou antes de nossa filhinha esta noite. Devíamos tê-lo caçado e matado antes que adquirisse gosto pela carne de crianças. Não o fizemos até hoje pois amamos todos que aqui vivem, e os respeitamos. Agora tivemos que caçá-lo de qualquer jeito. É o preço que pagamos por nossa consideração."

O homem transtornado voltou o olhar para a floresta próxima respirando com tamanha dificuldade e tremor nervoso que meu coração se encheu de pesares ainda maiores do que os que já sentia. Foi somente depois de alguns segundos de reflexão que ele, num tom de devastadora angústia, continuou:

"Só o que me reconforta é que minha menina não sobreviveu e por isso sei, tenho certeza, que ela nunca estará a correr estes campos de madrugada."

Dito isso ele se afastou e andou lentamente em direção ao corpo decapitado e exangue de sua filha onde se ajoelhou como a rezar e chorar.

Olhei a escuridão em volta imaginando onde estariam as pessoas e a fera. O silêncio a tudo dominava e não se podia mais ouvir nenhum resquício da algazarra de outrora. Onde estariam? No fundo das matas e pântanos escuros que assolavam a região? Estariam com a besta sob a mira de suas armas ou estariam sob as garras da fera demoníaca que perseguiam?

Não quis mais saber! Montei em minha bicicleta e parti dali o mais rápido que pude.

Mudei-me uma semana depois para o outro lado do país; o litoral. Não avisei ninguém de minha partida e nunca dei notícias de meu paradeiro nem mesmo para minha família que, transtornada, deu-me como morto após procurar-me até mesmo no exterior. Em nenhum momento me preocupei com eles e com sua segurança, confesso! E sei que minha vida está se abreviando também pela culpa que sinto. Foi por este motivo que voltei à região, vinte anos depois, superando o medo e o trauma para estar com minha prima cuja lembrança talvez tenha me livrado da total demência durante os anos de "exílio"; e para reencontrar, mesmo que brevemente, aqueles parentes que ainda viviam.

Até hoje, passados trinta anos, jamais falei com ninguém a respeito do ocorrido na noite de 25 de Dezembro de 1975; nem mesmo com Paula, com quem me casei e que apenas suspeitou do horror que vivi. Porém, depois que minha esposa partiu deste mundo me deixando só com minhas tétricas recordações, busquei de todas as maneiras informar-me sobre as possibilidades da existência real de criaturas indizíveis através de livros e artigos de doutores estudiosos de todo o mundo. Nunca consegui chegar a uma definição plausível ou sequer aceitável sobre o que poderia ser a fera; apenas conjecturas terríveis e pavorosas suspeitas de que naquela noite eu e aquelas pessoas tivemos um terrível contato com algo que deveria habitar tão somente os pesadelos mais primitivos do homem.

Por isso resolvi escrever toda a história antes que me alcance a morte que já não tarda: Para que aqueles que lerem estas páginas saibam do mal que se escondeu um dia nas estradas e campos escuros de uma região rural deste país e que, desde que eu nunca soube o que realmente lhe aconteceu, ou o fim que lhe deram, ainda pode perfeitamente estar a se esconder.

11.10.09

MEU MUNDO



MEU MUNDO

Henry Evaristo


Acho que estou anestesiado em minha confusão

Preso num caleidoscópio de fúrias;

Paixões;

Sabores amargos;

De fragrâncias graves, perigosas, devastadoras.

Algo que rodopia como um tornado me levando em seu centro para onde ele se esconde;
Nos ermos do firmamento;
Nos confins do universo;
No mundo improvável onde residem os arco-íris, arrastado por centenas e centenas de sonhos fantásticos.


Um dia eu tive um mundo onírico. E em suas cores feéricas eu residia.

Mas cinzas o cobriram há muito e hoje já não mais saltam por lá as ninfas, nem os unicórnios.

São apenas dragões horrendos que se escondem por trás de suas encostas;

E o sopro do vento traz, no lugar das melodias primaveris de outrora, um odor ominoso de frutas em decomposição.

Ah, meu mundo! Que fizeram de ti? Pra onde te levaram? Quem são estes que agora vagam por entre tuas entranhas intumescidas?

Por onde andam aquelas luzes que eu buscava em minha infância, quando este mundo terrestre se tornava insuportável?

E agora, para onde vou, já que não tenho mais teu acalanto a me guiar pelas trevas?

Lentamente me foram roubando as cores da vida. E agora só vejo diante de mim o negrume de uma noite eterna e profunda que parece me espiar como um leão faminto na savana.

Se extinguirá esta perdição?

Hei de encontrar novamente o caminho para meu velho mundo,
onde nunca precisei dormir de olhos abertos?

O LUGAR SOLITÁRIO

O LUGAR SOLITÁRIO

Henry Evaristo

Existe um lugar que é diferente de todos nesta terra; não direi o seu nome nem sua localização pois o conhecimento do homem comum jamais deverá chegar em suas paragens. De qualquer forma, também homem nenhum, habitante deste planeta, teria a possibilidade de apreender as particularidades deste lugar, ou suas implicações na vida dos mortais, pois a sua concepção foge ao mais elevado paradigma que por ventura já se formou em meio a qualquer uma das sociedades em qualquer era que seja.

Posso dizer, no entanto, que este lugar aproxima-se de um grande mar de águas escuras e profundas e que seu último ponto de contato com a terra estende-se da superfície do continente projetando-se para as águas como o braço de um deus titânico recoberto por uma vegetação tão densa que é impossível se vislumbrar a areia prateada que lhe corre por baixo.

Não há conhecimento de algum homem privilegiado que por lá tenha estado e que pudesse ter vagado por entre as cadeias de colinas de milhões de anos. Elas não são muitas, visto que a quase totalidade da região é, e sempre foi, absolutamente desértica. Dizem que Lovecraft, o escritor, andou por seus campos, morros e pradarias, e que um dia, descendo até a praia, bebeu das águas negras e amargas de seu mar profundo; mas é sabido que este mesmo homem, que tanto fez pela cultura do insólito nas artes humanas, era também um contumaz sonhador.

Neste lugar ventos terríveis sopram do horizonte brumoso e atingem a costa com violência arqueando e fazendo estalar os caules dos milhares de eucaliptos que recobrem toda a praia. Também este mesmo vento espalha por toda parte um cheiro forte de alguma matéria orgânica em decomposição que está constantemente perdida do alcance dos olhos mas bem mais próxima do que se poderia desejar das sensações aziagas que podem percorrer o corpo atravessando-o em direção à alma.

Partindo do ponto exato onde a água toca a areia pela última vez, traçando-se uma linha reta rumo ao interior do continente, alcança-se uma floresta estranha e agônica. Milhares de anos sob densas condições climáticas com a ausência total de chuvas a transformaram numa faixa de terra recoberta por uma vegetação agressiva e espinhenta que impossibilita qualquer esperança de avanço maior que um ou dois metros. Não há vida animal no interior desta floresta e as plantas e árvores nela contidas são de um tipo inexistente em qualquer outro lugar à exceção dos bandos de eucaliptos, muito embora incomuns, que brotam antes de seu início, ainda na faixa limítrofe entre a água e a terra.

O clima é quente e úmido. A temperatura nunca varia pois não existem estações do ano. Em nenhum dia sequer pode-se sentir algum tipo de alívio para os 45 graus que assolam mesmo sob as sombras das maiores árvores e a luminosidade solar é tão agressiva que nenhum olho normal a poderia suportar por horas seguidas sem o auxílio de lentes especiais. Neste lugar tem-se a nítida impressão de que se pode muito bem estar mais próximo do sol do que em qualquer outro do planeta.

Para além da floresta selvagem, avançando-se num vôo livre através do continente e navegando sob as nuvens de um céu prenhe de tormentas que nunca caem, pode-se chegar a uma clareira em meio a árvores mortas e petrificadas. Há um abismo imensurável ali, meio encoberto pela vegetação rasteira que, chegando às suas bordas, avança adiante se projetando no espaço e oscilando paredão abaixo até desaparecer na escuridão das profundezas. Lá eu já estive!

E já estive em todo este lugar podendo, aliás, afirmar-lhes que faço parte de sua aspereza e que parte dele sou eu. É só assim que posso agora descrevê-lo para suas curiosidades.

Ali eu estive e não estive sozinho. Acompanharam-me algumas valorosas mentes brilhantes; partes integrantes de mim mesmo e unos com minhas ideologias. Eram intelectos honrados antes de perderem a batalha de suas vidas e da vergonhosa destituição de seus cargos primevos. Depois, acostumados que estavam com a vida em patente, e mesmo encobertos por uma humilhante e forçosa humildade, continuaram exigindo que se-lhes chamassem generais.

Atravessamos juntos a escuridão do abismo e alcançamos uma outra superfície terrestre chamejante e incadescente. Era volúvel e macilenta e não permitia que aquele que fosse uma vez postado em seu seio pudesse sair de qualquer forma. E então houve gritos de fúria e dor quando nossa turba descobriu que ali estaria estagnada e impossibilitada pelos séculos dos séculos.

Porém, o passar dos tempos trouxe o conhecimento da obra; e o conhecimento trouxe a iluminação e esta nos proporcionou vislumbres da heterogeneidade local escondida sob um manto enganoso de perfeita unicidade natural. Assim conseguimos ver os degraus por onde logramos escalar de volta até as bordas do antigo precipício aproveitando-nos do erro divinal. Lá nos cegou portentosa luz esbranquiçada e ficamos estupefatos diante de nossas próprias limitações no ambiente. Já nada podíamos realizar de nossos antigos dons mas nos contentamos por estarmos livres naquele momento mesmo que incompletos. Novos séculos viriam e novas luzes nos apontariam novos caminhos a seguir.

Foi assim que eu, outrora lançado no abismo, consegui dele saltar junto com os convivas que lutavam por minha causa. E assim, destituídos de tudo, nos lançamos ao mundo dos homens tentando nos afastar o máximo possível do local de nossa masmorra. Passamos à floresta, avançamos sobre as colinas abandonadas, vencemo-las e ganhando o mar nadamos até águas humanas.

Nestes dias em que escrevo há milhares de anos o lugar solitário assim permanece. Quanto a mim, digo que vago por esta terra de homens ansiando ardentemente pela hora em que ouvirei as trombetas anunciando o meu advento e verei minhas cores assaltando o horizonte. Não posso, no entanto, afirmar que o triste lugar não estará lá, mergulhado em sua solidão, me esperando, e aos meus, novamente por ocasião de nosso fracasso.

6.10.09

A FLORESTA ASSOMBRADA - MÁRCIO FERNANDES



A FLORESTA ASSOMBRADA

Márcio Fernandes


Amazônia, 00h15m!

Aqui e o comando bravo charlie chamando o comando sierra delta! Uma breve interferência de radio e...! Aqui e o comando bravo charlie chamando o comando sierra delta! Respondam pelo amor de Deus! Nova interferência de rádio e...Silencio...! Assim terminara a transmissão de rádio!

Eu havia me alistado há cerca de um ano e seis meses. Pertencia ao 32º Batalhão de Infantaria, que tomava conta das fronteiras do Brasil com a Colômbia, na região Norte. Éramos o Comando Sierra Delta e acabávamos de desembarcar dos helicópteros em uma aldeia indígena protegida pela FUNAI que ficava próxima ao Rio Negro! O comandante havia sido designado para montar uma equipe de salvamento com a missão de resgatar uma equipe que havia enviado um pedido de socorro a sete horas atrás!

Logo que desembarcamos um grupo de índios veio nos recepcionar. Várias crianças da aldeia, mulheres e homens, todos índios, estavam entusiasmados com nossa presença. Prontamente, o Sargento Eriberto foi agrupando todo o pessoal.

- Comando sierra delta, a minha frente, coluna por três, cooooobrir! Bradou o sargento!

Todos, imediatamente cumpriram a voz de comando. Depois o sargento apresentou a tropa para o comandante, o qual assumiu o comando.

- Senhores, nossa missão e de extrema importância. Há poucas horas atrás, recebemos um pedido de socorro de nosso posto avançado norte. Todos vocês estão treinados e capacitados para participarem desse resgate. Conto com os senhores!

Sem mais uma palavra, nosso comandante deixou a tropa ao comando do Sargento Eriberto. O mesmo nos dispersou por algum tempo, pois tínhamos que chegar o mais rápido possível ao posto avançado norte. Em seguida se dirigiu ao local onde o comandante se encontrava. Iria tratar dos últimos detalhes da missão.

Eu tratei de ir até uma tina de água que se encontrava ao lado da porta de uma cabana indígena. Meu cantil estava quase vazio e precisava ser reabastecido. Estava um calor insuportável. Pelo menos uns trinta e cinco graus e já eram quinze para as quatro da tarde. Ao lado da tina d’água, retirei meu capacete, molhei minha cabeça e depois abasteci meu cantil. Como tínhamos alguns minutos ainda, me sentei ali mesmo e acendi um marlboro. Entre uma tragada e outra, notei que um menininho estava me observando da porta da cabana. Era um indiozinho. Eu fiz um sinal para ele se aproximar e aos poucos ele veio ao meu encontro. Então eu resolvi falar.

- Oi garotinho? Tudo bem com você?

A princípio ele nada me respondeu! Apenas sorriu. Até que...

- Oi moço?

- Oi! Bacana sua aldeia!

- Eu nasci aqui. E o senhor?

- Eu sou de São Paulo.

- O senhor e do exercito?

- Sou sim! Você gosta?

- Não muito! O pajé disse que vocês matam as pessoas com esses paus de fogo!

- Não necessariamente! Só quando é preciso!

- O que vocês estão fazendo aqui?

- Estamos em uma missão, mas não posso falar muito!

- Vão para as matas?

- Sim, na verdade vamos para as matas na cabeceira do rio.

- Cabeceira do rio? Rio Negro?

- É!

- Não vai não moço! Lá e um lugar muito ruim!

- Não tenho escolha. E meu trabalho!

- Não moço, lá e lugar ruim! Cheio de espíritos maus! E a casa do Anhangá!

- Hei garoto! Fica frio! Esse brinquedinho aqui espanta até o capeta!

- É verdade! Quem vai lá não volta! Não vá não moço!

De repente, o Sargento Eriberto reuniu a tropa novamente e eu deixei o menino falando sozinho! Após as ultimas instruções, todos embarcaram nos helicópteros. O local da operação era inacessível para veículos terrestre e a pé, demoraria uns dois dias! Não tínhamos tempo. Em poucos minutos estávamos sobrevoando a área do posto avançado norte. Deus do céu! Do alto dava para ver tudo destruído. Sem sinal de vida! Confesso que fiquei um pouco inseguro, mas aos poucos a adrenalina foi tomando conta de mim e logo eu já estava doido para descer e descer bala em quem quer que tenha feito aquilo!

Quando pousamos no posto avançado, todos foram logo tomando suas posições. De um lado o sargento orientava parte do grupo enquanto do outro o comandante e um grupo menor fazia uma inspeção do local. Não demorou muito para o comandante descobrir que não havia ninguém no posto avançado. Nem uma viva alma. Nem cadáveres. Todos ficaram inicialmente atônitos com o local. O que houve naquele lugar! Era como se nunca estivesse havido ninguém ali. Começamos a desembarcar nosso equipamento e usaríamos as instalações do local para passar a noite ali. Alias faltava pouco para a noite cair, era mais ou menos umas quinze para seis da tarde. Não demorou muito para acendermos as luzes, pois na floresta, escurecia muito rápido. Em uma das cabanas o sargento estava com o comandante bolando uma escala de turno de serviço. Dividiria o efetivo em grupos que se alternariam na vigilância do local.

Estava muito calor, mesmo depois do por do sol, fazia um trinta graus. Meu turno começaria as vinte e três horas, e ainda me restava alguns minutos. Estava descansando o corpo em uma rede fumando um cigarrinho quando escutei o grito de alguém seguido de uma rajada de tiros vindo do lado sul da base. Fui até a janela e notei que não só eu, mas todos escutaram a mesma coisa. Estavam todos alvoroçados, mas logo o sargento e o comandante trataram de agrupar o pessoal. De repente outro grito! Dessa vez, mais perto! Mal o comandante agrupou o pessoal e novamente, outro grito. Estava claro! Algo estava atacando as sentinelas escaladas naquele turno.

Subitamente, todas as luzes do acampamento se apagaram! Caramba! Será que eram as FARC? Tudo estava um breu só. Conferi rapidamente minhas munições extras e fiquei em alerta, mas novamente surgiu outro grito, seguido de um pavoroso rosnado! Aquela área era totalmente selvagem, repleta de animais de grande porte. Todos estavam a postos, mas até onde podia enxergar, podia ver o medo no semblante de meus companheiros. Novos gritos iam surgindo sucessivamente e cada vez mais próximos de nos no acampamento. Foi quando eu estava encostado em uma amurada do posto avançado, senti um peso em meus ombros e olhei para traz! No inicio tentei compreender! Uma mão enorme me agarrara pelo ombro e me puxou para o lado. Imediatamente cai ao solo e quando me virei, meu sangue congelou! O que era aquilo? Parecia um homem! Pelo menos sua silhueta era de um homem! Estava escuro e o escuro costuma pregar peças na gente, mas... Quando se aproximou, eu fiquei atônito! Aquilo não era humano! A gritaria continuava a ecoar pela floresta e eu frente a frente com aquela criatura. De pronto, disparei meu fuzil naquele bicho. Eu o acertei e ele soltou um grito infernal. Como um raio ele desapareceu floresta adentro. Sai o mais rápido possível na tentativa de ajudar meus companheiros. Mas a cada metro que eu avançava, tropeçava em cadáveres de companheiros meus. Meu Deus, quase todos estavam mortos. O sargento, o comandante! Só restavam alguns poucos. Dava para sentir o cheiro do sangue espalhado pelo acampamento e à distância podia-se ver mais dessas criaturas se alimentando de meus companheiros. Se não estivesse acordado, podia jurar que este sem dúvida era o pior pesadelo que eu tive! Assim como os poucos colegas que me restavam, eu atirava sem parar nas criaturas, embora não estivesse resolvendo muito, pois elas caiam e logo se levantavam! O que poderia ser aquilo? Nem com os tiros eles morriam! As horas foram se passando e nossa resistência já estava quase minando. Eu e mais alguns companheiros ficamos entocados dentro de uma das cabanas do acampamento! Fizemos uma bela barricada na porta. Por fim conseguimos nos proteger das criaturas, mas lá de dentro dava para ouvir os outros colegas gritando até morrer! Depois de muito tempo um silêncio pavoroso tomou conta da base. Todos estavam mortos! Mas ainda dava para sentir o sussurrar infernal daqueles demônios ou sei lá o que. Podia senti-los próximo da porta e das janelas da cabana. Ficavam arranhando as janelas e a porta, tentando entrar na cabana. Os poucos que ainda estavam vivos junto comigo, estavam em estado de choque! Alguns, feridos gravemente! As horas demoraram a passar até que os primeiros raios solares invadiram a floresta e iluminaram o acampamento. Eu e meus companheiros havíamos adormecido e por sorte ainda estávamos vivos! Fomos acordados pelo barulho de motores. Saí da cabana e graças a Deus, nem sinal das bestas! No alto, dois grandes helicópteros estavam prestes a pousar no acampamento. Era outro grupo de salvamento!

Depois daquela noite nunca mais fomos os mesmos! Tanto eu quanto meus companheiros que sobreviveram ficamos abalados com os acontecimentos daquela noite! Também nunca mais tive noticias deles!

Hoje vivo em uma casa de repouso para perturbados mentais! Vivo a poder de remédios e sedativos e vez ou outra aparece alguém da minha família em dia de visita! Às vezes eu conto essa história para aqueles que me visitam, mas quem vai acreditar em um louco!

FIM

5.10.09

BANSHEE - LEONARDO NUNES



A Câmara dos Tormentos apresenta um assustador conto de Leonardo Nunes. Uma verdadeira obra prima da literatura fantástica nacional. Boa leitura!


Banshee[1]



Leonardo N. Nunes



Nota: Este conto foi escrito a partir de uma “competição”, de um pseudo-concurso entre eu e dois amigos, do qual cada um deveria escrever um conto baseado em três temas. Este conto foi escrito baseado no termo japonês Yaoi. É um conto estranho, que não faz parte da minha filosofia, mas pelo fato de eu ter adotado este “eu lírico” em questão dentro dos sonhos, e por ter conseguido me expressar bem, fico muito satisfeito por tê-lo escrito. Uma experiência única.



Parte I

P. A. Farina sentia que precisava desabafar. Embora tenha tentado com a esposa, fracassou. Pensou no amigo de infância, Gustavo, e por telefone marcou com ele uma conversa ainda em sua casa de tarde, período do qual Patrícia iria dar aulas. Gustavo B. chegou até mais cedo do que o horário combinado; viu o amigo vestido n’um roupão, cabelos molhados do banho tomado.

- Acho que não entendi direito – disse, depois da longa conversa.

- É estranho, né? Mas aconteceu – confirmou Farina.

- E a tua esposa, você contou pra ela?

- Não. Não tive coragem.

- Sente vergonha?

- Não sei colocar em palavras, diante dela. Até já tentei. Aí então ela sabe que eu tive pesadelos, e tenta explicar o inexplicável.

- E como é o uivo que você escuta assim que desperta do sonho? – perguntou muito interessado Gustavo.

- Agudo. Começou com sete, agora são dois longos uivos. E, pelo visto, somente eu escuto.

- E você pensou que falando para mim tudo estaria resolvido.

- Não. Eu só achei que você entenderia.

- Mas foi você mesmo que disse que é inexplicável. Como entender o inexplicável, homem?

- Não sei. Eu só sei que venho tendo esses pesadelos. É involuntário, acho – mas Farina não tinha tanta certeza disso – Eu não entendo. Sonhamos todas as noites, mas quando o sonho tem essa conotação nos preocupamos. Parece que deixa de ser sonho e passa a se tornar realidade.

- E você tem medo que o sonho venha a se tornar realidade – atravessou o amigo – Não é isso?

- Talvez. É possível?

- Esqueça Malleus Maleficarum. Parece-me que você está tendo sonhos repetitivos, talvez uma continuação deles, mas isso não deve afetar a tua vida normal.

- Não sei. Para qualquer lugar que vou, vejo aquela criatura. Fecho os olhos, é com ela que estou.

- Tá. Quer uma dica? Psiquiatra.

- Eu tenho medo. Medo do desconhecido, que parece estar tão próximo que me deixa acuado.

- E quem não tem? Talvez a solução esteja dentro desse mesmo pesadelo. Conta de novo, e devagar.

Parte II

Foi há pouco menos de uma semana. Eu não sabia do que se tratava; talvez ainda não saiba. No sonho eu sentia que havia algo muito ruim, só que eu nada via. Acho que cheguei a escutar desde então, mas pensei que era minha respiração pesada. Analisando bem, você tem razão: é como uma continuação. Sonhei que estava no meu quarto, na cama deitado ao lado de minha esposa. Que mal tem nisso? Merda. Um sonho como os outros, não fosse o fato de eu estar assustado. Quando acordei, e vi minha esposa dormindo – tão bela – me dei conta que eu estava bem. Ledo engano. Acontece que ouvi os sete uivos; ouvi em minha cabeça.

Hoje acordo praticamente exausto, quase sem forças pra nada. Você acha que minha palidez vem de onde? Demoro uma hora, às vezes até mais, para me recuperar, mas ainda assim não por completo. E está cada dia piorando. Esses sonhos repetem-se agora com mais intensidade.

Só para você ter uma ideia, na terceira noite, a vi soerguer-se debaixo das cobertas da cama a qual eu estava deitado. E ela tinha olhos brancos como cera, mas não posso garantir que cor realmente eram os olhos, pois eu simplesmente congelei. Acordei todo suado. Da cabeça aos pés. Cansado, também. Meus olhos latejavam. Há duas noites eu sonhei novamente, eu vi claramente a criatura. Você já ouviu falar naquela criatura com asas parecidas com as de morcegos, mas ainda assim muito de humanas? Pois bem, vi definitivamente erguer-se de debaixo das cobertas da cama a qual eu estava deitado. E essa criatura estava ao meu lado, no lado onde minha esposa deveria estar! Acordei até pior do que na terceira noite. Até achei que tinha gritado de verdade, mas tive sorte de não ter soltado mais do que suspiros, do contrário a acordaria. Sim, eu gritei e muito. Gritei de pavor, nos sonhos. Desde o primeiro sonho que aquela maldita cria estava lá, e eu pensando que era minha esposa, Patrícia! Sabe, eu sinto como se estivesse traindo-a.

Nessa última noite cheguei a acordar minha esposa, de fato. E o pior: eu não gritava somente, eu uivava! Como um lobo, foi o que Patrícia me disse.

Os sonhos estão cada vez mais reais. E eu não estou gostando disso. Não preciso forçar a memória para lembrar esse meu último sonho, esse que me levou a gritar. Acontece que no sonho eu sou... usado. Você entende o que eu falo? Eu não sei explicar com palavras. Droga. O primeiro sonho foi só uma sensação de que algo ruim iria acontecer. Já o dessa noite, eu senti, literalmente. É pior do que cortes profundos na pele. Mas ainda assim é profundo. E a criatura é bem como eu disse: parecida comigo, muito humana! Está vendo meus braços, minhas pernas? Igual! E essa criatura sai da cama, sempre do lado em que minha esposa deveria estar. E abre as asas e caminha com onipotência. Sai... satisfeita. Satisfeita! Imagine você um ser daqueles, muito parecido contigo, sair da tua cama? O que você sentiria?! Pavor, é claro. Aquilo não era normal. Aquilo não é normal. Entende o que eu falo? Parecido comigo. Não as minhas feições, mas o que eu sou.

Bah. Quando acordei desse pesadelo mais parecia estar morto do que vivo. Patrícia disse ainda que correu ao banheiro, encharcou uma toalha e me banhou ali mesmo na cama. Eu ainda permanecia com os olhos abertos, o que dava um aspecto mais sombrio em meu corpo, nu. Em outras circunstâncias, isso seria um estímulo a mais para nossa relação. Mas não naquela. Não da maneira de como eu estava. E digo que vi tudo, mas não vi nada; quero dizer, eu vi o que estava no campo de minha visão, mas nenhum objeto ficou registrado em minha memória. Não. Minto. Ainda podia vê-la. Acho até que introduziu-se no campo de visão que me era permitido ver para mostrar-se, simplesmente. E seu corpo era... igual ao meu. Com as asas, é claro.

Quando, por fim, voltamos a dormir, Patrícia já em sono alto, e eu acordado, porém muito exausto, escutei novamente aquele uivo agudo. Como eu disse, começou com sete, mas dessa vez foi somente dois longos uivos. Eu estranhei, admito. Foi decrescendo o número de vezes que esse som se repetia, noite após noite, ao longo dessa semana. Alguma coisa isso tem que significar.

Enfim, tudo isso soa aos meus ouvidos como um aviso, Gustavo. Eu tenho medo. Não estou sabendo interpretar, mas acho que vou morrer. É como o badalar dos sinos que avisa a hora da missa. Três batidas, duas batidas, uma batida. Eu só espero estar errado. Patrícia vai ficar chateada comigo. Na verdade, vai me odiar. Ela nem imagina, mas em meus sonhos aparece um ser com asas de morcego, mas com um corpo humano de forma... eu não consigo dizer. Não consigo cogitar a hipótese de ter, todas as noites durante essa última semana, uma espécie de relacionamento com um demônio. É um demônio, sim! Pois eu pesquisei. Tive que tirar essa história a limpo, do contrário eu não ficaria tranquilo. Os pesadelos. Esse estranho sentimento de morte, ou de que algo muito ruim vai acontecer. A energia que me fora drenada, e que continua sendo. Isso que eu sinto dentro de mim. O que sinto e o que vejo em sonhos tem um nome. E esse demônio é um INCUBUS[2]!

Parte III

UMA PEQUENA NOTA: GUSTAVO B.

Naturalmente o que se passou com meu amigo P. A. Farina foi devido a sua imaginação exacerbada. Ele gostava de praticar leituras noturnas de histórias da literatura fantástica, e isso contribuiu para que viesse a sonhar os pesadelos. Mas o fato é que ele faleceu há três dias. Sua esposa, Patrícia M., conversou comigo durante o velório de meu amigo. Pediu para saber sobre qual assunto conversamos naquela tarde da qual ela precisou sair para dar aulas. Falei sobre os pesadelos, sobretudo da sensação de iminente morte que ele tinha, e também dos gritos, os dos sonhos principalmente; todavia negligenciei a parte da narrativa em que falava do Incubus que sonhava.

Não creio verdadeiramente ter tido uma relação com aquele demônio. Mas também não digo que estava errado. De qualquer forma, ele sonhou com isso, e às vezes o sonho parece ser real. Sentimos, inclusive. Mas algumas coisas realmente batem.

Eu pesquisei e descobri que aqueles longos uivos eram na verdade avisos sobre quantos dias ainda viveria. E assemelha-se com os dias que lhe restavam até a morte. Era uma Banshee; dizem até que sua face é sempre muito pálida como a morte, morte essa que carregou Farina daqui. No fim, ele estava certo em sua preliminar interpretação: qualquer coisa que tenha acontecido em seus sonhos foi o motivo que o levou à morte.

Início/Fim: 08 / 06 / 2009

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[1] Banshee é um ente fantástico da mitologia celta (Irlanda).

[2] Incubus é um Demônio na forma masculina.

FUNERAL EM FAMÍLIA - PEDRO MORENO

Escritor Pedro Moreno estréia como colaborador da CT com um conto de terror sobrenatural assustador. Boa leitura!



Funeral em Família


Pedro Moreno


São 21:00 e o silêncio é perturbador. Minha irmã está lá em cima provavelmente na terceira carreira de cocaína. E ainda achando que nós não percebemos o quê ela faz. Nós. Apesar de mamãe estar morta há 12 horas eu ainda não me acostumei com a idéia.

Mamãe fumava, bebia e frequentava a igreja aos domingos. Devo dizer que a igreja não a ajudou do câncer no pulmão e nem da cirrose que ela cultivava com litros e litros de uísque. Devo dizer que a única coisa que a igreja a ajudou era impedi-la de estar bêbada durante a missa. Mas mesmo assim ao final do ofício religioso o cigarro aceso era quase que instantâneo.

E hoje ela está imóvel e em um caixão branco com detalhes dourados e anjinhos carismáticos nos cantos. Seu rosto parece mais vivo quando morta do quê em vida. A maquiadora fez um trabalho fantástico com base no que mamãe poderia ser caso não tivesse começado a fumar aos 13.

Mas nada muda o fato de que se havia algum tipo de estabilidade em casa, hoje está morta. Mamãe começara a beber quando meu pai falecera, há três anos atrás. Com a morte de mamãe se enterra a causa da morte de meu pai. Mamãe nunca tocara no assunto e toda vez que era perguntada sobre o quê ele morrera ela dizia ataque cardíaco.

Ataque cardíaco não requer caixão fechado, igual ao que papai fora enterrado. E ,estranhamente, o caixão estava muito leve para um senhor que pesava 120 quilos.

Ouço passos na escada, pelo canto do olho vejo minha irmã descendo com todo o cuidado para não cair. Ela vai até a cozinha e fica por um bom tempo. Ao sair pergunta se eu não vou subir, digo que logo. Ela sobe a escada com mais dificuldade do que desceu e enfim solta um suspiro de alívio quando consegue chegar no quarto.

Fico algum tempo olhando para o rosto de mamãe. Repito comigo que não adianta, ela não vai levantar. Nunca mais.

No quarto eu desabo na cama e durmo.

Acordo no meio da noite com alguém no corredor. Provavelmente minha irmã pelo andar arrastado e sem vida. Ouço a porta dela fechando. Desde que minha irmã começou a usar drogas eu por precaução tranco minha porta para evitar furtos noturnos.

A hora passa e eu durmo. Sou acordado com um murro na minha porta, um soco firme que me assusta. Logo imagino o tipo de viagem que minha irmã está tendo. Grito para ela ir embora. Tudo fica em silêncio e outro soco acerta bem no meio da porta e desta vez quase racha a madeira. Eu espero ela ir embora e logo depois tudo volta ao silêncio.

Acordo às 3 da manhã e tudo está escuro lá fora, a casa já não emite os estalos de móveis quando estão esfriando. Não há barulho de grilos e não gatos miando lá fora. O silêncio chega a ser perturbador. Saio da cama em busca de água gelada. Abro o trinco da porta e desço a escada, tomo água direto da garrafa e enxugo a boca na manga da camisa.

Passo pela sala e observo por um tempo o caixão que jaz na sala. Um calafrio percorre meu corpo e meu coração palpita de forma que eu sinto o sangue passando e latejando os meus dedos e logo ficam dormentes. Minha mãe não está no caixão.

Não sei por quanto tempo eu fico paralisado, olhando para o cofre mortuário vazio onde então jazia minha mãe. Derrubei o copo de água e nem reparei no que fizera. Com o barulho eu ouço algo se movendo no andar superior da casa. Só pode ser a viciada de minha irmã tendo algum tipo de alucinação com o corpo de nossa mãe.

Subo as escadas em quatro passos e vou direto ao quarto de minha irmã, abro em um só golpe. O quê vejo foge da normalidade e fere para sempre minha alma.

Minha irmã está morta. Seu ventre está aberto da altura dos seios ao púbis, pedaços de seus órgãos internos estão por toda parte e por dentro resta apenas um vazio macabro e rubro. Há sangue espalhado por todo o lençol e pelo chão. Um cheiro agridoce permeia o ar e logo nauseado. Saio do quarto com o estômago revirando, no corredor eu vomito o quê nem havia comido. E fico por um tempo sentado em meu próprio conteúdo estomacal.

Levanto e olho de volta para o quarto há pedaços de seus intestinos mastigados pelos cantos. Que tipo de criatura perversa teria feito isso? Então me ocorre que é bem provável criatura tenha também atacado o corpo moribundo de minha mãe.

Desço as escadas, quando chego no último degrau vejo algo na cozinha Imóvel. Pego um vassoura e ataco o corpo sem hesitar.

Era minha mãe.

A vassoura acerta a lateral da cabeça, e quando desce vejo que é minha mãe que está na minha frente. Largo minha arma improvisada e a abraço. A possibilidade de minha mãe estar morta nem me ocorre. A abraço fundo e olho para seu rosto que está ensanguentado, imagino eu por causa da fratura que sofrera pelo impacto da vassoura, a abraço de novo e sinto uma dor aguda no meu pescoço.

O sangue quente escorre pelo meu pescoço e eu a empurro contra a pia da cozinha. Sua cabeça bate contra a torneira e abre um talho do tamanho de um punho fechado, fico horrorizado com a cena, porém ela se levanta como se nada tivesse acontecido, abre a sua boca e mostra seus dentes e se precipita a atacar-me de novo. Desta vez eu fujo.

Seus olhos estão amarelados e seu rosto bestial pede por sangue. Meu sangue. Corro até o jardim e o monstro que se tornara minha mãe fica em meu encalço. Tranco-me no quarto de ferragens e sinto a mão pesada desferindo golpes na porta. A cada batida mais perto da minha morte eu me encontro. Agarro uma foice e espero ela chegar.

São 6 da manhã, a polícia chegou junto dos legistas que ficaram horrorizados com a forma que encontraram o corpo de minha irmã e de minha mãe. Este último foi arrancado a cabeça fora e há inúmeras estocadas por todo o torso. Vejo a polícia olhando o tempo todo para mim e de um deles eu ouço a palavra que me acompanhará pelo resto de minha vida: Louco...

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