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15.6.09

VAMPIROS DE MONDELLE


VAMPIROS DE MONDELLE
Henry Evaristo

Na pequena vila de Mondelle é crença corrente que aquele que morre sem batismo, e assolado pelas malignidades da floresta em meio à selvageria da natureza, irá invariavelmente retornar à vida como um ser demoníaco; uma besta feroz que buscará primeiro manter contato com seus parentes e amigos mas depois passará também a assolar toda a comunidade para saciar sua recém adquirida necessidade pela carne e o sangue alheios.

No LUNIS DAËMONIUM*, o místico europeu Moranus Malgred narra o insólito episódio ocorrido nesta localidade no ano do senhor de 1518.

Naquele tempo Mondelle contava com uma população máxima de 20 famílias estabelecidas em choupanas de pedra incrustadas numa região constantemente açoitada por nevascas e ventos violentos. Isolada das localidades vizinhas por centenas de quilômetros de montanhas intransponíveis que abrigavam densas florestas escuras.

Numa certa noite de inverno, quando a temperatura beirava os 10 graus negativos, e o vento cortante penetrava a carne dos incautos como a adaga gélida de algum assassino louco, um homem voltou terrivelmente doente de uma caçada que tentara empreender sozinho. Aventurara-se para além das montanhas mais próximas, numa região onde ninguém jamais ousava se aventurar.

Após três dias perdido ele reapareceu cambaleando pelas ruas da vila, indo depois bater à porta de Denethor, o lider.

A algazarra, rompendo o silencio da madrugada, atraiu a curiosidade dos moradores guiando-os à casa onde o estranho homem procurara abrigo. Lá encontraram uma figura como jamais esperariam. O homem forte e viril que partira há três dias retornara pálido e transtornado. Sua roupa parecia flutuar em torno do corpo; a pele estava lacerada nas extremidades das mãos e em torno dos lábios. Seus olhos eram circundados por olheiras profundas e cobertos por vasos dilatados e vermelhos. Os dentes enegrecidos quebravam-se com facilidade e toda a pele estava coberta por manchas intumescidas que exalavam um odor pútrido. As mãos estavam encarquilhadas, com os dedos encolhidos como se dominados pela artrite; e de suas pontas projetavam-se unhas anormais, enormes e amareladas.

Na manhã seguinte, o doente foi levado à casinha de pedra bruta onde vivia com a mulher e a única filha. Por duas semanas convalesceu, e levou a vila às raias da loucura.

Com o cair da noite corria à janela do quarto e lá ficava imóvel olhando fixamente para algum ponto além das montanhas. Às vezes fitava a entrada da floresta e, sempre que estava assim, sua familia jurava que ele conversava discretamente com alguém. A menina, de 15 anos, o ouvira certa feita, ao entardecer. Parecia implorar em murmúrios alguma coisa para algo que certamente se encontrava do lado de fora da casa.

Havia noites, no entanto, que as coisas iam muito além dos limites daquele estranho lar e a vila inteira não podia dormir por causa dos horríveis gritos que o homem emitia. Como um lunático, ou coisa que o valha, ele simplesmente gritava, coisas ininteligíveis, para o lugar onde a floresta erguia-se como uma muralha escura e sinistra contra o céu revolto.

Nestas noites sua mulher precisava prendê-lo no quarto do casal onde ele, em seus acessos de fúria, despedaçava tudo o que encontrava. Davam-lhe água por debaixo da porta, deixavam comida, mas ele não tocava em nada e raramente ingeria qualquer tipo de alimento. Jamais era visto pelos outros moradores. Somente seus lamentos, ecoando através das madrugadas, eram o testemunho de que ainda existia sobre a face da terra.

No comércio da vila, a esposa queixara-se com algumas velhas conselheiras sobre o fato de que o marido não a procurava mais e que, na verdade, a evitava a todo o custo. Não esqueceu de mensionar o fato de que mesmo quando era preciso trancafiá-lo, ainda assim, no meio da noite, podia jurar vê-lo parado à porta do quarto onde ela fingia dormir junta à filha. E estremeceu ao revelar que não mais via nele o seu companheiro de outrora; não via nada se não o esconderijo de alguma coisa maligna prestes a irromper. Entre lágrimas incontidas, disse às anciãs que sentia isso todas as vezes em que podia ver o brilho de seus olhos atravessando a escuridão do quarto da menina como se estudasse as duas deitadas na cama; mas não com o olhar de um pai cuidadoso e sim com o semblante das feras perigosas.

Certa vez, tomada de medo e tristeza, a esposa teve um rompante de desespero. Agredida severamente ao tentar conter o marido que esmurrava loucamente as pedras ásperas da janela, resolveu sair da casa e procurar o alvo de toda a atenção doentia do homem. Deu a volta na propriedade imersa na escuridão e parou na frente da janela de onde ele espiava, pálido e com olhos vítreos, o inicio da floresta. O viu então erguer a mão e, com o indicador em riste, apontar para a escuridão além. Com um movimento rápido da cabeça, seguindo a orientação do companheiro, a mulher olhou. E começou a gritar.

Saindo da floresta e já a pouca distancia, vinha uma criatura correndo pelo campo na direção da casa. Uma fera negra que se arrastava pelo solo semi-encoberta por um par de asas imensas que a faziam saltitar na noite fria. Era muito alta e exalava um odor terrível de terra e carne em decomposição. Uma monstruosidade suja que se aproximava inexoravelmente.

Nada restou à mulher a não ser fechar os olhos e encolher-se sobre si mesma, ajoelhando-se com as mãos na cabeça. A coisa parou diante dela, e depois aproximou-se tanto à ponto de ouvir-lhe as preces; a hedionda respiração emitindo jatos de vapor branco em contato com o ar frio. Com a cabeça baixa, e os olhos semiserrados, a mulher viu que as patas do ser assemelhavam-se às dos pássaros; mas, escuras e ressequidas como as dos roedores, possuíam terríveis garras de águia.
Pôde também sentir o hálito fétido que brotava da boca demoníaca. E quase desfaleceu quando gotas de alguma substância pegajosa lhe caíram sobre os cabelos castanhos.

De súbito, um grito agudo ecoou do interior do quarto logo acima. A filha do casal acordara e correra para junto de seu pai. A criatura então ergueu-se e, sem aviso, mergulhou para dentro da casa através da janela.

Foi o desespero da mulher que acordou toda a vila, não os primeiros gritos, quando a intervenção alheia talvez tivesse ajudado; mas sim os últimos, quando apenas dois corpos dilacerados eram os ocupantes da fria casa de pedra.

Com tochas nas mãos e em roupas de dormir, os outros moradores de Mondelle depararam-se com a cena escabrosa do lado de dentro. Pai e filha jaziam no chão do quarto revirado. Tinham sinais de mordidas de animal por todo o corpo mas nenhum dos terríveis ferimentos vertia uma só gota de sangue.

Encontraram a esposa nos arredores da cidade, completamente insana. Enviaram-na depois para Lyniard, uma cidade maior, onde trancafiaram-na numa casa de loucos. Ali morreu, pouco tempo depois, ao tentar escapar de sua cela para fugir de algo que se esgueirava pelas paredes. Estava então acometida de uma estranha doença que lhe causava manchas pelo corpo e um terrível mal cheiro.

Quanto ao povo da vila, manteve-se em resoluto silencio. Nem uma palavra jamais foi dita a nenhum forasteiro sobre o assunto. Mas todos souberam exatamente o que ocorrera à malfadada familia do caçador. Jamais pairou a menor dúvida de que sua morte se dera ainda no interior da floresta maligna, e nem tampouco a respeito de que tipo de criatura infernal aquilo que retornara estava se tornando quando resolveu se rebelar e foi exterminado.

Mesmo sem explicar absolutamente nada a quem quer que fosse, uma muralha foi erguida nos limites de Mondelle; algo que pudesse dar esperanças aos moradores de que as feras diabólicas do bosque não mais iriam tentar intervir em suas vidas pacatas.

Houve ainda um outro motivo para a construção, às pressas, da enorme barreira de pedras e madeira; ela ocorreu logo após começarem os relatos da aparição de uma estranha mulher que parecia espreitar pelos arredores depois do entardecer.

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* LUNIS DAËMONIUM = Livro imaginário

Este conto foi escrito em meados dos anos 90. Fazia parte do romance PEGAR UM VAMPIRO VIVO, cujo projeto foi abortado há mais de dez anos. Hoje, 15/06/2009, reencontrei este trecho manuscrito em um velho caderno e o disponibilizo agora para os amigos de minha obra.



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