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31.12.08

E ASSIM FEZ-SE TREVAS













E assim, fez-se Trevas...

Marcio Renato Bordin



- Venha!!! Venha!!!

A voz sibilante repetia incessantemente.

- Venha!!! Venha!!!

Os passos inocentes da pequena Mayara seguiam curiosos o estranho chamado.

- Venha!!! Venha!!!

O grande relógio pendurado na parede indicava 3h15m da madrugada. Seus pais adotivos dormiam, sob a benção de Hipnos, atrás da maior porta do corredor. Mayara desce a grande escadaria com destino ao salão principal com certa dificuldade. Suas pequeninas pernas não alcançavam o degrau inferior, obrigando-a a se pendurar no que se encontrava, e com muito custo alcançar o degrau abaixo com as pontas dos dedos. Mas não haveria obstáculo algum que impedisse a inocente garota de seguir o causador de sua curiosidade. Algo comum n’uma criança de cinco anos.

A pequena passa despercebida por detrás do enorme sofá de couro, onde sua irmã mais velha se encontra desmaiada, devido ao consumo excessivo de álcool e haxixe, em frente ao televisor que transmite chuviscos. Mayara encontra a porta da rua entreaberta, deve ser a adolescente que retornou de seu tour pela madrugada em seu rotineiro estado calamitoso, sem condições alguma de fechá-la.

- Venha!!! Venha!!!

Mayara, caminhando como se saltitasse, braços estendidos à sua frente com as mãozinhas abrindo e fechando, divertindo-se tentando pegar a voz, atravessa a rua da cidade que nunca pára forçando os veículos que vinham em alta velocidade a frearem bruscamente. O primeiro, uma D20 prata, quase passou por cima da pequena garota, mas, felizmente, o motorista teve reflexos rápidos para girar todo o volante para sua esquerda. A menina escapou por um triz... A camioneta estava rápido demais, a freada brusca somada à guinada repentina fez com que o veiculo capotasse várias vezes em direção a uma das casas, derrubando tudo que encontrou pelo caminho, passando por cima de um enorme sofá de couro como se fosse feito de papel.

- Venha!!! Venha!!!

Um televisor em curto-circuito. Uma camionete derramando diesel. Combustão, chamas, e não demora muito, explosão. Em questão de poucos minutos o fogo passa a atacar e devorar com fúria tudo que encontra em seu caminho. Tomando em pouco tempo os dois andares da casa. A adolescente que teve a cabeça decepada pelo veículo, perdeu o grande espetáculo de Hefesto em sua nobre moradia. Seus pais , que até então adormeciam no andar superior, acordaram com o calor infernal os devorando. As paredes, em instantes, se tornaram ferventes como brasa. Uma cortina vermelha se estendeu por todos os lados do cômodo, do tapete tibetano ao forro de olmo holandês. Desesperados, a mulher grita os nomes das filhas, enquanto seu marido esmurrava a porta de madeira de teca. Escolheu uma madeira grossa para seu quarto por medo de assalto. Nunca imaginou que sua prudência seria a sua morte. Ele esmurra centenas de vezes, até sentir sua mão assar ao intenso ardor que tomara a madeira. Seus socos de nada adiantavam, e o fogo se espalhava rápido ladeando as quatro paredes do quarto. Subiram, ambos em cima da imensa cama italiana. Sentiram a pele sendo dissolvida ao aproximar das chamas. Gritavam, abraçados no centro do leito. Entre as labaredas vermelhas, amarelas e azuis, viam-se caras e bocas. Faces com bocarra aberta, demônios prontos para devorá-los ao som do fogo furioso, a sinfonia favorita de satã. Os bombeiros chegaram, como sempre, tarde demais. A casa toda fora consumida pela ira de Hefesto. A vizinhança faz silêncio pela fatalidade ocorrida, a morte trágica de um casal de advogados e suas duas jovens filhas.

- Venha!!! Venha!!!

Mayara. Todos pensavam haver morrido carbonizada junto à sua família. Caminhava sozinha. Seguindo a voz persuasiva pelas ruas escuras de uma cidade pecaminosa. Com passos desengonçados de boneca viva. Ela segue em frente. Indiferente aos casais libertinos, levianos, lascivos. Esfregando-se entrelaçados como serpentes no cio. Sem amor, sem pudor, sem vergonha. As bocas se unem ardentemente. As mãos percorrem os corpos. Caricias voluptuosa. As mãos de Réia e Afrodite acariciavam esses mortais com toques lúbricos, libidinosos, em corpos suados e desejosos. Como em rituais orgíacos de adoração às divindades gregas. Quatro casais esfregando-se. As garotas seminuas encostadas no muro, com seus homens às espremendo, tateando, revelando. Sem se importarem com a criança desacompanhada àquela hora da madrugada passeando em um lugar desprovido de decência e bons costumes. Encontram-se concentrados demais em seus hormônios heréticos. A doce Mayara, na inocência de seus 5 anos, não entendeu o que se passava entre os jovens casais. Ela riu ao ver os adultos brincarem, e continuou seguindo a voz vinda do vazio em sua frente.

A pequena se distancia. As caricias dos jovens se tornam cada vez mais ousadas, mais frenéticas. Os corpos fervem. As bocas dos rapazes percorrem os frágeis pescoços das jovens como uma dança sincronizada. Mãos penetram por dentro das calças ou por baixo das mini-saias das garotas. Os movimentos se tornam bruscos. Machucam. Elas pedem para pararem. Não são ouvidas. O desejo de possuí-las os ensurdecem. As jovens gritam, empurram, esperneiam. Mas suas vontades de nada valem agora. As investidas continuam cada vez mais violentas. Machucam os corpos. Ferem as almas. Elas gritam, gritam com toda a força de seus pulmões. Na rua, os carros passam sem que os motoristas nem ao menos virem o pescoço para olhar de onde vêm os pedidos tão desesperados de ajuda. Como se nada de anormal estivesse ocorrendo. Já se acostumaram com esses casais de viciados fazendo escândalos nesse ponto da cidade. Sem se darem conta que dessa vez, as coisas realmente estavam indo longe demais. Elas gritavam, eles riam. Elas berravam, eles gargalhavam. Elas empurravam e eles as estapeavam, esmurravam e riam. Como hienas demoníacas, eles riam. Elas, Phobos; Eles, Deimos.

Mais pelo instinto de sobrevivência do que por coragem, uma das garotas crava suas longas unhas no rosto do rapaz que a bofeteava e lhe invadia o intimo com a mão não mais desejável. Uma fúria imensurável toma os olhos deste, ao sentir seu sangue escorrer por sua face. Segura a cabeça da jovem pelo queixo, e n’um movimento ímpeto, explode o crânio da garota de encontro à parede. Um som mouco seqüenciado por um jacto de sangue, tingindo o muro de vermelho morte. Seus amigos, estranhamente apreciam o ato do rapaz, e sem se importarem com os gritos ainda mais histéricos de suas companheiras, repetem o mesmo gesto com uma violência e prazer mórbido redobrados. Os funestos amigos gargalham de modo diabólico diante aos cadáveres ainda convulsivos de suas vitimas. Abraçam-se, radiantes com o sentimento de superioridade recém-descoberto. A euforia os tornam irracionais. Três dos rapazes decidem repetir a brincadeira, escolhendo o quarto amigo como vitima. Ao invés de tentar fugir, de lutar, o carregado gargalha mais alto até o momento de seu crânio também explodir de encontro ao muro, e seu corpo entrar em funérea convulsão. Mal o recém-defunto cessou os movimentos epiléticos, seus amigos já estavam escolhendo a próxima vitima. Outro cérebro se abrindo. Outro corpo caindo em ritmo lúgubre. Restando apenas dois em pé, uma luta se inicia. Um tentando chocar a cabeça do outro de encontro ao muro tingido de morte. Lutam, se esmurram, por vários minutos sem haver um vencedor. Cansados, tomam a decisão que parecia ser a mais prudente no momento. Ambos correm e se atiram com a cabeça de encontro à parede. Caem no solo com os ferimentos jorrando sangue, e riem um do outro ao perceber o fracasso mútuo. Levantam-se rapidamente em meio às gargalhadas, tomam mais distancia do que da primeira vez, repetindo o ataque suicida. Um novo fracasso, novos risos histéricos, mais sangue escorrendo de suas mentes vazias. Agora, eles atravessam a rua cambaleantes. De uma distancia maior, usam suas poucas forças para correr de forma insana e se jogarem mais uma vez de encontro ao muro. Ambos caem em cima dos defuntos. Gargalhando, com os crânios abertos, jorrando rios de sangue, não conseguem mais levantar para uma nova investida. Ficam ali imóveis, sentido a vida lentamente esvair de seus corpos fracos.

- Venha!!! Venha!!!

Mayara atravessa a rua movimentada, os veículos desviam da pequena causando um novo acidente. Uma pequena batida de pára-choques com conseqüência muito maior. Um dos motoristas envolvidos tomado de uma ira descontrolada, sai de seu automóvel empunhando uma pistola calibre 380, e sem titubear, disparara 13 vezes de encontro ao outro motorista sem dar-lhe tempo de reação. A pequena se assusta com os disparos. Seus olhos lacrimejam, mas o choro é contido ao repetir da sinistra voz.

- Venha!!! Venha!!!

A curiosidade infantil de Mayara a fazem ignorar o medo. Ela volta à sua jornada, deixando um motorista tomado por uma ira descontrolada. O cidadão volta a carregar sua pistola e disparar contra tudo e todos. Fazendo vários defuntos, até que a última bala do pente fora projetada contra sua própria cabeça.

O chamado leva Mayara direto ao cemitério municipal. Ela adentra ao local escuro, com os olhos repletos de euforia. Seguindo até o fim do corredor, onde um homem coberto, por um manto negro e um gorro lhe cobrindo a cabeça, a espera. Tendo em sua retaguarda outras oito pessoas, com trejeitos de homens e mulheres vestidos da mesma forma do primeiro.

Mayara pára curiosa a poucos passos deste que a recebe. E o ouve falar enquanto retira o gorro, deixando amostra um crânio de caveira no local onde deveria ser sua cabeça.

- Bem vinda, Nyx, minha filha e deusa da noite. Há séculos esperamos por seu renascimento. Esses são alguns de seus filhos! Uniram-se a mim para lhe dar as boas vindas.

Com as mãos do estranho em sua cabeça, Mayara sente seu corpo sofrer uma estranha metamorfose. Envelhecendo anos em segundos. A menina se torna mulher. Asas negras surgem, esplendorosas, em suas costas. Mayara se torna Nyx, a deusa da noite. Ressurgindo de joelhos aos pés de seu pai, o Caos. Ela se levanta abrindo suas asas de azeviche, eclipsando a lua cheia. Adotando uma postura rutilante, Ela saúda com orgulho os demais presentes.

- Meus filhos! Que bom revê-los! Eu sou Nyx, a rainha da noite! E tudo que é meu, também lhes pertencem. Hoje se inicia a noite perene. Hoje as trevas se tornarão eternas. Vão e tomem o que lhes pertencem por direito. Vão...

Um a um, conforme ouve o nome ser pronunciado, descobre a cabeça, abre as enormes asas negras e alçam vôo de encontro ao céu trevoso com destino à civilização, aos pobres e insignificantes mortais.

- Éris, a discórdia; Apáte, o engano; Lissa, minha amada Lissa, deusa da loucura; Momo, o escárnio; Oizus, a miséria; Até, o erro, deus já tão conhecido pelos mortais; e por último, meus queridos gêmeos, Hipnos e Thanatos, o sono e a morte. Vão e espalhem as sementes de Caos! Vão! Vão! Vão! A luz do dia nunca mais será vista por olhos mortais!

Os deuses, filhos da noite, alçam vôo. E assim, fez-se Trevas...

23.12.08

FELIA NATAL, MILDRED!

FELIZ NATAL, MILDRED

AUTOR: ROGÉRIO SILVÉRIO DE FARIAS

321

Ilustração:Fotomontagem com imagens retiradas do site Google

FELIZ NATAL, MILDRED!

Um conto de Rogério Silvério de Farias



Somos jovens; velha é a estrada!

Frase pernambucana


É, querida Mildred, a vida não vale realmente nada, ela é efêmera, fugaz, e no final, Mildred, no final só os vermes triunfam.

Somos torturados pela passagem dos anos, envelhecemos fisicamente, mas nossas almas continuam inquietas, jovens de tanto querer e sonhar.

E o amor, Mildred? Ah, o amor!...O amor é uma vala rasa onde depositamos nossos corações pútridos, o amor nos mata vagarosamente, como um veneno lento e de efeitos devastadores e mortíferos.

É Natal, Mildred. E agora eu sou um velho, apenas um velho.

O Natal pode ser uma data terrível para um homem velho e solitário como eu. É, minha querida Mildred, o amor e a solidão acabam enlouquecendo a mente de qualquer um, ainda mais de um velho sonhador e louco como eu.

Eu não a tenho mais, Mildred, pois você se foi faz algum tempo, e me deixou aqui, com minha dor, com os achaques da velhice, na solidão fantasmagórica dos anos sombrios.

Parece que foi ontem quando nos conhecemos, em Olinda. Éramos turistas estrangeiros conhecendo as belezas de Pernambuco, no Brasil. Eu e você acabamos nos apaixonamos e por aqui ficamos.

Só que o tempo passou, Mildred. O tempo, o maldito tempo passou, acabando com tudo, acabando com nossos sonhos e esperanças. E veio então a velhice. Veio a doença. E veio a morte. E a morte levou você, Mildred. Para sempre, para sempre. Para bem longe de mim.

Recordações que me vem à mente. De um tempo de alegria a seu lado. De carinho. Compreensão. Um tempo que não volta mais, a não ser nos sonhos alucinados de um ancião enlouquecido como eu.

Sou um velho amargo que procura um sentido para a vida na morte. Um velho decrépito, bêbado. Um velho que não agüenta mais a solidão da velhice e da vida.

Daqui a pouco será Natal, Mildred. E o Natal é uma coisa horrível para quem vive só como eu.

Começa a chover. É uma garoa. O vento balança os salgueiros tristonhos. É quase meia-noite.

As pessoas estão em casa, reunidas. Mas eu, eu estou só. Um velho amargurado desprezado por todos. Um velho ranzinza e amargurado.

Preciso sair, Mildred. Preciso ir vê-la, como venho fazendo há anos, desde que você se foi, Mildred.

A noite é escura. O cemitério fica perto de casa. Levarei a lanterna. E levarei outras coisas, também.

Ninguém me verá. Aqui é uma cidade pequena, que fica perto de Olinda, em Pernambuco. Foi aqui que viemos morar, depois que nos casamos em Olinda. Ainda lembro sua frase, Mildred, sussurrada em meus ouvidos, “Eu te amo, Elliot! Viveremos felizes para sempre, aqui, neste paraíso do Brasil!”.

Nada é para sempre, Mildred. Nada.

Começo a tossir enquanto caminho rumo ao cemitério. Quando se é um velho acabado como eu, nada mais importa, Mildred. Nada.

Preciso vê-la novamente, meu amor! Oh, Mildred! A vida tornou-se um fardo insuportável sem a sua presença física ao meu lado.

O peso dos anos acaba enlouquecendo. Um velho pode ser um louco fantasma vivo, na trilha tortuosa que o leva à morte.

Este Natal eu a reencontrarei, Mildred. Meu Papai Noel será a Morte. A Morte Noel! Mas antes eu a verei, eu a verei fisicamente, mais uma vez, Mildred. Eu a verei antes de morrer para este mundo insano, Mildred.

Um velho como eu enlouquece aos poucos, na amargura de uma velhice solitária e rancorosa. Um velho como eu abraça o cadáver putrefato de sua amada retirado da tumba, na noite silenciosa e amarga. Um velho que antes de morrer, abraça a morta, Mildred, um corpo já em adiantado estado de decomposição, abraça-a como um velho necrófilo, no seu último gesto de paixão e loucura, no seu último desejo de amor, antes de morrer de velhice.

A chuva começa a aumentar. Começo a tossir enquanto começo a forçar o pé-de-cabra no jazigo. Estou doente e velho, mas ainda restam-me as derradeiras forças. E logo com a mesma ferramenta começo a abrir o túmulo. O túmulo de minha querida Mildred, morta a mais de vinte anos.

Antes de morrer para este mundo,eu a abraçarei novamente, o seu cadáver decomposto, o corpo pútrido, fétido e esquelético de meu amor, de minha querida e inesquecível Mildred, morta a mais de duas décadas!

Descansaremos em paz, Mildred! Em paz, com amor, juntos, na morte!


6.12.08

OS CÃES DE TÍNDALOS

A Câmara traz para seus apreciadores mais um grande clássico da literatura fantástica. Recentemente publicado em nosso endereço como sendo de autoria de Howard Phillips Lovecraft, fomos agora esclarecidos de que, na verdade, o autor da obra é o norte-americano Frank Belknap Long. Agradecemos ao escritor e amigo Rogério Silvério de Farias pela valiosa informação.







OS CÃES DE TÍNDALOS




Frank Belknap Long







I





- Eu estou contente que você tenha vindo - Chalmers disse.



Estava sentado próximo à janela, muito pálido. Próximo a um dos braços dele
queimavam duas velas quase derretidas que projetavam uma luz cor de âmbar
fraca no longo nariz e em seu pequeno queixo. No apartamento de Chalmers não
havia nada absolutamente moderno. O dono do apartamento tinha a alma medieval
e preferia os manuscritos iluminados aos automóveis, e as gárgulas de pedra
que os aparatos de rádio e as máquinas de calcular.



Removeu os livros e documentos que se amontoavam em um sofá e, ao atravessar
a sala para me sentar me surpreendi ao ver na mesa dele algumas fórmulas
matemáticas de um físico contemporâneo célebre junto com algumas estranhas
figuras geométricas que Chalmers tinha copiado em alguns finos papéis
amarelos.



- Surpreende-me esta coexistência de Einstein com John Dee - disse ao desviar
o olhar das equações matemáticas e descobrir os volumes estranhos que
constituíam a pequena biblioteca de meu amigo. Nas prateleiras de ébano
conviviam Plotino, Emmanuel, Mascópoulos, São Tomás de Aquino e Frenicle de
Bessy. As poltronas, a mesa, a escrivaninha estavam cobertas com livros e
folhetos sobre feitiçaria medieval e magia negra, bem como também de textos
sobre todas as coisas bonitas e audaciosas que nosso mundo moderno rejeita.
Chalmers me ofereceu sorrindo, um cigarro russo e disse:



- Nós estamos chegando à conclusão agora que os velhos alquimistas e bruxos
tinham razão em setenta cinco por cento, e os biólogos e o materialistas
modernos estão enganados em noventa por cento.



- Você sempre fez pouco da ciência de hoje em dia - disse, com uma expressão
clara de impaciência.



- Não - respondeu - eu apenas tiro um sarro com o dogmatismo dela. Eu sempre
fui um rebelde, um campeão da originalidade e das causas perdidas. Não se
sinta estranho por ter decidido rejeitar as conclusões dos biólogos
contemporâneos.



- E o que me diz de Einstein? - eu perguntei.



- Sacerdote da matemática transcendental! - murmurou com respeito. - Um
místico profundo, um explorador de reinos imensos dos quais a existência só
agora se começa a suspeitar.



- Então você não rejeita a ciência completamente.



- Claro que não! O que não me inspira confiança é o positivismo destes
últimos cinqüenta anos, tampouco as idéias de Haeckel, as de Darwin e as de
Bertrand Russell. Eu acredito que a biologia falhou lamentavelmente quando
tentou explicar a origem e o destino do homem.



- Dê a eles uma margem de tempo.



Os olhos de Chalmers faiscaram:



- Meu amigo - murmurou -, você acaba de fazer um jogo verdadeiramente sublime
de palavras. Dê a eles uma mergem de tempo. Eu daria encantado, porém
precisamente quando se fala de tempo, os modernos biólogos se lançam a rir.
Eles possuem a chave, mas se recusam a usar-lá. O que sabemos nós sobre o
tempo? Einstein considera-o relativo e acredita que se pode interpretar em
função do espaço, de um espaço curvo. Mas não é necessário ficar preso ali.
Quando as matemáticas param para nos ajudar, por acaso você não pode seguir
em frente com ajuda da... intuição?



- Esse é um terreno escorregadio. O verdadeiro investigador sempre evita cair
nessa armadilha. Por isso que a ciência moderna avança tão lentamente. Só
admite o que pode ser demonstrado. Mas você...



- Eu, sabe o que faria ? Tomaria haxixe, ópio, todas as drogas. Eu imitaria
as sábios orientais se por acaso assim eu conseguisse...



- Conseguisse o quê?



- Conhecer a quarta dimensão.



- Isso é puro teosofia, uma estupidez!



- Talvez , mas eu sou acredito que as drogas podem aumentar o alcance da
consciência humana. William James concorda com isso. Além disso, descobriram
uma nova.



- Uma droga nova?



- Foi utilizada durante séculos pelos alquimistas chineses, porém, apenas se
conhece no ocidente. Possui certas propriedades ocultas surpreendentemente
assombrosas. Graças a esta droga e a meu conhecimento matemático, acredito
que eu posso remontar o curso do tempo.



- Não entendo o que você quer dizer.



- O tempo não é nada mais que nossa imperfeita percepção de uma nova dimensão
espacial. O tempo e o movimento são outras ilusões. Tudo o que existiu desde
a origem do universo existe agora também. O que aconteceu durante milênios,
continua acontecendo em outra dimensão do espaço. O que acontecerá dentro de
milênios, acontece agora lá. Se não percebemos, é porque tampouco podemos
penetrar na dimensão espacial onde elas acontecem. os seres humanos, tal como
os conhecemos, não são apenas partes infinitesimais de um todo imenso. Cada
um de nós está unido a toda a vida que já existiu no planeta. Todos os nossos
antepassados formam parte de nós. Deles, somente o tempo nos separa, e o
tempo é uma ilusão.



- Creio que começo a compreender. - murmurei.



- Basta que tenha uma vaga idéia do assunto para que possa me ajudar. O que
quero é arrancar de meus olhos o véu da ilusão que os cobre e ver o princípio
e o fim.



- E você acredita que esta droga nova serviria para algo?



- Estou convencido disto. E desejo que me ajude. Eu quero tomá-la
imediatamente. Eu não posso esperar. Eu tenho que ver - seus olhos lançaram
vislumbres estranhos. - eu viajarei pelo tempo. Eu voltarei no tempo.



Chalmers se levantou e pegou de cima da chaminé uma caixa quadrada.



- Aqui eu tenho cinco grânulos da droga Liao. Era usado pelo filósofo chinês
Lao-Tse e, e Tao. Tao é a força mais misteriosa no mundo. Cerca e penetra
todas as coisas e contém dentro sim a totalidade do universo visível e tudo
aquilo nós denominamos realidade. O que pode contemplar o mistério do Tao
saberá que tudo aquilo era e tudo aquilo será.



- Fantasias -comentei.



- Tao é como um enorme animal reclinado e imóvel que contém em si todos os
mundos, o passado, o presente e o futuro. Através de uma fissura que chamamos
de tempo, percebemos setores desse monstro terrível. Com a ajuda dessa droga
vou aumentar essa fissura. Desse modo, contemplarei a verdadeira face da
vida; verei a besta inteira, imensa e escondida.



- E qual será a minha missão?



- Escutar, meu amigo. Escutar e anotar o que irá escutar. E se eu ficar tempo
demais no passado, você deve me sacudir violentamente, para trazer-me de
volta a realidade. Se notar que estou sofrendo danos físicos intensos, deve
fazer-me regressar imediatamente.



- Chalmers -disse-, não estou gostando disso. Você vai correr um risco
terrível. Não acho que exista uma quarta dimensão, muito menos o Tao.
Tampouco aprovo o uso de drogas desconhecidas.



- Para mim não é desconhecida - afirmou. - Conheço seu efeito sobre o homem e
também seus perigos. A droga em si não é perigosa. Meu único medo é perder-me
no abismo do tempo, porque você deve saber que é minha intenção colaborar
ativamente com a droga. Antes de tomá-la, me concentrarei nos símbolos
geométricos e algébricos que estão desenhados neste papel -me mostrou o
diagrama que tinha sobre os joelhos- e assim prepararei meu espírito para a
viagem transtemporal. Primeiro me aproximarei o máximo possível da quarta
dimensão apenas com a força de meu próprio ego, e então tomarei a droga que
me dará o poder oculto da percepção. Antes de penetrar no mundo onírico do
misticismo oriental terei toda a ajuda matemática que a ciência pode me
oferecer. A droga abrirá as portas da percepção e as matemáticas me
permitirão compreender intelectualmente o que estiver atrás de tais portas.
Meus conhecimentos matemáticos e minha aproximação consciente com a quarta
dimensão completarão a ação da droga. Em meus sonhos já consegui muitas vezes
captar a quarta dimensão na forma intuitiva e emocional, mas em estado de
vigília eu nunca era capaz de me recordar do esplendor oculto que me era
revelado momentaneamente em sonhos. Eu acredito, porém, que com sua ajuda,
desta vez eu poderei. Você anotará tudo o que eu disser enquanto estiver em
transe, por mais estranho e incoerente que lhe pareça. Ao regressar, espero
poder elucidar-lhe tudo que você não tenha entendido. Não estou seguro de que
terei êxito, mas, se eu tiver -um brilho estranho apareceu em seus olhos-, o
tempo não mais existirá para mim.



Então, sentou.



- Vou fazer o experimento agora mesmo. Sente, por favor, junto da janela, e
não deixe de me vigiar. Tem pena?



Concordei secamente e peguei minha pena Waterman verde claro do bolso
superior de minha jaqueta.



- E trouxe algo onde possa escrever, Frank?



De má vontade, peguei uma agenda.



- Continuo energicamente não aprovando esse experimento - grunhi. - Vai
correr um risco terrível.



- Não seja criança! -balançou o dedo para mim-. Estou decidido a fazê-lo
apesar de tudo o que você disse, e a fazê-lo agora mesmo. Por favor, faça
silêncio enquanto medito sobre esses diagramas.



Pôs os desenhos a sua frente e se concentrou intesamente neles. Em silêncio,
ouvia como o relógio avançando segundo a segundo. Uma angústia indefinida
comprimia meu peito.



De repente, o relógio parou. Nesse momento, Chalmers colocou a droga na boca
e a tragou.



Rapidamente me aproximei dele, mas com o olhar me advertiu para que não o
interrompesse.



- O relógio parou -murmurou-. As forças que o governam aprovam meu
experimento. O tempo parou e eu tomei a droga. Meu Deus, faça com que eu não
me perca!



Fechou os olho e se ajeitou no sofá. Seu rosto estava pálido e respirava com
dificuldade. - Começam as trevas - murmurou. - Anote. Tudo está ficando escuro e estão
sumindo os objetos familiares do apartamento. Ainda os vejo, porém borrados.
E estão sumindo rapidamente.



Sacudi a pluma, pois a tinta falhava, e segui tomando nota velozmente.
- Abandono o apartamento. As paredes se dissolvem como névoa. Não vejo nenhum
objeto, mas posso ver sua cara. Suponho que esteja escrevendo. Creio que
estou a ponto de dar um grande salto através do espaço, e talvez do tempo.
Tudo é confuso, incerto.



Permaneceu em silêncio algum tempo, com o queixo apoiado no peito. De
repente, ficou rígido e abriu os olhos.



- Meu Deus! - exclamou. - Vejo.



Achava-se todo contraído, tenso, mirando firmemente a parede que havia a sua
frente. Porém eu sabia que seu olhar atravessava-a e que os objetos do
apartamento não existiam para ele.



- Chalmers! Chalmers! Acordo-o?



- De modo algum! - uivou. - Vejo tudo! Ante mim vejo os bilhões de anos que
me precederam neste planeta. Vejo homens de todas as épocas, de todas as
raças, de todas as cores. Lutam, se matam, constróem, dança, cantam. Sentamse
em torno da fogueira primitiva, em desertos frios, e tencionam elevar-se
no ar a bordo de aviões. Cruzam os mares em toscos barcos de troncos e
enormes barcos a vapor. Pintam bisões e elefantes nas paredes de grutas
lúgubres e cobrem tecidos enormes com formas e cores do futuro. vejo os
emigrantes procedentes de Atlântida e Lemuria. Vejo as raçãs ancestrais: os
anões negros que invadem a Ásia e os homens de Neanderthal, de cabeça
inclinada e pernas tortas, que se espalham pela Europa. Vejos os aqueos
colonizando as ilhas gregas e contemplo as primeiras noções da nascente
cultura helênica. Estou em Atenas e Péricles é jovem. Encontro-me em terra
italiana. Participo do rapto das sabinas. Caminho com as legiões imperiais.
Tremo de respeito e de pavor quando brilham os gigantescos estandartes e o
solo trepida sob o passo dos vitoriosos. Conduzo uma litera de ouro e marfim
arrastada por negros touros de Tebas, e ante mim ajoelham-se mil escravos e
as mulheres, cobertas de flores, exclamam: Ave César!. Eu sorrio para eles e
súdo a multidão. Sou escravo numa galera. Vejo como, pedra por pedra, se
levanta uma catedral. Contemplo durante meses, durante anos, como vão
colocando em seu sítio cada uma de suas capelas. Estou crucificado, cabeça
para baixo, nos perfumados jardins de Nero, e vejo, com ironia e desprezo,
como funcionam as câmaras de tortura e da Inquisição. É um espetáculo
divertido!



- Penetro nos mais sagrados santuários. Entro no Templo de Vênus. Ajoelho-me,
em adoração, ante a Magna Mater e arremesso moedas ao seio das postitutas
sagradas que, com o rosto oculto, esperam nos Jardims da Babilônia. Penetro
em um teatro inglês da época isabelina e, no meio de uma multidão fedorenta,
aplaudo O Mercador de Veneza. Passeio com Dante pelas estreitas ruelas de
Florença. Enquanto admiro, extasiado, à jovem Beatriz, seu vestido roça em
minhas sandálias. Sou sacerdote de Ísis e meus poderes mágicos assombram o
mundo. Aos meus pés se ajoelha Simon Mago, implorando minha ajuda, e o Faraó
treme ante minha presença. Na Índia, falo com os Maestros e fico horrorizado,
pois suas revelações são como sal em uma ferida sangrando. Percebo tudo
simultaneamente. Percebo tudo de uma vez e a partir de todos os ângulos
possíveis. Tomo parte de todas as bilhões de vida que me precederam. Existo
em todos os seres humanos e todos os seres humanos existem em mim. Em um
instante, vejo toda a história do homem, o passado e o presente.



- Mediante um pequeno esforço, sou capaz de contemplar passados cada vez mais
longínquos. Agora me remonto em direção da própria origem, através de curvas
e ângulos estranhos. Ao meu redor se multiplicam os ângulos e curvas. Há
grandes setores de tempo que percebo através de curvas. Existe um tempo curvo
e um tempo angular. Os moradores do tempo curvo não podem penetrar no tempo
angular. tudo é muito estranho.



- Sigo retrocedendo cada vez mais. Da Terra, os homens já desapareceram. Vejo
répteis gigantescos escondidos sob enormes palmeiras e nadando em pútridas
águas negras. Os répteis desapareceram. Não há mais animais na terra, porém
vejo perfeitamente sob as águas formas sombrias que se movem lentamente entre as algas.
- As formas que vejo são cada vez mais simples. Agora os únicos seres vivos
são células. Ao meu redor, há cada vez mais ângulos, ângulos totalmente
alheios à geometria humana. Tenho um medo horrível. Na criação existem
abismos nos quais o homem nunca penetrou.



Segui sem perdê-lo de vista. Chalmers havia se levantado e gesticulava como
se pedisse ajuda. Então falou:



- Atravesso ângulos alheios ao espaço terrestre. Aproximo-me do horror
supremo.



- Chalmers! - exclamei. - Quer que eu intervenha?
Ele levou a mão ao rosto, como que para não ver uma visão incrivelmente
espantosa. Porém, disse com dificuldade:



- De forma alguma! Quero seguir adiante... Quero ver... o que há... ainda
mais além...



Sua testa estava coberta de suor frio e movia os ombros de modo espasmódico.
Seu rosto aterrorizado estava cinza.



- Além da vida existem coisas que não consigo distinguir. Porém se movem
lentamente através de ângulos alucinantes.



Nesse momento, percebi pela primeira vez no apartamento um odor bestial e
indescritível, nauseabundo, insuportável. Fui até a janela e a abri
completamente. Quando voltei para o lado de Chalmers e vi sua expressão,
estive a ponto de desmaiar.



- Farejaram-me! - soltou um gemido - Lentamente dão a volta em minha direção.
Todo o seu corpo tremia horrivelmente. Durante um momento agitou os braços no
ar, como se buscando um algo para se proteger, e logo suas pernas cederam.
Caiu no chão, onde permaneceu de bruços, soluçando e gemendo.



Em silêncio, contemplei como se arrastava no chão. Naqueles momentos, meu
amigo não era um ser humano. Rangia os dentes e nos cantos da boca, formou-se
uma espuma branca.



- Chalmers! - gritei. - Chalmers! Basta! Basta, ouviu?



Como que em resposta à minha chamada, começou a emitir uns sons roucos e
convulsivos, semelhantes a latidos, a caminhar em círculo de quatro pelo
chão. Inclinei-me e agarrei-o pelos ombros. Sacudi-o violentamente,
desesperadamente, e ele tentou morder-me o pulso. Sentia-me horrorizado, mas
não soltei-o, pois temia que destruísse a si mesmo em um acesso de raiva.



- Chalmers! - murmurei. - Basta. Está em seu apartamento. Nada de mal pode
acometê-lo. Compreende?



Sacudí-lo e falar com ele surtiu efeito, e a expressão de loucura foi
desaparecendo de seu rosto. Tremendo e convulsionando, desabou como um
grotesco monte de carneno centro do tapete chinês.



Ajudei-o a caminhar até o sofá e a deitar-se nele. Seu rosto estava contraído
de dor e me dei conta de que seguia lutando contra recordações espantosas.
- Whisky - murmurou. - Está ali, na estante junto à janela, na gaveta
superior da esquerda.



Quando dei-lhe a garrafa, segurou-a com tanta força que seus dedos ficaram
brancos.



- Quase me agarram. disse entrecortadamente.
Bebia à grandes tragos irregulares e pouco a pouco sua face foi deixando a
brancura.
- Essa droga - eu disse. - é o diabo em pessoa.



- Não era a droga - gemeu.



Seu semblante não era de louco. Agora dava a impressão de um profundo
desalento.



- Farejaram-me através do tempo - sussurrou.



- Como eram? - perguntei para mantê-lo falando.



Inclinou-se em minha direção e agarrou-me o braço com força. Outra vez foi
dominado por horríveis tremores.



- Não há palavras para descrevê-los. - murmurou asperamente. Foram vagamente
simbolizados no Mito da Queda e de certa forma obscena que às vezes aparece
gravada em algumas tabuletas arcaicas. Os gregos davam-lhes um nome que
ocultava a impureza essencial desses seres. A maçã, a árvore e a serpente são
símbolos do mistério mais atroz.



Aos poucos, sua voz tornou-se um uivo:



- Frank! Frank! No começo consumou-se um ato terrível e imencionável! Antes
do tempo, o ato, e depois do ato...



Começou a andar histericamente pelo apartamento.



- As conseqüências do ato se movem através dos ângulos nas obscuras voltas do
tempo. Têm fome e sede!



- Chalmers - tentei racionalizar - , estamos na terceira década do século XX!
Porém, ele seguiu gritando:



- Têm fome e sede! Os Cães de Tíndalos!



- Chalmers, quer que eu chame um médico ?



- Nenhum médico pode me ajudar. São horrores da alma e, contudo - ocultou a
cara entre as mãos-, são reais, Frank. Vi-os durante um momento horrível.
Durante um instante cheguei a estar do outro lado. Encontrei-me em uma
ribeira lividez, além do tempo e do espaço. Havia uma espantosa luz que não
era luz e um silêncio cheio de uivos, e ali eu os vi. Em seus corpos débeis e
famintos se concentra todo o mal do universo. Na realidade, não estou seguro
de que tiveram corpo: só os vi por um instante. Porém, ouviram-me respirar.
Durante um momento indescritível senti seu alento em minha cara. Viraram-se
em minha direção e fugi gritando. Em um único instante fugi através de
milhões de séculos.



Porém me farejaram. Os homens despertam neles uma fome cósmica. Fazemo-os
escaparem momentaeamente da aura impura que os rodeia. Tem sede de tudo o que
há de puro em nós, de tudo o que emergiu imaculado naquele ato. Em nós há
elementos que não participaram do ato e eles os aborrecem. Porém não imagine
que são literalmente maus. No plano onde habitam não existe o bem e o mal
como nós os concebemos. São o que, no princípio permaneceram desprovidos de
pureza para sempre. Ao cometer o ato, se converteram em corpos de more, um
receptáculo de toda impureza. Porém não são maus no sentido que nós damos a
esta palavra, porque nas esferas em que se movem não exise pensamento, nem
moral, nem bom, nem mau. Ali só existe o puro e o impuro. O impuro se
expressa em ângulos; o puro em curvas. O homem, ou melhor dizendo, o que há
de puro nele, procede do curvo. Não ria. Falo completamente sério.



Levantei-me para ir embora. Enquanto ia para a porta, disse:



- Você me dá muita pena, Chalmers. Porém não estou disposto a ouví-lo
delirar. Enviarei-o ao meu médico. É um homem de idade, muito compreensivo, e
não se ofenderá a menos que você o mande para o diabo. Porém confio que
seguirá as indicações que ele lhe der. Se você passar uma semana descansando
em um sanatório, verá que vai se sentir bem melhor.



Enquanto descia as escadas, ainda pude ouvir-lhe. Era uma risada tão
desprovida de alegria que me fez chorar.





II





Quando Chalmers me telefonou na manhã seguinte, meu primeiro impulso foi o de
desligar imediatamente. Pedia-me para fazer algo tão insólito, e tão
anormalmente alterada estava sua voz que duvidaria de meu prórprio bom-senso
se continuasse esse assunto. Mas não pude deixar de perceber a sinceridade de
sua angústia, e quando sua voz falhou e ele começou a chorar, eu decidi
atender a seu pedido.



- De acordo - disse eu -vou agora mesmo e levo o gesso. A caminho da casa de
Chalmers, eu parei numa loja de materiais comprei dez quilos de gesso. Ao
entrar no quarto de meu amigo, eu o vi escondido junto à janela, olhando de
frente para a parede, com os olhos enfebrecidos de terror. Quando me viu
entrar, se levantou e agarrou o pacote de gesso com uma avidez que me deixou
assustado. Tinha tirado toda a mobília do apartamento, que agora apresentava
um aspecto absolutamente desolado.



- Nós ainda podemos nos salvar! - ele exclamou. - Mas temos que agir
depressa, Frank, há uma escada no vestíbulo, traga-a imediatamente. E traga
também um balde d'água.



- Por qual razão? - murmurei atônito. Ele virou-se vivamente para mim, e pude
ver um raio de ira em seus olhos.



- Por qual razão você acha, tolo? Fazer a massa com o gesso! - ele gritou,
fora de si. - Para fazer a massa que salvará nosso corpo e nossa alma de uma
contaminação indizível. Para fazer a massa que salvará o mundo de um
perigo...Frank, temos que fechar as portas!



- Para quem? - eu perguntei.



- Para os Cães de Tíndalos! - ele exclamou. - Eles só podem chegar até nós
através dos ângulos. Eliminemos todos os ângulos do apartamento! Eu porei
gesso em todos os ângulos, em todos os cantos, em todas as fissuras. Ficará
como o interior de uma esfera!



Teria sido inútil discutir com ele. Eu levei-lhe a escada, Chalmers misturou
o gesso com a água e trabalhamos durante três horas. Nós cobrimos os quatro
cantos da parede, e também as interseções dela com o chão e o teto.



Finalmente, nós arredondamos os ângulos duros da janela.



- Agora, ficarei aqui até eles irem embora. - disse Chalmers quando
terminamos a tarefa. Ao perceber que o cheiro que seguem força-os a cruzar
curvas, eles irão embora. Irão embora famintos, frustrados, insatisfeitos ao
plano de impureza de onde vieram, anterior ao tempo e além do espaço.
Sorriu afavalmente e acendeu um cigarro.



- Agradeço-lhe muito por ter vindo.



- Ainda não quer ir a um médico? - perguntei.



- Talvez amanhã - respondeu. - Agora tenho que vigiar e esperar.



- Esperar o que? - indaguei.



Chalmers sorriu debilmente.



- Você acredita que estou louco - disse -; compreendo perfeitamente. És
inteligente, porém, também, és muito prosaico e não pode conceber a
existência de nenhuma entidade independente de toda energia e de toda
matéria. Porém, meu querido amigo, já lhe ocorreu pensar alguma vez que a
energia e a matéria são as barreiras que o tempo e o espaço impõem a nossa
percepção? Sabendo, como eu sei, que o tempo e o espaço são o mesmo e que são
enganosos porque ambos não passam de manifestações imperfeitas de uma
realidade superior, não tem sentido buscar no mundo visível nenhuma
explicação do mistério e do terror do ser.



Levantei-me e fui em direção da porta.



- Perdoe-me - exclamou. - Não quis ofendê-lo. Tens uma grande inteligência,
mas não tem uma inteligência sobrehumana. É natural que você seja consciente
de suas limitações.



- Telefone-me se precisar - disse e desci a escada de dois em dois. - Agora
sim que o mando a meu médico - disse a mim mesmo. - Está totalmente louco e
sabe Deus o que pode acontecer se ninguém ocupar-se dele.





III





Resumo de dois artigos publicados na Gazeta de Patridgeville de 3 1928 de
julho:



TREMOR DE TERRA NO CENTRO DA CIDADE



As duas da madrugada de hoje, um terremoto violento fez tremer os bairros
centrais da cidade, quebrando várias janelas em Central Square e causando
danos sérios na rede elétrica e nas instalações do metrô. Nos bairros
periféricos, o terremoto também foi sentido, resultando na completa
destruição do campanário do baptista de igreja de Angell Hill que tinha sido
projetada por Christopher Wren em 1717. Os bombeiros lutam para apagar o fogo
que foi deflagrado nos navios da fábrica de pneus. O prefeito prometeu abrir
uma investigação para determinar responsabilidades se existirem.



ESCRITOR OCULTISTA ASSASSINADO POR VISITANTE DESCONHECIDO



Crime horrível em Central Square



Um mistério impenetrável envolve a morte de Halpin Chalmers
Às nove horas do dia de hoje foi achado o corpo sem vida de Halpin Chalmers,
escritor e periodicista, em um apartamento vazio em cima da joalheria
Smithwich & Isaacs, no número 24 de Central Square. A investigação judicial
mostrou que esse apartamento havia sido alugado pelo Sr.Chalmers no último
dia 1 de maio e que ele próprio havia trazido a mobília, há quinze dias. O
senhor Chalmers escreveu diversos livros sobre ocultismo. Era membro da
Associação Bibliográfica e anteriormente havia residido no Brooklyn, em Nova
York.



Às sete horas da manhã, o senhor L. E. Hancock, inquilino do apartamento
situado na frente do de Chalmers no edifício de Smithwich & Isaacs, sentiu um
odor estranho ao abrir a porta para deixar seu gato entrar e pegar sua edição
matinal da Gazeta de Patridgeville. O odor, segundo afirma, era extremamente
pungente e enjoativo, e tão intenso perto da porta de Chalmers que teve que
tapar o nariz quando se aproximou dela.



Estava a ponto de regressar ao seu apartamnto quando lhe ocorreu que o cheiro
poderia significar que Chalmers podia ter esquecido de fechar o gás em sua
cozinha. Alarmado com essa possibilidade, decidiu investigar o que tinha
acontecido, e, como ninguém respondia aos seus chamados de dentro do
apartamento, ele chamou o zelador do edifício. Este último abriu a porta com
uma chave mestra, e ambos adentraram no apartamento de Chalmers. A habitação
estava totalmente desprovida de mobiliário, e Hancock assegurou que, ao ver o
que havia no chão, sentiu-se enjoado, de modo que ele e o zelador ficaram um
tempo na janela, sem olhar para trás.



Chalmers jazia deitado de barriga para cima no centro do apartamento. Estava
completamente nu e tinha o peito e os braços cobertos com uma substância
gelatinosa azulada. A cabeça, que tinha sido separada do corpo, repousava
sobre o peito e suas feições estavam horrivelmente retorcidas e mutiladas.
Não havia sinal de sangue.



O apartamento apresentava um aspecto insólito. Todas as arestas haviam sido
cobertas com gesso, que em algumas partes havia se rachado, e em outras,
desprendido. Os fragmentos de gesso caídos haviam sido agrupados juntos do
cadáver, formando um triângulo perfeito. Junto do corpo encontrvam-se várias
folhas de papel amarelo quase inteiramente consumidas pelo fogo. Neles
estavam desenhados vários símbolos fantásticos e estranhas figuras
geométricas e podia-se ler diversas frases escritas apressadamente. Essas
frases contudo, são tão absurdas que não proporcionaram a menor pista sobre o
possível autor do crime. Aqui estão algumas das frases: "Vigio e espero.
Estou sentado junto da janela e vigio as paredes e o teto. Não creio que
cheguem até aqui, mas devo ter cuidado com os Doels, que talvez os ajudem a
passar. Também os ajudariam os sátiros e eles podem avançar pelos círculos
roxos. Os gregos sabiam como impedí-los. É lamentável que tenhamos esquecido
tantas coisas..."



Em outro papel, no mais queimado dos sete ou oito fragmentos recolhidos pelo
Sargento Detetive Douglas (da Polícia de Patridgeville), estava rabiscado o
seguinte: "O gesso está caindo! Houve uma vibração terrível. Um terremoto,
parece! Não podia prevê-lo. A luz vai acabar. Telefonar pra Frank. Ele
chegará a tempo? Devo tentar. Recitarei a fórmula de Einstein. Estão
passando! Conseguiram atravessar! Da fumaça nos cantos das paredes saem suas
línguas."



Na opinião do Sargento Detetive Douglas, Chalmers morreu envenenado por algum
produto químico desconhecido. A polícia enviou amostras da estranha
substância gelatinosa azul que cobria o corpo de Chalmers para o Laboratório
Químico de Patridgeville e confia que o relatório dos cientistas jogará
alguma luz sobre este crime, o mais misterioso dos últimos anos. Sabe-se que
Chalmers teve uma visita na noite anterior ao terremoto, pois seu vizinho
ouviu, ao passar pela porta de Chalmers, inconfundível barulho de
conversação. O principal suspeito é esse visitante desconhecido, cuja
identidade a polícia se esforça para descobrir.



IV


Informe do doutor James Morton, químico e bacteriologista:



"Senhor juiz: a substância semilíquida que o senhor me mandou para estudos é
a mais estranha que eu já vi na vida. Apresenta certas analogias com
protoplasma, porém não se encontra nela nenhum indício de enzimas. As enzimas
são catalisadores das reações químicas que ocorrem dentro da célula viva.
Quando as células morrem, as enzimas as desentegram mediante hidrólise. Sem
enzimas, o protoplasma possuiria uma vitalidade praticamente infinita, ou
seja, seria imortal. As enzimas, por assim dizer, são os elementos negativos
do organismo unicelular, que constitui a base da vida, e, na opinião dos
biólogos, sem elas não pode existir matéria viva. E, entretanto, tais corpos
indispensáveis se fazem ausentes da sustância gelatinosa que o senhor me
enviou. O senhor compreende o significado que essa descoberta pode ter para a
ciência?"



V


Fragmento de um manuscrito intitulado "Os que velam em silêncio", original do
falecido Halpin Chalmers:



"E se existisse outra forma de vida, paralela a que conhecemos, mas sem os
elementos que destróem a nossa? E se em outra dimensão existe uma força
diferente da que gera nossa vida? E se essa força emite uma energia, que,
procedente de sua dimensão desconhecida, consegue alcançar nosso espaço-tempo
e criar uma nova forma de vida celular? Decerto que não se pode demostrar que
tal forma nova de vida existia em nosso universo, mas eu vi suas
manifestações e falei com elas. De noite, em meu apartamento, falei com os
Doels. E em meus sonhos, eu contemplei seu criador. Eu vi isto em regiões
distantes, além do tempo e da matéria. Move-se através de curvas estranhas e
ângulos alucinantes. Algum dia viajarei no tempo e ficarei cara a cara com
ele."

29.11.08

O DEGHAMMON (Primeira parte)

Este é um dos vários contos do escritor Henry Evaristo que jazem inacabados. Este ano a terceira e última parte deste trabalho deveria ter sido publicada entre setembro e outubro mas até o presente momento não foi possível ao autor finalizá-la a contento. No entanto, considerando o bom número de apreciadores da idéia central da obra, em grande parte difundida nos meios internéticos pelo escritor Rogério Silvério de Farias (fã confesso da entidade sobrenatural das colinas de Hazsdan), resolvemos publicar as duas partes existentes numa tentantiva de contribuir para despertar no escritor o ânimo para que ele nos entregue o quanto antes a finalização do trabalho. Boa leitura!










O DEGHAMMON


(Primeira parte)

Um conto de Henry Evaristo

Em uma região isolada do mundo, onde a presença do homem ainda hoje é inusitada e efêmera, há uma estrada que leva aos pés de uma montanha íngreme e gelada; Lá, pára abruptamente como se impedida de avançar por alguma força avassaladora que a transforma radicalmente em um pequeno caminho incrustado na pedra que vai subindo até se perder na altura imensurável.

Ao redor desta montanha estende-se, como um oceano misterioso e inescrutável, um profundo bosque de pinheiros cujas copas estão constantemente recobertas por uma espessa camada de neve. Uma e outra, montanha e estrada, dormem solitárias em seu mundo gelado e não recebem nem gostam de receber visitas. O bosque silencioso e escuro é sua única companhia e o ballet das folhas e dos galhos dos pinheiros, açoitados pelo vento cortante, é o único movimento aceitável. Chuvas constantes mantêm a atmosfera úmida, mas a lama que se forma está sempre imaculada por que não há nenhuma vida animal que lhe possa imprimir marcas. Em silêncio e mantendo-se escondida, no entanto, há ali uma força indescritível e malévola.

Homens estranhos, vindos de algum lugar para além da montanha e dados a uma cultura de sortilégios e outras práticas mágicas, construíram a estrada há milênios, pois precisavam dela para transitar com suas mercadorias escusas. Mas a mudança das eras e a chegada de um inimigo terrível os fizeram desaparecer da região para sempre a deixando abandonada e só pelos séculos vindouros. Antes, porém, um terrível conflito se deu neste lugar e o sangue jorrou abundante pelas matas e colinas alcantiladas emprestando a tudo um odor de mal-agouro; um presságio de eras malditas banhado nos fluidos de antigos conjuradores. Não houve sequer uma alma para se salvar da violência daqueles dias e, exauridas as vontades e as vidas, com o declínio do bem, o bosque mergulhou no mais profundo esquecimento. O inimigo, vencedor incólume, descansou e esqueceu-se de si mesmo perdendo-se depois no tempo tal qual o urso pardo que ali hibernava em outras épocas quando o sol ainda não se tornara tão cinzento.E o oponente devorador ficou tão quieto que o próprio mundo se esqueceu dele.

Então a floresta se calou, e assim também a estrada e a montanha; e o silêncio, tão comum e repetitivo, passados mil anos, tornou-se a única verdade conhecida.

No entanto, na noite do primeiro milênio, a consciência coletiva do bosque, da estrada, dos pinheiros e da montanha percebeu uma alteração em suas verdades. Uma outra inteligência, conhecida de velhas eras, começou a se esgueirar pelos ermos, escondendo-se por trás das árvores na neblina, errando aqui e ali, perscrutando o ambiente. Uma força irresistível emanava daquela nova presença e toda a existência da região se abalou.

Diante da ameaça, a consciência do bosque, da estrada, dos pinheiros e da montanha sentiu-se impelida a reagir. De tudo tentou para dominar a vontade alienígena, mas estava impotente frente ao poder indescritível; aturdida com tão grande afronta a sua soberania. Ventanias vieram; nevascas, tremores de terra, mas nada foi capaz de afugentar a entidade obscura que tentava se apossar de tudo.

O tempo passou. Impotente, a consciência do bosque, da floresta, da estrada e da montanha aceitou a autoridade de um poder maior que o seu e um silêncio angustiado se fez onde antes havia uma calma milenar. O inimigo dos homens de outrora estava de volta.

Na primeira madrugada do século XXI todo o existir daquele lugar antigo encolheu-se e resignou-se a dar passagem a uma aberração que estava solta no mundo e os moradores da cidade mais próxima, a mil quilômetros de distância, inquietaram-se com os gritos pavorosos emitidos pelos animais da região. No momento em que o horror saltou dos confins do bosque para o meio da estrada escura todos os cães uivaram num lamento que congelou o sangue nas veias de quem ouviu. Os ânimos se acirraram e antigas contendas, há muito sufocadas, vieram à tona e foram às vias de fato. Ataques violentos tomaram conta da noite da cidade e, nos hospitais, doentes terminais e depressivos deram cabo da própria vida. À polícia, impotente e despreparada, coube a tarefa de tentar conter as ondas de ódio súbito que congestionavam a linha de chamadas de emergências enquanto, nos hospícios, lunáticos dilaceravam, à dentadas, as veias dos próprios pulsos.

No meio da estrada solitária dois olhos de um vermelho-sangue prateado reluziram nas trevas enquanto um corpo imenso e negro erguia-se nas patas traseiras e começava a caminhar lentamente em direção à cidade. Seu intuito era alcançar regiões um pouco mais movimentadas, pois, definitivamente, seu período de ócio terminara. Ainda que, para um alívio a muito ansiado, o hóspede que foram obrigados a aceitar os estivesse abandonando, o bosque, os pinheiros, a montanha e a própria estrada sentiram uma imensa tristeza por saber que ele estava agora indo novamente espalhar maldades entre os homens.

18.11.08

AS ABOMINAÇÕES DE YONDO

A Câmara dos Tormentos apresenta mais um grande clássico da literatura fantástica. Do mestre Clark Ashton Smith, numa tradução primorosa de Renato Sutana, feita pela primeira vez no Brasil por sugestão do moderador da Câmara, historiador e escritor Henry Evaristo, nos chegam das vastidões do além-mundo, AS ABOMINAÇÕES DE YONDO. Boa leitura!





As abominações de Yondo

Clark Ashton Smith




A areia do deserto de Yondo não é como a areia de outros desertos, pois Yondo é aquele que está mais próximo dos extremos do mundo; e estranhos ventos, provenientes de um golfo que nenhum astrônomo jamais sondou, esparramaram sobre os seus campos devastados a poeira cinzenta de planetas corroídos, as cinzas negras de sóis extintos. As montanhas escuras e ovaladas que se elevam de sua superfície escavada, rugosa, não lhe pertencem de todo, pois algumas são asteróides caídos, meio sepultos na areia abismal. Algumas coisas vieram rastejando dos espaços inferiores, nos quais os deuses de todas as terras decentes e bem ordenadas proíbem incursionar; mas não existem tais deuses em Yondo, onde vivem os gênios vetustos de estrelas abolidas e demônios decrépitos que perderam o lar com a destruição de infernos antiquados.

Foi no entardecer de um dia de primavera que emergi daquela interminável floresta de cactos na qual os inquisidores de Ong me haviam abandonado, e vi aos meus pés os começos cinzentos de Yondo. Repito: foi no entardecer de um dia primaveril; mas naquela mata fantástica eu não encontrara o menor indício ou lembrança de primavera; e as elevações inchadas, fulvas, mortiças e meio podres através das quais eu abrira caminho não eram como os outros cactos; antes, exibiam formas tão abomináveis que mal se poderia descrever. O próprio ar pesava com os odores estagnados da decadência; e liquens leprosos manchavam com freqüência cada vez maior o solo negro e a vegetação castanho-vermelha. Víboras verde-claras erguiam suas cabeças de cactos prostrados e me observavam com olhos de um brilho ocre, destituídos de pupilas ou pálpebras. Essas coisas me inquietaram durante horas; e desgostaram-me os fungos monstruosos, dotados de apêndices descoloridos e cabeças infirmes, de repulsiva cor malva, que brotavam dos lábios úmidos de fétidos poços; e as ondulações sinistras que surgiam e desapareciam sobre a água amarela quando me aproximei não pareciam encorajadoras para alguém cujos nervos ainda estavam tensos de indizíveis torturas. Então, quando até mesmo os cactos manchados e doentios se tornaram escassos ou nanicos, e veios de areia cinzenta serpenteavam entre eles, comecei a suspeitar de quão enorme fora o ódio que minha heresia despertou entre os sacerdotes de Ong e fiz idéia da extrema malignidade de sua vingança.

Não entrarei em detalhes quanto às indiscrições que me levaram – um desprevenido estrangeiro de terras distantes – de encontro ao poder desses mágicos e mistagogos temíveis, que servem a Ong, o que tem cabeça de leão. É doloroso recordar essas indiscrições e os pormenores de meu aprisionamento; e aquilo que menos quero lembrar são os estiradores de tripa de dragão cobertos com pó de diamante onde os homens são estendidos nus, ou aquele cômodo escuro, com janelas de seis polegadas junto ao chão por onde vermes gordos entravam às centenas, vindos de uma catacumba próxima. Basta dizer que, após terem gasto os recursos de sua medonha fantasia, meus inquisidores me trouxeram vendado, em lombo de camelo, durante horas incontáveis, para abandonar-me ao primeiro clarão da aurora naquela floresta sinistra. Estava livre, disseram-me, para ir aonde quisesse; e, como prova da clemência de Ong, deram-me uma côdea de pão áspero e uma garrafa de couro contendo água intragável, à guisa de provisão. Foi na tarde daquele mesmo dia que alcancei o deserto de Yondo.

Até então, eu não pensara em retornar, não obstante os terrores desses cactos apodrecidos ou as coisas malignas que viviam entre eles. Agora, parei, conhecendo as lendas abomináveis da terra para a qual viera, pois Yondo é um lugar aonde apenas uns poucos tinham ido de sã consciência e por vontade própria. Menos numerosos ainda foram os que retornaram – balbuciando acerca de horrores desconhecidos e estranhos tesouros; e a eterna paralisia que faz tremer os seus membros emaciados, junto com o brilho louco de seus olhos em sobressalto, por baixo de frontes e pálpebras descoradas, não serve de incentivo para os outros. Assim foi que hesitei no limiar dessas areias cinzentas e senti o tremor de um novo medo invadir-me as entranhas. Seria horrendo prosseguir, e horrendo retornar, pois eu estava certo de que os sacerdotes tinham se preparado para esta última eventualidade. Então, após um instante, continuei a andar, cantarolando baixo a cada passo, e seguido por alguns insetos de pernas compridas que encontrara entre os cactos. Esses insetos tinham a cor de cadáveres de uma semana e eram do tamanho de tarântulas; mas, quando me voltei e pisei no que vinha à frente, um cheiro mefítico se exalou, o qual me pareceu mais nauseante até do que a própria cor. A partir de então, passei a ignorá-los o mais que podia.

Com efeito, tais coisas erram horrores menores no meu infortúnio. À minha frente, sob um sol imenso, de um escarlate doentio, Yondo se estendia interminável, tal como a terra de um sonho de haxixe, contra o escuro do céu. Ao longe, na fímbria mais distante, jaziam aquelas montanhas ovaladas que mencionei; mas em meio estavam os horríveis vazios de desolação cinzenta e colinas baixas, desnudas, semelhantes a dorsos de monstros semi-sepultos. Lutando para avançar, avistei grandes poços onde meteoros afundaram, e jóias multicores que eu não saberia nomear brilhavam e cintilavam sobre a poeira. Havia ciprestes caídos que apodreciam junto a mausoléus arruinados, sobres cujos mármores manchados de liquens se arrastavam camaleões gordos levando pérolas reais em suas bocas. Escondidas pelas cristas mais baixas, havia cidades das quais sequer uma estela jazia intacta – cidades vastíssimas, imemoriais, desintegrando-se, de fragmento em fragmento, de átomo em átomo, para alimentar infinitos de desolação. Arrastei os membros exaustos de tortura através de vastos montes de ruínas que um dia foram templos imponentes; e deuses caídos franziam o cenho em meio ao arenito decadente ou miravam de entre o pórfiro despedaçado aos meus pés. Sobre tudo pairava um silêncio mau, interrompido apenas por um gargalhar satânico de hienas, um ciciar de cobras por entre as moitas de espinheiros mortos ou antigos jardins consumidos pela urtiga e pela fumária.

No topo de um dos muitos platôs em forma de monte, vi as águas de um lago estranho, insondavelmente escuro e verde como malaquita, das quais surgiam refulgentes depósitos de sal. Essas águas estavam muito abaixo de mim, numa abertura em forma de xícara, mas quase junto aos meus pés, sobre as encostas gastas pelas águas, havia montes daquele sal antigo; e compreendi que o lago nada mais era que os resíduos amargos e escassos de algum mar. Descendo, aproximei-me das águas escuras e comecei a lavar as mãos; mas havia uma ardência cortante e corrosiva naquela água salobra e imemorial, e logo desisti, preferindo o pó do deserto que me envolvia como um lento sudário. Decidi descansar por um momento; e a fome forçou-me a consumir parte da ração minguada e risível que os sacerdotes me deram. Era minha intenção prosseguir, se minhas forças o permitissem, e alcançar as terras ao norte de Yondo. Essas terras são desoladas, por certo, mas sua desolação é de um tipo mais comum do que aquela de Yondo; e sabe-se que certas tribos de nômades as visitavam ocasionalmente. Se a fortuna me favorecesse, eu poderia juntar-me a uma dessas tribos.

A ração escassa me reanimou; e, pela primeira vez em semanas das quais eu perdera a noção, ouvi o sussurro de uma débil esperança. Os insetos de cor cadavérica há muito deixaram de me seguir; e depois deles, a despeito do silêncio sepulcral e tétrico e dos montes de poeira de ruínas intemporais, eu nada encontrei que fosse tão horrível. Comecei a pensar que os terrores de Yondo tinham sido exagerados. Foi então que ouvi uma risota diabólica na colina acima. O som começou com uma subitaneidade aguda que me estarreceu para além de qualquer razão e continuou, indefinidamente, sem jamais variar numa nota sequer, tal como o riso de um demônio idiotizado. Voltei-me e vi a boca de uma caverna escura denteada de estalactites verdes, que eu não percebera antes. O som parecia vir de dentro da caverna.

Com uma atenção medrosa, olhei através da abertura negra. O riso tornou-se mais alto, mas por um instante nada vi. Finalmente, percebi um fulgor esbranquiçado na escuridão; então, com a velocidade de um pesadelo, uma Coisa monstruosa emergiu. Seu corpo era pálido, sem pêlos, em forma de ovo e volumoso como o de uma cabra prenha; e esse corpo era amparado por nove pernas trêmulas, com muitas junções, como as pernas de uma aranha descomunal. A criatura passou por mim, correndo até a margem da água; e vi que não havia olhos em sua face estranhamente oblíqua; mas duas orelhas compridas, em forma de facas, se elevavam de sua cabeça; e um focinho fino, rugoso, pendia sobre a boca, cujos lábios flácidos, abertos naquele gargalhar eterno, deixavam ver fileiras de dentes de morcego. Bebeu da água amarga, ácida, e então, satisfeita a sede, voltou-se e pareceu notar minha presença, porquanto o focinho rugoso se ergueu e apontou em minha direção, farejando alto. Se a criatura fugiria ou se intentava atacar-me nunca saberei; pois, sem poder suportar por mais tempo essa visão, pus-me a correr, as pernas tremendo, por entre as grandes elevações e as grandes jazidas de sal à margem do lago.

Totalmente sem fôlego, parei afinal e vi que não fora seguido. Sentei-me, ainda tremendo, à sombra de uma elevação, mas apenas para obter um breve descanso, pois aí começou a segunda dessas aventuras bizarras que me obrigaram a crer em todas as lendas insanas que ouvira. Mais estarrecedor do que aquela risota diabólica foi o grito que ecoou junto ao meu cotovelo, surgido da areia salina – o grito de uma mulher possuída por uma agonia atroz ou atacada por demônios. Voltando-me, deparei-me com uma verdadeira Vênus, de uma brancura perfeita, mas imersa até o umbigo na areia. Seus olhos, arregalados de terror, imploravam-me e suas mãos de lótus se estendiam num gesto de súplica. Saltei para junto dela – e toquei uma estátua de mármore, cujas pálpebras esculpidas estavam imersas numa sonho enigmático de ciclos extintos e cujas mãos estavam enterradas junto com a graça perdida dos quadris e das coxas. Novamente fugi, tomado pelo terror, e novamente ouvi o grito de uma mulher em agonia. Mas desta vez não me voltei para ver os olhos e as mãos suplicantes.

Subindo a longa encosta ao norte daquele lago maldito, tropeçando em meio às elevações de basalto e às arestas cortantes, recobertas por metais esverdeados, avançando por entre poços de sal ou sobre terraços esculpidos pelas águas evanescentes em éons ancestrais, fugi como um homem foge de um sonho sinistro a outro sonho numa noite demoníaca. Às vezes, soava um sussurro frio junto à minha orelha, que não era causado pelos ventos da fuga; e, olhando para trás, enquanto alcançava um dos terraços mais elevados, percebi uma sombra singular que corria no mesmo ritmo que a minha. Essa sombra não era a sombra de um homem, nem de um macaco, nem de nenhum animal conhecido; a cabeça era grotesca e alongada demais, o corpo demasiadamente arqueado, e eu não pude determinar se a sombra tinha cinco pernas ou se o que me pareceu ser a quinta era apenas uma cauda.

O terror me restituiu as forças; e só quando alcancei o topo da colina é que tive coragem de olhar para trás outra vez. Mas a sombra fantástica ainda me seguia passo a passo; e agora me chegava um odor curioso e nauseante, medonho como o odor de morcegos que tivessem pendido num matadouro em meio a montes de podridão. Corri por léguas, enquanto o sol vermelho se punha lá adiante, por sobre as montanhas dos asteróides, a oeste; mas, embora tivesse o comprimento da minha, a estranha sombra mantinha sempre a mesma distância atrás de mim.

Uma hora antes do pôr-do-sol, cheguei a um círculo de pequenos pilares que jaziam miraculosamente intactos em meio a ruínas que eram como uma vasta pilha de cacos. Ao passar por entre os pilares, ouvi um gemido, tal como o gemido de um animal feroz, entre a raiva e o medo, e vi que a sombra não me seguira para dentro do círculo. Parei e aguardei, conjeturando ter encontrado um santuário onde meu indesejável acompanhante não se atreveria a penetrar; o que a ação da sombra confirmou, pois a Coisa hesitou e então correu em volta do círculo, parando às vezes entre dois pilares; e por fim, sem deixar de gemer, fugiu e desapareceu no deserto, no rumo do sol poente.

Durante meia hora, não ousei me mexer; então, a iminência da noite, com todas as suas promessas de renovado terror, forçou-me a prosseguir desesperadamente em direção ao norte; pois agora eu estava bem no coração de Yondo, onde poderiam habitar demônios ou fantasmas que talvez não respeitassem o santuário das colunas intactas. Agora, enquanto eu avançava, a luz do sol mudava estranhamente; pois o globo vermelho próximo ao horizonte irregular afundava e ardia num cinturão de névoa miasmática, onde a poeira erguida de todos os templos e necrópoles destroçados de Yondo se misturava aos vapores aziagos que subiam para o céu, exalando de enormes golfos negros que jaziam para além da orla mais extrema do mundo. A essa luz, a vasta desolação, as montanhas redondas, as colinas serpenteantes, as cidades perdidas eram banhadas num escarlate fantasmal e escuro.

Então, do norte, onde as sombras se adensavam, veio surgindo a figura curiosa de um homem alto, inteiramente coberto por uma cota de malha – ou, antes, o que pensei ser um homem. Quando a figura se aproximou, produzindo ruídos pressagos a cada passo que dava sobre o solo coberto de cacos, vi que sua armadura era feita de bronze salpintado de verde; e um elmo desse mesmo metal, guarnecido de chifres espiralados e de uma crista, se elevava bem alto sobre sua cabeça. Digo sua cabeça, pois a escuridão aumentava, e eu nada podia ver claramente; mas, quando a aparição chegou mais perto, percebi que não havia face alguma por detrás da viseira do capacete bizarro cujos contornos se delinearam por um momento contra a luz evanescente. Então a figura passou e, chocalhando funestamente, desapareceu.

Mas, em seus calcanhares, antes que o pôr-do-sol se completasse, veio uma segunda aparição, dando incríveis passadas e parando quase junto de mim sob o crepúsculo vermelho – a monstruosa múmia de algum rei antigo, ainda coroado num ouro sem manchas, mas impondo ao meu olhar uma visão que mais do que o tempo ou os vermes haviam devastado. Bandagens partidas adejavam em torno às pernas de esqueleto, e, sobre a coroa cravejada de safiras e rubis alaranjados, alguma coisa negra se mexia e balançava horrivelmente; mas, por um instante, sequer sonhei com o que poderia ser. Então, no meio dela, dois olhos oblíquos e vermelhos se abriram e brilharam como brasas infernais, e dois caninos ofídicos cintilaram numa boca de macaco. Uma cabeça achatada, sem pêlos, disforme sobre um pescoço de extensão desproporcional abaixou-se, indizivelmente, e sussurrou ao ouvido da múmia. Então, com uma passada, o morto-vivo titânico encurtou pela metade a distância que nos separava, e de entre as dobras esfarrapadas do tecido mofado, um braço esquálido surgiu, e dedos descarnados, aduncos, carregados de gemas brilhantes, se ergueram e tentaram agarrar minha garganta.

De volta, de volta através de éons de loucura e terror, num vôo precipitado, vertical, corri e me afastei desses dedos que se erguiam sempre atrás de mim na escuridão; de volta, de volta para sempre, sem pensar, sem hesitar, de volta a todas as abominações por que passara, de volta, no espesso crepúsculo, às ruínas fragmentadas, inomináveis, ao lago assombrado, à floresta dos cactos malignos, e aos inquisidores cruéis e cínicos de Ong, que aguardavam o meu retorno.

(Tradução de Renato Suttana)

17.11.08

A VINGANÇA DE FERNANDO JUAN CUERVO

O lendário escritor sulista, mestre do horror nacional, Rogério Silvério de Farias, retorna à Câmara dos Tormentos com mais um conto exepcional e obrigatório para todos os seus fãs. Boa leitura!




A VINGANÇA
DE
FERNANDO JUAN CUERVO

Conto de Rogério Silvério de Farias




1. A estrada do medo!

Para a antiga e sombria cidade de Maremontes iam o caminhoneiro Robson e seu ajudante, um sujeito meio espantadiço e espalhafatoso chamado “Boca Tojo”. Levavam uma carga de melancias. Melancias especiais, cumpre salientar. Melancias recheadas de marijuana!

Haviam atravessado a rodovia 666, e agora seguiam por um caminho que era considerado um atalho, um caminho alternativo de pouco movimento.

O “possante” - era assim que Robson chamava seu velho caminhão. Boca Tojo, ex-garçom e vigia, fazia agora um “bico” com seu velho amigo, num “trabalho” arriscado, pois se os tiras descobrissem a “carga especial” enfiada através de pequenos furos nas melancias, furos estes feitos com uma furadeira elétrica, a dupla iria para a cadeia! Assim sendo, Boca era o acompanhante de Robson e o “chapa” para descarregar as “melancias doidonas”, como os dois as chamavam.

- É isso aí, Boca!...Se beber, não dirija! – disse Robson gargalhando sarcasticamente, bebendo uma latinha de cerveja e tragando um cigarro de maconha, uma verdadeira “.bomba” ou “tora”.

Boca Tojo, espevitado como sempre, estourou também numa ruidosa gargalhada, depois, bebendo avidamente uma lata de cerveja enquanto soltava baforadas de seu “baseado”, foi dizendo :

- Porra, “Chefinho”! E se a polícia rodoviária aparecer? E se ela nos parar e fazer o teste do bafômetro?

- Neste fim de mundo, aqui? Boca, estamos numa região desértica, praticamente. Isto aqui é como um atalho do inferno. Além disso, os tiras teriam que ter, além do bafômetro, também um “maconhômetro” especial pra nós dois!... – respondeu Robison, rindo. - Sabe, foi uma boa idéia termos seguido por este caminho pouco usado. Vamos chegar a tempo de entregar essas “melancias doidonas” ao chefão do tráfico em Maremontes e o maior ladrão da cidade, o Zena!

- Sabe o que os frentistas disseram para mim, no posto de gasolina? – falou Boca Tojo, despertando a curiosidade de Robson, na boléia.

-O quê, Tojo?

- Tinha um velhote manco muito estranho por lá. Me falou que esta maldita estrada que estamos seguindo recebeu o nome de “Estrada do Medo”, e que esta porra de região que estamos atravessando é...malassombrada!...Existe uma história ou lenda terrível sobre esta região...Os motoristas e caminhoneiros evitam passar por aqui. Sei que parecerá loucura, mas vou contar a estranha e assustadora história que o velho me contou...

“Havia, tempos atrás, um jovem motoqueiro chamado Fernando Juan Cuervo, descendente dos primeiros mexicanos que vieram para Maremontes no começo do século passado. Certa noite de lua cheia, quando Fernando Juan Cuervo passeava por esta rodovia com sua namorada em sua garupa, ambos foram atropelados por um caminhão. Margarita, a namorada de Fernando Juan Cuervo, teve a cabeça esmagada pelas rodas do caminhão, enquanto Fernando, cheio de ódio, morreu lentamente, provavelmente agonizando em busca de ajuda, pois o motorista bêbado fugira do local do acidente.

“Quando a polícia foi avisada e chegou ao local, só havia o corpo de Margarita, já em adiantado estado de putrefação, com abutres bicando a carne podre do corpo sem cabeça da morena. Cabeça, aliás, que sumira, provavelmente carregada e devorada por algum maldito coiote da região ou pelos próprios abutres.

“Fernando Juan Cuervo nunca foi encontrado. Dizem que ele morreu após ter se arrastado pela planície na vã busca de alguma casa onde os moradores pudessem ajudar, mas a região é deserta, não se encontram moradores por aqui. Assim, alguns levantaram a hipótese de que Fernando Juan Cuervo teria acabado morrendo de agonia e desespero enquanto se arrastava por ali, em busca de ajuda, e depois foi atacado por algum coiote ou cão selvagem ou devorado por algum abutre, que arrastaram sua carcaça.

“O povo falava horrores de Fernando Juan Cuervo, quando este era vivo. Havia indícios de seu envolvimento com drogas pesadas e alucinógenas, bem como sua paixão por livros de ocultismo e magia negra e certos rituais de necromancia e vudu, que aprendera em suas viagens de motocicleta pelo negro Haiti.

“Agora, me disse o velho, alguns acreditavam que o zumbi do motoqueiro Fernando Juan Cuervo, cheio de ódio e desejo de vingança, aparecia ao cair da noite, com sua motocicleta negra e infernal, para vingar-se de todos que passam por aqui... vingar-se especialmente dos caminhoneiros, mas também esperar pelo reencontro com alguém todo especial, o seu inimigo, aquele que atropelara e matara sua amada, a bela Margarita. Os caminhoneiros mais velhos e loucos deram um apelido assustador a esse desaparecido Fernando Juan Cuervo: “MORTOQUEIRO, O ZUMBI DO ASFALTO”!...O velho manco contou-me tudo isto, pois quando era criança conseguiu escapar vivo do “Mortoqueiro”, porém viu seu pai ser atropelado na estrada enquanto trocava um pneu furado. O “Mortoqueiro” feriu a perna do velho, por isto era manco”.

- Vá pro inferno, Boca Tojo! – grunhiu Robson, quase se engasgando com o gole da cerveja, e atirando de modo irritado a lata em direção a seu amigo, que a aparou com as mãos. Subitamente Robson ficara sombrio, como se lembrasse de algo, algo terrível.

Logo depois, houve silêncio dentro da cabina do caminhão, que seguiu ligeiro pelo asfalto. Robson buzinou e loucamente começou a fazer ziguezagues na pista asfaltada, bêbado, irrequieto e sobretudo sombrio.

2.O cão do inferno!

As névoas começaram a aumentar. O crepúsculo começava a sangrar no horizonte, como um poço de laivos de sangue de um cadáver esquartejado. A noite começara a cair, como uma mortalha.

- Chefinho, é melhor acionar os faróis, a porra da névoa começou a apertar, além disso daqui a pouco a noite escurece de vez tudo por aqui, nesta estrada dos infernos. Hoje vai ser noite de lua cheia, mas o luar será precário para diminuir tanta escuridão neste fim de mundo.

- Já acionei os faróis, Boca – disse Robson. – Deixe de ser cagão, homem!

A névoa à frente e a escuridão misturada com os poucos raios de luar davam um tom fantástico e infernal àquela estrada. Robson teve que diminuir a velocidade, já que o caminhão parecia estar transitando pela rodovia do inferno.

De repente um vulto negro surgiu à frente, entre as névoas turbilhonantes. Parecia um animal. Talvez um coiote, um lobo, embora seu aspecto fosse mais sinistro. Robson teve que pisar no breque, o caminhão guinchou feito um demônio ferido, os pneus fumacearam no asfalto negro, o cheiro de borracha se fez sentir.

- Filho da puta! – urrou Robson, manobrando o volante enquanto freava. – Parece um maldito cachorro!

Boca comentou:

- Sim, parece um cachorro preto no meio da névoa. Mas pode ser um coiote também. Está bem ali, cerca de 50 metros à frente do nosso caminhão!

- Pode ser um lobo ou cão selvagem mesmo...

- Sim, pode ser, chefinho!

Robson pegou do porta-luvas um revólver.

- Se for... O meu “trinta-e-oito” aqui vai dar um jeito; vou meter bala no rabo deste desgraçado que está nos fazendo perder tempo e dinheiro! Esta porra de carga de “melancia doidona” tem que chegar até amanhã de manhã, e não vai ser um vira-lata do inferno que vai me impedir de cumprir o tratado!...

Robson abriu a porta do caminhão e desceu com o revólver em riste. Boca também desceu. Ambos se posicionaram em frente ao caminhão estacionado naquela rodovia deserta e enevoada.

- Manda bala, chefinho! – disse Boca, olhando Robson fazendo mira com o revólver; o cão ou o que quer que fosse aquilo, estava parado em meio às névoas. Os olhos da estranha criatura eram vermelhos, Robson e Boca puderam ver. Parecia realmente um cão negro mesmo.

Balas foram descarregadas, quebrando o silêncio do lugar.

O cão preto fugira ao primeiro disparo, sumindo-se nas névoas, deixando para trás não um ladrar comum, mas algo similar a um regougar diabólico de uma hiena sarcástica das savanas negras do inferno.

Se mandou! – disse Boca. – Parecia mais uma hiena, essa coisa no meio das névoas.

- Hiena ou...um cão do inferno! Seja o que for, se essa porra de coisa aparecer de novo no meio da estrada, vou transformá-la em peneira! – disse Robson engatilhando o revólver.

3. Fogo nas névoas!

Ambos voltaram ao caminhão e deram partida. Continuaram a viagem. Cerca de menos de meio quilômetro à frente, o caminhão pifou.

- E agora essa? – gritou enfezado Robson.

- Puta que pariu! É foda pra caralho mesmo! E essa agora? Vamos averiguar o que foi, parece que não temos mais combustível, segundo o que vejo bem aí na sua frente, no painel...Porra, mas não faz pouco tempo enchemos o tanque no posto! O que será que houve, cacete? – disse Boca.

Desceram e foram averiguar. De repente ouviram um ronco de motocicleta. Alguém acelerava raivosamente uma motocicleta.

- Vem alguém pela rodovia, em sentido contrário ao nosso! – disse Boca.

- Não vou vacilar. Nesta região deserta, pode ser assaltante de carga! E hoje em dia, roubam até o nosso tipo de carga, Boca! – disse Robson, indo até a boléia e pegando novamente o revólver que guardara no porta-luvas, após atirar no “cachorro preto”.

Um vulto ao crepúsculo, um motoqueiro negro que vinha em alta velocidade, em meio às névoas, sob a fraca luminosidade da lua cheia. Passou como um relâmpago do inferno por perto de Robson e Boca, os dois tiveram que correr para o acostamento.

- Maluco, esse! – fez Boca.

- Esses motoqueiros andam mais “chapados” que nós dois, Boca! São uns demônios!

Foi nesse instante que Boca viu algo no asfalto, um rasto de combustível, o combustível do caminhão. O tanque provavelmente estava ou fora furado, e agora tinha deixado como que um rastilho de pólvora. E foi aí também que Boca compreendeu tudo. Boca pensou, raciocinou e concluiu. Era ele, sim...era ele, só podia ser!

- Chefinho, olha ali, eis o porquê do caminhão ter pifado!

Robson enfezou-se:.

- Caralho do Diabo! A porra do tanque de combustível fodeu de vez!

Novamente o ruído da motocicleta. O motoqueiro, misterioso e negro, vinha voltando. Boca gritou que era ele, o “Mortoqueiro”, o zumbi do asfalto.

A alguma distância do caminhão e do ponto onde estavam Robson e Boca, o motoqueiro, em meio às névoas e visto indistintamente, começou a acelerar a motocicleta, patinando o pneu traseiro, soltando fumaça e cheiro de borracha queimada no asfalto, até lançar uma pequena fagulha que incendiou o rastro de combustível que seguia até o gotejante tanque do caminhão de Robson.

Num instante, como um rastilho de pólvora, as labaredas correram rumo ao tanque do caminhão.

Robson ainda gritou, antes de ver o caminhão ir pelos ares, numa explosão infernal:

- Corra pra planície ao lado do acostamento, Boca! A porra desse caminhão vai explodir!

E assim os dois fizeram, ocultando-se atrás de um grande matacão ao lado da pista. As labaredas, como demônios, tinham seguido até o tanque do caminhão, que explodira e incendiou por completo, alastrando fogo nas névoas.

4.O zumbi do asfalto!

Após alguns minutos, Robson saiu detrás da rocha com seu amigo Boca. Robson gritou de raiva, olhando ora para o que restara do caminhão em chamas, ora para o motoqueiro ao longe, que empinou a motocicleta e veio em direção a eles.

- Esse filho da puta acabou com meu “possante” e nossa carga de marijuana! Vou mandar bala nesse miserável!

- É ele chefe , só pode ser ... “Mortoqueiro”, o zumbi do asfalto! Atira, chefe! Ele vem vindo pra nos atropelar! Mete bala nesse filho da puta, se for fantasma, não morre, se for vivo, morre e vai pro inferno!

Quando Robson apertou no gatilho, estremeceu. Somente agora ele percebera que havia gastado todas as balas no cachorro ou coiote que minutos atrás cercara o caminhão.

Robson atirou-se para o lado, arremessando o revólver contra o motoqueiro negro e sinistro, mas não conseguiu acertá-lo. Pois ele passara como um bólido. Foi ao cabo de alguns segundo que Robson percebeu que o motociclista sinistro, utilizando-se de uma corrente, laçara o pescoço de Boca e agora ia já longe arrastando o corpo do amigo. Boca foi arrastado por alguns metros, impiedosamente. Gritou muito antes de ter a cabeça arrancada. Depois a corrente foi solta, e o motoqueiro deu um cavalo de pau com a motocicleta e passou por cima do corpo de Boca, esmagando-o, aproveitando para dar um chute na cabeça decepada.

Robson olhava tudo atônito. Era ele, sim. O maldito descendente de mexicano, Fernando Juan Cuervo! O “Mortoqueiro”. O morto-vivo do asfalto!...

O terror de Robson aumento ainda mais quando viu que Cuervo, todo vestido de negro, com um capacete também escuro que lhe ocultava a face, empinou a motocicleta e veio lentamente em sua direção, como se saboreasse o desespero do caminhoneiro.

Cerca de vinte metros à frente de Robson, o “Mortoqueiro” retirou de sua jaqueta de couro negro um pingente, um berloque em que se via a foto de uma bela morena com uma flor nos cabelos negros...a flor que tinha um nome parecido com o seu...Margarita!

Robson reconheceu-a, mesmo de longe. E suas lembranças voltaram, até àquela fatídica noite em que, após fumar cinqüenta baseados e ficar totalmente doido, atropelara Fernando Juan Cuervo e sua amada Margarita, fugindo depois.

A vingança dos mortos é terrível, mas a dos mortos-vivos como Fernando Juan Cuervo é mais terrível ainda.

5. O “Mortoqueiro”ataca e mata!

Um calafrio de medo deslizou como uma lesma fria por sua coluna. Robson estava paralisado de terror, ali, no meio da pista, para onde voltara para olhar melhor, ao longe, o cadáver decapitado de Boca Tojo, atropelado e morto pelo sinistro Fernando Juan Cuervo, o “Mortoqueiro”.

Robson engoliu em seco quando viu o “Mortoqueiro” acelerar a motocicleta e vir em sua direção com um facão em riste, facão que ele sacara de uma bainha presa à sua perna.

Era tarde demais para escapar. Robson teve a cabeça decepada pela lâmina gélida que rebrilhou ao luar, úmida pelas névoas. O sangue tingiu a noite com a cor da violência e da morte. E quando a cabeça de Robson rolou pelo chão, o “Mortoqueiro” fez outro cavalo de pau e retornou, passando por cima, brandindo o facão, como se estivesse comemorando a vingança concluída. Os miolos de Robson salpicaram o asfalto, como um tempero do terror.

A lua cheia chegava, cintilando como um esférico espectro do Além. A névoa, como uma fumaça fantasmagórica, já diminuía e começava a desaparecer. Se alguém estivesse por perto, veria o cão negro do inferno que latiu e depois uivou sinistramente como um demônio louco dos abismos negros das sombras, aproximando-se da motocicleta e seu macabro piloto. Veria também, através da viseira negra do capacete do “mortoqueiro”, um sorriso diabólico de satisfação naquela caveira podre e vingativa que um dia tinha sido o rosto de Fernando Juan Cuervo.

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O CELEIRO, de Henry Evaristo

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