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26.5.07

O DESTINO DO VENDEDOR DA AVON

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OS PORTAIS DE ÉBANO


Por: Henry Evaristo



Diante dos portais de ébano de Dharan-Tyr, na Swyrnea, eu caí subjugado pelo poder dos deuses mortos. E suas vestes azuladas roçaram meu rosto como a proferir enigmas vitais.

A tarde que findava nas distâncias do horizonte trazia-me em ventos cálidos sentimentos de regozijo por me encontrar, depois de tantos anos de sofrimentos e dúvidas, ao alcance das vistas daquelas excelsas presenças.

De meus olhos uma torrente de emoções brotou quando ao, longe, ouvi como que o solfejar de uma velha flauta que me sugeria a aproximação de um outro ente querido dos mundos oníricos. E dos bosques escuros avançavam agora ventos que traziam lamurientas vozes de coisas perdidas e insanas que vagavam sem rumo.

Para mim marchou a criatura das matas; seus cascos bipartidos estalando no chão de mármore ao alcançar os limites do titânico templo com a orla da vegetação. Os deuses, por sua vez, obedecendo ao comando de uma senhora em vestes prateadas que, postada no alto da mais alta torre da fortaleza inexpugnável, cantava melodias inebriantes levadas ao longe pelos ventos dos bosques, uniram-se em coro para saudar o novo visitante.

"Oh, sagrado Pã. Te bem-dizemos e nos regozijamos em tua augusta presença. Tu que saltas pelos ermos do mundo e com teu solfejar encantas demônios! Vem agora! E serve de guia para este nobre aventureiro que se arrojou de seu próprio mundo seguro para aventurar-se nestas plagas perigosas. Protegei-o! Zela por ele como por tua deusa, pois assim ela o conclama lá do alto de sua torre de luz! E mostra para ele os segredos pelos quais ele tanto aspirou."

Dizendo isso, tempo em que eu me quedei tremendo de excitação, os deuses mortos voltaram-se diretamente para mim e a luz vinda da torre me cegou instantaneamente. O horror tomou conta de meu ser e um grito se me desprendeu da garganta.

Vendo, de certo, minha aflição, o nobre deus Pã trotou para bem próximo de mim pois pude ouvir o som macio de suas patas a se aproximarem. Depois, com sua voz serena cujo hálito recendia a eucaliptos, me falou ao ouvido como uma amante que sussurra na madrugada.

"Filhinho!" Disse ele "Estou aqui para ti e nada te tocará! Vê, lá em cima da torre, a Grande Mãe te tem em alta consideração e acaba de te abrir todas as portas de seu reino. Não és qualquer mortal! Vê! Agora!"

"Mas, meu senhor!" Argumentei. "Tenho as vistas derrotadas por tamanha luz maravilhosa de nossa deusa tão amada. Nada posso ver neste momento com estes olhos já mortos!”

E então Pã, acariciando-me no coração, disse com uma voz que retumbava em meu peito e me arrancava vagas de lágrimas incontroláveis:

"Aqui, filhinho, não se enxerga apenas com o corpo, se enxerga também com a alma!"

Neste momento ouvi uma outra melodia, ainda mais fenomenal, que descia das imensidões do céu e parecia penetrar por meu cérebro abrindo caminho por todo meu ser e tocando meu próprio espírito. Era ela, a Grande Mãe, que agora, de seu ninho argênteo, me falava.

"Moranus! Tu agora és Moranus! E tua arte ainda te vai ser ensinada. Abre tua mente neste instante pois te darei todos os paraísos e todos os infernos. Nada mais te será suficiente no mundo dos homens e, muito embora tu vás ter de viver entre eles, tu também não será apenas suficientemente um homem. Tu serás o homem dos homens! Serás menos que eu e eu serei menos que tu! Eu estarei em ti e tu estarás em mim e, em meu nome tu espalharas na terra dos templos cerrados a palavra da grande ciência dos sábios. Te chamarão de louco, de falso profeta, de bruxo e de mago. Mas tu riras deles e terás poder para lançar-lhes ou não as chamas dos abismos pois aí está Pã e ele te levará, agora, já, à presença de teu primeiro mestre, Baal Zebulb, o senhor das moscas dos tempos proféticos. Abre, pois, estes olhos da tua alma; que são eles agora os únicos que te servirão aqui!"

Diante de ordem tão imperiosa meu único gesto foi o de abrir minhas novas percepções; ao que, de todos os lados, ouvi sons de alegre festividade. De repente a tudo eu via com um resplandecente ar de alvura. Tudo se me parecia renovado e até mesmo as cores do mundo não eram mais as mesmas. Ao meu redor hordas de animais fantásticos dançavam e cantavam ao som da flauta feérica do deus Pã. Aqui, etéreas fadas e ninfas esvoaçantes lançavam seus raios furta-cor contra um sol esverdeado; ali duendes e gnomos, junto com ciclopes e unicórnios executavam manobras de uma dança ancestral e perdida no tempo. Ogros, basiliscos e centauros disputavam lugares próximos a mim e até mesmo a terrível acromântula, se não dançava, pelo menos estava quieta em seu lugar nas sombras. Intimidada talvez por um grupo de majestosos diabretes que desfilavam e falavam apressadamente em um idioma hilariante, limitava-se a emitir estranhos silvos que faziam vibrar os dentes dos presentes. Até mesmo a vastidão escura que tentara insistentemente se opor à minha chegada ali, durante toda um minha vida, agora conspirava a meu favor e o terreno se encontrava vivo, pululante de presenças poderosas e ancestrais. Ao longe eu podia houvir o rugir dos hipopótamos e dos crocodilos a chafurdar nas lamas pútridas dos pântanos e ainda um som grotesco de hienas e chacais a caçar nos desertos distantes. Tudo era para mim tão alucinante, e tão belo, que tinha vontade de ajoelhar-me em louvor àquelas potestades da natureza pelas quais tanto ansiei em meus sonhos e nas minhas ações no mundo dos humanos. Foi para vê-las assim, de perto, e quem sabe compartilhar seus segredos, que gastei cada centavo que ganhei na vida com livros raros e obscuros; e viajens à lugares exóticos. Foi para estar neste mundo escondido que me aventurei em porões fétidos na empresa de ritos profanos. Agora eu chorava pois um universo de beleza inigualável se desdobrava para mim e nele eu era aceito como um pupilo, um aprendiz das feras do oculto.

Logo ouviu-se um estrondo tão terrível que toda a algazarra dos seres festivos e dançantes cessou abruptamente e a floresta e o templo mergulharam em sombras que antes não haviam. Voltei-me novamente para os deuses mortos e vi que eles, de costas para mim, e apenas com o poder de seus olhares rubros, faziam destravar a abrir o imensurável par de portais do mais escuro ébano jamais visto. As duas partes negras da entrada do templo estavam, em fim, se abrindo para dar passagem a mim e a meu guia através das esferas da sabedoria suprema.

O lado de dentro era de uma escuridão indescritível. Tão terrível era, e tão espessa, que tornou mais claros os próprios portais de madeira negra. E de lá senti bafejar em meu rosto como que o hálito de algo que estivesse morto.

Ouvi então a voz da grande mãe retumbar de algum lugar na imensidão escura à minha frente:

"Vão agora, pupilo e seu guia! Penetrem o primeiro estágio de um aprendizado de reis. Rápido! Thamuz, o embaixador, os espera para apresentá-los; e ele, sendo mais velho que o tempo, já não tem mais paciencia!"

Assim, em meio à nova algazarra de bandos de seres fantásticos de outros universos, adentrei o mundo maravilhoso das trevas na companhia reconfortante e segura do grande deus Pã que me ia indicando coisas preciosas espalhadas por todos os lados na escuridão.

Durante mil anos eu vivi em meio às potências de um Kósmos paralelo; e de suas mentes inconformadas e raivosas apreendi muito mais que qualquer ser jamais foi capaz. Foi nos abismos tenebrosos, mergulhando nas asas de criaturas ignóbeis, que conheci os segredos deste e todos os mundos. Na presença de mestres indizíveis, habitantes de fossos miasmáticos, eu labutei; e o fruto de meu trabalho e de meu esforço foi amplamente compensador.

Pisei no mundo dos homens novamente apenas no seculo III e, até o século XIX, ergui um império terrestre de ideais em nome de minha mãe. Muitas histórias colecionei e muitos homens eu trouxe à luz de minha causa, que é a causa dos titâs subterrâneos.

Sempre estiveram comigo os senhores sazonais, da natureza, aqueles desprezados e difamados pelas doutrinas oficiais e muitos deles, sobretudo nos anos setenta, tiveram a oportunidade de sentir o gosto da vingança no soerguimento de milhares de templos pagãos em torno do mundo.

Até hoje me contemplam os amigos dos bosques festivos. Posso vê-los em esquinas escuras e em fundos de bordéis. Posso vê-los correndo em quintais abandonados e estradas desertas. Às vezes escolho lugares ermos, na madrugada, para confabular com a deusa maior que ainda me orienta com respeito e ternura; e sempre com ela vem Pã, o meu amoroso guia.

Evito, no entanto, aproximar-me muito do templo onde tudo começou pois durante minha estada nos domínios da grande ciência, além de bons amigos e irmãos, fiz também infernais inimigos; criaturas invejosas de meu poder e intelecto que não exitariam em destroçar minha alma passando mesmo por cima da autoridade de minha mãe. Mesmo assim, de século em século, me esgueiro sorrateiramente até as bordas do mundo de onde posso ver os portais de ébano de Dharan-Tyr, na Swyrnea, e são poucas as vezes em que não posso avistar a madeira negra estremecendo com os impactos das potestades trancafiadas lá dentro, impacientes.
________________________________________




Nota: A referência ao "Grande Deus Pan" é uma homenagem do autor ao grande escritor galês Arthur Machen; gênio das narrativas fantásticas cuja obra "The Great God Pan", que continua inexplicavelmente inédita no Brasil, figura entre as mais assustadoras de todos os tempos.

25.5.07

URBAN SNIPER

Encontramos mais um joguinho super divertido para nossos amigos e irmãos sombrios exercitarem suas sanhas predatórias! Sinta o gostinho de executar, a bala, um alvo vivo sem ser punido por isso!

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18.5.07

EU SOU O UMBRAL DA PORTA


Trazemos desta vez um clássico da literatura de terror contemporânea. Ao longo das últimas décadas, Stephen King firmou-se como o mais importante (rico) escritor do gênero graças ao cinema americano que tratou de adaptar dezenas de textos seus. Este conto, em particular, mostra uma faceta um tanto diferente do autor; a de discípulo de Howard Phillips Lovecraft, coisa que, ultimamente, ele está precisando relembrar.





EU SOU O UMBRAL DA PORTA
Stephen king



Richard e eu estávamos sentados em minha varanda, olhando por cima das dunas para o golfo. A fumaça de seu charuto espalhava-se preguiçosamente no ar, mantendo os mosquitos a uma distância segura. A água era um frio azul-turquesa, o céu um azul mais profundo, mais real. Uma combinação agradável.


― Você é o umbral da porta ― repetiu Richard, pensativo. ―― Tem certeza de que matou o menino? De que não foi um sonho?


― Não foi sonho. E também não o matei ― já lhe disse isto. Eles mataram. Eu sou o umbral da porta.


Richard suspirou:


― Você o enterrou?


― Sim.


― Lembra-se do local?


― Sim.


Enfiei os dedos no bolso do peito e peguei um cigarro. Minhas mãos eram desajeitadas em seu invólucro de bandagens. Coçavam abominavelmente.


― Se quiser ver, tem que pegar o buggy. Não pode rolar isto indiquei-lhe minha cadeira de rodas ― na areia.


O buggy de Richard era um Volkswagen `59 com pneus enormes. Ele o usava para apanhar madeira trazida pela maré. Desde que se aposentara de seu negócio imobiliário em Maryland, morava em Key Caroline e fazia esculturas em troncos trazidos pelo mar, que vendia a preços vergonhosos aos turistas de inverno.


Tirou uma baforada do charuto e olhou para o golfo.


― Ainda não. Quer me contar mais uma vez?


Suspirei e tentei acender o cigarro. Ele me tirou os fósforos da mão e acendeu para mim.


Puxei duas tragadas, inalando profundamente a fumaça. A coceira em meus dedos era de enlouquecer.


― Muito bem -declarei. ― A noite passada, às sete horas, eu estava aqui, olhando para o golfo e fumando, exatamente como agora, e...


― Recue um pouco mais no tempo ― pediu ele.


― Recuar mais?


― Conte-me a respeito do vôo.


Sacudi a cabeça.


― Richard, já repetimos isso muitas vezes. Não há nada...


O rosto vincado e enrugado era tão enigmático quanto uma de suas esculturas.


― Talvez você se recorde ― disse ele. ― Agora, talvez se lembre.


― Você acha?


― É possível. E quando terminar, podemos procurar a sepultura.


― A sepultura ― repeti.


A palavra tinha um som oco, horrível, mais sombrio que qualquer coisa, ainda mais sombrio que todo aquele oceano através do qual Cory e eu velejáramos cinco anos antes. Escuro, escuro, escuro.


Por baixo das bandagens, meus olhos fitaram cegamente a escuridão que os curativos impunham. Coçavam.


Cory e eu fomos colocados em órbita pelo Saturno 16, que todos os comentaristas chamavam de Foguete Empire State Building. Era um enorme animal, realmente. Fazia o velho Saturno 1-B parecer um brinquedo e era lançado de um bunker de concreto com sessenta metros de profundidade ― tinha que ser, para evitar que arrasasse totalmente Cabo Kennedy.


Fizemos órbitas em torno da Terra, verificando todos os nossos sistemas, e depois acionamos os propulsores. A caminho de Vênus. Deixamos um Senado em polvorosa, discutindo um projeto de orçamento para posteriores explorações do espaço e um bando de pessoas da NASA rezando para que encontrássemos alguma coisa ― qualquer coisa.


― Não interessa o quê ― gostava de dizer Don Lovinger, o menino prodígio particular do Projeto Zeus, quando tomávamos umas e outras. Vocês têm todos os aparelhos, além de cinco câmeras, especiais de TV e um lindo telescópio com zilhões e zilhões de lentes e filtros. Encontrem um pouco de ouro ou de platina. Ainda melhor, encontrem alguns adoráveis homenzinhos azuis para nós estudarmos, usarmos e nos sentirmos superiores.


Qualquer coisa. Até mesmo o fantasma de Howdy Doody já seria um começo.


Cory e eu estávamos ansiosos por atender, se possível. Nada funcionara em favor do programa de profunda exploração espacial. De Borman, Anders e Lovell, que entraram em órbita ao redor da Lua em `68 e encontraram um mundo vazio e ameaçador que parecia areia suja na praia, a Markhan e Jacks, que pousaram em Marte onze anos depois para encontrarem uma vastidão árida de areia congelada e uns poucos liquens raquíticos, o programa de profunda exploração espacial fora um dispendioso fracasso. E houve baixas: Pedersen e Lederen, subitamente lançados em órbita eterna em tomo do Sol quando tudo deixou de funcionar no antepenúltimo vôo Apolo. John Davis, cujo pequeno observatório espacial foi perfurado por um meteoróide em um acidente cujas possibilidades eram uma em mil. Não, o programa espacial não ia nada bem. Ao que tudo indicava, a órbita de Vênus seria nossa última oportunidade de dizer: "Viram como tínhamos razão? "


Dezesseis dias de viagem de ida ― comemos um bocado de alimentos concentrados, jogamos um bocado de buraco, trocamos um resfriado para lá e para cá ― e sob o ponto de vista técnico foi uma sopa. Perdemos um conversor de umidade do ar no terceiro dia, ligamos o sobressalente e isto foi tudo, excetuando alguns detalhes sem importância, até a reentrada da atmosfera terrestre. Vimos Vênus crescer de uma estrela a uma lua em quarto-crescente e, finalmente, uma bola de cristal leitoso, trocamos piadas com o Controle Huntsville, escutamos fitas de Wagner e dos Beatles, cuidamos de experimentos automatizados que tratavam de tudo, desde medidas do vento solar até navegação no espaço. Efetuamos duas correções do curso, ambas infinitesimais, e no nono dia Cory saiu da nave para bater no DESA escamoteável até que este resolveu funcionar. Nada de extraordinário até que...


― DESA ― repetiu Richard. ― O que é isso?


― Um experimento que não deu certo. Jargão da NASA para designara Deep Space Antenna, uma antena para uso no espaço longínquo ― irradiávamos impulsos de alta freqüência para quem estivesse interessado em escutar-nos ― respondi, esfregando os dedos nas calças, sem resultado; na verdade, a coceira deu a impressão de piorar. ― É a mesma idéia do radiotelescópio na West Virginia ― você sabe, o que escuta as estrelas.


Só que em vez de escutarmos nós transmitíamos, primordialmente para os planetas mais afastados: Júpiter, Saturno, Urano. Se existe alguma vida inteligente por lá, devia estar cochilando.


― Só Cory saiu


― Sim. E se trouxe consigo alguma praga interestelar, a telemetria não revelou.


― Mesmo assim...


― Não interessa ― interrompi, irritado. ― Só o aqui e agora importam. Mataram o menino ontem à noite, Richard. Não foi agradável ver... ou sentir. A cabeça dele... explodiu ― como se alguém lhe tivesse retirado o cérebro e colocado uma granada de mão no interior do crânio.


― Termine a estória ― disse ele.


Soltei uma risada oca.


― O que há para contar?


Entramos em órbita excêntrica em torno do planeta. Era radical e se deteriorava; quinhentos e doze por cento e doze quilômetros. Isto na primeira volta. Nossa segunda volta foi ainda mais alta, com o perigeu mais baixo. Tínhamos um máximo de quatro órbitas. Fizemos todas quatro. Demos uma boa olhada no planeta. Tiramos também mais de seiscentas fotos e só Deus sabe quantos metros de filme.


A camada de nuvens é composta por partes iguais de metano, amônia, poeira e merda voadora. O planeta inteiro parece o Grand Canyon num túnel de vento. Cory calculou a velocidade do vento em cerca de mil quilômetros por hora perto da superfície. Nossa sonda funcionou durante toda a descida e pifou de repente. Não vimos vegetação nem sinal de vida. O espectroscópio indicou apenas traços dos minerais valiosos. E isso era Vênus. Nada, absolutamente nada ― exceto que me causava medo. Era como circularem tomo de uma casa assombrada em pleno espaço exterior. Sei o quanto isto parece anti-científico, mas quase me borrei de medo até nos afastarmos de lá. Creio que se um de nossos foguetes não se desligasse, eu cortaria o pescoço durante a descida. Não é como a Lua. A Lua é deserta mas, de algum modo, anti-séptica. O mundo que vimos era diferente, completamente diferente de tudo que alguém já viu. Talvez seja uma boa coisa existir aquela camada de nuvens. Era como um crânio completamente descarnado ― eis o melhor que consigo descrever.


No caminho de volta, ouvimos que o Senado votara o corte pela metade do orçamento espacial. Cory fez um comentário sobre "parece que estamos de volta ao negócio de satélites meteorológicos, Arde". Mas fiquei quase alegre. Talvez nosso lugar não seja lá.


Doze dias depois, Cory morreu e eu fiquei aleijado para o resto da vida. Perdemos toda a nossa sorte na descida. O pára-quedas não funcionou. Que acha disso, como uma pequena ironia da vida? Passamos mais de um mês no espaço, fomos mais longe que qualquer outro ser humano já conseguiu ir e tudo terminou daquela maneira porque algum sujeito estava com pressa de fazer um intervalo para o café e não dobrou direito o pára-quedas, causando um embaraço nas linhas.
Batemos com força. Um cara que estava num helicóptero disse que a nave parecia um bebê gigantesco caindo do céu, trazendo atrás de si a placenta. Perdi os sentidos quando batemos.


Voltei a mim quando me carregavam pelo convés do Portland Nem mesmo tiveram oportunidade de enrolar o tapete vermelho sobre o qual deveríamos passar. Eu sangrava.
Sangrava e era levado às pressas para enfermaria, passando sobre um tapete vermelho que não parecia tão vermelho quanto eu...


― ... Passei dois anos no hospital de Bethesda. Deram-me a Medalha de Honra, muito dinheiro e esta cadeira de rodas. Vim para cá no ano seguinte. Gosto de assistir à subida dos foguetes.


― Eu sei ― disse Richard, fazendo uma pausa antes de acrescentar: Mostre-me suas mãos.


― Não ― minha resposta foi muito rápida e áspera. ― Não posso permitir que eles vejam. Já lhe disse.


― Já se passaram cinco anos ― disse Richard. ― Por que agora, Arthur? É capaz de me dizer?


― Não sei. Não sei! Talvez o que seja tenha um longo período de gestação. Ou quem mesmo pode dizer que o contraí lá no espaço? Seja lá o que for, pode haver entrado em mim em Fort Lauderdale. Ou aqui mesmo, nesta varanda, pelo que sei.


Richard suspirou e olhou para o mar, agora avermelhado pelo sol de final da tarde.


― Estou tentando, Arthur; não quero pensar que você esteja perdendo o juízo.


― Se for preciso, mostrar-lhe-ei minhas mãos ― repliquei, o que me custou grande esforço. ― Mas só se for preciso.


Richard se levantou e pegou sua bengala. Parecia velho e frágil.


― Vou buscar o buggy. Procuraremos o menino.


― Obrigado, Richard.


Ele caminhou em direção à esburacada estrada de terra que levava à sua cabana ― eu podia ver o telhado acima da Grande Duna, que se ergue por quase todo o comprimento de Key Caroline. Acima do mar, na direção do Cabo, o céu assumira uma feia coloração de ameixa e o som da trovoada longínqua me chegou aos ouvidos.


Eu não sabia o nome do rapaz, mas via-o de vez em quando, caminhando ao longo da praia ao anoitecer, com a peneira sob o braço.


Estava quase negro de tão tostado pelo sol e só usava um surrado par de jeans cortadas à altura das coxas. Na extremidade oposta de Key Caroline existe uma praia pública e um jovem empreendedor talvez consiga.ganhar até cinco dólares nos melhores- dias, peneirando a areia à procura de moedas perdidas. Ocasionalmente, eu lhe acenava e ele respondia com outro aceno, ambos neutros, desconhecidos mas irmãos, moradores permanentes da ilha em contraposição aos turistas esbanjadores que dirigiam Cadillacs e falavam em voz alta. Imagino que morasse no pequeno vilarejo agrupado em tomo da agência dos correios, cerca de oitocentos metros além de minha casa.


Quando ele passou aquela tarde, já fazia uma hora que eu estava na varanda, imóvel, observando. Eu retirara as bandagens um pouco antes. A coceira se tornara intolerável e sempre melhorava quando eles podiam ver com seus próprios olhos.


Era uma sensação como nenhuma outra no mundo ― como se eu fosse um portal ligeiramente entreaberto através do qual eles observassem um mundo que odiavam e temiam. Mas o pior era que eu também podia ver, de certo modo. Imagine sua mente transportada para uma mosca caseira, uma mosca que olhasse para seu rosto com mil olhos. Então, talvez você consiga começar a entender por que motivo eu mantinha minhas mãos envoltas em bandagens, mesmo quando não existia ninguém por perto para vê-Ias.


Tudo começou em Miami. Eu tinha negócios lá com um homem chamado Cresswell, investigador do Ministério da Marinha. Ele vem checar-me uma vez por ano ― pois já estive o mais próximo que qualquer pessoa pode chegar do material secreto referente ao nosso programa espacial. Não sei o que ele procura; um brilho furtivo em meus olhos, talvez, ou uma letra vermelha em minha testa. Só Deus sabe por que. Minha pensão é tão grande a ponto de ser quase embaraçosa.


Cresswell e eu estávamos sentados na varanda de seu quarto de hotel, bebericando drinques e discutindo o futuro do programa espacial americano. Era cerca de três e meia. Meus dedos começaram a coçar. Não foi nem um pouco gradual. Ligou-se de repente, como uma corrente elétrica. Mencionei o fato a Cresswell.


― Então, você pegou alguma planta venenosa naquela ilhota escrofulosa ― disse ele, sorrindo.
― A única vegetação existente em Key Caroline são os palmitos repliquei. ― Talvez seja a coceira dos sete anos.


Olhei para minhas mãos. Perfeitamente normais. Mas coçavam.


Mais tarde, assinei o mesmo documento de sempre ("Juro solenemente que não recebi nem revelei e divulguei informações que...") e dirigi meu carro de volta à ilha. Tenho um velho Ford equipado com freio e acelerador operados à mão. Eu o adoro ― faz com que me sinta autosuficiente.


É um longo trajeto pela Rodovia 1 e, quando saí da auto-estrada e peguei a rampa de saída para Key Caroline, eu estava quase louco. Minhas mãos coçavam inacreditavelmente. Se você já passou pelo sofrimento da cicatrização de um corte profundo ou de uma incisão cirúrgica, talvez faça alguma idéia do tipo de coceira a que me refiro, tinha a impressão de que coisas vivas rastejavam e me perfuravam a carne.


O sol quase desaparecera no horizonte e examinei cuidadosamente as mãos à luz do painel. Agora, as pontas dos dedos estavam vermelhas, em pequenos círculos perfeitos logo acima da parte carnuda onde estão as impressões digitais, nos locais onde ficamos com pequenos calos ao tocarmos violão. Também existiam círculos vermelhos de infecção no espaço entre a primeira e segunda juntas de cada dedo, inclusive o polegar, e na pele entre a segunda junta e a mão. Apertei os dedos da mão direita contra os lábios e retirei-os depressa, com repentino nojo. Uma sensação de atônito horror surgiu-me na garganta, lanuda e asfixiante. A carne onde os pontos vermelhos tinham surgido estava quente, febril, e o resto parecia macio, mole e frio, como a polpa de uma maçã apodrecida.


Levei o resto do caminho procurando convencer-me de que realmente pegara algum tipo de urticária, em algum lugar. Contudo, no fundo de minha mente havia outro pensamento terrível. Quando criança, tive uma avó que passou os últimos dez anos de vida isolada do mundo num quarto do andar superior. Minha mãe lhe levava as refeições e seu nome era um assunto proibido para nós. Posteriormente, vim a saber que ela sofria da moléstia de Hansen ― lepra.


Quando cheguei em casa, telefonei para o Dr. Flanders, no continente. Fui atendido pela secretária eletrônica. O Dr. Flanders estava fazendo um cruzeiro de pesca, mas se fosse urgente o Dr. Ballanger estaria às ordens. O Dr. Flanders regressaria no máximo até a tarde seguinte.


Desliguei num movimento vagaroso e, depois, disquei para Richard. Deixei o telefone chamar uma dúzia de vezes antes de desligar. Depois disso, permaneci indeciso durante algum tempo. A coceira piorava. Parecia emanar da própria carne.


Rolei minha cadeira de rodas até a estante de livros e peguei a velha enciclopédia médica que eu possuía há anos. O livro se mostrou enlouquecedoramente vago. Poderia ser tudo, ou nada.


Recostei-me e fechei os olhos. Podia escutar o velho relógio de navio funcionando na prateleira do outro lado da sala. Ouvi o ronco longínquo de um jato que se dirigia a Miami. E o leve sussurro de minha própria respiração.


Continuei a olhar para o livro.


A percepção do fato foi lenta, mas, de repente, atingiu-me de modo assustador. Eu tinha os olhos fechados, mas, ainda assim, continuava a olhar para o livro. O que eu via era a versão difusa e monstruosa, distorcida, em quatro dimensões, de um livro. E, a despeito de tudo, a imagem era inconfundível.


E não era eu o único que o olhava.


Abri bruscamente os olhos, sentindo um aperto no coração. A sensação diminuiu um pouco, mas não inteiramente. Eu estava olhando para o livro, vendo as letras e diagramas com meus próprios olhos, uma experiência cotidiana perfeitamente normal; mas também via-o de um ângulo diferente, inferior ― via-o com outros olhos. Via não um livro, mas uma coisa estranha, algo de forma monstruosa e intenção ominosa.


Ergui lentamente as mãos para o rosto, tendo a fantasmagórica visão de minha sala transformada numa casa de horror.


Gritei.


Havia olhos observando-me através de fendas na carne de meus dedos. E, enquanto eu olhava, a carne se dilatava e murchava, à medida que eles abriam implacavelmente caminho em direção à superfície.


Mas não fora isto que me fizera gritar. Eu olhara para meu próprio rosto e vira um monstro.


O buggy apareceu no topo da colina e Richard o freou junto à varanda. O motor acelerado roncava e pipocava. Rolei minha cadeira de rodas pelo plano inclinado à direita dos degraus normais e Richard me ajudou a embarcar.


― Muito bem, Arthur ― disse ele. ― A festa é sua. Para onde vamos?


Apontei na direção da água, onde a Grande Duna finalmente começa a descer. Richard meneou afirmativamente a cabeça. As rodas traseiras derraparam, jogando areia, e partimos. Eu costumava espicaçar Richard por causa da maneira pela qual dirigia o buggy, mas não me dei o trabalho de fazê-lo naquela noite. Tinha muito mais em que pensar ― e sentir: eles não queriam o escuro e eu podia senti-los esforçando-se por ver através das bandagens, impelindo-me a retirá-las.


O buggy saltava e rugia pela areia em direção ao mar, parecendo quase decolar do topo das dunas menores. À esquerda, o sol se punha no horizonte com uma glória sangrenta.


Bem à nossa frente, no horizonte, as pesadas nuvens de trovoada se encaminhavam para nós. Os relâmpagos iluminavam o céu e os raios caíam no oceano.


― À sua direita ― disse eu. ― Perto daquele abrigo.


Richard freou o buggy, espalhando areia, ao lado das ruínas apodrecidas do abrigo de troncos e folhas de palmeira. Estendeu a mão para trás e pegou uma pá. Fiz uma careta ao ver isso.


― Onde? ― indagou ele, sem expressão.


― Bem ali ― apontei para o local.


Ele saltou e andou vagarosamente pela areia até o local, hesitou um instante e logo enterrou a pá na areia. Pareceu-me que ele cavou durante longo tempo. A areia que jogava por cima do ombro com a pá parecia úmida. As nuvens ameaçadoras estavam mais escuras, mais altas, e o mar parecia raivoso e implacável à sombra delas e ao brilho refletido do crepúsculo.


Muito antes que Richard parasse de cavar, compreendi que ele não encontraria o garoto.


Eles o haviam removido dali. Eu não colocara bandagens nas mãos na noite anterior, de modo que eles conseguiram ver e agir. Se foram capazes de me usar para matar o menino, poderiam usar-me para removê-lo, mesmo enquanto eu dormia.


― Não há menino algum, Arthur.


Richard jogou a pá suja de areia na parte traseira do buggy e sentou-se fatigadamente ao volante. A tempestade que se aproximava lançava sombras curvas e movediças ao longo da areia. A brisa que se tornava mais forte jogava ruidosamente areia na lataria enferrujada do buggy. Meus dedos coçavam.


― Eles me usaram para removê-lo ― disse eu, obtusamente. ― Estão assumindo o controle, Richard. Estão forçando a porta, um pouco de cada vez. Uma centena de vezes por dia eu me vejo diante de algum objeto perfeitamente familiar ― uma espátula, um quadro, até mesmo uma lata de ervilhas ― sem fazer idéia de como cheguei ali, estendendo as mãos, mostrando-o a eles, vendo-o como eles o vêem, como uma obscenidade, como algo monstruoso e grotesco...


― Arthur ― interrompeu Richard. ― Não, Arihur. Não fale nisso.


Na obscuridade, seu rosto demonstrava desânimo e compaixão.


― Diante de alguma coisa, você disse. Remover o corpo do menino, você disse. Mas você não pode andar, Arthur. Está morto da cintura para baixo.


Toquei o painel do buggy.


― Isto também está morto. Mas quando você entra nele, é capaz de fazê-lo andar. Seria capaz de fazê-lo matar. Ele não poderia deter você, mesmo que quisesse ― repliquei, ouvindo minha própria voz erguer-se histericamente. ― Sou o umbral da porta, será que você não consegue entender? Eles mataram o menino, Richard! Eles removeram o corpo!


― Acho melhor você consultar um médico ― replicou ele em voz baixa. ― Vamos voltar.

Vamos...


― Verifique! Verifique o menino, então! Descubra...


― Você disse que nem mesmo sabia o nome dele.


― Ele devia ser do lugarejo. É um povoado pequeno. Pergunte...


― Falei com Maud Harrington pelo telefone, quando fui buscar o buggy. Se alguém neste estado tem o nariz mais comprido que o de Maud, eu não conheço. Perguntei se ela ouviu falar no filho de alguém, que não voltou para casa na noite passada. Ela respondeu que não.


― Mas ele é do local! Tem que ser!


Richard estendeu a mão para a chave de ignição, mas eu o detive. Ele se virou para fitar-me e comecei a desenrolar as bandagens de minhas mãos.


Sobre o golfo, a trovoada murmurava e rugia.


Não fui ao médico nem tornei a telefonar para Richard. Passei três semanas com as mãos envoltas em bandagens sempre que saía de casa. Três semanas esperando cegamente que aquilo desaparecesse. Não era um procedimento racional; sou capaz de admitir isto. Se eu fosse um homem inteiro, que não precisasse de uma cadeira de rodas em lugar das pernas, ou que levasse uma vida normal com uma ocupação normal, eu talvez fosse consultar o Dr. Flanders ou procurasse Richard. Poderia tê-lo feito, se não fosse pela lembrança de minha avó, isolada, virtualmente encarcerada, sendo devorada viva pela própria carne infectada. Portanto, mantive um silêncio desesperado e rezei para acordar algum dia de manhã e descobrir que tudo fora um pesadelo.


E, pouco a pouco, eu os sentia. Eles. Uma inteligência anônima. Eu nunca realmente tentei imaginar como eles eram ou de onde tinham vindo. Era irrelevante. Eu era o umbral deles, sua janela para o mundo. Recebia deles suficiente feedback para sentir sua repulsa e horror, para saber que nosso mundo era muito diferente do seu. Feedback suficiente para sentir-lhes o ódio cego. Não obstante, eles observavam. Sua carne estava entranhada na minha. Comecei a perceber que me usavam, realmente me manipulavam.


Quando o menino passou, erguendo a mão em seu costumeiro aceno neutro, eu tinha acabado de decidir entrar em contato com Cresswell através de seu telefone no Ministério da Marinha. Richard tinha razão a respeito de uma coisa: eu tinha certeza de que fora contaminado no espaço ou naquela estranha órbita de Vênus. A Marinha me estudaria, mas não me transformaria num monstro. Eu não mais precisaria acordar na escuridão cheia de rangidos e abafar um grito ao senti-los observar, observar, observar.


Voltei as mãos para o menino e dei-me conta de que não as enrolara nas bandagens. Na luz fraca do crepúsculo, pude ver os olhos que observavam silenciosamente. Eram grandes, dilatados, com íris cor de ouro. Certa vez eu esbarrara um deles contra a ponta de um lápis e sentira a dor angustiante subir pelo braço. O olho deu a impressão de fitar-me com um ódio contido que era pior que a dor física. Não esbarrei novamente.


E agora, eles observavam o menino. Sentia mente desviar-se. Um momento depois, meu controle desapareceu. A porta estava aberta. Cambaleei pela areia em direção ao menino, minhas pernas movimentando-se sem nervos, como uma tábua ao sabor das ondas. Meus olhos pareceram fechar-se a passei a ver apenas através daqueles olhos estranhos ― vi um monstruoso panorama marinho de alabastro, encimado por um céu semelhante a um imenso manto cor de púrpura; vi um barraco inclinado, em ruínas, que poderia ter sido a carcaça de alguma desconhecida criatura carnívora; vi uma criatura abominável que se movia, respirava e carregava sob o braço um objeto de madeira e arame, um objeto construído de ângulos retos geometricamente impossíveis.


Imagino o que ele pensou, aquele pobre menino sem nome com a peneira sob o braço e os bolsos estofados com um conglomerado de moedas sujas de areia perdidas pelos turistas, o que ele pensou ao ver-me cambalear em sua direção com as mãos estendidas como um maestro cego regendo uma orquestra lunática, o que ele pensou quando o que restava de luz incidiu em minhas mãos, vermelhas, rachadas e brilhantes com sua carga de olhos, o que ele pensou quando as mãos fizeram aquele brusco movimento no ar, logo antes de sua cabeça explodir.


Eu sei o que pensei.


Pensei que espiava pela borda do universo e via as labaredas do próprio inferno.


O vento fustigava as ataduras, transformando-as em bandeiras drape. jantes, enquanto eu as desenrolava As nuvens tinham escondido o que restava do crepúsculo e as dunas estavam escuras, cobertas de sombras. As nuvens pareciam correr e fervilhar acima de nós.


― Precisa prometer-me uma coisa, Richard ― declarei, acima do barulho do vento. ― Você deve correr caso pareça que eu possa tentar... machucá-lo. Está entendendo?


― Sim.


Sua camisa aberta no pescoço chicoteava com o vento. O rosto estava sério, decidido, e seus olhos eram pouco mais que órbitas no escuro.


A última atadura caiu.


Olhei para Richard. E eles olharam para Richard. Vi um rosto que conheço há cinco anos e passei a amar. Eles viram um monolito vivo, distorcido.


― Você os vê ― disse eu, em voz rouca. ― Agora, você os vê.


Ele recuou involuntariamente. Seu rosto foi invadido por súbito e incrédulo pavor. Um relâmpago iluminou o céu. Os trovões andavam entre as nuvens e o mar se tornara mais negro que o próprio Estige.


― Arthur...


Como ele era hediondo! Como podia eu ter convivido com ele, falado com ele? Não era uma criatura, mas uma pestilência muda. Ele era...


― Fuja! Fuja, Richard!


E ele fugiu. Correu em saltos enormes. Transformou-se num andaime de encontro ao céu ameaçador. Minhas mãos se ergueram, voando sobre minha cabeça num gesto gritante e estranho, os dedos estendidos na direção da única coisa que me era familiar naquele mundo de pesadelo ― as nuvens.


E as nuvens responderam.


Houve o risco enorme, branco-azulado, de um raio que pareceu ser o final do mundo.


Atingiu Richard, envolvendo-o. A última coisa de que me lembro é o cheiro elétrico de ozônio e o odor de carne queimada.


Quando acordei, estava placidamente sentado em minha varanda, olhando na direção da Grande Duna. A tempestade passara e o ar estava agradavelmente fresco. Havia uma fina fatia de lua. A areia era virginal nem o menor sinal de Richard ou do buggy.


Olhei para minhas mãos. Os olhos estavam abertos, mas esgazeados. Eles estavam exaustos. Dormiam.


Eu sabia muito bem o que precisava ser feito. Antes que a porta se abrisse ainda mais, tinha que ser trancada. Para sempre. Eu já podia notar os primeiros sinais de alteração estrutural nas mãos. Os dedos começavam a encurtar-se... e a mudar.


Havia uma pequena lareira na sala e, na estação, eu costumava acender um fogo contra o frio úmido da Flórida. Acendi um agora, agindo depressa. Não fazia idéia de quando eles despertariam para o que eu estava fazendo.


Quando o fogo pegou bem, saí até o tambor de querosene e embebi ambas as mãos. Eles acordaram imediatamente, gritando em agonia. Quase não consegui chegar de volta à sala ― e à lareira.


Mas cheguei.


Isso ocorreu há sete anos.


Ainda estou aqui; ainda observo os foguetes subirem. Têm sido mais numerosos, ultimamente. Este é um governo com mentalidade espacial. Até mesmo já se fala em novas sondas tripuladas para Vênus.


Descobri o nome do menino, embora não faça diferença. Ele pertencia realmente ao lugarejo. Mas a mãe esperava que ele passasse a noite em casa de um amigo, no continente, e só deu alarme na segunda-feira seguinte. Richard... bem, todo mundo achava Richard um sujeito esquisito. Desconfiam que ele tenha ido para Maryland ou se amasiado com alguma mulher.


Quanto a mim, sou tolerado, embora goze também de grande reputação por excentricidade. Afinal, quantos ex-astronautas escrevem regularmente a seus representantes eleitos, em Washington, sugerindo que o dinheiro da exploração do espaço poderia ser melhor empregado em outras coisas?


Dou-me bem com estes ganchos no lugar das mãos. Sofri dores horríveis durante um ano ou mais, mas o corpo humano é capaz de adaptar-se a quase tudo. Aprendi a barbear-me com eles e até mesmo a dar o laço nos sapatos. E, como podem ver, minha datilografia é correta e fácil. Não espero encontrar qualquer dificuldade para enfiar o cano da espingarda na boca e puxar o gatilho. Pois tudo começou outra vez, há três semanas.


Há um perfeito círculo de doze olhos dourados em meu peito.


* * *




13.5.07

APARIÇÕES

Mais uma vez a Câmara homenageia um grande mestre imortal da literatura sombria. Pela primeira vez em nossas páginas, Ambrose Bierce, o grande escritor de horror norte-americano que, à época da revolução mexicana, por volta de 1914, desapareceu no deserto na região de fronteira e nunca mais foi visto. Aqui fugimos do óbvio em sua obra e publicamos um de seus contos menos populares. Boa leitura!




APARIÇÕES

Ambrose Bierce



Ao sul do ponto em que a estrada entre Leesville e Hardy, no estado do Missouri, corta a bifurcação leste do rio May, existe uma casa abandonada. Ninguém vive lá desde o verão de 1879 e ela está caindo aos pedaços. Por cerca de três anos antes da data que acabo de mencionar, a casa foi ocupada pela família de Charles May, cujos ancestrais tinham dado nome ao rio que passa ali perto. A família do Sr. May consistia em sua mulher, um filho adulto e duas moças. O nome do filho era John — os nomes das filhas, o redator destas linhas desconhece.


John May era rude, soturno e, embora não explodisse facilmente, era dono de um temperamento tão rancoroso e mal-humorado que raramente se vê. Seu pai era o inverso. Sendo de temperamento solar e jovial, tinha pavio curto, sujeito a explosões momentâneas, que logo eram esquecidas. Não guardava ressentimentos e, assim que a raiva passava, em pouco tempo estava disposto às reconciliações. Tinha um irmão que vivia nas redondezas e que dele diferia em tudo. Os vizinhos comentavam, maldosos, que John herdara o temperamento do tio.


Certo dia houve um desentendimento entre pai e filho, palavras duras foram ditas e o pai acabou dando um soco no rosto do rapaz. Calmamente, John limpou o sangue do rosto e, com os olhos fixos em seu agressor, esteja arrependido, disse com toda a frieza: "O senhor vai morrer por causa disso.”


Suas palavras foram ouvidas por dois irmãos, de sobrenome Jackson, que estavam por perto no momento da briga. Mas, vendo que pai e filho estavam discutindo, eles se afastaram, aparentemente sem ser vistos. Charles May depois relatou o acontecido à mulher, explicando que havia pedido perdão ao filho pelo soco, mas em vão. O jovem não apenas rejeitara suas desculpas como também se recusara a retirar a ameaça. Apesar disso, não houve um rompimento explícito nas relações familiares: John continuou vivendo com os pais e a vida seguiu seu curso.


Numa manhã ensolarada de junho, em 1879, cerca de duas semanas depois da briga, May, o pai, saiu de casa depois de tomar café, levando consigo uma pá. Disse que ia cavar junto a uma fonte, num bosque a pouco mais de um quilômetro da casa, a fim de que o gado tivesse água para beber. John ficou em casa por algumas horas, onde se barbeou, escreveu cartas e leu o jornal. Agia da forma costumeira. Ou, talvez, mostrando-se um pouco mais taciturno e ríspido.


Às duas da tarde ele saiu de casa. Às cinco, voltou. Por algum motivo sem qualquer ligação com o interesse em seus movimentos, e do qual não me lembro, tanto a mãe como as irmãs notaram a hora em que ele saiu e a hora em que voltou, como seria dito mais tarde durante seu julgamento por assassinato. Notaram também que a roupa dele estava molhada em alguns pontos, como se (destacaria mais tarde a promotoria) ele tivesse lavado manchas de sangue. Sua maneira de agir era estranha e sua aparência, de desvario. Disse que se sentia mal e foi para o quarto se deitar.


May, o pai, nunca voltou. Mais tarde, naquela mesma noite, os vizinhos mais próximos foram chamados e durante toda a madrugada e todo o dia seguinte empreenderam buscas na floresta onde ficava a fonte. Nada encontraram, exceto as pegadas dos dois homens no barro em torno da nascente. Enquanto isso, John May piorava cada vez mais, com os sintomas de uma doença que o médico local chamou de febre cerebral. E em seus delírios falava de assassinato, embora não explicasse quem teria sido assassinado, nem quem imaginava ser o culpado. Mas a ameaça que fizera foi lembrada pelos irmãos Jackson e, como suspeito, ele foi preso, ficando em prisão domiciliar sob a custódia de um subxerife. A opinião pública estava contra ele e, se não estivesse doente, provavelmente teria sido enforcado pela turba. E, assim, os vizinhos se reuniram na terça-feira, tendo sido criado um comitê para acompanhar o caso e tomar todas as providências que se fizessem necessárias.


Na quarta, tudo mudou. Da cidadezinha de Nolan, a mais de doze quilômetros de distância, chegaram notícias que deram nova luz ao caso. Nolan era composta de uma escola, uma ferraria, um armazém e meia dúzia de casas. O armazém era de um tal Henry Odell, primo de Charles May. Na tarde do domingo em que May havia desaparecido, o Sr. Odell e quatro de seus vizinhos, todos homens de credibilidade, estavam sentados diante do armazém fumando e conversando. Fazia calor. E tanto a porta da frente quanto a de trás estavam abertas. Lá pelas três da tarde, Charles May, que era conhecido de três dos cinco homens, entrou pela porta da frente e saiu pela de trás. Não usava chapéu ou casaco. Não olhou para os homens, nem respondeu aos cumprimentos, gesto que não causou espanto, uma vez que ele estava seriamente ferido. Tinha um ferimento acima da sobrancelha esquerda — um corte profundo, de onde o sangue vertia, cobrindo todo o lado esquerdo do rosto e do pescoço e empapando a camisa cinza clara, Estranhamente, a conclusão da maioria dos homens foi a de que ele se metera em alguma briga e que se dirigia direto para o riacho nos fundos do armazém, para se lavar.


Talvez tenham ficado constrangidos — movidos por um código rural que os impediu de segui-lo e oferecer ajuda. Os autos, dos quais esta narrativa foi em grande parte extraída, restringem-se aos fatos. Eles esperaram que ele retornasse, mas ele não retornou.


Em volta do riacho que passa nos fundos do armazém há uma floresta, que se estende por quase dez quilômetros até as colinas de Medicine Lodge. Assim que chegou à vizinhança do homem desaparecido a notícia de que ele havia sido visto em Nolan, houve uma mudança imediata nos sentimentos da população. O comitê de vigilância foi dissolvido sem sequer a formalidade de uma resolução. As buscas nas profundezas da floresta junto ao rio May foram suspensas e quase todos os homens da região se puseram a vasculhar os arredores de Nolan e as colinas de Medicine Lodge. Mas do homem desaparecido não se achou traço.


Uma das coisas mais estranhas desse estranho caso é o indiciamento formal e o julgamento de um homem sob a acusação de assassinato de outro homem, cujo corpo jamais foi visto por quem quer que fosse — de um homem, inclusive, que não se sabia ao certo se estava morto. Todos nós já ouvimos falar dos caprichos e excentricidades das leis da fronteira, mas esse caso, acredita-se, é único. Seja como for, consta dos autos que, assim que se recuperou, John May foi acusado pelo assassinato do pai desaparecido. O Conselho de defesa parece que não perdeu tempo e o caso foi julgado por seus méritos. A promotoria foi tíbia e negligente. E a defesa rapidamente estabeleceu — levando em conta a vítima — um álibi. Se no momento em que John May matou Charles May, na suposição de que o tivesse matado, Charles May estava a quilômetros de distância de onde John May devia estar, está claro que a vítima só poderia ter morrido pelas mãos de outra pessoa.


John May foi absolvido e deixou a região, sem que, desde então, jamais alguém ouvisse falar dele. Pouco depois, sua mãe e suas irmãs mudaram-se para St. Louis. A fazenda passou para as mãos de um homem que possuía o terreno adjacente, onde tinha seu próprio rancho, e a casa dos May ficou abandonada, tendo adquirido a sombria fama de mal-assombrada.


Certo dia, depois que a família May já havia deixado a região, uns garotos, que brincavam no bosque junto ao rio May, encontraram encoberta sob um monte de folhas mortas, mas parcialmente desenterrada pelos porcos, uma pá, quase nova e ainda brilhante, exceto por um ponto num dos cantos em que estava enferrujada e manchada de sangue. A ferramenta tinha as iniciais C. M. marcadas no cabo.


A descoberta renovou, até certo ponto, a excitação popular dos meses anteriores. O terreno perto do local onde a pá tinha sido encontrada foi cuidadosamente escavado e o resultado foi que se encontrou o corpo de um homem. Havia sido enterrado a uma profundidade de menos de um metro e o local fora coberto por uma camada de folhas mortas e gravetos. Quase não estava decomposto, fato atribuído a alguma propriedade preservativa do solo rico em minerais.


Acima da sobrancelha esquerda havia um ferimento — um corte profundo de onde o sangue vertera, cobrindo todo o lado esquerdo do rosto e do pescoço e empapando a camisa cinza clara. O crânio fora rachado com o golpe. O corpo era de Charles May.


Mas o que era aquilo que atravessou a loja do Sr. Odell em Nolan?

(Fonte de imagem: Wikipédia)





O OLHO DE DEUS

Em sua estréia como colaborador da Câmara, o escritor gaúcho Leonardo Nunes Nunes brinda os amigos e irmãos das sombras com um conto inquietante e intrigante. Um grande exemplar da literatura fantástica brasileira agora aqui, para o deleite de nossa comunidade ávida por algo de novo em nossa literatura.



O OLHO DE DEUS
Por: Leonardo Nunes Nunes



Luz: " Energia Cósmica que chega até nós!"
Pintura de VILSON KLOCK (devidamente autorizada para exposição).
Dedico aos amigos e conhecidos Vilson Klock, artista e pintor, devido sua inspiradora pintura; Andrios S. Moreira, escritor, por apresentar algumas idéias deveras interessantes; e Pérsio Sandir D´Oliveira, também escritor, por ter indicado alguns caminhos conduzindo-me ao final.


Editado por P. K., Alan.


(Material encontrado no jardim de sua casa, junto de uma pasta, abaixo de uma pedra que fazia a decoração. Inexplicavelmente não fora atingido pelo fogo.)



Houve muitas mortes. Muitos consideraram, devo admitir que estavam errados, natural, visto que a procedência inclinava-se a acontecimentos humanos, feito a prematuridade d’alguns seres com características verdadeiramente humanas; outros, aí chegando um pouco mais próximo da realidade, acreditavam ter ocorrido acontecimentos – catástrofes; de caráter culposo e negligencioso, como as queimadas de matas, os venenos jogados ao ar, as guerras biológicas que, querendo ou não, a qualquer momento podem acontecer, e que já aconteceram. Mas ninguém, não até agora, apontou a verdadeira causa de tantas mortes.

Num mundo preocupado por obter cada vez mais lucros, as pessoas se esquecem de uma coisa que contém o verdadeiro significado da vida, a essência: sentir-se profundo. Todos se esquecem que não estamos sós, não somos únicos. No entanto ninguém acredita, ou está capacitado em acreditar, n’outras vidas, mais ou menos inteligentes que nós. A corrida desesperada pelo emprego, a sensação de derrota por não ter dinheiro, o mundo perdido em preocupações toscas e desnecessárias sem propósito algum; mas o que acontece lá fora, distante de nossos olhos, detentes de um poder infinito, espreita na escuridão de nossa ignorância, esperando um momento para nos consumir.

Foi há dois dias atrás. Não tive coragem e peito para informar a todos do que vi, e levar, quem sabe, risadas de escárnio daqueles seres preocupados com coisas cujo acima citei. Eu estava perdido dentro de meu quarto quando olhei para fora e percebi um estranho brilho no céu. Olhei, espantado fiquei. Tenho a absoluta certeza que ninguém vislumbrou boreau igual no céu em nossos dias, quanto mais naquele dia, tenho certeza que fui o único a ver tal acontecimento. Que cor maravilhosa surgiu no céu até pouco tempo azul-arroxeado, que espetáculo de aurora prematura vista por meus olhos. Hipnotizado, sem piscar, observei aquele fenômeno por, no mínimo, uma hora, até novamente se confundir com a cor noturna do céu de novembro. Passei a noite em claro estudando aquilo visto, procurei em livros de astrologia, até alguns de psicologia – muitos hão de pensar que fiquei louco, ora procurar em um livro de psicologia, no que assemelha-se?; dos quais tinha em casa.

No dia seguinte, como professor de matemática, facilmente tive acesso à biblioteca da escola. Ontem, por tanto. Dei minha primeira aula e, mesmo sem pedir permissão, fiquei o dia inteiro mergulhado nos muitos livros que a mim eram oferecidos. Ah! Que maldita inspiração. Um mero professor de matemática secundária não deveria tomar por conhecimento as obscuras leis que nos rodeiam. Freud chamaria isto de personalidade dupla. Pesquisei, mesmo sabendo que estava errado, com café ao meu lado para manter-me desperto, todas as informações que pudessem explicar aquilo que vi em tal noite. Em nenhum dos livros consegui uma explicação plausível para tal acontecimento. Porém não desisti. Não poderia, nem queria, tornou-se, então, uma questão de vontade própria, tornou-se pessoal. Meus olhos não estariam mentindo, certo? Tudo que encontrei foram informações da própria aurora boreau, nada mais que pudesse sanar minhas dúvidas. Vários livros abertos em minha frente e nenhum deles me respondiam. Tentei me comunicar com outros livros, como, por exemplo, os da matemática, física, metafísica, história, geografia, até os de português procurei... bati a cabeça na mesa me achando inútil. Repeti as palavras: inútil, inútil, INÚTIL!

Procurei pela internet qualquer outra informação que me pudesse ser útil, perda de tempo total. Em que mais poderia procurar? Livros de medicina? Sim, eu precisava. Entrei em contato com a faculdade de medicina da cidade e pedi permissão para poder pesquisar algumas coisas. Menti dizendo que queria compreender a complexidade humana, foi fácil. Foi-me concedido no dia de hoje, na parte da manhã. Menti mais uma vez para transferir minha aula para outro dia na escola, disse estar indisposto e que iria recupera-la. Cheguei até a biblioteca de medicina, peguei vários livros, uma caneta, papéis, e comecei meu estudo. Fui atrás. Procurando intensamente pelos livros, encontrei uma referência que muito me poderia ajudar. Anotei o nome no papel. Doutor Hermann Herestauss. Em seguida, após permissão, pela internet, procurei referências de maior precisão de tal livro, único, deste autor. Porém nada encontrei.

Saí da biblioteca com a idéia fixa de procurá-lo em lojas de sebo. Nada por acaso, em minha cidade há várias livrarias especializadas em venda de livros antigos, resolutamente fui na mais próxima. Para poupar tempo perguntei ao atendente se havia livros antigos de medicina, sem um resultado positivo foi até uma segunda livraria, assim estendendo minha procura por todo o dia. Já planejava de cabeça pedir licença da escola para uma outra averiguação, quando, instintivamente, entrei numa próxima de casa. Minha tentativa não fora em vão. Ao falar com o atendente, sua resposta me encheu de esperanças, pois fora positiva. São poucos os sebos que realmente possuem um sistema para catalogar os livros “in loco” e os que já foram vendidos, especifiquei minha pergunta falando do doutor, e aquele me disse que o guardava há muito tempo, visto que ninguém nunca o havia procurado. Nem sabia ao certo como o tinha. Discretamente puxou uma chave-única do balcão e me conduziu até os fundos onde havia uma estante (bem como a própria livraria) cheia de livros, nela ele abriu uma portinhola e com todo o cuidado o puxou de lá de dentro.

Tratava-se de uma impressão clandestina do século dezoito, do qual seu valor irrisório nem pesou em meu bolso. No primeiro olhar se mostrou quebradiço, carcomido pelas traças, não pensei duas vezes em comprá-la. Parecia-me ser uma explicação fora do comum daquilo feito até hoje. Trata-se d’um doutor do século quatorze, que, tamanha revelação, revolucionou a medicina, porém condenado ao ostracismo. Suas explicações, deveras científicas, mostraram estarem a frente de seu tempo – e a frente do nosso, também; deixando claro que para entender o corpo humano deveríamos entender o cosmos, aquilo que não vemos com nossa visão limitada. Boa parte do livro trata-se de uma explicação sucinta daquilo que é, hoje já provado, o universo. Afirmou que não somos os únicos, afirmou que nosso conhecimento, em ascensão, não é considerável, e que temos um limite que não podemos transpor. Dentre outras coisas, uma delas me chamou a atenção: uma profusão de cores indistintas no céu. Corri tomar água, voltei e li novamente. Meus olhos não haviam mentido para mim. Tratava-se daquilo que eu queria saber.

Li, reli e meditei aquilo lido. Então compreendi o que certa vez um conhecido disse-me: “Após dias cinzentos veremos o sol brilhar”.

Por considerável tempo fiquei extasiado, porém tomei conta de que se tratava da verdade absoluta, a nossa destruição. Foi como um despertar, dolorido e desastroso. Caminhei por todos os cômodos de minha casa, recorri a um livro que tinha em meu quarto, o peguei e me pus a ler. Outra informação completou a última. A existência de um ser maior e mais poderoso do que nós. Constituído de matéria e poeira cósmica, sem formato, apenas algo guiado por sua infinita inteligência. E, neste livro, estava dito que um dia esse ser iria aparecer e consumir toda a energia terrestre. Um livro feito por um desconhecido chamado Emily B., feito no total desvario de uma mente conturbada, morto por um colapso nervoso ao término do mesmo. Outra coisa descobri: a mente humana não é capaz de suportar tamanho conhecimento.


Viajei pelas estrelas, passei por cosmos desconhecidos e obscuros, encontrei aquilo visto pela janela. A luz, a energia cósmica, aquela que premeditado fora irá nos consumir. Ela chega numa velocidade irreconhecível, passa por estrelas sem tomar conhecimento, alimentando-se delas. Eu acompanho-a, sinto seu poder, sinto sua sapiência, tomo conhecimento daquilo conhecido por ela. Ela sabe que estou ali, ao seu lado. Ela sabe, e se diverte com meu infortúnio. Ela avança, me mostra como vai fazer quando chegar até nós, mostra seu desprezo pela humanidade ou por qualquer coisa que encontre na sua frente. É deus, é criador, é destruidor. É a forma que nos arrebatará. É aquilo que resume-se: superioridade. E ela vai chegar, e será o caos, o absoluto desespero, ninguém saberá como escapar, não tenho idéia se tomará alguma forma, mas vai nos consumir!


Estou suando feito um louco. É alta madrugada do dia 11, meus olhos vão em sua direção e o que vejo me faz tremer: é novamente aquela cor boreau no céu, e somente eu a vejo. Meu desespero aumenta, meu coração pulsa descompassado, minha visão entorpece. O grito sai de minha garganta seca, não me preocupo com qualquer um que me ouça, pois o motivo é assustador. Minha mente não está preparada para sofrer as conseqüências, nem as mentes dos outros estão preparadas para obter este conhecimento.



Nota

Incêndio inexplicável mata professor de matemática da Escola Estadual Dulbino Edmund Kzaninski. Sua modesta casa fora incendiada e nada sobrou senão o esqueleto da estrutura totalmente chamuscado pelas chamas da madrugada, transformadas em cinzas. Nenhum indício de início de fogo fora encontrado, nenhuma explicação fora esclarecida, muito menos se fora criminoso ou não.


O senhor, cujo nome deve ficar sob sigilo, no dia de ontem, fora a procura de conhecimento da medicina, pois, segundo a escola em que lecionava, estava envolvido numa pesquisa d’algumas doenças que existiam atualmente, na tentativa de entender o motivo de tanta vulnerabilidade humana; nenhum indício de suicídio.


Vizinhos disseram escutar gritos de nobre senhor, como se estivesse sofrendo d’alguma mal-afamada notícia preocupante, ou até mesmo desesperado por estar doente (aí se explica o motivo da curiosidade quanto à medicina). Nada esclarecedor no que concerne ao acontecimento que choca a cidade.




17 / 09 / 2006

Correção: 11 / 10 / 2006


Autor: Leonardo Nunes Nunes

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