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23.6.07

A MULHER VAMPIRO


Em mais uma apresentação de clássicos da literatura de horror, a Câmara orgulhosamente oferece a seus frequentadores o prazer da leitura de "A mulher vampiro" um dos contos mais famosos de E.T.A. Hoffmam. Acenda a lareira, verifique as portas, cheque a escuridão no quintal e boa leitura!








A MULHER VAMPIRO



E. T. A. Hoffmann







O conde Hipólito tinha voltado das suas extensas viagens, a fim de tomar posse da rica herança do pai, que morrera pouco tempo antes. O solar da família era situado numa das mais pitorescas regiões, e as rendas do patrimônio permitiam embeleza-lo custosamente. O conde resolveu reproduzir ali tudo o que durante as suas viagens o impressionara vivamente pela magnificência e bom gosto. Chamou uma nuvem de artistas e de operários, que começaram logo a embelezar, ou para melhor dizer, a reconstruir o castelo, rasgando ao mesmo tempo um parque do mais grandioso estilo, onde se encravaram, como dependências, a igreja paroquial e o cemitério.



Possuidor dos conhecimentos necessários, o conde dirigiu em pessoa os trabalhos e entregou-se completamente a esta ocupação.



E assim decorreu um ano, sem que lhe passasse pela idéia ir brilhar, como lhe aconselhava um tio velho, na sociedade da capital, sob os olhares das meninas casadoiras, afim de desposar a melhor, a mais bela e a mais nobre de todas.



Estava, uma manhã, sentado à mesa desenhando o plano duma nova construção, quando lhe anunciaram uma parente de seu pai.



Ao ouvir o nome da baronesa, Hipólito recordou-se logo de que o pai se lhe referia sempre com a mais profunda indignação, de mistura com certo receio. Sem explicar o perigo que havia na convivência, afastara sempre dela as pessoas que lhe eram caras. Se teimavam em pedir-lhe explicações, o conde respondia que havia coisas em que era melhor não falar.



O certo é que na capital circulavam certos boatos a respeito de um processo criminal muito singular, em que a baronesa estivera envolvida e em conseqüência do qual se havia separado do marido e fora obrigada a retirar-se para o campo. Todavia o príncipe perdoara-lhe.



Hipólito experimentou uma sensação desagradável à aproximação da pessoa detestada pelo pai apesar de desconhecer as razões dessa aversão. Os deveres da hospitalidade, que se respeitam principalmente no campo, impunham-lhe, porém, a necessidade de receber a importuna visita.
A baronesa estava longe de ser feia, mas nunca pessoa alguma produzira no conde repugnância tão manifesta.



Ao entrar, a baronesa cravou no dono da casa um olhar incendido, mas logo baixou os olhos, e pediu-lhe desculpa da sua visita nos termos mais aviltantes de rasteira humildade. Lastimou que o pai do conde, possuído das mais extraordinárias prevenções inspiradas maldosamente pelos seus inimigos, a tivesse odiado de maneira tão acirrada. Apesar de ter caído em profunda miséria, chegando quase a padecer de fome, o conde nunca a socorrera. Ia agora refugiar-se numa cidade da província, tendo acabado de receber inesperadamente uma pequena quantia. Rematou dizendo que não pudera resistir ao desejo de ver o filho do homem, a cujo ódio irreconciliável sempre correspondera com profunda estima.



Estas palavras, pronunciadas com o acento tocante da verdade, conseguiram comover o conde, para o que também muito contribuiu a presença da graciosa e encantadora menina que acompanhava a baronesa. Calou-se esta finalmente, mas o conde pareceu não reparar em tal, e ficou silencioso e contrafeito. A baronesa pediu-lhe então desculpa duma falta em que o embaraço a fizera incorrer e apresentou-lhe a sua filha Aurélia.



Corando como um rapaz dominado por suave embriaguez, o conde suplicou-lhe que lhe permitisse reparar os agravos do pai, devidos certamente a uma inadvertência, oferecendo-lhe hospitalidade no castelo. Ao certificar-lhe as suas boas disposições, pegou-lhe na mão e estremeceu de terror. Sentiu-lhe os dedos gelados, sem vida, ao mesmo tempo que o vulto descarnado da baronesa, que fixava nele uns olhos embaciados, tomava o aspecto dum cadáver vestido de brocado.



— Valha-me Deus! Que contrariedade! E logo nesta ocasião! — exclamou Aurélia.



E com voz terna, que se insinuava na alma explicou que a sua desgraçada mãe tinha às vezes ataques de catalepsia, mas que estas sincopes passavam de pronto sem auxílio de remédios.



O conde retirou com dificuldade a mão que a baronesa apertava nervosamente, e, no arroubamento dum amor nascente, pegou na de Aurélia cobrindo-a de beijos.



Chegara à idade madura, mas experimentava agora pela primeira vez uma forte paixão, tornando-se-lhe impossível dissimular o que sentia, tanto mais que era animado pela graça encantadora com que Aurélia lhe acolhia as amabilidades.



A baronesa voltou a si passados alguns minutos, sem se recordar do que lhe tinha acontecido. Afirmou ao conde que se sentia honrada com aquele convite, e que este procedimento lhe apagava para sempre da lembrança a injusta conduta do pai de Hipólito.



Foi assim que o viver íntimo do fidalgo mudou subitamente. Chegava a crer que um favor especial do destino lhe trouxera a única pessoa que podia, como esposa, dar-lhe a suprema ventura.



A velha observou sempre a mesma conduta. Silenciosa, séria, reservada, deixava a propósito transparecer uma alma cheia de paz e de bons sentimentos. O conde acostumara-se àquele rosto singularmente pálido e enrugado, e aquela aparência de espectro, e atribuía tudo à má saúde da sua hospeda e ao gosto que ela tinha por sombrios passatempos. Com efeito os criados contaram-lhe que a baronesa dava passeios noturnos pelo parque, para os lados do cemitério.



Sentiu-se envergonhado por se ter deixado arrastar, no começo, pelas prevenções do pai, e o tio velho despendeu em vão a inesgotável facúndia, exortando-o a renunciar ao sentimento que o dominava e a relações que um dia poderiam desgraça-lo. Convencido de que Aurélia o amava, pediu-a em casamento. É fácil de imaginar o quanto a baronesa ficou encantada com esta proposta, que a arrancava à miséria e lhe assegurava uma existência feliz.



A palidez desaparecera do rosto de Aurélia anuviado por uma expressão de invencível pesar, e as delícias do amor deram-lhe aos olhos suave brilho e às faces frescura e colorido.



Um acontecimento funesto retardou, porém, o cumprimento dos desejos do conde. Na manhã do dia da boda, encontraram a baronesa estendida e sem movimento no parque, a pouca distância do cemitério, com o rosto contra o chão. O conde acabava de levantar-se e pusera-se à janela, pensando com embriaguez na felicidade que ia gozar, quando trouxeram a baronesa para o castelo. Pensou que se tratava dum ataque cataléptico, como era costume, mas todos os meios empregados para a chamar à vida foram inúteis. Estava morta!



Aurélia não se entregou a violenta angústia. Parecia consternada e atônita por causa deste imprevisto golpe do destino, mas não verteu urna única lágrima.



O conde, temendo melindra-la, observou-lhe, com precaução e delicadeza infinitas, que era necessário pôr de parte as conveniências e apressar o mais possível o casamento não obstante a morte da baronesa, afim de evitar maiores transtornos. Ao ouvi-lo, Aurélia deitou-lhe os braços ao pescoço e, derramando muitas lágrimas, exclamou:



— Sim, pela minha salvação, consinto!



O conde atribuiu esta exaltação à desconsoladora idéia de que, órfã e sem asilo, Aurélia não tinha para onde ir e que o decoro lhe não permitia ficar no castelo. Teve o cuidado de colocar junto de Aurélia, até ao dia fixado para a cerimônia, uma aia, matrona respeitável.



No entanto Aurélia estava numa agitação singular, proveniente mais da angústia cruciante que a perseguia incessantemente, do que do desgosto causado pela morte da mãe.



Um dia, quando conversava amorosamente com o conde, ergueu-se de súbito, pálida, num mortal terror, e banhada em lágrimas refugiou-se-lhe nos braços como se quisesse fugir a um perseguidor invisível. Exclamou:



— Não, nunca, nunca!



Depois do casamento, que não foi perturbado por nenhum contratempo, é que a perturbação e a ansiedade de Aurélia pareceram dissiparem-se.



Como bem se compreende, o conde suspeitou de que no coração de sua esposa existisse alguma causa desconhecida, que a atormentava. Contudo, foi bastante delicado para não a interrogar enquanto a viu aflita, mas depois, com grandes rodeios, perguntou-lhe o que produzira aquela extraordinária disposição de espírito. Aurélia significou-lhe que ia com vivo prazer patentear o coração ao esposo da sua alma. O conde, surpreendido, soube que a perturbação de Aurélia provinha do procedimento criminoso da mãe.



— Há nada mais horrível, perguntou ela, do que vermo-nos obrigados a aborrecer, e odiar a nossa própria mãe?



Provaram estas palavras que o pai e o tio do conde não se haviam enganado, e que a baronesa captara este último por meio de requintada hipocrisia.



O castelão nem tentou ocultar que a morte da baronesa lhe parecia mercê da Providência, mas Aurélia declarou-lhe que fora precisamente a morte da mãe que a enchera de pressentimentos sombrios, e que o receio de que não podera ainda triunfar, lhe dizia que a mãe havia de ressuscitar algum dia, para vir precipita-la num abismo, depois de arranca-la dos braços do seu amado esposo.



E falou das recordações que tinha conservado da sua infância.



Eram estas.



Um dia, ao acordar, achou a casa em completa desordem. Abriam-se e fechavam-se as portas com estrondo, ouviam-se gritos soltados por vozes desconhecidas. Quando o sossego se restabeleceu, a ama de Aurélia pegou-lhe ao colo e levou-a para uma vasta sala onde estava muita gente. Sobre uma grande mesa, no meio da casa, viu estendido um homem, que brincava sempre muito com ela e lhe dava bolos, e a quem a pequena chamava papá. Estendeu-lhe os braços para o beijar, mas aqueles lábios, que tinha conhecido quentes e cheios de vida, estavam gelados. Desatou a chorar sem saber porquê. Dali a ama levou-a para uma casa desconhecida, onde ficou por muitos dias. Passado tempo a mãe foi busca-la de carruagem e levou-a para a capital.



Completava Aurélia dezasseis anos, quando se apresentou em casa da baronesa um homem a quem ela recebeu com alegria e familiaridade, como antigo conhecimento. Multiplicaram-se as visitas e dentro em pouco operou-se considerável mudança na vida da baronesa. Em vez de morar numa água-furtada, de vestir pobremente, de passar mal, foi habitar uma casa esplêndida no melhor bairro da cidade, passou a ter fatos magníficos, e mesa lauta, sendo seu inseparável comensal o desconhecido, e, finalmente, não faltava a nenhum divertimento público.



Só Aurélia não participava da melhoria, que, segundo era fácil de conhecer, provinha do desconhecido. Não vestia melhor do que dantes e estava sempre fechada no quarto, ao passo que a mãe ia às festas com o tal homem.



Este, apesar de já ter ultrapassado os quarenta anos, parecia muito mais novo. Bonito de semblante e esbelto de figura, nem por isso deixava de repugnar a Aurélia, porque às vezes era ordinário e desastrado de maneiras, contradizendo assim as pretensões que tinha a homem amável e afidalgado.



Por este tempo, começou a deitar à rapariguinha certos olhares, que lhe infundiam inexplicável horror.



Até então a mãe nunca lhe falara a respeito dele. Limitara-se a dizer-lhe o seu nome e que o barão era um parente afastado, possuidor de colossal fortuna. Outra vez, gabou-lhe os dotes físicos e perguntou à filha que tal o achava, e, como esta não ocultasse a repugnância que tinha por ele, acoimou-a de tola e dardejou-lhe um olhar de meter medo, mas passou depois a trata-la com agrado, deu-lhe bons vestidos, e levou-a aos divertimentos. O intitulado barão manifestava tanta solicitude e um tal desejo de agradar a Aurélia, que se lhe tornou verdadeiramente insuportável, tanto mais que ela um dia presenciou, cheia de mágoa, uma cena escandalosa, que lhe tirou todas as dúvidas acerca das relações da mãe com o barão. Este, meio ébrio, apertou-a nos braços, mostrando-lhe claramente as suas intenções abomináveis. O desespero deu forças à donzela, que repeliu o miserável com vigor, fazendo-o cair para trás, e correu a fechar-se no quarto.



A baronesa declarou à filha, com frieza e terminantemente, que se deixasse de esquisitices fora de propósito, pois era o titular quem fazia todas as despesas da casa. Como não estava para recair na miséria de outros tempos, aconselhou-a a ceder à vontade do barão, o qual, em caso de recusa, já ameaçara deixa-las. Longe de se impressionar com as lágrimas e queixumes de Aurélia, a velha recebeu-os às gargalhadas e com zombaria provocante. Gabou-lhe impudicamente uma ligação, que lhe ofereceria todas as voluptuosidades mundanas, servindo-se de termos tão abomináveis e desbragados que Aurélia ficou aterrorizada.



Julgando-se perdida, só viu recurso na fuga imediata. Achou meio de apanhar a chave da porta da rua, e à meia noite, depois de fazer uma trouxa com as coisas mais indispensáveis, encaminhou-se para a antecâmara, que se achava debilmente alumiada. Julgava que a mãe estaria dormindo e ia já para sair, quando alguém subiu precipitadamente a escada e empurrou a porta. Soltos os cabelos grisalhos e vestida com uma camisola suja, que deixava a descoberto os braços e o peito, a baronesa entrou na antecâmara e foi cair aos pés de Aurélia. O suposto barão perseguia-a, armado com um bordão nodoso, e bradando:



— Espera, filha maldita de Satanás, bruxa do inferno, espera que já vou dar-te a refeição de núpcias!



E, arrastando-a pelos cabelos para o meio da casa, começou a maltrata-la cruelmente, espancando-a com o bordão.



A baronesa desatou a gritar desapoderadamente, e Aurélia, quase desfalecida, abriu a vidraça e clamou por socorro. Por acaso ia passando uma patrulha policial e acudiu logo.



— Prendam-no! — bradou aos soldados a baronesa, louca de aflição e de raiva. Prendam-no! Olhem-lhe para o ombro, que está a descoberto! É Urian!



Assim que ela pronunciou este nome, o sargento comandante da patrulha soltou um grito e disse:



— Olá! Apanhei-te finalmente!



Os guardas agarraram o desconhecido e levaram-no, a despeito da resistência que empregava para desenvencilhar-se.



Não obstante a violência do que se tinha passado, a baronesa percebeu o que a filha estivera prestes a fazer. Agarrou-a brutalmente por um braço, empurrou-a para o quarto e fechou a porta à chave, sem dizer palavra.



No dia seguinte saiu e só voltou tarde de noite. Entretanto Aurélia, ali encerrada não viu nem ouviu pessoa alguma, e padeceu as torturas da fome e da sede. Nos dias seguintes não recebeu muito melhor tratamento. A mãe deitava-lhe por vezes uns olhos cintilantes de cólera e parecia meditar qualquer projeto sinistro. Afinal recebeu, certa noite, uma carta que pareceu alegra-la, e disse a Aurélia:



— Foste tu, criatura disparatada, a causa de tudo isto, mas agora, felizmente, tudo vai bem e Deus queira que evites o terrível castigo, que o demônio te reservava.



Dali por diante tornou-se mais complacente, e Aurélia, que desde que Urian se fora já não pensava em fugir, passou a gozar de mais ampla liberdade.



Passado tempo, estando sozinha, sentada no seu quarto, ouviu um grande barulho na rua.



A criada de quarto entrou precipitadamente e disse-lhe que a polícia levava preso o filho do carrasco de **. O facínora, acusado do crime de roubo à mão armada, fora, tempos antes marcado a ferro em brasa e era levado para a cadeia quando conseguiu fugir à escolta. Desta vez não lograria escapar, certamente.



Aurélia teve um sinistro pressentimento e correu à janela. Adivinhara. Era o suposto barão que ia passando algemado e amarrado a uma carroça. Transferiam-no para outra prisão, a fim de cumprir a pena a que o tinham condenado. Ao ser alvejada pelo furioso olhar que o malvado ergueu para ela, ao mesmo tempo que lhe fazia um gesto de ameaça, Aurélia sentiu-se esmorecer e foi cair numa poltrona.



A baronesa ficava muito tempo fora de casa e deixava a filha ao abandono, pensando tristemente nas desventuras que ainda lhe estariam iminentes.



A criada de quarto entrara para o serviço depois da cena noturna, e, sabendo que o ladrão tivera relações íntimas com a ama, disse um dia a Aurélia que lastimava sinceramente a senhora baronesa, por ter sido enganada tão indignamente por aquele infame. Aurélia bem sabia o que havia de pensar a este respeito. Parecia-lhe impossível que os guardas, que tinham prendido Urian em casa da baronesa, não ficassem cientes das verdadeiras relações que existiam entre ambos, pois que ela lhes dissera o nome do criminoso e indicara o sinal infamante que ele tinha no ombro.



Segundo dizia a criada nas suas palavras ambíguas, falava-se muito àquele respeito. Andava de boca em boca a atoarda de que a justiça fizera uma severa sindicância e que ameaçara a baronesa com a prisão, porque o filho do carrasco tinha revelado casos verdadeiramente extraordinários.



A pobre Aurélia era obrigada a reconhecer a depravação da mãe, visto que, depois daquele terrível acontecimento ela continuava ainda a residir na capital.



A baronesa viu-se enfim reduzida à necessidade de sair de uma cidade onde estava exposta a infames suspeitas, aliás muito bem fundadas, e de fugir para lugar distante. Durante esta viagem é que tinha ido ter ao castelo do conde.



Aurélia considerava-se sumamente venturosa e ao abrigo de receios, mas qual não foi o seu espanto quando, num dia em que manifestava à mãe a alegria que o céu lhe concedera, esta, com os olhos cintilantes, exclamou desabridamente:



— Foste a causa da minha desgraça, criatura abjeta e maldita; mas ainda que a morte me leve repentinamente, a vingança virá surpreender-te no meio da tua imaginária felicidade. É nestes acessos nervosos, cuja origem remonta ao teu nascimento, que os artifícios de Satanás...



A mulher do conde calou-se de repente, e, abraçando-se ao marido, pediu-lhe que a dispensasse de repetir as palavras que a mãe pronunciara numa crise de furor insensato. Sentia o coração espacelar-se, ao recordar as medonhas ameaças daquela possessa do demônio, ameaças que excediam todos os horrores imagináveis. O conde consolou a esposa o melhor que pôde, sem contudo esquivar-se a ter medo.



Quando sossegou um pouco mais, não deixou de reconhecer que os crimes da baronesa, apesar de ela já ter falecido, haviam lançado uma sombra funesta numa existência que ele futurará cheia de felicidade.



Passado pouco tempo, Aurélia foi mudando sensivelmente. A palidez do rosto e o olhar extinto pareciam indicar doença, mas ao mesmo tempo os seus modos extraordinários e inquietos faziam suspeitar novo mistério. Afastava-se de todos, até do marido; fechava-me no quarto ou buscava os sítios mais solitários do parque; quando aparecia, trazia os olhos vermelhos de chorar, o rosto desfigurado, denunciando o pesar que a devorava.



Em vão o conde se esforçou por indagar as causas que punham a mulher naquele estado. Aurélia caiu em profundo abatimento, de que saiu tão somente depois de consultar uma celebridade médica.



O homem de ciência foi de parecer que a grande irritabilidade nervosa da condessa e os seus incômodos de saúde podiam fazer conceber a esperança de que ia ter fruto aquele casamento venturoso. Um dia, durante o jantar, aludiu ao estado de Aurélia. Esta, a princípio, não deu atenção à conversa do doutor com o conde, mas aplicou depois o ouvido, quando ouviu falar nos singulares caprichos que as mulheres tinham quando grávidas, e a que não podiam resistir sem prejuízo da sua saúde e até da saúde do filho. Fez então ao médico perguntas sobre perguntas, e este não se cansou de lhe citar muitos fatos, alguns altamente burlescos.



— Contudo, acrescentou ele, há também exemplos de desejos desregrados, que levaram diversas mulheres a ações verdadeiramente horríveis. Por exemplo, a mulher dum ferreiro sentia irresistível desejo de comer carne do marido, fez esforços baldados para se dominar, mas um dia em que o viu entrar em casa embriagado, atirou-se a ele com uma faca, e feriu-o tão cruelmente, que o desgraçado expirou poucas horas depois.



Mal o doutor acabava de pronunciar estas palavras, a condessa desmaiou, e as convulsões que se seguiram ao desmaio acalmaram-se com grande dificuldade. O médico reconheceu que andara mal contando semelhante aventura na presença duma senhora tão impressionável.



Pareceu, todavia, que esta crise tivera salutar influência no estado da condessa, dando-lhe algum sossego, mas pouco depois caía ela novamente num acesso de profunda melancolia.



Brilhavam-lhe os olhos com estranho fulgor e o rosto cobria-se-lhe de palidez mortal, sempre crescente. O conde tornou a inquietar-se com a saúde da esposa. Havia no seu estado uma coisa inexplicável: não tomava o mínimo alimento, manifestando invencível horror por todas as iguarias, especialmente pela carne. Quando se servia qualquer prato desta substância, era obrigada a levantar-se da mesa, dando evidentes sinais de nojo.



Foi improfícua toda a ciência do médico, porque Aurélia não quis nunca tocar em remédios, apesar das súplicas do marido.



Passaram-se semanas e meses sem que a condessa tomasse alimento algum. O mistério continuava impenetrável e o médico era de opinião que havia ali qualquer coisa que frustrava o saber humano. Afinal despediu-se, apresentando um vago pretexto, mas o conde percebeu claramente que o estado da esposa parecera muito perigoso e enigmático ao hábil clínico e que ele não quisera tratar por mais tempo duma inexplicável doença, que reputava absolutamente impossível de curar.



Imaginem-se as desagradáveis disposições em que estaria o infeliz. A desgraça, porém, ainda havia de ir mais longe. Um criado velho aproveitou um momento, em que o encontrou sozinho, para o avisar de que a condessa saía todas as noites do castelo e recolhia de madrugada. O conde estremeceu e lembrou-se de que, havia tempos, ao soar a meia noite, se apossava dele uma extraordinária sonolência. Atribuiu-a a qualquer narcótico, que a condessa lhe ministrasse sem ele dar por isso, para poder sair clandestinamente do quarto de cama, que tinham em comum infringindo o estabelecido na sua classe. Aguilhoado pelas mais terríveis suspeitas, Hipólito recordou-se da sogra e do espírito mau de que ela estivera possuída, e que talvez houvesse passado para a filha. Lembrou-se também do filho do carrasco e suspeitou de qualquer ligação adultera.



A noite seguinte ia desvendar-lhe o mistério abominável, causa única do estado singular de Aurélia.



Tinha ela por hábito ir deitar-se depois de fazer o chá, que só o conde bebia. Teve este o cuidado de não o tomar naquela noite, meteu-se na cama, leu como de costume, e não sentiu a sonolência habitual. Ainda assim, deixou cair a cabeça no travesseiro e fingiu que dormia profundamente. A condessa levantou-se então, sem fazer o mínimo ruído, aproximou uma luz do rosto do marido, examinou-o por momentos, e saiu devagarinho do quarto.



Todo a tremer, o conde ergueu-se, embuçou-se numa capa e seguiu a mulher cautelosamente. Esta já ia longe, mas como fazia luar, avistava-se distintamente o seu vestido branco. Atravessou o parque e dirigiu-se para o cemitério, desaparecendo por trás do muro Hipólito segui-a, quase de corrida; achou aberta a porta e entrou.



Viu à claridade do luar um espetáculo medonho.



A curta distância, aparições hediondas acocoravam-se no chão, formando círculo. Eram velhas seminuas, de cabelos desgrenhados, dilacerando com os dentes, como feras, o cadáver dum homem.



E Aurélia estava no meio delas!... Com que pungente angústia e profundo horror o desgraçado fugiu àquela cena infernal! Correu ao acaso pelas alas do parque, e só caiu em si quando, de madrugada, se encontrou em frente da porta do castelo. Subiu rápida e maquinalmente a escadaria, atravessou as salas e entrou no quarto de cama. A condessa parecia dormir serenamente.



Tanto não fora sonho ela sair do castelo, que estava ainda húmida do orvalho a capa. Ainda assim tentou persuadir-se de que tinha sido joguete duma alucinação.



Sem esperar que a esposa despertasse, foi dar um passeio a cavalo. A beleza da manhã, os aromas dos bosques, o gorjeio das aves fizeram-lhe esquecer os fantasmas noturno.



Voltou mais tranqüilo ao castelo e sentou-se à mesa com a mulher. Quando, porém, serviam um prato de carne cosida e a condessa quis retirar-se mostrando repugnância, o conde reconheceu a realidade dos fatos de que fora testemunha, e exclamou com violência:



— Ah! Mulher abominável e diabólica! Bem sei de que provém a tua aversão pelo comer dos homens. É nas sepulturas que te vais banquetear!



Mal ouviu estas palavras, Aurélia atirou-se a ele rugindo, e mordeu-o no peito, com a fúria duma hiena. O marido repeliu violentamente a possessa, que expirou no meio de atrozes convulsões.



Veio a enlouquecer o desgraçado.





— Fim —




Fonte: Literatura Internacional: http://planeta.clix.pt/letras/
http://planeta.terra.com.br/arte/ecandido/mestre83.htm

18.6.07

A PATA DO MACACO




É com muito orgulho que a Câmara dos Tormentos oferece, para o deleite de seus frequentadores, a leitura deste magnífico conto clássico da literatura fantástica. Um mergulho terrificante nos confins do mundo sobrenatural.



Em nossa homenagem aos grandes mestres conheça a obra-prima assustadora de William Wimark Jacobs, "A pata do macaco". Prepare-se para bater os joelhos!



A PATA DO MACACO

de W. W. Jacobs





Lá fora, a noite estava fria e úmida, mas na pequena sala de visitas de Labumum Villa os postigos estavam abaixados e o fogo queimava na lareira. Pai e filho jogavam xadrez: o primeiro tinha idéias sobre o jogo que envolviam mudanças radicais, colocando o rei em perigo tão desnecessário que até provocava comentários da velha senhora de cabelos brancos, que tricotava serenamente perto do fogo.

- Ouça o vento - disse o Sr. White, que, tendo visto tarde demais um erro fatal, queria evitar que o filho o visse.


- Estou escutando - disse o último, estudando o tabuleiro ao esticar a mão.
- Xeque.


- Eu duvido que ele venha hoje à noite - disse o pai, com a mão parada em cima do tabuleiro.
- Mate - replicou o filho.


- Essa é a desvantagem de se viver tão afastado - vociferou o Sr. White, com um a violência súbita e inesperada. - De todos os lugares desertos e lamacentos para se viver, este é o pior. O caminho é um atoleiro, e a estrada uma torrente. Não sei o que as pessoas têm na cabeça. Acho que, como só sobraram duas casas na estrada, elas acham que não faz mal.


- Não se preocupe, querido - disse a esposa em tom apaziguador. - Talvez você ganhe a próxima partida.


O Sr. White levantou os olhos bruscamente a tempo de perceber uma troca de olhares entre mãe e filho. As palavras morreram em seus lábios, e ele escondeu um sorriso de culpa atrás da barba fina e grisalha.


- Aí vem ele - disse Herbert White, quando o portão bateu ruidosamente e passos pesados se aproximaram da porta.


O velho levantou-se com uma pressa hospitaleira e, ao abrir a porta, foi ouvido cumprimentando o recém chegado. Este também o cumprimentou, e a Sra. White tossiu ligeiramente quando o marido entrou na sala, seguido por um homem alto e corpulento, com olhos pequenos e nariz vermelho.


- Sargento Morris - disse ele, apresentando-o.


O sargento apertou as mãos e, sentando-se no lugar que lhe ofereceram perto do fogo, observou satisfeito o anfitrião pegar uísque e copos, e colocar uma pequena chaleira de cobre no fogo.


Depois do terceiro copo, seus olhos ficaram mais brilhantes, e ele começou a falar, o pequeno círculo familiar olhando com interessante este visitante de lugares distantes, quando ele empertigou os ombros largos na cadeira e falou de cenários selvagens e feitos intrépidos: de guerras, pragas e povos estranhos.


- Vinte e um anos nessa vida - disse o Sr. White, olhando para a esposa e o filho. - Quando ele foi embora era um rapazinho no armazém. Agora olhem só para ele.


- Ele não parece ter sofrido muitos reveses - disse a Sra. White amavelmente.


- Eu gostaria de ir à Índia - disse o velho - só para conhecer, compreende?


- Você está bem melhor aqui - disse o sargento, sacudindo a cabeça. Pôs o copo vazio na mesa e, suspirando baixinho, sacudiu a cabeça novamente.


- Eu gostaria de ver aqueles velhos templos, os faquires e os nativos - disse o velho. - O que foi que você começou a me contar outro dia sobre uma pata de macaco ou algo assim Morris?


- Nada - disse o soldado rapidamente. - Não é nada de importante.


- Pata de macaco? - perguntou a Sra. White, curiosa.


- Bem, é só um pouco do que se poderia chamar de magia, talvez - disse o sargento com falso ar distraído.


Os três ouvintes debruçaram-se nas cadeiras interessados. O visitante levou o copo vazio à boca distraidamente e depois recolocou-o onde estava. O dono da casa tornou a enchê-lo.


- Aparentemente - disse o sargento, mexendo no bolso - é só uma patinha comum dissecada.


Tirou uma coisa do bolso e mostrou-a. A Sra. White recuou com uma careta, mas o filho, pegando-a, examinou-a com curiosidade.


- E o que há de especial nela? - perguntou o Sr. White ao pegá-la da mão do filho e, depois de examiná-la, colocá-la sobre a mesa.


- Foi encantada por um velho faquir - disse o sargento -, um homem muito santo. Ele queria provar que o destino regia a vida das pessoas, e que aqueles que interferissem nele seriam castigados. Fez um encantamento pelo qual três homens distintos poderiam fazer, cada um, três pedidos a ela.


A maneira dele ao dizer isso foi tão solene que os ouvintes perceberam que suas risadas estavam um pouco fora de propósito.


- Bem, por que não faz os seus três pedidos, senhor? - disse Herbert White astutamente.


O soldado olhou para ele como olham as pessoas de meia-idade para um jovem presunçoso.


- Eu fiz - disse ele calmamente, e seu rosto marcado empalideceu.


- E teve mesmo os três desejos satisfeitos? - perguntou a Sra. White.


- Tive - disse o sargento, e o copo bateu nos dentes fortes.


- E alguém mais fez os pedidos? - insistiu a senhora.


- O primeiro homem realizou os três desejos - foi a resposta. - Eu não sei quais foram os dois primeiros, mas o terceiro foi para morrer. Por isso é que consegui a pata.


Seu tom de voz era tão grave que o grupo ficou em silêncio.


- Se você conseguiu realizar os três desejos, ela não serve mais para você Morris - disse o velho finalmente. - Para que você guarda essa pata?


O soldado meneou a cabeça.


- Por capricho, suponho - disse lentamente. - Cheguei a pensar em vendê-la, mas acho que não o farei. Ela já causou muitas desgraças. Além disso, as pessoas não vão comprar. Acham que é um conto de fadas, algumas delas; e as que acreditam querem tentar primeiro para pagar depois.


- Se você pudesse fazer mais três pedidos - disse o velho, olhando para ele atentamente -, você os faria?


- Eu não sei - disse o outro. - Eu não sei.


Pegou a pata e, balançando-a entre os dedos, de repente jogou-a no fogo.


White, com um ligeiro grito, abaixou-se e tirou-a de lá.


- É melhor deixar que ela se queime - disse o soldado solenemente.


- Se você não quer mais, Morris - disse o outro -, me dá.


- Não - disse o amigo obstinadamente. - Eu a joguei no fogo. Se você ficar com ela, não me culpe pelo que acontecer. Jogue isso no fogo outra vez, como um homem sensato.


O outro sacudiu a cabeça e examinou sua nova aquisição atentamente.
- Como você faz para pedir? - perguntou.


- Segure a pata na mão direita e faça o pedido em voz alta - disse o sargento -, mas eu o advirto sobre as conseqüências.


- Parece um conto das Mil e uma noites - disse a Sra. White, ao se levantar e começar a pôr o jantar na mesa. - Você não acha que deveria pedir quatro pares de mão para mim?


- Se quer fazer um pedido - disse ele asperamente -, peça algo sensato. O Sr. White colocou a pata no bolso novamente e, arrumando as cadeiras acenou para que o amigo fosse para a mesa. Durante o jantar o talismã foi parcialmente esquecido, e depois os três ficaram escutando, fascinados, um segundo capítulo das aventuras do soldado na Índia.


- Se a história sobre a pata de macaco não for mais verdadeira do que as que nos contou - disse Herbert, quando a porta se fechou atrás do convidado, que partiu a tempo de pegar o último trem-, nós não devemos dar muito crédito a ela.


- Você deu alguma coisa a ele por ela, papai? - perguntou a Sra. White, olhando para o marido atentamente.


- Pouca coisa - disse ele, corando ligeiramente. - Ele não queria aceitar, mas eu o fiz aceitar. E ele tornou a insistir que eu jogasse fora.


- É claro - disse Herbert, fingindo estar horrorizado. - Ora, nós vamos ser ricos, famosos e felizes. Peça para ser um imperador, papai, para começar, então você não vai ser mais dominado pela mulher.


Ele correu em volta da mesa, perseguido pela Sra. White armada com uma capa de poltrona.
O Sr. White tirou a pata do bolso e olhou para ela dubiamente.


- Eu não sei o que pedir, é um fato - disse lentamente. - Eu acho que tenho tudo o que quero.
- Se você acabasse de pagar a casa ficaria bem feliz, não ficaria? - disse Herbert, com a mão no ombro dele. - Bem, peça 200 libras, então, isso dá.


O pai, sorrindo envergonhado pela própria ingenuidade, segurou o talismã, quando o filho, com uma cara solene, um tanto franzida por uma piscadela de olhos para a mãe, sentou-se no piano e tocou alguns acordes para fazer fundo.


- Eu desejo 200 libras - disse o velho distintamente.


Um rangido do piano seguiu-se às palavras, interrompido por um grito estridente do velho. A mulher e o filho correram até ele.


- Ela se mexeu - gritou ele, com um olhar de nojo para o objeto caído no chão. - Quando eu fiz o pedido, ela se contorceu na minha mão como uma cobra.


- Bem, eu não vejo o dinheiro - disse o filho ao pegá-la e colocá-la em cima da mesa - e aposto que nunca vou ver.


- Deve ter sido imaginação sua, papai - disse a esposa, olhando para ele ansiosamente.


Ele sacudiu a cabeça.


- Não faz mal, não aconteceu nada, mas a coisa me deu um susto assim mesmo.


Eles se sentaram perto do fogo novamente enquanto os dois homens acabavam de fumar cachimbos. Lá fora, o vento zunia mais do que nunca, e o velho teve um sobressalto com o barulho de uma porta batendo no andar de cima. Um silêncio estranho e opressivo abateu-se sobre todos os três, e perdurou até o velho casal se levantar e ir dormir.


- Eu espero que vocês encontrem o dinheiro dentro de um grande saco no meio da cama - disse Herbert, ao lhes desejar boa noite - e algo terrível agachado em cima do armário observando vocês guardarem seu dinheiro maldito.


Ficou sentado sozinho na escuridão, olhando para o fogo baixo e vendo caras nele. A última cara foi tão feia e tão simiesca que ele olhou para ela assombrado. A cara ficou tão vivida que, com uma risada inquieta, ele procurou um copo na mesa que tivesse um pouco de água para jogar no fogo. Sua mão pegou na pata de macaco, e com um ligeiro estremecimento ele limpou a mão no casaco e foi dormir.


II

Na claridade do sol de inverno, na manhã seguinte, quando este banhou a mesa do café, ele riu de seus temores. Havia um ar de naturalidade na sala que não existia na noite anterior, e a pequena pata suja estava jogada na mesa de canto com um descuido que não atribuia grande crença a suas virtudes.


- Eu creio que todos os velhos soldados são iguais - disse a Sra. White. - Essa idéia de dar ouvidos a tal tolice! Como é que se pode realizar desejos hoje em dia? E se fosse possível, como é que iam aparecer 200 libras, papai?


- caindo do céu, talvez - disse Herbert, com ar brincalhão.


- Morris disse que as coisas aconteciam com tanta naturalidade - disse o pai - que a gente podia até achar que era coincidência.


- Bem, não gaste o dinheiro antes de eu voltar - disse Herbert, ao se levantar da mesa. - Estou com medo de que você se torne um homem mesquinho e avarento, e vamos ter de renegá-lo.
A mãe riu e, acompanhando-o até a porta, viu-o descer a rua. Voltando à mesa do café, divertiu-se à custa da credulidade do marido. O que não a impediu de correr até a porta com a batida do carteiro, nem de se referir a sargentos da reserva com vício de beber, quando descobriu que o correio trouxera uma conta do alfaiate.


- Herbert vai dizer uma das suas gracinhas quando chegar em casa - disse ela, quando se sentaram para jantar.


- Com certeza - disse o Sr. White, servindo-se de cerveja -, mas, apesar de tudo, a coisa se mexeu na minha mão; eu posso jurar.


- Foi impressão - disse a senhora apaziguadoramente.


- Estou dizendo que se mexeu - replicou o outro. - Não há dúvida; eu tinha acabado... O que houve?


A mulher não respondeu. Estava observando os movimentos misteriosos de um homem do lado de fora, que, espiando com indecisão para a casa, parecia estar tentando tomar a decisão de entrar. Lembrando-se das 200 libras, ela reparou que o estranho estava bem-vestido e usava um chapéu de seda novo.


Por três vezes ele parou no portão, e depois caminhou novamente. Da quarta vez ficou com a mão parada sobre ele, e depois com uma súbita resolução abriu-o e entrou. A Sra. White no mesmo momento desamarrou o avental rapidamente, colocando-o debaixo da almofada da cadeira. Convidou o estranho, que parecia deslocado, a entrar. Ele olhou para ela furtivamente, e ouviu preocupado, a senhora desculpar-se pela aparência da sala, e pelo casaco do marido, uma roupa que ele geralmente reservava para o jardim. Então ela esperou, com paciência, que ele falasse do que se tratava, mas, a princípio, ele ficou estranhamente calado.


- Eu... pediram-me para vir aqui - disse ele finalmente, e abaixando-se tirou um pedaço de algodão das calças. - Eu venho representando "Maw&Meggins".


A senhora sobressaltou-se.


- Aconteceu alguma coisa? - perguntou ela, ofegante - Acontecem alguma coisa a Herbert? O que é? O que é?


O marido interveio.


- Calma, calma, mamãe - disse ele rapidamente. - Sente-se e não tire conclusões precipitadas. O senhor certamente não trouxe más notícias, não é, senhor - e olhou para o outro ansiosamente.


- Eu lamento... - começou o visitante.


- Ele está ferido? - perguntou a mãe desesperada.


O visitante assentiu com a cabeça.


- Muito ferido - disse. - Mas não está sofrendo.


- Ah, graças a Deus! - disse a senhora, apertando as mãos. - Graças a Deus! Graças...


Parou de falar de repente quando o significado sinistro da afirmativa se abateu sobre ela, e ela viu a terrível confirmação de seus temores no rosto desviado do outro. Prendeu a respiração e, virando-se para o marido, menos perspicaz, pôs a mão trêmula sobre a dele. Seguiu-se um demorado silêncio.


- Ele foi apanhado pela máquina - repetiu o Sr. White, estonteado. - Ah!
Sim.


Ficou sentado olhando para a janela e, tomando a mão da esposa entra as suas, apertou-a como tinha vontade de fazer nos velhos tempos de namoro há quase 40 anos.


- Ele era o único que nos restava - disse ele, voltando-se amavelmente para o visitante. - É difícil.


O outro tossiu e, levantando-se, caminhou lentamente até a janela.


- A firma me pediu para transmitir os nossos sinceros pêsames a vocês por sua grande perda - disse ele, sem olhar para trás. - Eu peço que compreendam que sou apenas um empregado da firma e estou apenas obedecendo ordens.


Não houve resposta; o rosto da senhora estava branco, os olhos parados e a respiração inaudível; no rosto do marido havia um olhar que o amigo sargento talvez tivesse na primeira batalha.


- Devo dizer que "Maw&Meggins" estão isentos de toda responsabilidade - continuou o outro. - Eles não têm nenhuma dívida com a família, mas, em consideração aos serviços de seu filho, desejam presenteá-los com uma certa soma como compensação.


O Sr. White largou a mão da esposa e, pondo-se de pé, olhou para o visitante horrorizado. Seus lábios secos pronunciaram as palavras:


- Quanto?


- Duzentas libras - foi a resposta.


Indiferente ao grito da esposa, o velho sorriu fracamente, estendeu as mãos como um homem cego e caiu, desfalecido, no chão.

III

No enorme cemitério novo, a alguns quilômetros de distância, os velhos enterraram seu morto e voltaram para casa mergulhada em sombras e silêncio. Tudo terminara tão rápido que a princípio nem se davam conta do que acontecera, e ficaram num estado de expectativa como se fosse acontecer mais alguma coisa - algo mais que aliviasse esse fardo, pesado demais para corações velhos.


Mas os dias se passaram, e a expectativa deu lugar à resignação - a resignação desesperançada dos velhos, às vezes chamada erradamente de apatia. Algumas vezes nem trocavam uma palavra, pois agora não tinham nada do que falar e os dias eram compridos e desanimados.


Foi por volta de uma semana depois que o velho, acordando subitamente de noite, estendeu o braço e viu-se sozinho. O quarto estava no escuro e o ruído de soluços baixinhos vinha da janela. Ele se levantou na cama e ficou ouvindo.


- Volte para a cama - disse ele ternamente. - Você vai ficar gelada.


- Está mais frio para ele - disse a senhora, e chorou novamente.


O som de seus soluços apagou-se nos ouvidos dele. A cama estava quente, e seus olhos pesados de sono. Ele cochilava a todo instante e acabou pegando no sono, quando um súbito grito histérico da esposa o despertou com um sobressalto.


- A pata! - gritou histericamente. - A pata de macaco!
Ele se levantou, alarmado.


- Onde? Onde está? O que houve?


Ela correu agitada até ele.


- Eu quero a pata - disse ela calmamente. - Você não a destruiu?


- Está na sala, em cima da prateleira - replicou ele atônito. - Por quê?


Ela chorou e riu ao mesmo tempo e, debruçando-se, beijou-o no rosto.


- Só tive essa idéia agora - disse ela histericamente. - Por que não pensei nisso antes? Por que você não pensou nisso antes?


- Pensar em quê? - perguntou ele.


- Nos outros dois desejos - replicou ela rapidamente. - Nós só fizemos um pedido.


- Não foi suficiente? - perguntou ele, irado.


- Não - gritou ela, triunfante; - ainda vamos fazer um.


Desça, apanhe a pata rapidamente, e deseje que o nosso filho viva novamente.


O homem sentou-se na cama e arrancou as cobertas de cima do corpo trêmulo.


- Meu bom Deus, você está louca! Gritou ele, horrorizado.


- Pegue aquela coisa - disse ela, ofegante -, pegue depressa, e faça o pedido... Ah, meu filho, meu filho!


O Marido riscou um fósforo e acendeu a vela.


- Volte para a cama - disse ele, incerto. - Você não sabe o que está dizendo.


- Nós conseguimos satisfazer o primeiro pedido - disse a senhora, febrilmente. - Por que não o segundo?


- Foi uma coincidência - gaguejou o velho.


- Vá buscar a pata e faça o pedido - gritou a esposa, tremendo de excitação.


O velho virou-se, olhou para ela, e sua voz tremeu.


- Ele já está morto há 10 dias e, além disso, ele... - eu não queria lhe dizer isso, mas... só consegui reconhecê-lo pela roupa. Se já estava tão horrível para você ver, imagine agora?


- Traga-o de volta - gritou a senhora, e o arrastou para a porta. - Você acha que tenho medo do filho que criei?


Ele desceu na escuridão, foi tateando até a sala e depois até a lareira. O talismã estava no lugar, e um medo horrível de que o desejo ainda não expresso pudesse trazer o filho mutilado apossou-se dele, e ficou sem ar ao perceber que perdera a direção da porta. Com a testa fria de suor, ele deu volta na mesa, tateando, e foi-se amparando na parede até se achar no corredor com a coisa nociva na mão.


Até o rosto da esposa parecia mudado quando ele entrou no quarto. Estava branco e ansioso, e para seu temor parecia ter um olhar estranho. Ele sentiu medo dela.


- Peça! - gritou ela, com voz forte.


- Isso é loucura - disse ele, com voz trêmula.


- Peça! - repetiu a esposa.


Ele levantou a mão.


- Eu desejo que meu filho viva novamente.


O talismã caiu no chão, e ele olhou para a coisa com medo.


Então afundou numa cadeira, trêmulo, quando a esposa, com os olhos ardentes, foi até a janela e levantou a persiana.


Ficou sentado até ficar arrepiado de frio, olhando ocasionalmente para a figura da velha senhora espiando pela janela.


O cotoco de vela, que queimara até a beirada do castiçal de porcelana, jogava sombras sobre o teto e as paredes, até que, com um bruxulear maior do que os outros, se apagou. O velho, com uma imensa sensação de alívio pelo fracasso do talismã, voltou para a cama, e um ou dois minutos depois a senhora veio silenciosamente para o seu lado.


Nenhum dos dois disse nada, mas permaneceram deitados em silêncio, ouvindo o tique-taque do relógio. Um degrau rangeu, e um rato correu guinchando através do muro. A escuridão era opressiva e, depois de ficar deitado por algum tempo, criando coragem, ele pegou a caixa de fósforos e, acendendo um, foi até embaixo para pegar uma vela.


Nos pés da escada o fósforo se apagou, e ele parou para riscar outro; no mesmo momento ouviu-se uma batida na porta da frente, tão baixa e furtiva que quase não se fazia ouvir.


Os fósforos caíram-lhe da mão e espalharam-se no corredor. Ele permaneceu imóvel, com a respiração presa até a batida se repetir. Então virou-se e fugiu rapidamente para o quarto, fechando a porta atrás de si.


Uma terceira batida ressoou pela casa.


- O que é isso? - gritou a senhora, levantando-se.


- Um rato - disse o velho com voz trêmula -, um rato. Ele passou por mim na escada.


A esposa sentou-se na cama, escutando. Uma batida alta ressoou pela casa.


- É Herbert! - gritou. - É Herbert!


Ela correu até a porta, mas o marido ficou na frente dela e, pegando-a pelo braço, segurou-a com força.


- O que você vai fazer? - sussurrou ele com voz rouca.


- É meu filho; é Herbert! - gritou ela, debatendo-se mecanicamente. - Eu esqueci que ele estava a 10 quilômetros daqui. Por que está me segurando? Me solte. Eu tenho de abrir a porta.


- Pelo amor de Deus não deixe entrar - gritou o velho tremendo.


- Você está com medo do próprio filho - gritou ela, debatendo-se. - Me solte. Eu já vou, Herbert; eu já vou.


Ouviu-se mais uma batida, e mais outra. A senhora com um arrancão súbito soltou-se e saiu correndo do quarto. O marido seguiu-a até a escada e chamou-a enquanto ela corria para baixo. Ele ouviu a corrente chocalhar e a tranca do chão ser puxada lenta e firmemente do lugar. Então a voz da senhora soou, nervosa e ofegante.


- A tranca - gritou ela alto. - Desça que eu não consigo puxar a tranca.


Mas o marido estava de joelhos no chão, procurando a pata desesperadamente. Se pelo menos conseguisse encontrá-la antes que a coisa entrasse. Uma série de batidas reverberou pela casa, e ele ouviu o arrastar de uma cadeira quando a esposa a colocou no corredor encostada na porta. Ouviu o ranger da tranca quando esta se destravou lentamente, e no mesmo momento encontrou a pata de macaco, e desesperadamente fez o terceiro e último pedido.


As batidas pararam subitamente, embora ainda ecoassem na casa. Ele ouviu a cadeira ser arrastada de volta, e a porta se abrir. Um vento frio subiu pela escada, e um gemido alto e demorado de decepção e tristeza da esposa lhe deu coragem para correr até ela e depois até o portão. O lampião da rua que tremulava do outro lado brilhava numa estrada silenciosa e deserta.

15.6.07

MÉTODOS DE SUICÍDIO

Republicamos agora este texto engraçadíssimo sobre as várias técnicas que um sujeito pode adotar para dar cabo da própria existência miserável. Se você está, assim, infeliz da vida, é só seguir estas orientações e ter uma boa morte!


Métodos para um Suicídio


Tomando a decisão


Ao contrário do que se pensa, não se toma a decisão de acabar com a vida assim, de uma hora pra outra: é um trabalho de semanas, talvez até mesmo meses. A única coisa realmente importante sobre essa decisão é o fato de ela ter de ser definitiva. Se você resolveu se matar, então se mate. Não fique enrolando. Isso cria uma expectativa imensa nas pessoas que o cercam e não é legal ficar frustrando as festas dos teus inimigos, arruinando o fim de semana do coveiro e pondo por água abaixo os planos da sua mãe de alugar o seu quarto para aquele exótico e sensual estudante angolano.


Escolhendo o método
Segundo consta, existem perto de seis milhões de maneiras de morrer, mas a maioria delas exige a presença de vírus raríssimos, disfunções corporais lentíssimas ou muita, mas muita falta de sorte. Apressar a hora da morte é um tanto complexo, mas com um pouco de pesquisa você chega a um grupo de 16 métodos comprovadamente eficazes de suicídio para escolher. Vamos a eles:


Forca
- Sempre nas cabeças do top ten do suicído presidiário, o enforcamento também é bastante popular entre artistas angustiados europeus (não só os que nasceram por lá, mas também os que por qualquer razão habitam o velho mundo). O principal problema da forca no século XXI é arranjar algum lugar para pendurá-la. Num mundo dominado por uma arquitetura clean, rareiam as vigas e barras suspensas. Isso sem falar na escassez de árvores de galhos grossos e no grande equívoco que é tentar enforcar-se no chuveiro. Em 90% dos casos, o chuveiro vem abaixo e tudo que sobra pro suicida são escoriações, hematomas e uma tremenda sujeira fudida pra limpar no banheiro.
Veneno - Muito em voga nos romances românticos, o veneno vem caindo em popularidade por ter se tornado bastante ineficaz no homem contemporâneo. Assim como o hábito de consumir pequenas doses de cicuta livrou Sócrates da morte, a nossa mania de ingerir glutamato monossódico, inspirar inseticidas variados e outras brabeiras químicas praticamente nos imunizou frente a qualquer veneno disponível no mercado. O máximo que uma tentativa de suicídio venenosa pode trazer ao suicida é uma caganeira ácida persistente durante algumas semanas, o que pode lhe render alguma nhaca no reto que vá incomodar pelo menos durante o período em que terá de ficar pendurado de bruços no hospital, levando água quente no furzudum.
Tiro na cuca - É o must. Se você quer mesmo se matar, a melhor e mais rápida saída é meter um caroço no coco. Não tem erro. Quer dizer, não tem MUITO erro. O segredo aqui é escolher bem o calibre. A grosso modo, dá pra se usar a regra do quanto maior, melhor, apesar de uma bala de 22 causar um estrago realmente impressionante se conseguir penetrar a caixa craniana através do céu da boca ou coisa assim. Na maioria das vezes, contudo, não penetra e aí é que tá feita a merda. A pior coisa que pode acontecer ao tentar se matar com uma arma de fogo é você errar milimetricamente o ângulo do tiro e atingir apenas uma área não-vital do cérebro, como o movimento dos membros, por exemplo. Dessa forma você estaria muito pior do que morto: entrevado em uma cama sem poder fazer nada - nem mesmo se matar.
Afogamento - Pouquíssimas pessoas escolhem o afogamento como método de suicídio, principalmente porque vivem muito longe do litoral, açudes, rios, lagos ou qualquer outra fonte de água. A água é um dos maiores assassinos da natureza e é capaz de provocar uma morte bastante teatral, mas não é nada fácil morrer afogado de livre e espontânea vontade. Se você decidir encerrar o sofrimento no molhadinho, lembre-se de usar muita lã e encher os sapatos e qualquer bolso disponível de quantidades absurdas de concreto antes de pular na água. Uma vez que você comece a afundar, dê uma larga e entusiasmada golfada e não gaste energia tentando nadar para a superfície. Dê um alô para toda a sorte de criaturas esquisitas que de qualquer forma vão lhe devorar mais tarde e aproveite a imensidão azul enquanto vai descendo.
Beber até morrer - A saída dos covardes. Todo mundo sabe que, apesar da música do Ratos de Porão, beber até morrer é impossível. Primeiro porque se você escolher justamente esse método, é porque você já bebe e se você já bebe, não existe como morrer disso em apenas uma noite. Para estes casos, aplica-se o mesmo algoritmo do veneno. A pior parte deste método é o dia seguinte. Apesar de desejar estar morto, você estará vivo e terá de conviver com a impiedosa ressaca e a apavorante caganeira líquida que precede qualquer porre decente. E, claro, provavelmente terá esquecido porque bebeu tanto pra começar.
Cortar os pulsos - Um tanto poética demais, a morte pelos pulsos sempre foi popular por permitir - até um certo ponto - o arrependimento do suicida. Quem opta por cortar os pulsos muitas vezes está apenas tentando dar um gigantesco cagaço em outrem e, convenhamos, existem diversas maneiras de se fazer isso sem precisar envolver sangue, navalhas e a possibilidade de um erro de julgamento transformar tudo em ataúde. Por outro lado, morrer pelos pulsos pode ser uma experiência bastante relaxante. Não raramente é feito o uso de uma banheira de água quente para aquecer o corpo que vai se resfriando com a perda de sangue para tornar a morte menos traumática, creio. Mas na maior parte dos casos o que acontece é refogar-te, filho da puta, em molho pardo.
Remédios - É consenso: quem toma remédios para se matar é porque não quer se matar, só quer chamar a atenção. A não ser que você more sozinho e não receba visitas há mais de ano, esse é o mais estúpido dos métodos de suicídio. As chances de que alguém o encontre atirado em um canto com um vidro de tranqüilizantes e o leve para fazer uma constrangedora e dolorosa lavagem intestinal são imensamente grandes. E pior: algumas horas depois da experiência inesquecível, enquanto você ainda se recupera meio zonzo no seu quarto de hospital, aquela enfermeira gostosa que consideraria a hipótese de te fornecer o forogodó soltará risinhos de escárnio enquanto pensa mas que fracasso.
Gás carbônico - Um professor de religião uma vez me disse que se você respirar bem fundo em um saco de plástico sem furos durante alguns minutos você vai acabar dormindo. E, se por acaso permanecer respirando enquanto estiver inconsciente, vai pra terra dos pés-juntos sem maiores problemas. Ok, parece bom na teoria. Mas você já respirou num saco de plástico por mais de dois minutos? É praticamente impossível! Fica tudo molhado e com um cheiro de cu muito fudido, além daquele ar carregado ir aos poucos soltando todo o muco que se concentrava sólido como rocha nas paredes das tuas narinas... Resumindo: se for pra se matar, que seja menos escatológico que isso.
Pular para a morte - Voar é um sonho recorrente entre pessoas de todas as épocas e idades. Ao saltar do alto de um prédio ou da beira de um precipício, esse desejo pode ser saciado por alguns segundos antes do choque final, situação que funcionaria como uma espécie de último pedido, unindo assim o útil ao agradável. Entretanto, existem alguns perigos no salto para a morte. Uma distância mal calculada, por exemplo, pode ocasionar uma quebradeira em massa de ossos sem provocar necessariamente a morte. E perceba: fazer uma segunda tentativa tendo que se locomover em uma cadeira de rodas será um milhão de vezes mais difícil.
Atropelamento - Este método pouco ortodoxo nunca teve muitos adeptos justamente por ser pouquíssimo confiável. É impossível ter a certeza de que um atropelamento vai ocasionar a sua morte. Claro que algumas regras podem ser observadas: nada de se jogar na frente de uma moto ou Fusca, nem se deitar no chão em ruas muito largas ou de paralelepípedo. Por outro lado, existem relatos de pessoas atropeladas por Monzas ou até mesmo Opalões em alta velocidade que escaparam com apenas alguns pinos enfiados pelas juntas afora. O grande lance para atropelamentos é ficar à margem de alguma estrada onde muitos caminhões costumem passar, de preferência à noite, esperar um que venha muito no gás e virar uma cambalhota na sua frente. Se você der sorte, o motorista vai pensar ter passado por cima de uma pedra e as quatrocentas e quinze rodas do seu veículo terminarão de te imprimir no asfalto quente.
Acidente automobilístico - Apontado como uma das maiores causas de morte no mundo moderno, os acidentes automobilísticos foram a opção de grandes vultos da história como James Dean, Thelma & Louise e Ayrton Senna. A regra de ouro nos acidentes automobilísticos é a exuberância: exagere ao máximo em tudo que puder. Nada de pensar "ah, qualquer coisa perto de 100 km/h já tá beleza". O lance é esmerilhar o ponteiro da velocidade até o seu limite e não tocar no volante em nenhum momento da trajetória. O resto pode deixar por conta da física. Mas tenha em mente que, apesar da aparente garantia de morte, sempre existe a possibilidade de se escapar ileso e ter de arcar com processos, multas e outras nhacas legais.
Homem-bomba - Filiar-se a qualquer organização terrorista ficou muito mais complicado depois de 11 de setembro de 2001, o que diminuiu muito a procura por esse método de suicídio. Entretanto, se você tiver a manha de adquirir explosivos plásticos suficientes para explodir-se em um gran finale cheio de estilo, pompa e circunstância, prefira datas comemorativas e ofereça à multidão um espetáculo verdadeiramente memorável. Sete de setembro tá aí. Incêndio - Atear fogo ao próprio corpo é outro método de suicídio muito pouco usado por estar quase sempre associado aos atos políticos extremos. E ninguém quer morrer confundido com um maldito comunista, não é mesmo?
Overdose - Além de ser muito fácil morrer de overdose, pode anotar aí que essa é uma das melhores maneiras de passar dessa pruma melhor. O primeiro passo para quem decide se matar de overdose é restringir as opções para cocaína ou heroína. Apesar do ecstasy estar conquistando uma posição de cada vez mais destaque como droga mortal, o comprimido do amor ainda não pode ser considerado 100% garantido. Melhor caprichar naquela carreirinha ou superlotar de marrom aquela seringa esperta. Na pior das hipóteses, vai dar um barato inesquecível. Mas nem se preocupe com isso: se milhões de pessoas conseguem se matar acidentalmente brincando com drogas todos os dias, o que dizer de alguém que faz isso deliberadamente?
Metano - Provavelmente a mais deprimente forma de tirar a sua vida seja vestindo um par de meias pretas com presilhas, cuecas samba-canção de algodão e camiseta de física e enfiando a cabeça dentro de um forno aberto. Se você espera que o sentimento dominante no seu funeral não seja dor e sim pena, este é o caminho que você deve tomar. Existe apenas uma situação em que esta forma de suicídio pode tornar-se útil: vingança. Por exemplo: se você mora em um apartamento e todos os seus vizinhos forem uns filhos da puta, cole cartazes em todo o prédio convidando-os para um fabuloso suflê de couve de despedida às dez da noite, apague todas as luzes da casa e deixe a porta destrancada, com um bilhete onde leia-se algo do tipo "a porta está aberta".
Eletricidade - Eis aqui um método infalível, porém cheio de pequenas armadilhas. Simplesmente enfiar os dedos na parte metálica de uma tomada, por exemplo, não funcionará: se você estiver realmente com muito azar, no máximo perderá a mão. Dependurar-se em fios de alta tensão em um poste na rua dá muito trabalho, atrai muita gente e é deveras vexaminoso. Surfar no trem pode ser emocionante mas é muita chinelagem. A melhor forma de morrer eletrocutado continua sendo o bom e velho barbeador na banheira. Os clássicos nunca perdem o seu valor. Morrer eletrocutado não é das coisas mais agradáveis do mundo mas - hey! - pelo menos é bastante limpo, direto e digno.


Escrevendo o bilhete de despedida
Uma vez escolhido como é que você vai encerrar a sua existência, você deve se concentrar em escrever o seu bilhete de despedida. Um suicida não é nada sem o seu bilhete de despedida. Se é pra se matar sem deixar meia dúzia de linhas que encham a cabeça de pelo menos umas vinte pessoas de culpa, melhor nem se matar. Perceba que o suicídio é, em última análise, uma forma bizarra de expressar a sua indignação, mágoa ou contrariedade frente alguma pessoa ou situação. E como você vai fazer isso? Fazendo com que alguém sinta-se verdadeiramente culpado pela sua morte. Concentre-se no que vai escrever. Pragueje com eloqüência contra o opressivo sistema de classes, a banalidade das relações humanas ou mesmo contra o puto do seu primo que comeu a sua mulher e fugiu com toda a grana que vocês economizaram pra viajar juntos pela Itália. Não importa muito o que você vai escrever, tenha apenas claro na sua mente quem ou o que você quer atingir com esse seu ato tresloucado e jogue o máximo de culpa possível para cima dos ombros desse objeto.
Outra boa opção é ser o mais triste e ambíguo possível: se não há nenhum culpado claramente identificado na sua carta derradeira e ela é cheia de lamúrias e chorôrôs, é provável que todas as pessoas que a lerem acabem se sentindo um pouco culpadas pelo que aconteceu. Se você não tem muita manha para causar grandes desgostos, esta fórmula simples é uma excelente maneira. Lembre-se de tratar esta tarefa como se fosse a última coisa que você fosse fazer na vida - até porque é exatamente isso que ela é.
Um bilhete de suicida bem escrito pode até mesmo vir a provocar outro suicídio. Portanto capriche, campeão.
Uma vez escrito, o bilhete pode ser enviado em uma carta para parentes distantes, ficar jogado em cima da sua cama para ser encontrado alguns dias mais tarde ou até mesmo ficar em algum dos seus bolsos, para um choque mais imediato. Mas na era da internet, o melhor mesmo é criar o seu próprio "www.meunomesuicida.com" e postar lá o seu desgosto para todo o mundo ver. Com sorte, você vai estampar as páginas policiais do diário local da sua cidade e, mesmo que você não queira, vai acabar na capa de um sensacionalista londrino de qualquer forma.


Escolhendo a locação perfeita
O lugar onde se vai morrer é quase tão importante quanto a maneira escolhida. Naturalmente, um depende intimamente do outro: é completamente impossível morrer atropelado no seu apartamento no quarto andar, assim como fica muito difícil cortar os pulsos durante o batizado do afilhado do seu vizinho.
Em cerca de 90% dos casos, o suicídio é cometido dentro da própria casa, atitude louvável que economiza tempo e dinheiro para um monte de gente. Não faça muita firula, ouça os especialistas. Prefira os métodos mais tradicionais e faça a merda em casa mesmo, ou o mais perto de casa possível. Ficar desaparecido durante um mês para ser encontrado com os pulsos abertos a 200 quilômetros de casa vai levantar toda a série de hipóteses mirabolantes para a polícia, especialmente quando descobrirem em uma busca de rotina aquela revista de bizarrices sexuais que um amigo te trouxe de brincadeira de Amsterdam. Para esse item, o segredo é a simplicidade. Não tem porque complicar. Chegou o momento Você já está convencido, o método está escolhido, o bilhete está escrito e você decidiu mesmo fazer tudo em casa: agora só falta se matar. Se você tiver um pouco de senso de humor, vista uma roupa totalmente diferente do que costuma vestir para confundir todo mundo. Se está pouco se fudendo, execute logo a tarefa. Tenha uma boa morte e a gente se vê no paraíso (ou no inferno).


Retirado de: WWW.DARKLINE.HCERTO.COM e créditos ao mesmo.
Texto de: DarkTears 29/10/2004 Adaptado por: Valéria..^Å^. C.® (Flower Dead)

7.6.07

O REFLEXO PERDIDO

Em sua homenagem aos mestres clássicos a Câmara traz, desta vez, o grande gênio alemão E. T. A. Hoffman. Especialista em narrativas complexas e sombrias. Um presente para nossos amigos e irmãos das sombras. Boa leitura!

O REFLEXO PERDIDO

E.T.A HOFFMAN



I
Uma tarde de inverno, à espera do último dia do ano, senti de repente o sangue queimar-me nas veias e o coração gelar-me no peito. Lá fora, rajadas de tempestade agitavam a noite. Esta crise do céu transmitia-me descargas elétricas ao corpo; meu cérebro fervia como metal em fusão. Quando todos os meus nervos ficaram saturados desse fluido desconhecido, a que se dá o nome de febre ou delírio, não pude mais ficar em casa e corri para fora, sem manto, os cabelos ao vento. Os cata-ventos das casas guinchavam como gatos enfurecidos e parecia-me distinguir, entre as vozes confusas da tempestade, o tiquetaquear do relógio que assinala a queda das horas no abismo da eternidade.


Coisa bizarra! A véspera de Ano Novo que é, para toda gente, uma data alegre, encontrava-me presa de fundas dores morais. Seria porque, a cada festa de Natal, contando os dias que haviam decorrido e sentindo-me envelhecer, eu entrevisse mais de perto a aproximação do fim? Pressentia-o apenas e não podia evitar que um terror misterioso de mim se apoderasse; tanto mais quanto o diabo sempre teve o cuidado de reservar-me, para o São Silvestre, qualquer nova desventura.


Ontem, por exemplo, ao entrar num salão, deparei, sentada em companhia de um grupo de damas, com uma figura de feições angelicais... Sim, era Ela! Ela, a quem eu não via há cinco anos!...


"Deus seja bendito", exclamei no fundo da alma; "Ela voltou para mim". Fiquei interdito, como se a varinha de um mágico me houvesse tocado. Nesse instante, o dono da casa tocou-me levemente o ombro:


- Então, caríssimo Hoffmann – disse-me ele – em que pensas?


Voltei a mim, muito envergonhado de minha inépcia, e aproximeime da mesa de chá para sair do embaraço.


Nesse momento, Ela me viu, levantou-se e veio dizer-me, num tom de voz cheio de indiferença:



- Tu aqui? Encantada de ver-te. Como tens passado?


Depois, sem esperar resposta, sentou-se novamente, dirigindo à sua vizinha estas palavras, que me trespassaram o coração.


- Teremos, então, na semana que vem, um belo concerto no palácio?


Um raio, caindo a meus pés, não me teria perturbado tanto.


Figurai-vos que experimentaria um homem que, ao aproximar-se de uma rosa cultivada com amor, para respirar-lhe o perfume, sentisse uma vespa sair do cálice da flor e picar-lhe o nariz. Recuei de modo tão brusco, os olhos turvados pelo sangue que me subira à cabeça, que derrubei ao chão uma travessa de sorvetes. Rolou tudo sobre o tapete; nesse instante, desejaria estar enterrado a cem toesas de profundidade. Por sorte, um artista célebre acaba de entrar. Fui esquecido e pude contemplar Ela, Júlia, em todo o esplendor de sua beleza.


Pareceu-me mais alta, mais cheia de formas, mais sedutora do que nunca. Suas vestes, de imaculada brancura, ondeavam, em pregas, sobre seu corpo. Suas espáduas e seu pescoço se destacavam, como um bloco de neve, contra o decote enfeitado de rendas; seus cabelos de um negro de ébano, desatavam-se em cachos cambiantes, que lhe davam à face um caráter seráfico. Ao passar perto de mim, voltou-se e acreditei ter lido, no seu olhar de um azul tão doce, não sei que expressão zombeteira.


Minha razão sumiria se o maestro, que acabara de iniciar uma cantata, não me houvesse refrescado a alma com uma cascata de harmonias. Apenas terminou a execução, o auditório cumulou-o de felicitações. Mas, nesse turbilhão de diletantes, vi-me separado de Júlia por alguns instantes. Reencontramo-nos pouco depois, diante de uma poncheira. Então, ó ventura inaudita! ela ofereceu-me um copo, sorrindo celestialmente e dizendo-me, com uma voz cuja lembrança
nada poderá jamais apagar de minha memória:


- Quer aceitá-lo de minhas mãos, como antigamente?


Ao recebê-lo, rocei-lhe os dedos; mil faíscas abrasaram-me o sangue. Bebi o licor dourado até a última gota e pareceu-me que chamas azuladas voavam sobre meus lábios. Meus sentidos nadavam numa embriaguez deliciosa e quando voltei a mim, estávamos, eu e Ela, lado a lado, sobre os coxins de um divã rosa, ao fundo de um gabinete iluminado pela luz sonhadora de uma lâmpada de alabastro, suspensa por cadeias de prata.


Júlia a meu lado, Julia sorridente, afetuosa como outrora; não seria tudo um sonho? Ai! Sonho ou realidade, a ele me entregava inteiramente. Parecia-me ouvi-la dizer as palavras mágicas:


- Meu Teodoro, amo-te, não vivo senão por ti. És a minha poesia e a minha felicidade!


E eu lhe respondia:


- Deus nos reuniu e nem todas as potências do inferno poderão nos separar!


Subitamente um pequeno manequim, com olhos de rã, sustentado por patas de aranha, apareceu tropeçando no meio do gabinete.


- Onde, com todos os diabos, te meteste, Júlia? – disse, esticando um nariz pintalgado de tabaco de Espanha.


Júlia levantou-se e despertou-me atrozmente com estas palavras:


- Então, não achas que devemos voltar à festa? Como vês, meu marido está à minha procura. És bem divertido, tanto quanto outrora, meu caro Teodoro; entretanto, não deves beber tanto ponche.


Soltei um grito de desespero.


- Perdida para toda a eternidade!!!


- É como diz, meu bravo senhor – respondeu o odioso animal, a quem ela chamava seu marido.


Era demais para as minhas forças. Sentia-me enlouquecer. Num átimo, vi-me fora do salão, correndo pela escada abaixo. Na rua, a chuva que tombava em cascatas molhava-me o rosto. Eu corria desabaladamente, sem direção nem consciência. E teria continuado a correr se a taverna de mestre Thiermann não me detivesse a fuga com suas portas abertas. Por elas adentro me precipitei, a respiração ofegante, a goela seca e os olhos dilatados.


Julgaram-me bêbado; não há freguês melhor que um bêbado. Dessarte, malgrado a falta de chapéu e casaco, o hospedeiro, ao me ver elegantemente trajado, perguntou-me polidamente que desejava eu.


- Um canecão de cerveja e um cachimbo!


Fui servido imediatamente.


Os freqüentadores da taverna me olhavam pelo canto dos olhos e o hospedeiro ia talvez me interrogar sobre a aventura, que a minha visita, em semelhante desalinho, fazia suspeitar, quando três batidas nas vidraças da taverna seguidas de um grito: "Abra depressa, sou eu!", desviou-lhe a atenção. Ele acorreu à porta, com um castiçal, e logo depois um homem alto, descarnado como um esqueleto, entrou na sala e encaminhou-se, andando de lado, com as costas voltadas para a parede, para uma pequena mesa, onde se sentou. Esta personagem tinha aparência distinta, mas pensativa. Pediu, como eu, cerveja e tabaco; encheu o cachimbo com impaciência e envolveu-se em seguida em espessa nuvem de fumaça. Em meio a fumaceira, tirou o chapéu de feltro e o casaco; pude então notar, com surpresa, que sobre as botas trazia chinelas. Continuando a fumar, passou em revista uma pilha de ervas, que retirou de uma caixa de metal semelhante às usadas pelos botânicos.


Atrevi-me, para iniciar conversa, a fazer-lhe algumas perguntassobre as ervas que pareciam interessá-lo tanto.


- O senhor não é muito forte em botânica – respondeu-me ele à meia voz. – Senão, teria visto logo que são plantas exóticas; estas foram colhidas na América, nas cercanias do famoso vulcão
Chimborazo.


A entonação de sua voz produziu em mim uma espécie de comoção magnética. Senti que as palavras morriam-me à flor dos lábios e pareceu-me que, por desconhecidos que fossem, os traços deste homem haviam aparecido nos sonhos de minhas noites agitadas.


Minha preocupação foi interrompida pelo ruído de novo golpear ansioso nas vidraças da taverna. O hospedeiro abriu a porta, mas o recém-chegado gritou de fora, antes de entrar:


- Não se esqueça de cobrir bem o espelho!


- Bem, bem – disse o hospedeiro, prendendo uma toalha ao caixilho do espelho – eis que chega o general Suwarow.


O general nada tinha de belicoso. Entrou saltitante, com passos pesados, descrevendo uma série de ziguezagues. Era baixinho, todo envolto num capote pardo de mangas largas, dentro do qual parecia, contudo, tremer de frio.


Veio sentar-se à nossa mesa, colocando-se entre o botânico de Chimborazo e eu. Mas as nossas cachimbadas o incomodavam e, voltando-se alternadamente para cada um de nós, queixou-se da fumaça e lamentou ter esquecido seu rapé.


Eu trazia comigo uma tabaqueira de aço polido, muito nova e brilhante. Apressei-me a oferecê-la a ele, delicadamente. Apenas a viu, cobriu o rosto com ambas as mãos e gritou:


- Com todos os diabos! Esconda este maldito espelho!


Sua voz era convulsa e todo o seu corpo tremia. Julguei-o louco. Serviram-lhe vinho do norte. Eu o espiava furtivamente quando, de súbito, vi seu rosto mudar de expressão e cor, como as imagens de uma lanterna mágica.


Desta vez, um suor gelado inundou-me a fronte; senti um medo terrível, não me pejo de confessá-lo.


"Este general Suwarow – disse comigo mesmo – não será Satã disfarçado, que vem me tentar?"


Enquanto eu dava curso às suposições mais fantástica, o ilustre personagem das ervas passava o seu tempo a espevitar a candeia com extremo cuidado e o pequeno se levantara para arrumar melhor o pano que velava o espalho. Essa bizarria não era de molde a tranqüilizar-me, quanto às suas faculdades mentais. Ambos se puseram em seguida a conversar sobre um jovem pintor que expusera recentemente um magnífico retrato de mulher.

- Sem dúvida alguma – dizia o magricela – é uma obra maravilhosa; pode-se dizer que o retrato é a imagem do modelo.


- Imagem? Imagem? Que animal estúpido poderia se apoderar de uma imagem, a não ser o diabo em pessoa? – gritou o general, dando um pulo na cadeira. – Mostre-me uma imagem roubado a um espelho – desafio-o a fazê-lo – e darei um pulo de quinhentas toesas de altura!

Nesse instante o magricela, pouco lisonjeado com a tirada de seu interlocutor, levantou-se e, passando a mão sob o queixo, disse com um sorriso amargo:


- Calma, meu pequeno, não te faças violento. Os movimentos muito bruscos me impacientam facilmente e eu poderia atirar-te pela janela...


O general, pestanejante, apanhou o chapéu, ergueu-se e recuou até a porta.


- Peste de homem! – disse, fazendo reverências e saltitando de maneira cômica – diabo raivoso, passa bem. Se não posso ver-me ao espelho, conservarei, ao menos, minha sombra, enquanto tu, meu caro... Bem, aqui ficam meus cumprimentos!...


Dito isso, desapareceu, deixando o botânico num estado de consternação difícil de descrever.


A idéia de um homem sem sombra me causava espécie. Vi-o partir também em seguida. Ao atravessar a sala, seu corpo não projetava sombra alguma.


Lembrando-me então do famoso Peter Schlemihl, esse Judeu Errante da Alemanha, corri atrás dele. Mas apenas atravessara a porta quando o hospedeiro me deu um empurrão, gritando:


- Que o diabo leve todos os fregueses de vossa espécie e Deus permita que nunca mais vos veja!


Quanto ao magricela, não consegui alcançá-lo. Com três passadas, desaparecera rua abaixo.


Eu havia esquecido minha chave no bolso do casado. Era-me, pois, impossível entrar em casa. Decidi a pedir asilo a um de meus amigos, o proprietário do Águia de Ouro. O porteiro não me fez esperar e fui conduzido a um belíssimo aposento, enfeitado com um grande espelho recoberto por uma cortina de sarja verde. Não sei porque me veio o capricho de levantar a cortina. Vi-me refletido no espelho, tão pálido e tão desfeito que mal consegui me reconhecer; depois, parecendo-me que, do fundo do espaço refletido pelo espelho, vinha avançando para mim uma forma indecisa e vaporosa.


Ao fixar os olhos nessa aparição, acreditei ver... sim, era Ela mesma, a figura adorada de Júlia.!


- Ó, minha querida, voltas para aquele que não pode viver sem ti? Um profundo suspiro me respondeu. Tal suspiro saiu das dobras do cortinado que escondia a alcova. Corri para o leito e deixo à vossa imaginação a tarefa de figurar o que devo ter sentido ao encontrar nele deitado, o homenzinho a quem o hospedeiro da taverna chamara general Suwarow.


Esse bizarro personagem sonhava em voz alta e seus lábios, contraídos por uma emoção penosa, pronunciavam um nome que me fez bater o coração mais depressa:


- Giulietta!... Giulietta!


Sacudi vivamente o homenzinho até acordá-lo.


- Com quantos diabos resolveu ocupar – disse-lhe – o quarto que me havia sido destinado?


- Ah! senhor – retorquiu, abrindo os olhos e estirando os braços – como lhe sou grato por haver interrompido o pesadelo que me oprimia! Uma rápida explicação foi quanto bastou para eu descobrir que o porteiro havia-se enganado ao levar-me para aquele aposento. Pedi desculpas ao general e começamos a conversar.


- Devo ter-lhe parecido – disse o desconhecido – bem inconveniente ou louco esta noite, na taverna. Mas o senhor será indulgente para comigo se alguma vez lhe aconteceu experimentar sensações inexplicáveis.


- Ah! meu caro senho – repliquei – poder-se-ia dizer de mim outro tanto; pois olhe, não faz muito tempo que revendo Júlia...


- Júlia! Que nome acaba o senhor de pronunciar! – gritou o homenzinho, jogando-se sobre o travesseiro. – Oh! cale-se, pelo amor de Deus, deixe-me dormir e não esqueça de cobrir o espelho.


- Mas como – continuei – o nome de uma mulher que o senhor certamente não conhece pode impressioná-lo tanto? Quer-me parecer que a expressão do seu rosto altera-se a cada instante. Vamos, acalme-se e consinta que eu repouse, até o amanhecer, ao seu lado. Tratarei de não incomodá-lo.


- Não, pode ficar com o quarto todo. Vejo que para mim não existe calma nem repouso possíveis. O senhor pronunciou o nome de Júlia... Júlia!


Giulietta!... É muito estranho. Estaremos unidos pela fatalidade, sem sabê-lo, no mesmo infortúnio?... Embora eu tenha talvez de afligilo mortalmente, não posso evitá-lo. Devo confessar a causa do meu infortúnio.


Acho que isso me aliviará.


O homenzinho deslizou para fora do leito e dirigiu-se para o espelho, do qual retirou a cobertura. Todos os objetos e luzes do quarto, assim como minha figura, nele se refletiram nitidamente. Mas a imagem do general Suwarow nele não aparecia.


- Veja – continuou ele com voz plangente – se sou ou não muito infeliz? Pedro Schlemihl vendeu sua sombra ao Diabo; pois bem, eu, eu dei minha imagem a Giulietta, que nunca mais mo devolverá! Meu Deus! Meu Deus! que fatalidade!


Fiquei estupefato com a narrativa. Em meu coração, o horror se misturava à piedade.


O homenzinho, entregue completamente à sua dor, jogara-se no leito convulsivamente; mas, dali a pouco, estava roncando. O ruído que fazia acabou por me fazer mergulhar numa sonolência irresistível. Apaguei as luzes e estendi-me ao seu lado, sem despir-me, decidido a esperar o amanhecer.


A excitação do meu sistema nervoso atingira o máximo; meu espírito turbilhonava num labirinto povoado de fantasma indescritíveis. Pareceu-me, de repente, que o mundo diminuía, como aquelas casas de bonecas. Vi todos meus amigos mudados em homúnculos de açúcar. Depois todas essas figuras cresceram desmesuradamente e, no meio delas, apareceu Julia, que me estendia um copo cheio de ponche, dizendo:


- Bebe, meu anjo, bebe este licor divino!


Vi pequenas chamas azuladas tremularem à borda do copo. Estava prestes a agarrá-lo quando uma voz gritou atrás de mim:


- Não beba! Não beba! É o veneno de Satã!


Voltei-me e reconheci o general Suwarow, que se ria debaixo do meu nariz. Julia continuava com suas provocações; seu olhar me queimava, o timbre de sua voz me dava vertigens.


- Por que tens medo? – dizia ela – Não nascemos um para o outro por toda a eternidade? Não me deste tua imagem em troca de um beijo?


Eu me sentia morrer e estendi o braço para receber a taça mágica no fundo da qual desejava afogar minha alma.Mas o pequeno Suwarow gritava, em voz mais forte ainda:


- Não beba! Não beba! Essa bela moça que lhe sorri é o diabo em pessoa; se tocar os lábios a taça, o sortilégio desaparecerá, restando somente a realidade da perda.


Julia continuava a insistir e a embriagar-me com sua sedução; não sei o que iria me acontecer quando, de súbito, todas as figuras deaçúcar cândi se puderam a dançar em torno de mim, com uma tal rapidez que não discerni mais nada. Esse pesadelo não terminou senão às onze horas da manhã, quando um criado do Águia de Ouro veio despertar-me para avisar que o desjejum estava servido. O general Suwarow se levantara muito cedo, pagara sua despesa e deixara, endereçado a mim, um pacote lacrado dentro do qual havia um manuscrito, de letra miúda e de difícil decifração, no qual se narrava a singular história que se segue. Era, talvez, a sua história.

II


Numa bela manhã, mestre Erasmo Spickherr viu-se, pela primeira vez, em condições de satisfazer a mais ardente paixão de sua vida. Acabara de juntar uma pequena herança, da qual retirou uma soma suficiente para cobrir os gastos de uma viagem à Itália. Na hora da partida, sua jovem esposa acompanhou-o, com o filho nos braços, até a carruagem:


- Adeus! – gritou ela, os olhos úmidos de lágrimas – querido Erasmo! Pensa sempre em mim, que ficarei em casa, e tem cuidado para não perder a boina de viagem, dormindo com a cabeça para fora da janela da carruagem.


Em Florença, Erasmo travou conhecimento com um alegre grupo de compatriotas seus, que jogavam dinheiro fora e levavam a vida mais desvairada que qualquer artista ou filho-família jamais viveu sob o tépido sol da Itália.


Eram festas e banquetes, noite e dia, em mansões esplendorosas, com mulheres trajando costumes fantásticos, cuja elegância e riqueza de cores emprestava-lhes o aspecto de flores animadas. Somente Erasmo, fiel à lembrança de sua esposa legítima, não se arriscava, malgrado seus 27 anos, a nenhuma excursão além do círculo da fé conjugal.


Certa noite, quando esses pândegos estavam reunidos numa orgia regada a vinho, um deles, Frederico, o mais fogoso do grupo, rodeando com o braço o talhe esguio da amante, e erguendo seu copo onde brilhava um líquido dourado, ergueu um brinde incandescente à beleza das rainhas da noite, acrescentando:


- Quanto a ti, meu pobre Erasmo – disse a Spickherr – entristecenos profundamente com essa fisionomia fúnebre. Bebe e cantas como um coveiro e portas-te de modo lamentável para com nossas damas.


- Juro-te, meu caro – respondeu Erasmo – que é meu dever permanecer indiferente ao encanto dessas damas. Deixei na pátria minha digna esposa e, quando se é, como eu, pai de família... A estas palavras, ditas pelo pobre Erasmo com solene gravidade, os presentes caíram num frouxo de riso. A amante de Frederico, depois de lhe terem dito em italiano o que dissera Erasmo, voltou-se para o frio alemão e disse-lhe:


- Toma cuidado. Se visses Giulietta a neve do teu coração se fundiria como gelo ao sol.


No mesmo instante um ligeiro roçagar de sedes por entre a folhagem anunciou a aparição de uma jovem de esplendorosa beleza. Um vestido branco, que lhe punha a descoberto as espáduas níveas e a garganta magnífica, caía em dobras sedutoras sobre seu talhe de fada. Sua cabeleira, perfumada, em ondas de ébano, enquadrava, com um encanto inefável, o oval admirável de um rosto de madona. Pedrarias cintilantes adornavam-lhe os braços e o colo.


- É Giulietta – exclamaram as raparigas.


- Sim, sou eu – disse, com um sorriso angélico, a bela desconhecida. – Permitis que vos faça companhia por um instante? Bem, vou sentar-me ao lado deste alemão carrancudo que não diz
uma palavra.


Em meio aos sussurros de suas rivais em beleza, a recém-chegada tomou lugar ao lado de Erasmo, que pensava sonhar. A vista de tantos encantos, sentia o coração pular-lhe; seu olhar se fixava em Giulietta como que aterrorizado. A bela florentina apanhou da mesa uma taça
cheia e entregou-a a ele dizendo:


- Aprazer-te-ia, severo estrangeiro, que eu fosse a senhora dos teus pensamentos?


Erasmo enrubesceu; todo o seu ser vibrava; erguendo-se, como que impelido por uma mola, caiu diante dela, numa postura de adoração:


- Sim! – exclamou – é a ti que eu amo, anjo dos céus! Tua imagem morava em meus sonhos; tu me trazes a felicidade dos eleitos. Esta explosão fez crer aos presentes que Erasmo enlouquecera. Giulietta ergueu-o, pedindo que se acalmasse, e a alegre conversa recomeçou, mais animada. Solicitada a cantar, ela concordou, com graça esquisita. Sua voz magnética provocava sensações inéditas. As horas passaram como se fossem minutos.


Ao amanhecer, Giulietta decidiu retirar-se. Erasmo queria acompanhá-la, mas ela recusou e, indicando os lugares onde ele poderia reencontrá-la, desapareceu como uma sílfide. O pobre apaixonado não ousou segui-la e dirigia-se tristemente para casa quando, a uma esquina, encontrou um personagem alto e magro, trajando um costume escarlate pontilhado de botões de aço.


- Oh! Oh! – fez o desconhecido – que cara desconsolada tem o senhor Spickherr esta manhã! Os moleques da cidade vão correr atrás do senhor! Trate de esconder-se.


- Ei! Quem és tu, imbecil, para me falares dessa maneira? Segue teu caminho! Respondeu-lhe Erasmo.


Devagar, meu valente – continuou o homem de escarlate. – Mesmo que tivesses asas de águia, não alcançarias Giulietta esta manhã!


- Giulietta! Que quer dizer? – retorquiu Erasmo, fazendo meia volta para agarrar seu interlocutor. Este, porém, desembaraçando-se com uma pirueta, eclipsou-se como um fogo fátuo.


Erasmo viu novamente Giulietta. A bela rapariga o recebeu de bom grado, mas sem lhe permitir quaisquer liberdades. Entretanto, quando ele lhe falava, fogoso e apaixonado, ela lhe lançava, às furtadelas, olhares cheios de fascínio. Ele abandonou a companhia ruidosa dos amigos para segui-la por toda a parte, como se não pudesse viver senão do mesmo ar que ela respirava.


Certo dia, reencontrou Frederico; não pôde escapar-lhe, e este lhe disse:


- Meu caro Spickherr, eis enfeitiçado pelos filtros de uma nova Circe!.Ainda não compreendeste que Giulietta é a mais dissoluta das criaturas?


- Ignoras então a fieira de histórias que se contam sobre ela? É preciso que sejas muito tresloucado para esqueceres tão depressa aquela boa esposa de que falavas com tanta ternura.


Erasmo escondeu o rosto entre as mãos e não pôde conter as lágrimas.


- Vamos – continuou Frederico – deixa essa paixão que te perde e vem comigo. Deixemos Florença sem perda de tempo!


- Sim, sim, imediatamente – exclamou Erasmo. Partamos hoje mesmo.


Os dois amigos caminhavam apressadamente quando o homem de escarlate cruzou-lhes, de súbito, o caminho:


- Vamos, senhor – disse a Spickherr – apresse-se pois a bela Giulietta espera-o com ansiedade.


- Vá para o diabo, animal! – exclamou Frederico – Este é o signor Dapertuto, muito conhecido como doutor em milagres; um charlatão maldito que vende a Giulietta drogas infernais...


- Quê! – interrompeu Spickherr – então este imbecil freqüenta a casa de Giulietta?


Antes que seu amigo pudesse replicar, ouviu, ao passarem sob um balcão, a voz argentina de Giulietta que o convidava a subir. A magia desse apelo perturbou a resolução de Erasmo. Mais embriagado do que nunca apela paixão, deixou-se de novo prender pela amorosa algema e acompanhou a bela cortesã a uma vila de recreio para onde ela se dirigia em busca de prazeres. Um jovem italiano, notavelmente feio de rosto e grosseiro de maneiras, se achava lá e perseguia Giulietta com seus galanteios. Erasmo sentiu todas as serpentes do ciúmes morderem-lhe o coração e afastou-se com ar sombrio. Giulietta correu atrás dele:


- Vamos, querido – disse-lhe languidamente – não és todo meu?... Ao mesmo tempo em que falava, aproximou-se dele e roçou-lhe a face com um beijo.

- Para sempre! – exclamou Erasmo, abraçando-a inflamado de amor.


A florentina escapou-lhe habilmente e lançou-lhe um olhar cuja expressão quase o fez perder o pouco da razão que lhe restava. Voltaram ambos para a festa. O jovem italiano havia os acompanhado com os olhos e, fazendo-se de rival ofendido, vingou-se com amargos sarcasmos contra os alemães. Erasmo, que se irritava facilmente, ameaçou o italiano de rude correção. Este fez brilhar um punhal. Não podendo mais se conter, Erasmo saltou-lhe à garganta, derrubando-o
por terra e assentou-lhe na cabeça um pontapé tão violento que o desgraçado perdeu os sentidos. Mas o estupor que esse acontecimento lhe causou deu-lhe também vertigens.


Quando voltou a si estava no boudoir de Giulietta.


- Meu pobre e querido alemão – dizia ela – quero salvar-te. Mas é preciso que abandones Florença o mais depressa possível. É preciso que me deixes para sempre, a mim que te amo tanto! Não nos veremos mais.


- Ah! – exclamou Spickherr – antes morrer de mil mortes. Mesmo que eu devesse perder a alma, sou teu para sempre!


- Oh! – continuou Giulietta – voltarás para tua esposa, a quem também amas e, ao lado dela, me esquecerás logo.


Ambos se achavam sentados diante de um magnífico espelho veneziano. A florentina prendeu Erasmo dentro de seus braços ebúrneos.


- Ah! se ao menos – disse ela com olhos úmidos – se ao menos me deixasses tua imagem, enquanto esperássemos que o amor nos reunisse novamente...


- Minha imagem!... que queres dizer?... Minha imagem!... – balbuciou Erasmo, desconcertado. – Mas como poderias guardá-lo, se ele é inseparável de mim?


- Recusas, então? – disse ela, com um suspiro fundo. – Nada me restará da lembrança, nem mesmo esta fugitiva imagem que me sorri do fundo do espelho!


E as lágrimas tombavam como gotas de fogo, sobre o rosto do jovem alemão.


- Choras, Giulietta, minha adorada! – exclamou – Ah! já é preciso fugir para subtrair-me à desgraça que nos separaria para toda a vida, que, ao menos, eu te possa deixar, para a eternidade, essa imagem cuja presença adoçará tuas recordações!...


Apenas acabara de falar, quando, lançando um olhar ao espelho, não mais viu a sua imagem. A mesma Giulietta, que ele apertava ao coração, esvaneceu-se como nuvem. Vozes fantásticas ressoavam no silêncio do apartamento deserto.


Erasmo, transido de espanto, sentiu um véu gelado descer-lhe sobre os olhos; procurou a porta aos tateios, como um embriagado, abriu-a com dificuldade e desceu a escada num silêncio cheio de horror. Apenas alcançara a rua quando braços o agarraram no meio das trevas e o meteram numa carruagem, que partiu velozmente.


- Não tenha medo – disse-lhe uma voz. – Giulietta confiou-o aos nossos cuidados. Sabe que aquele estúpido italiano recebeu uma de que jamais se esquecerá? Esse acidente me entristece, pois Giulietta amava o senhor. No momento, não lhe resta alternativa senão escapar às garras da justiça e, se realmente insistir em não deixar Florença, sei de um meio de escondê-lo de todos os olhares...


- Oh! caro senhor – respondeu Erasmo, soluçante – como poderia fazê-lo?


- Nada mais fácil – continuou o desconhecido. – Tenho um segredo para tornar as pessoas irreconhecíveis, alterando-lhes os traços fisionômicos. Quando amanhecer, faremos uma tentativa e, olhando-se no espelho, o senhor mesmo será o juiz.


- Deus! – exclamou Erasmo – que horror!


- Não vejo nada de horrível – replicou o homem oculto. – Arranjarlhe- ei uma imagem muito delicado.


- Ah! Devo confessar que ... que...


- Que houve?... Terá por acaso esquecido sua imagem em casa de Giulietta? Se assim for, não há o que fazer senão voltar à sua pátria. Creio que sua querida esposa se importará pouco com o que perdeu, desde que o tenha de volta em carne e osso.


A certa altura, a carruagem cruzou com um bando de alegres convivas, que voltavam para casa a luz de tochas. Erasmo olhou para seu companheiro de viagem e reconheceu nele o homem de escarlate, a quem seu amigo Frederico chamava Dapertuto. Num átimo, saltou do veículo e correu à toda velocidade atrás dos condutores de tochas, entre os quais estava Frederico.


- Salva-me! – disse-lhe ao ouvido, com voz opressa – fiz uma loucura!


Mas não acrescentou que perdeu sua imagem. Frederico levou-o para casa e, sem perda de tempo, arranjou-lhe meios de deixar Florença a cavalo, ao amanhecer.


O infeliz Spickherr escreveu a história dessa triste viagem. Suas aventuras são comoventes. Certo dia em que, morto de fadiga, desejava repousar numa hospedaria, cometeu a imprudência de se colocar diante de um espelho. O garçom, que servia a mesa, olhando por acaso para o vidro e não vendo refletido nele a imagem do freguês, comunicou esse fato surpreendente a um vizinho; este contou-o a outro e logo vários dos presentes começaram a gritar: - Quem é este homem sem imagem? É um maldito, um enfeitiçado, ou o Diabo em pessoa!

Erasmo salvou-se fechando-se no quarto onde contava poder passar a noite. Todavia, logo depois vieram agentes da polícia dizerlhe que, em nome dos magistrados, deveria ou mostrar sua imagem ou deixar a cidade sem perda de tempo.


Forçado a fugir através dos campos, para evitar as caravanas que cruzavam o caminho, ele não entrava nos albergues senão ao cair da noite; pedia ao proprietário para cobrir os espelhos; foi por isso que recebeu a alcunha de general Suwarow, porque, ao que se dizia, este general tinha a mesma mania.


Chegou, por fim, à sua cidade natal. A esposa o recebeu de braços abertos e ele acreditou, por um momento, que sua desgraça chegara ao fim. Tomando toda sorte de precauções, conseguiu dissimular a perda de sua imagem. Conseguiu mesmo esquecer Giulietta. Mas, certa noite em que brincava com o filho, este tendo sujado as mãos na chaminé do fogão, comprimiu-as contra o rosto do pai, gritando alegremente:


- Veja, papai, como senhor ficou lambuzado!


Depois, escapando-se dos braços do pai, apanhou um espelho, colocando-o diante dele e espiando por cima do seu ombro. Antes que Spickherrr pudesse se erguer, o pequeno, não vendo no vidro a imagem do pai, deixou cair o espelho e fugiu, chorando. Ao ruído, apareceu a mãe.


- Que é que me diz a criança? – perguntou ela.


- Ei! Por Deus – respondeu Spickherr, com um riso forçado – ele te diz que não tenho imagem. Pois bem! Que importa? Uma imagem não é mais que uma ilusão, minha querida; quem se olha ao espelho, peca por vaidade; Deus me livre desse pecado!


A pobre mulher agarrou o marido pela mão, arrastou-o, como se arrasta um culpado, até diante do espelho e, dando-se conta da horrível verdade, transformou-se numa megera furiosa.


- Vai embora – gritou – vai para bem longe daqui, maldito; deves ter feito algum pacto com o Demônio! Ou talvez nem sejas meu Erasmo: és um espírito do inferno! Persignou-se inúmeras vezes. Erasmo, desesperado, abandonou a casa a correr e foi se refugiar numa campina deserta. Enquanto errava ao azar, roído de mil angústias, a imagem de Giulietta lhe apareceu de repente, mais bela do que nunca.


- Ai – disse ele – que te fiz para que me persigas? Minha mulher me abandonou, não tenho mais nenhum afeto sobre a terra; tem piedade, Giulietta, tem piedade de mim. Onde te reencontrarei agora?


- Bem perto daqui, meu caro, pois ela está ansiosa por revê-lo – respondeu uma voz atrás dele. Voltou-se, muito surpreso, e deu de cara com o odioso Dapertuto, que o mirava com olhar sardônico.


- Sou seu humilde servidor – continuou o homem – e afirmo-lhe que tão logo Giulietta esteja certa de poder possuí-lo em pessoa, terá imenso prazer em devolver-lhe a imagem que, evidentemente, não pode saciar seu amor.


Erasmo estava fora de si.


- Leve-me a ela – exclamou – e lhe pertencerei sem qualquer reserva...


- Perdão – disse Dapertuto – isso exige o cumprimento de uma formalidade. O senhor está comprometido por ligações que devem ser rompidas, visto que Giulietta quer possuí-lo sem partilha. Ora, sua mulher e seu filho...


- Ah! minha mulher... meu filho...


- É preciso desembaraçar-se deles; oh! mas de uma maneira muito simples, que não o comprometerá. Tenho aqui, dentro de um pequeno frasco, um elixir, do qual duas gotas apenas livram a pessoa de toda sorte de importunos. Estes não farão, garanto-lhe, sequer uma careta. Tome, meu caro, isto exala um ligeiro perfume de amêndoas que provoca um sono... um sono definitivo.


- Miserável! – urrou Erasmo – Ousas então propor-me tal crime?


- Éh! Quem fala de crime? – replicou Dapertuto. – O senhor deseja rever Giulietta e lhe ofereço o meio, eis tudo. Tome logo o frasco e não banque a mulherzinha.


Erasmo, preso de vertigens, achou-se de súbito com o frasco na mão e diante do leio no qual sua mulher se agitava nas aflições de um pesadelo. O pobre marido sentiu o coração partir-se-lhe no peio ante este espetáculo. Abriu a janela, jogou o frasco bem longe e foi-se fechar no quarto vizinho, para chorar seu destino. A lembrança de Giulietta veio atormentá-lo.


- Anjo ou demônio – gritou ele – causa da minha desgraça. Pois bem! Aceito meu destino: aparece mais uma vez diante de meus olhos; quero morrer revendo-a!


Nesse instante, soou meia-noite. À última pancada do relógio, Giulietta apareceu.


- Meu bem amado – disse-lhe – guardei fielmente tua imagem: eilo! O véu que cobria o espelho tombou e Erasmo viu sua imagem enlaçada a da bela florentina.


- Oh! se me amas, devolve-me a imagem; devolve-me, por piedade! – disse ele, caindo de joelhos. – Mas não posso comprá-lo ao preço do crime que me exige Dapertuto!


- Escuta – continuou Giulietta – não podemos nos unir senão quando teus laços estejam rompidos. Um padre os atou; somente tu podes renunciar a eles. Mas não é preciso que o faças pessoalmente; toma apenas este papel e escreve em cima que renuncias à tua família terrestre para me pertencer eternamente...

Erasmo tremia. Giulietta o beijava ardentemente. Subitamente, viu erguer-se de trás dela a figura de Dapertuto, que lhe apresentava uma pena de ferro. Nesse mesmo instante, uma veia de sua mão esquerda rebentou e o sangue começou a jorrar.


- Escreve! Escreve! – dizia Dapertuto, com voz metálica.


- Escreve meu bem-amado! – dizia Giulietta, cujos véus haviam caído para oferecer aos olhares fascinados de Erasmo todos os tesouros da mais voluptuosa das belezas.


Ele tomou da pena, molhou-a no sangue e ia assinar, quando um fantasma pálido entrou no quarto e pronunciou estas palavras, com voz sepulcral:


- Erasmo! Erasmo! Queres dar tua alma ao Diabo? Em nome de Jesus, pára...


Erasmo reconheceu a voz de sua esposa.


Ao ser pronunciado o nome sagrado, Giulietta mudou de aspecto e transformou-se num espectro de fogo.


- Para trás, Satã! – gritou Spickherr – volta ao inferno de onde saíste!


Logo em seguida um tremor de fazer medo estremeceu a casa; o chão se abriu e Giulietta e Dapertuto desapareceram numa nuvem de vapor sulfuroso. Depois, tudo voltou ao silêncio.


Quando Erasmo, aturdido, conseguiu coordenar as idéias, a luz do dia penetrava no quarto. Voltou para junto da esposa. Esta já estava desperta e brincava com o filho na cama.


- Meu amigo – disse-lhe ela com doçura – agora sei da aventura que tiveste na Itália. Estou contristada; vê como são astutas as partidas pregadas pelo Demônio, que te roubou a imagem que eu tanto gostava de ver sorrindo para mim, no espelho! De hoje em diante não podes mais continuar a ser um respeitável chefe de família; todos de apontarão com o dedo. Sugiro que te ponhas a caminho e comeces a viajar em busca do tua imagem. Tão logo o encontres, conforme espero, apressa-te em voltar. Esperar-te-ei com impaciência e rever-te-ei com alegria. Beija-me e parte com Deus. Lembra-te de enviar, de vez em quando, algum confeito ou brinquedo ao teu filho, para que ele não te esqueça.


Spickherr, o coração opresso, beijou a esposa e o filho, apanhou o bordão e pôs-se a caminho. Encontrou certo dia o famoso Pedro Schlemihl, que havia perdido a sombra. Os dois desafortunados propuseram-se viajar juntos; Spickherr entrava com a sua sombra e Schlemihl com sua imagem. Mas não conseguiram chegar a nenhum acordo e, até hoje, ninguém sabe o que lhes aconteceu.





Fonte: Virtual books on line

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