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26.7.07

UM PREGO NO JAZIGO

Mais uma vez a Câmara tem a honra de apresentar uma colaboração do amigo e auteur extraordinaire português Alexandre Cthulhu. Um conto de terror sobrenatural denso e assustador! Boa leitura!








UM PREGO NO JAZIGO

Autor: Alexandre Cthulhu

Introdução:

Alguns de vocês já conhecem os meus contos, e sabem que o escrevo são apenas histórias de ficção, inspirados (ou não) em temas da vida real. Mas o que vos vou narrar a seguir não é ficção. É real, e foi um dos episódios mais macabros que assombrou a minha juventude.



Por isso, deixo-vos aqui um conselho sério: NUNCA BRINQUEM COM AQUELES QUE DESCANSAM EM PAZ; NUNCA APELEM AOS ESPIRITOS DAS TREVAS!


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O sopro do Altíssimo vento teimava em enxotar tudo à sua frente, fustigando as ruas sob a noite chuvosa que se ensombrara. As casas pareciam assustadas na sua viuvez urbana, e eu deambulava pela rua acompanhado de mais dois amigos, o João e o Manuel.

Tínhamos andando a curtir pela noite fora e andávamos eufóricos. Tínhamos bebido uns copos e tínhamos conhecido umas gajas com quem tínhamos fodido. Sob uma grande ressaca, vagueávamos pela rua. Trazíamos connosco uma garrafa de Whisky que íamos tragando, passando-a de mão em mão. Riamos e galhofávamos pela estrada fora, sem caminho e sem rumo.

- Vamos até minha casa – Sugeriu o João com dificuldade. A língua enrolava-se-lhe na boca quando tentava dizer qualquer coisa.

- Boa ideia – respondi - Estou farto de andar aqui às voltas pela rua.

Do local onde estávamos, até à casa dele demorámos apenas alguns minutos.

Ele vivia num anexo nas traseiras da casa dos pais. Tinha portanto, total independência para fazer o que quisesse.

Lá dentro sentamo-nos no maple e continuámos a beber whisky e cerveja que ele trouxera do frigorífico, bem fresquinha.

Inesperadamente, apercebi-me que o João fazia um charro. O anel de ouro branco cintilava-lhe nos dedos esguios, enquanto segurava a mortalha. Depois acendeu o cigarro, deu duas “passas” e ofereceu o charro ao Manuel. O ambiente começava a tornar-se num marasmo de demência e loucura total.

- Vamos jogar poker – sugeriu o Manuel.

- Boa ideia – concordei.

- Não – Interveio o dono da casa, discordando – vamos fazer um jogo diferente.

- O quê? – Perguntei curioso.

- Vamo-nos divertir com o jogo dos espíritos – ordenou ele, sob um sorriso tétrico.

- Jogo dos espíritos? – Questionou o Manuel.

- Não gosto disso. Já ouvi contar umas merdas acerca desse jogo de bruxas…

- Deixem-se de mariquices. – Asseverou ele, cortando-me a frase. Trazia o tabuleiro numa mão e uma garrafa de vodka noutra. O álcool abundava em sua casa como se a sua sobrevivência dependesse disso.

- Que raio? – Indaguei.

- É o tabuleiro de Ouija. É usado em adivinhação e espiritualismo. As letras do alfabeto e estas (”sim”, “não”, “adeus” e “talvez”) – disse ele, exibindo-nos o tabuleiro - servem para formarmos uma frase que será construída depois de rodarmos um ponteiro sobre o tabuleiro. É o jogo dos espíritos. Alguém tem medo?

Nem eu nem o Manuel respondemos. E foi em mergulhados neste silêncio que concordámos em jogar com ele. A personalidade persuasiva do João convencia-nos a fazer tudo o que ele queria. Sempre foi assim e assim voltara a ser naquela noite.

Começámos por unir os dedos sobre o ponteiro e o João lançou a primeira pergunta.

-Algum de nós vai morrer?

Largamos o ponteiro e este, após rodar várias vezes, ficou parado no lado superior esquerdo, mesmo a apontar para a palavra “sim”.

Rimo-nos.

De seguida voltamos a pressionar o ponteiro, e foi a minha vez de fazer a pergunta.

- Quando?

O ponteiro girou e girou, até que faleceu nas letras “H”, depois na “O”, seguidamente na “J”, e por fim no “E”.

- Hoje? – Questionámos nós em uníssono.

-Este jogo é uma merda! – Asseverei.

Foi a vez de o Manuel fazer a pergunta.

- Como vai essa pessoa morrer? – Questionou ainda a rir.

O Ponteiro voltou a rodopiar e apontou as letras “J” “A”Z” “I” “G” “O” “ e de seguida “P” “R”E” “G” O”.

Ficámos a olhar uns para os outros. Confesso que não me senti bem e acabei por disparar:

- Vamos acabar com esta palhaçada. - Levantei-me e dirigi-me para a porta. Apercebi-me que o Manuel também se tinha levantado, dando mostras de desistir daquela brincadeira sinistra.

O João, meio cambaleante, abandonou o tabuleiro e dirigiu-se até nós para nos expulsar de sua casa, mas acabou por desistir da ideia a meio de percurso, acabando por sair connosco. Num gesto inconsciente, olhei para trás e reparei que o tabuleiro ficara destapado e abandonado sobre a mesa, mas acabei por não dar grande importância à situação, pois queria era sair dali para fora.
Regressamos para a rua, onde recebemos o vento frio na cara. Voltámos a caminhar pela noite, conversando sobre aquele jogo lúgubre que me tinha perturbado, e confesso, me tinha transmitido algum medo, também. O Manuel também não estava bem, isso percebi, pela forma trémula como tentava acender o cigarro.

Aparentemente o João estava bem. Além de bêbado, estava bem.

A neblina húmida adensara-se e caiu sobre as ruas deserta que teimávamos em percorrer. Inesperadamente demos de caras com um muro alto que se ergueu sobre as nossas cabeças. Era o muro do cemitério, cujos portões de aço maciço se elevaram ameaçadoramente sobre as nossas cabeças.

-Este local é sinistro. – Balbuciou o Manuel meio encolhido.

- Sim, mas afinal… onde estamos?...Que local é este? – Inquiri eu, meio confuso.

- É, pá! Estou rodeado de mariconços! – Escarneceu o João, exibindo o seu ar destemido.

- Mariconços, não! Isto mete medo! – Contestei.

- Mas qual é o vosso problema? Não percebem que estamos no cemitério da nossa aldeia; a única diferença é que está nevoeiro e ele parece diferente! – Afiançou o João, que saltou para cima do muro, onde se sentou a fumar. O anel cintilava-lhe no dedo anelar. Ele trajava uma extensa capa de chuva que lhe abonava um ar medonho e aterrador.

Confesso que aquele modo arrogante do João me importunou tanto que tive vontade de lhe arremessar com uma pedrada à cabeça. Todavia, o meu ímpeto fora travado por uma ideia mordaz, que decidi partilhar com o Manuel.

-Vamos “picá-lo” para ele ir lá dentro ao cemitério, e quando ele lá estiver dentro, fugimos e deixamo-lo aí sozinho. O que achas? – Sussurrei eu ao ouvido do Manuel.

-Boa ideia, e como o vais convencer a ir lá dentro?...

– Inquiriu o meu amigo, coçando o queixo.

-Deixa isso comigo. Tens aí uma nota de cinquenta euros? – Perscrutei.

-Sim, tenho aqui! – Disse o Manuel, entregando-me o dinheiro sem qualquer hesitação.

Apercebi-me que o João continuava em cima do muro do cemitério, mas agora prostrava-se deitado de papo para o ar, a fumar outra ganza.

Dirigi-me então até junto do João, e foi com algum assombro que lhe dirigi o repto.

- Olha João, eu e o Manuel apostámos cem euros em como tu não és capaz de ir lá dento ao cemitério espetar um prego no jazigo que estiver mais a “norte”...

- Ah, estão a ver se me conseguem acagaçar por causa daquela parvoíce do jogo dos espíritos?... Vocês apostaram, o quê?..Cem euros?..ah, já são meus! – Balbuciou ele, com uma voz tremendamente glacial.

- Está aqui um prego. – Declarou o Manuel, retirando o espeto de aço do bolso, que encontrara... não sei bem onde, nem como. – Podes pregá-lo com esta pedra.

E foi com enorme frieza, que o João deitou a ganza fora e saltou o muro para outro lado, numa demonstração clara de extrema ousadia.

- Os cem euros já são meus! – Ecoou a voz dele do meio das campas.

A noite turvara-se ainda mais numa bruma intensa, e inesperadamente levantou-se uma forte ventania que arremessou as folhas dos ciprestes pela estrada adiante. Quando eu e o Manuel nos preparávamos para fugir daquele local perverso, escutámos os baques secos provenientes das batidas no túmulo dos punhos do João, que intervalava as pancadas com um sorriso sinistro e sombrio. Seguidamente, o ruído cessara e dera lugar a um silêncio lúgubre e inquietante. Instalara-se um sossego fúnebre, mas que foi macabramente rachado por um grito pavoroso e agudo, proveniente da garganta do João, que gelou as nossas almas de pavor e medo!

Prontamente, eu e o Manuel voltámos para trás e trepámos o muro para ir ao encontro do nosso camarada, a fim de percebermos o que lhe tinha acontecido. Ao fim de alguns metros, encontrámos o corpo do João caído junto ao túmulo. Notei que o corpo se prostrava numa posição torta e estranha. A sua mão ainda segurava a pedra com que tivera a pregar o túmulo. O anel ainda cintilava.

- João, João! – Bradou o Manuel, tentando deslocar o seu corpo para o endireitar.

E foi com um terror arrepiante que verificámos que o João pregara a capa de chuva ao túmulo sem dar conta disso, e ao virar bruscamente as costas, a sua capa ficara “presa ”, o que o levou a ficar apavorado e a morrer de MEDO!

FIM

15.7.07

O MITO DOS LOBISOMENS (Primeiro artigo)

Publicamos agora artigo retirado do site The cauldron Brasil sobre o fascinante universo dos homens-lobo. Fazemos isso porque ficamos com preguiça de escrever um texto inédito nós mesmos! Boa leitura!

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LOBISOMENS
A fascinação da Humanidade pelos lobisomens vem desde tempos imemoriais e, como veremos, tem muitas formas e boas razões para existir. "Werewolf" para os anglo-saxões, "Loup-Garou" na França, "Likantropos" para os antigos gregos, "Versipellium" para os romanos, "Berserker" para os antigos teutos e nórdicos, o Lobisomem habita os sonhos mais antigos da própria humanidade.

Como vemos, a enorme difusão do mito já é por si suficiente elemento para que detenhamos, por um instante, nossos passos de viajantes modernos diante de mais esse terror ancestral. De fato, a possibilidade da interação em uma mesma criatura dos poderes brutais de uma fera com a astúcia e a maldade humanas sempre aterrorizou todos os povos. Os relatos mitológicos e as poucas notas históricas enfatizam sempre que tais seres são extremamente destrutivos e incansáveis, rondando a noite inteira em busca de mais e mais vítimas. O fino sorriso do cético leitor talvez não fosse tão confiante da realidade ou não desses seres se soubesse como é extensa a maneira que o ser humano tem de tornar-se um com os animais, das mais diversas formas. O Nagualismo centro-americano conhece amplamente a tradição dos homens-jaguar, a Ásia tem os seus homens-tigre, a Oceania tem os seus homens-crocodilo assim como na África, que também possui os temíveis homens-leopardo. Todas essas manifestações guardam uma relação direta com o fenômeno da licantropia, já que em todas elas o homem perde a si mesmo de vista e voluntariamente apaga por alguns instantes aquilo que lhe faz humano e passa a pertencer ao rol dos predadores. Claro que tais casos também podem ser atribuídos a algum tipo de paranóia zooantrópica ou à simples manifestações políticas de antigos terrores tribais. Mesmo assim, muitos casos ao redor do mundo envolvem sempre esse mesmo padrão comum de despersonalização em favor do Totem. Não se aplicam, no entanto, os célebres casos de meninos-lobo: crianças criadas por lobos, ursos ou outros animais.

O principal elemento que diferencia o lobisomem destas outras figuras, que também ocorrem sazonalmente, de maneira periódica, é o seu relacionamento com a Lua e com as forças lunares. Em todos os povos, curiosamente, afirma-se sempre que é em função da época do mês e da Lua cheia que a transformação ocorre e o fenômeno se produz. Intoxicado pela luz azulada e pelas energias sutis da noite, o pobre condenado, vítima dessa maldição, começa a perder, entre dores terríveis, os traços humanos. Naturalmente, alguns casos de hirsutismo causaram terror entre a população e não guardam nenhuma relação com o caso. É curioso, no entanto, notar que ainda hoje há famílias, em certos lugares da América Latina, que barbeiam as crianças desde tenra idade, para exibi-las como meninos-lobo em circos itinerantes.




Freak Show à parte, é preciso referir que todas as mitologias enfatizam que apenas a prata pode matar o lobisomem. Mais modernamente, balas de prata têm sido recomendadas, até por Hollywood, para o perigoso esporte de caçar estas feras. Claro: a prata condensa a energia lunar entre os metais, é Lua metálica, leite sagrado que a noite derrama sobre mortais e imortais igualmente. Ferido com armas feitas da carne de sua própria mãe, o homem-lobo sofre seu próprio poder, enfrenta o que a Lua representa e o que sua Alma esconde: a compaixão que ele não teve por suas vítimas.

De certa forma, os lobisomens, embora menos inteligentes, são mais destrutivos do que os vampiros, e mais difíceis de matar. Embora seja impossível rastrear a gênese do mito, sabemos que o contágio pode se dar de várias formas. O autor tem um amigo que, por ser o sétimo filho homem, foi batizado pelo irmão mais velho, "a fim de não virar lobisomem". Mas estes casos são mais freqüentes do que se poderia imaginar, mesmo hoje em dia. Acredita-se que assim a união entre os irmãos fecha o círculo, evitando que o sétimo caia vítima das terríveis influências lunares. No Brasil são muito freqüentes os casos de pessoas tidas como lobisomens, mesmo em pacatas cidades interioranas onde ninguém nunca foi devorado... É tradicional também a história do lobisomem que devorou uma camponesa e foi morto porque tinha fiapos vermelhos da roupa da moça em seus dentes. Outro conto tradicional é o do ferimento infligido à fera (furando-lhe um olho, por exemplo) aparecer em um vizinho ou conhecido, que fica assim denunciado como a criatura sanguinária que vagava pelas noites. Ser atacado por um deles e sobreviver também poderia passar adiante a maldição, criando assim mais um lobisomem. Na própria Internet podemos encontrar também manuais de Magia Sexual Licantrópica que podem ser muito úteis para os interessados.

O próprio simbolismo do lobo já é por si só forte o bastante para causar tanto impacto. Símbolo da coragem e de Marte para os romanos, o lobo também possui a sua face assustadora. Os nórdicos têm em sua cosmogonia o lobo Fenrir, que devorará o Sol quando vier o inevitável Ragnarök, o Crepúsculo dos Deuses, o Fim do Mundo. Símbolo das trevas e da solidão dos que vagam na escuridão, o lobo Fenrir devorará o próprio deus Thor, segundo as profecias, os bardos e as runas. Rasgando a noite como um punhal na carne dos solitários, o uivo febril e interminável dos lobos nos traz à lembrança um desejo esquecido e ancestral de também seguir o seu caminho. Essa, talvez, seja uma das muitas razões para a eternidade do mito.

SURGIMENTO DO MITO... (II)

As lendas sobre Lobisomens tiveram início na França, no séc. XV. Mais de 30.000 ações judiciais contra Lobisomens aconteceram. E quase 100 delas foram executadas, pois eles teriam cometido seus crimes na forma de um lobo. Na verdade esses pobres diabos eram apenas Lincantropos.

Não se sabe exatamente quando os Lobisomens apareceram. A primeira aparição deve ter ocorrido no século 5 a.C., quando os Gregos, estabelecidos na costa do Mar Negro, levaram estrangeiros de outras regiões para mágicos capazes de transformar a si mesmos em lobos. Os anciãos diziam que essa metamorfose tornava possível a aquisição da força e astúcia de uma fera selvagem, mas os Lobisomens retiam suas vozes e vislumbre humanos fazendo com que não fosse possível distingui-los de um animal comum. Por outro lado, a verdadeira e mais comum lenda dos Lobisomens nasceu em terras francesas. O sinal do homem-lobo é uma estrela de cinco pontas, um pentagrama, cercando um lobo que salta.

LICANTROPIA... Em psiquiatria, a licantropia aparece como uma enfermidade mental com tendência canibal, onde o doente se imagina estar transformado em lobo e, inclusive, imitando seus grunhidos. Em alguns casos graves, esses pacientes se negam a comer outro alimento que não seja carne crua e bem sanguinolenta.

HIPERTRICOSE... Rara doença genética que causa um grande crescimento dos pêlos do corpo. Um famoso caso de hipertricose, registrado no final do século 19, foi a do russo Adrian Chertichev, alcunhado de 'Cão do Cáucaso' pelos parisienses, tal a massa de pêlos que lhe cobria o rosto. Acredita-se que o mito do lobisomem tenha surgido na Europa devido aos casos de hipertricose.

Fonte (I): AAFF Fonte (II): orecifeassombrado.com.br

Fonte para a Câmara dos Tormentos:

10.7.07

PARA ONDE FORAM TODOS


A Câmara dos Tormentos orgulhosamente apresenta a estréia do grande escritor goiano Jurandir Araguaia como nosso colaborador; além de um grande amigo e apreciador das sombras, um soberbo escritor com uma sensibilidade toda especial para o insólito que se insinua no cotidiano. Aqui, brindamos nossos leitores com uma obra fantástica de ficção-científica; um texto apocalíptico que leva à uma reflexão sombria sobre o futuro. Boa leitura!



Para Onde Foram Todos?


Jurandir Araguaia



Despertei sentindo-me estranho esta manhã. Sentia-me leve, forte, bem-disposto, com uma energia que trazia de volta os bons tempos de minha juventude. A escuridão do quarto, propositalmente forçada pela densidade de nossas negras cortinas, mascarava, como sempre, a real cor do dia.

Sabia que era dia, tal o meu estado de disposição. No entanto, por que o meu cachorro não me acordou ao latir, como sempre faz, mesmo que seja domingo?

- Querida, querida. Tentei acordar minha esposa ao lado na cama, mas somente toquei em seus travesseiros e lençóis. Acordou ela sem me chamar? E as crianças, e a escola? O despertador falhara? Olhei para a tela do aparelho, sobre a cabeceira de minha cama, e o visor estava apagado.

- Queda de energia. Que novidade! Mas os ruídos da casa, a correria das crianças antes de sair para a escola. O barulho dos talheres no café da manhã. Teriam resolvido poupar-me e deixar a dormir? Urgia que me apressasse para correr ao trabalho. Fui ao interruptor acender a luz. Sem energia. Fiquei irritado com meu esquecimento. Procurei as cortinas e abri-as. O dia amanhecera estranhamente nublado, com uma luz difusa denunciando as primeiras horas da manhã. Abri a janela do sobrado. Silêncio total. Nem o ruído dos carros, as vozes distantes das pessoas, o canto dos pássaros, o silvo do vento, o latir do Toby.

- Toby! Toby! Chamei-o à janela, o que sempre respondia correndo e pulando. Onde estará o Toby?

Calcei os chinelos. Vesti o roupão. Saí pela casa. Fui ao quarto das crianças. Vazio. Camas desarrumadas.

- Como a Kely permitiu que saíssem sem arrumar as camas? Estariam tão atrasadas assim? Voltei ao meu quarto e na gaveta do armário busquei meu relógio. Ele apontava três horas e quinze minutos. Os ponteiros parados.

- Eu não acredito. Um relógio caro, e da melhor marca, parou no meio da madrugada? Teria comprado gato por lebre? Não, eu sabia reconhecer uma peça legítima adquirida em uma das melhores lojas da cidade. Desci ao térreo e me dirigi para o relógio da cozinha. Igualmente parado. Os ponteiros marcavam três e quinze.

- O que está acontecendo? Abri a porta da cozinha. Toby! Toby! Nenhuma resposta. Onde estará Kely? Levou as crianças para a escola? Teria voltado e saiu para caminhar com Toby? Isso. Estou me afligindo sem motivo aparente.

Voltei ao quarto e procurei o celular. Não ligava. Impossível. A bateria estava com a carga completa. Tenho certeza disso. Pequei o telefone fixo. Sem sinal de linha. Tentei de novo. Apertei nervosamente a tecla de repouso. Nada. Nada. Nada. A Tv era impossível, visto que a energia ainda não voltara. Vesti qualquer roupa e saí para a porta. O carro de Kely na garagem. Apoiei minhas mãos sobre o capô. O motor estava frio. Ela não saíra. Mas e as crianças? Pelas grades do portão percebi que não havia ninguém nas ruas. Nenhum pedestre ou carro. Nenhum som vindo das janelas dos prédios em volta. Os outros sobrados estavam mudos, silenciosos. O rádio do carro! Corri e peguei as chaves. Entrei no veículo. A bateria não dava qualquer sinal. Tentei ligar o rádio. Sem resposta.

Abri o capô. Todos os cabos conectados. A bateria parecia boa. Tentei nova partida e nada. Corri para pegar a chave do carro da Kely. Aconteceu o mesmo. Bati nervosamente minhas mãos sobre o volante. Parei para pensar.

Voltei e tentei novamente com o celular, com o telefone. Nada. Somente então percebi que o celular de Kely estava em casa e sua bolsa com os documentos. Ela não saíra. Desci para o quintal. A coleira de Toby no mesmo lugar. Ela não levara o cachorro ao passeio. Saí para a rua. Ninguém. Não havia viva alma. Nenhum trânsito.

Desci correndo para a Alameda principal. Ali sempre havia alguém. Seria impossível não haver nada. Testemunhei o impossível: tudo fechado. Uma estranha bruma cobria o sol; às vezes permitindo que um tímido raio quisesse se manifestar. O canal da alameda deserto. Ninguém fazendo caminhada - o que seria normal naquele horário e em qualquer dia que fosse. O comércio esqueceu-se de abrir. As ruas sem pessoas ou veículos.

Sentei em um banco próximo. Belisquei-me. Eu devo estar dormindo. É um pesadelo, um enorme pesadelo. Levantei-me e gritei por alguém. O som da minha voz ecoou por todos os cantos. Girei e olhei em volta. O silêncio petrificava-me. Foi a primeira vez que senti um medo real. Caminhei por longas horas. Vencido e desanimado. Percebi que não sentia fome ou sede ou frio. Estaria vivo? Teria todo mundo morrido ou apenas eu? Que força aquela que de um jato arrebatou todas as almas ou apenas a minha para outro universo? Ficara eu congelado em algum lapso de tempo? Perdido estaria eu para sempre entre o transcorrer de um milésimo de segundo? Em busca de respostas levantei-me e continuei a caminhar pela alameda extensa em busca de outra voz, de outra vida...

LÊ AGORA!

A Rainha dos Pantanos - Henry Evaristo

Virgílio - Henry Evaristo

UM SALTO NA ESCURIDÃO - Henry Evaristo publica seu primeiro livro

O CELEIRO, de Henry Evaristo

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