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17.11.08

A VINGANÇA DE FERNANDO JUAN CUERVO

O lendário escritor sulista, mestre do horror nacional, Rogério Silvério de Farias, retorna à Câmara dos Tormentos com mais um conto exepcional e obrigatório para todos os seus fãs. Boa leitura!




A VINGANÇA
DE
FERNANDO JUAN CUERVO

Conto de Rogério Silvério de Farias




1. A estrada do medo!

Para a antiga e sombria cidade de Maremontes iam o caminhoneiro Robson e seu ajudante, um sujeito meio espantadiço e espalhafatoso chamado “Boca Tojo”. Levavam uma carga de melancias. Melancias especiais, cumpre salientar. Melancias recheadas de marijuana!

Haviam atravessado a rodovia 666, e agora seguiam por um caminho que era considerado um atalho, um caminho alternativo de pouco movimento.

O “possante” - era assim que Robson chamava seu velho caminhão. Boca Tojo, ex-garçom e vigia, fazia agora um “bico” com seu velho amigo, num “trabalho” arriscado, pois se os tiras descobrissem a “carga especial” enfiada através de pequenos furos nas melancias, furos estes feitos com uma furadeira elétrica, a dupla iria para a cadeia! Assim sendo, Boca era o acompanhante de Robson e o “chapa” para descarregar as “melancias doidonas”, como os dois as chamavam.

- É isso aí, Boca!...Se beber, não dirija! – disse Robson gargalhando sarcasticamente, bebendo uma latinha de cerveja e tragando um cigarro de maconha, uma verdadeira “.bomba” ou “tora”.

Boca Tojo, espevitado como sempre, estourou também numa ruidosa gargalhada, depois, bebendo avidamente uma lata de cerveja enquanto soltava baforadas de seu “baseado”, foi dizendo :

- Porra, “Chefinho”! E se a polícia rodoviária aparecer? E se ela nos parar e fazer o teste do bafômetro?

- Neste fim de mundo, aqui? Boca, estamos numa região desértica, praticamente. Isto aqui é como um atalho do inferno. Além disso, os tiras teriam que ter, além do bafômetro, também um “maconhômetro” especial pra nós dois!... – respondeu Robison, rindo. - Sabe, foi uma boa idéia termos seguido por este caminho pouco usado. Vamos chegar a tempo de entregar essas “melancias doidonas” ao chefão do tráfico em Maremontes e o maior ladrão da cidade, o Zena!

- Sabe o que os frentistas disseram para mim, no posto de gasolina? – falou Boca Tojo, despertando a curiosidade de Robson, na boléia.

-O quê, Tojo?

- Tinha um velhote manco muito estranho por lá. Me falou que esta maldita estrada que estamos seguindo recebeu o nome de “Estrada do Medo”, e que esta porra de região que estamos atravessando é...malassombrada!...Existe uma história ou lenda terrível sobre esta região...Os motoristas e caminhoneiros evitam passar por aqui. Sei que parecerá loucura, mas vou contar a estranha e assustadora história que o velho me contou...

“Havia, tempos atrás, um jovem motoqueiro chamado Fernando Juan Cuervo, descendente dos primeiros mexicanos que vieram para Maremontes no começo do século passado. Certa noite de lua cheia, quando Fernando Juan Cuervo passeava por esta rodovia com sua namorada em sua garupa, ambos foram atropelados por um caminhão. Margarita, a namorada de Fernando Juan Cuervo, teve a cabeça esmagada pelas rodas do caminhão, enquanto Fernando, cheio de ódio, morreu lentamente, provavelmente agonizando em busca de ajuda, pois o motorista bêbado fugira do local do acidente.

“Quando a polícia foi avisada e chegou ao local, só havia o corpo de Margarita, já em adiantado estado de putrefação, com abutres bicando a carne podre do corpo sem cabeça da morena. Cabeça, aliás, que sumira, provavelmente carregada e devorada por algum maldito coiote da região ou pelos próprios abutres.

“Fernando Juan Cuervo nunca foi encontrado. Dizem que ele morreu após ter se arrastado pela planície na vã busca de alguma casa onde os moradores pudessem ajudar, mas a região é deserta, não se encontram moradores por aqui. Assim, alguns levantaram a hipótese de que Fernando Juan Cuervo teria acabado morrendo de agonia e desespero enquanto se arrastava por ali, em busca de ajuda, e depois foi atacado por algum coiote ou cão selvagem ou devorado por algum abutre, que arrastaram sua carcaça.

“O povo falava horrores de Fernando Juan Cuervo, quando este era vivo. Havia indícios de seu envolvimento com drogas pesadas e alucinógenas, bem como sua paixão por livros de ocultismo e magia negra e certos rituais de necromancia e vudu, que aprendera em suas viagens de motocicleta pelo negro Haiti.

“Agora, me disse o velho, alguns acreditavam que o zumbi do motoqueiro Fernando Juan Cuervo, cheio de ódio e desejo de vingança, aparecia ao cair da noite, com sua motocicleta negra e infernal, para vingar-se de todos que passam por aqui... vingar-se especialmente dos caminhoneiros, mas também esperar pelo reencontro com alguém todo especial, o seu inimigo, aquele que atropelara e matara sua amada, a bela Margarita. Os caminhoneiros mais velhos e loucos deram um apelido assustador a esse desaparecido Fernando Juan Cuervo: “MORTOQUEIRO, O ZUMBI DO ASFALTO”!...O velho manco contou-me tudo isto, pois quando era criança conseguiu escapar vivo do “Mortoqueiro”, porém viu seu pai ser atropelado na estrada enquanto trocava um pneu furado. O “Mortoqueiro” feriu a perna do velho, por isto era manco”.

- Vá pro inferno, Boca Tojo! – grunhiu Robson, quase se engasgando com o gole da cerveja, e atirando de modo irritado a lata em direção a seu amigo, que a aparou com as mãos. Subitamente Robson ficara sombrio, como se lembrasse de algo, algo terrível.

Logo depois, houve silêncio dentro da cabina do caminhão, que seguiu ligeiro pelo asfalto. Robson buzinou e loucamente começou a fazer ziguezagues na pista asfaltada, bêbado, irrequieto e sobretudo sombrio.

2.O cão do inferno!

As névoas começaram a aumentar. O crepúsculo começava a sangrar no horizonte, como um poço de laivos de sangue de um cadáver esquartejado. A noite começara a cair, como uma mortalha.

- Chefinho, é melhor acionar os faróis, a porra da névoa começou a apertar, além disso daqui a pouco a noite escurece de vez tudo por aqui, nesta estrada dos infernos. Hoje vai ser noite de lua cheia, mas o luar será precário para diminuir tanta escuridão neste fim de mundo.

- Já acionei os faróis, Boca – disse Robson. – Deixe de ser cagão, homem!

A névoa à frente e a escuridão misturada com os poucos raios de luar davam um tom fantástico e infernal àquela estrada. Robson teve que diminuir a velocidade, já que o caminhão parecia estar transitando pela rodovia do inferno.

De repente um vulto negro surgiu à frente, entre as névoas turbilhonantes. Parecia um animal. Talvez um coiote, um lobo, embora seu aspecto fosse mais sinistro. Robson teve que pisar no breque, o caminhão guinchou feito um demônio ferido, os pneus fumacearam no asfalto negro, o cheiro de borracha se fez sentir.

- Filho da puta! – urrou Robson, manobrando o volante enquanto freava. – Parece um maldito cachorro!

Boca comentou:

- Sim, parece um cachorro preto no meio da névoa. Mas pode ser um coiote também. Está bem ali, cerca de 50 metros à frente do nosso caminhão!

- Pode ser um lobo ou cão selvagem mesmo...

- Sim, pode ser, chefinho!

Robson pegou do porta-luvas um revólver.

- Se for... O meu “trinta-e-oito” aqui vai dar um jeito; vou meter bala no rabo deste desgraçado que está nos fazendo perder tempo e dinheiro! Esta porra de carga de “melancia doidona” tem que chegar até amanhã de manhã, e não vai ser um vira-lata do inferno que vai me impedir de cumprir o tratado!...

Robson abriu a porta do caminhão e desceu com o revólver em riste. Boca também desceu. Ambos se posicionaram em frente ao caminhão estacionado naquela rodovia deserta e enevoada.

- Manda bala, chefinho! – disse Boca, olhando Robson fazendo mira com o revólver; o cão ou o que quer que fosse aquilo, estava parado em meio às névoas. Os olhos da estranha criatura eram vermelhos, Robson e Boca puderam ver. Parecia realmente um cão negro mesmo.

Balas foram descarregadas, quebrando o silêncio do lugar.

O cão preto fugira ao primeiro disparo, sumindo-se nas névoas, deixando para trás não um ladrar comum, mas algo similar a um regougar diabólico de uma hiena sarcástica das savanas negras do inferno.

Se mandou! – disse Boca. – Parecia mais uma hiena, essa coisa no meio das névoas.

- Hiena ou...um cão do inferno! Seja o que for, se essa porra de coisa aparecer de novo no meio da estrada, vou transformá-la em peneira! – disse Robson engatilhando o revólver.

3. Fogo nas névoas!

Ambos voltaram ao caminhão e deram partida. Continuaram a viagem. Cerca de menos de meio quilômetro à frente, o caminhão pifou.

- E agora essa? – gritou enfezado Robson.

- Puta que pariu! É foda pra caralho mesmo! E essa agora? Vamos averiguar o que foi, parece que não temos mais combustível, segundo o que vejo bem aí na sua frente, no painel...Porra, mas não faz pouco tempo enchemos o tanque no posto! O que será que houve, cacete? – disse Boca.

Desceram e foram averiguar. De repente ouviram um ronco de motocicleta. Alguém acelerava raivosamente uma motocicleta.

- Vem alguém pela rodovia, em sentido contrário ao nosso! – disse Boca.

- Não vou vacilar. Nesta região deserta, pode ser assaltante de carga! E hoje em dia, roubam até o nosso tipo de carga, Boca! – disse Robson, indo até a boléia e pegando novamente o revólver que guardara no porta-luvas, após atirar no “cachorro preto”.

Um vulto ao crepúsculo, um motoqueiro negro que vinha em alta velocidade, em meio às névoas, sob a fraca luminosidade da lua cheia. Passou como um relâmpago do inferno por perto de Robson e Boca, os dois tiveram que correr para o acostamento.

- Maluco, esse! – fez Boca.

- Esses motoqueiros andam mais “chapados” que nós dois, Boca! São uns demônios!

Foi nesse instante que Boca viu algo no asfalto, um rasto de combustível, o combustível do caminhão. O tanque provavelmente estava ou fora furado, e agora tinha deixado como que um rastilho de pólvora. E foi aí também que Boca compreendeu tudo. Boca pensou, raciocinou e concluiu. Era ele, sim...era ele, só podia ser!

- Chefinho, olha ali, eis o porquê do caminhão ter pifado!

Robson enfezou-se:.

- Caralho do Diabo! A porra do tanque de combustível fodeu de vez!

Novamente o ruído da motocicleta. O motoqueiro, misterioso e negro, vinha voltando. Boca gritou que era ele, o “Mortoqueiro”, o zumbi do asfalto.

A alguma distância do caminhão e do ponto onde estavam Robson e Boca, o motoqueiro, em meio às névoas e visto indistintamente, começou a acelerar a motocicleta, patinando o pneu traseiro, soltando fumaça e cheiro de borracha queimada no asfalto, até lançar uma pequena fagulha que incendiou o rastro de combustível que seguia até o gotejante tanque do caminhão de Robson.

Num instante, como um rastilho de pólvora, as labaredas correram rumo ao tanque do caminhão.

Robson ainda gritou, antes de ver o caminhão ir pelos ares, numa explosão infernal:

- Corra pra planície ao lado do acostamento, Boca! A porra desse caminhão vai explodir!

E assim os dois fizeram, ocultando-se atrás de um grande matacão ao lado da pista. As labaredas, como demônios, tinham seguido até o tanque do caminhão, que explodira e incendiou por completo, alastrando fogo nas névoas.

4.O zumbi do asfalto!

Após alguns minutos, Robson saiu detrás da rocha com seu amigo Boca. Robson gritou de raiva, olhando ora para o que restara do caminhão em chamas, ora para o motoqueiro ao longe, que empinou a motocicleta e veio em direção a eles.

- Esse filho da puta acabou com meu “possante” e nossa carga de marijuana! Vou mandar bala nesse miserável!

- É ele chefe , só pode ser ... “Mortoqueiro”, o zumbi do asfalto! Atira, chefe! Ele vem vindo pra nos atropelar! Mete bala nesse filho da puta, se for fantasma, não morre, se for vivo, morre e vai pro inferno!

Quando Robson apertou no gatilho, estremeceu. Somente agora ele percebera que havia gastado todas as balas no cachorro ou coiote que minutos atrás cercara o caminhão.

Robson atirou-se para o lado, arremessando o revólver contra o motoqueiro negro e sinistro, mas não conseguiu acertá-lo. Pois ele passara como um bólido. Foi ao cabo de alguns segundo que Robson percebeu que o motociclista sinistro, utilizando-se de uma corrente, laçara o pescoço de Boca e agora ia já longe arrastando o corpo do amigo. Boca foi arrastado por alguns metros, impiedosamente. Gritou muito antes de ter a cabeça arrancada. Depois a corrente foi solta, e o motoqueiro deu um cavalo de pau com a motocicleta e passou por cima do corpo de Boca, esmagando-o, aproveitando para dar um chute na cabeça decepada.

Robson olhava tudo atônito. Era ele, sim. O maldito descendente de mexicano, Fernando Juan Cuervo! O “Mortoqueiro”. O morto-vivo do asfalto!...

O terror de Robson aumento ainda mais quando viu que Cuervo, todo vestido de negro, com um capacete também escuro que lhe ocultava a face, empinou a motocicleta e veio lentamente em sua direção, como se saboreasse o desespero do caminhoneiro.

Cerca de vinte metros à frente de Robson, o “Mortoqueiro” retirou de sua jaqueta de couro negro um pingente, um berloque em que se via a foto de uma bela morena com uma flor nos cabelos negros...a flor que tinha um nome parecido com o seu...Margarita!

Robson reconheceu-a, mesmo de longe. E suas lembranças voltaram, até àquela fatídica noite em que, após fumar cinqüenta baseados e ficar totalmente doido, atropelara Fernando Juan Cuervo e sua amada Margarita, fugindo depois.

A vingança dos mortos é terrível, mas a dos mortos-vivos como Fernando Juan Cuervo é mais terrível ainda.

5. O “Mortoqueiro”ataca e mata!

Um calafrio de medo deslizou como uma lesma fria por sua coluna. Robson estava paralisado de terror, ali, no meio da pista, para onde voltara para olhar melhor, ao longe, o cadáver decapitado de Boca Tojo, atropelado e morto pelo sinistro Fernando Juan Cuervo, o “Mortoqueiro”.

Robson engoliu em seco quando viu o “Mortoqueiro” acelerar a motocicleta e vir em sua direção com um facão em riste, facão que ele sacara de uma bainha presa à sua perna.

Era tarde demais para escapar. Robson teve a cabeça decepada pela lâmina gélida que rebrilhou ao luar, úmida pelas névoas. O sangue tingiu a noite com a cor da violência e da morte. E quando a cabeça de Robson rolou pelo chão, o “Mortoqueiro” fez outro cavalo de pau e retornou, passando por cima, brandindo o facão, como se estivesse comemorando a vingança concluída. Os miolos de Robson salpicaram o asfalto, como um tempero do terror.

A lua cheia chegava, cintilando como um esférico espectro do Além. A névoa, como uma fumaça fantasmagórica, já diminuía e começava a desaparecer. Se alguém estivesse por perto, veria o cão negro do inferno que latiu e depois uivou sinistramente como um demônio louco dos abismos negros das sombras, aproximando-se da motocicleta e seu macabro piloto. Veria também, através da viseira negra do capacete do “mortoqueiro”, um sorriso diabólico de satisfação naquela caveira podre e vingativa que um dia tinha sido o rosto de Fernando Juan Cuervo.

A CRIATURA DO ENGENHO VELHO

O escritor Sergio Paulo De Mello Fonseca nos presentei com um dos contos sobre lobisomens mais interessantes da literatura brasileira. Boa leitura!


A CRIATURA DO ENGENHO VELHO

Sergio Paulo De Mello Fonseca





No início do século XVIII, a região Nordeste mostrava claramente na zona canavieira os sinais de decadência. A região, que no início da colonização portuguesa tinha recebido alguns progressivos estímulos da coroa e até merecido durante um bom período o interesse da presença estrangeira holandesa, estava perdendo a vez para as regiões do ouro. Os engenhos de açúcar característicos da região, começaram a se tornar onerosos e muitos por conta das dívidas dos donos, viraram terra de ninguém ou deixando os vilarejos que surgiam à sua proximidade, por conta de um possível intercâmbio comercial, com a árdua tarefa de prosseguirem com suas próprias pernas. Entre estes que foram abandonados estava o Engenho Velho. Foi engenho batizado com outro nome - nome que preservo - mas que no decorrer dos anos e com o abandono, tornou-se apenas o "Engenho Velho". A Casa Grande tornou-se morada dos animais silvestres, o mato cresceu, telhas caíram, vigas apodreceram resolutas. A vila próxima que surgiu à sua volta no seu período de esplendor, a poucas horas de Recife, conseguiu tornar-se relativamente próspera. Em 1728, já possuía uma boa centena de almas e muitas histórias. Entre algumas que se contavam, inclusive sendo encenada num palco da pequena praça no dia de Todos os Santos, com uma certa relutância do padre da região, era a história da Criatura do Engenho Velho, que passo neste momento a contar. Muitos adultos torciam o nariz para aquilo que parecia crendice. Mas durante quase uma década, oito moradores desapareceram inexplicavelmente. Todos adultos, sem nenhum motivo para fugir e quase nada deixando como prova. Apenas de um deles, o solitário João de Deus Oliveira, foi encontrada uma garrucha detonada e manchada de sangue num caminho que levava ao Engenho Velho. Todos eram homens e haviam desaparecido provavelmente nas horas que antecedem o nascer do dia e em pelo menos duas vezes, gritos de socorro verdadeiramente desesperados tinham ecoado pelos campos quase adormecidos. A vida continuava e a vila ia paulatinamente crescendo, atraindo quase sempre um viajante, um comerciante, um aventureiro. No início do mês de novembro, num dos períodos mais quentes do ano, chegou mais um visitante: José Alves Calhandra. Tinha 24 anos e uma grande vontade de se estabelecer no Brasil. Tinha dinheiro fácil; era único herdeiro de sua mãe viúva. Fez amizade rápido no lugar. Era bom de copo e quase imediatamente à sua chegada, tornou-se o assunto do lugar, sendo alvo durante as missas do assédio de quase todas as moças "casadoiras" da cidade.

Bem, numa noite de farra, tomou conhecimento da existência do Engenho Velho. Melhor, tomou conhecimento de que o lugar estava abandonado e sem esconder, com uma dose de exagerada euforia, disse que o ocuparia sem demora. Os mais chegados tentaram demovê-lo de tal idéia. Certamente haveriam dificuldades e além do mais, alguém lembrou de que todos os se aproximaram do Engenho Velho tinham desaparecido. Desnecessário dizer que José não ficou nem um pouco impressionado com aquela história. Era alguém vindo de um grande centro e não cairia fácil nessas crendices de um lugar meio perdido na colônia. Arrumou poucas coisas num alforje e com a montaria seguiu pela trilha do Engenho assim que amanheceu. Ficou impressionado com a beleza do lugar; a própria decadência promoveu que a flora se recuperasse um pouco, mas o caminho era perturbadoramente silencioso. Após algum tempo no caminho, foi divisando ao longe o complexo do Engenho. Até que chegou e começou sua pesquisa. Animou-se com o que encontrou. Apesar do abandono, encontrou salas e quartos amplos, enorme cozinha; em volta da casa, um razoável pomar de mangueiras, jambeiros e cajueiros. Uma senzala também considerável e uma cavalariça que mostrava a antiga opulência dos proprietários.. Bem... entre o caminho, a chegada e o reconhecimento da casa, o almoço à sombra de um cajueiro, o dia passou rápido e logo escureceu. José Alves estão à vontade naquele lugar que decidiu dormir ali. Iria se arrepender. Mas a noite prometia. A lua surgiu cheia... maravilhosa... iluminando os campos abandonados. Logo após verificar que a cavalgadura estava bem guardada e jantar decidiu dormir. Lua cheia e não sabia, mas era exatamente a lua ideal para a criatura do Engenho Velho. Às duas da manhã quase em ponto, sonhando talvez com o Engenho próspero, José foi acordado por um rugido tão pavoroso vindo dos campos próximos, que foi premiado com uma instantânea dor de cabeça. Atordoado, tentou pensar no que estaria acontecendo e logo pensou no cavalo alugado. Tropeçando na escuridão, correu até onde estava a montaria e a encontrou extremamente nervosa e mal tentou desamarrar a rédea, um outro urro ecoou pela madrugada, dessa vez bem próximo. Isso foi o suficiente para que o cavalo num salto saísse em desabalada carreira, fugindo. Estava miseravelmente só. Talvez nem tanto e pela primeira vez percebeu que não deveria ter menosprezado as orientações de quem conhecia o lugar. De mãos vazias correu de volta à varanda tentando uma visão mais privilegiada do que poderia estar acontecendo. A lua facilitou um pouco e acocorado por trás da pequena murada começou a percorrer com a vista os campos. Até pensou que poderia ser uma peça pregada pelos amigos da vila, mas o terceiro urro o chamou à realidade. Definitivamente aquilo era vindo de um ser animalesco. Ninguém conseguiria produzir aquele som. O coração estava aos pulos e, fosse o que fosse, estava conseguindo assustar-lhe. E ali, naquela trincheira improvisada, percebeu que, da casa abandonada, algo vinha entre saltos e corrida, fazendo vergar as canas selvagens, capim e erva. José preferiu não ver quem era aquele visitante veloz e procurou relembrar um lugar ali que efetivamente pudesse lhe servir de proteção. Pelas portas abertas da casa adentrou, esbarrando com força numa parede do segundo corredor, mas deixou a dor para depois e numa rota que foi mais comprida do que a que havia percorrido, como um raio mergulhou no chão e emburacou pelo portão da terceira cavalariça e encolhido atrás da portaria tentou ficar invisível, agachado e abraçando com força os joelhos. Um uivo ecoou pelo que percebeu ser dentro da casa abandonada e o medo gelou-o. Mentalmente amaldiçoou a luz da lua que indiferente penetrava tranqüilamente pelas frestas do lugar. Subitamente, escutou uma violenta pancada na porta da primeira cavalariça que ao impacto desabou. O senso de preservação e o medo o paralisaram. A audição apurou-se como de um animal e olhos saltavam da órbita, fruto de um medo que até aquele momento desconhecia. Percebeu pesadas passadas e uma respiração ofegante percorrendo a rua da cavalariça. De onde estava havia uma fresta entre as madeiras do portão. Postou-se lentamente diante daquele ponto de observação e esperou. O que viu, ultrapassou tudo o que sua imaginação poderia lhe dar e jamais esqueceu... Completamente indefeso e com o sangue correndo gelado nas veias, José Alves, se pudesse, deixaria de respirar. Pela fresta, e o pior, exatamente às poucos metros dele, surgiu um ser que só tinha escutado falar em histórias antigas ou de folclore em sua terra. Quase completamente cobertos de pelos, com membros definitivamente humanos, mas não podia dizer o mesmo da cabeça, que lembrava uma descomunal cabeça de cão e enormes presas que se sobressaíam de uma boca que se mostrava ainda sangrenta, a criatura tinha entre as garras da mão esquerda, um fragmento grande de carne, que tinha sido visivelmente arrancada. José colocou a mão na boca, quase mordendo os dedos de tanto pavor. Pior, a criatura cheirava o ar tentando localizar algo...tentando localizar sua presa... José Alves. Um urro ecoou pela cavalariça abandonada e pela misturas de odores daquele lugar, aquela criatura tinha dificuldade de localizar o que procurava e após alguns minutos diante dos olhos crispados de José, reiniciou sua corrida pela madrugada adentro. O medo que José sentia era tão grande que o rapaz não teve coragem de se mexer um centímetro. Nem perceber que os ruídos daquela indescritível criatura ficaram bem distantes causou sobre ele qualquer lenitivo.

O dia chegou e por volta das onze horas da manhã, o lugarejo viu adentrar um José Alves completamente diferente. Sujo, com os cabelos em total desalinho e com um olhar que marcou quem o viu. Silenciosamente e após trocar as roupas, que inclusive rasgou em inúmeras tiras, arrumou tudo. Os mais próximos estavam preocupados com o que havia acontecido. José desconversou e disse que coisas inadiáveis o esperavam em Coimbra, terra natal. Chamou-me em particular e me entregou um maço de papéis. Disse-me que tudo precisávamos saber estava ali, mas me fez jurar que só leria após sua saída do lugar. Confesso que sua expressão me convenceu. Já se vão mais de 16 anos que partiu e nunca mais voltou. O Engenho Velho continua abandonado. Cinco pessoas nesse período desapareceram sem deixar rastros. E todos fazemos de conta - talvez para nosso próprio bem - que a nossa vida continua absolutamente normal.

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A Rainha dos Pantanos - Henry Evaristo

Virgílio - Henry Evaristo

UM SALTO NA ESCURIDÃO - Henry Evaristo publica seu primeiro livro

O CELEIRO, de Henry Evaristo

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