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OS PORTAIS DE ÉBANO


Por: Henry Evaristo



Diante dos portais de ébano de Dharan-Tyr, na Swyrnea, eu caí subjugado pelo poder dos deuses mortos. E suas vestes azuladas roçaram meu rosto como a proferir enigmas vitais.

A tarde que findava nas distâncias do horizonte trazia-me em ventos cálidos sentimentos de regozijo por me encontrar, depois de tantos anos de sofrimentos e dúvidas, ao alcance das vistas daquelas excelsas presenças.

De meus olhos uma torrente de emoções brotou quando ao, longe, ouvi como que o solfejar de uma velha flauta que me sugeria a aproximação de um outro ente querido dos mundos oníricos. E dos bosques escuros avançavam agora ventos que traziam lamurientas vozes de coisas perdidas e insanas que vagavam sem rumo.

Para mim marchou a criatura das matas; seus cascos bipartidos estalando no chão de mármore ao alcançar os limites do titânico templo com a orla da vegetação. Os deuses, por sua vez, obedecendo ao comando de uma senhora em vestes prateadas que, postada no alto da mais alta torre da fortaleza inexpugnável, cantava melodias inebriantes levadas ao longe pelos ventos dos bosques, uniram-se em coro para saudar o novo visitante.

"Oh, sagrado Pã. Te bem-dizemos e nos regozijamos em tua augusta presença. Tu que saltas pelos ermos do mundo e com teu solfejar encantas demônios! Vem agora! E serve de guia para este nobre aventureiro que se arrojou de seu próprio mundo seguro para aventurar-se nestas plagas perigosas. Protegei-o! Zela por ele como por tua deusa, pois assim ela o conclama lá do alto de sua torre de luz! E mostra para ele os segredos pelos quais ele tanto aspirou."

Dizendo isso, tempo em que eu me quedei tremendo de excitação, os deuses mortos voltaram-se diretamente para mim e a luz vinda da torre me cegou instantaneamente. O horror tomou conta de meu ser e um grito se me desprendeu da garganta.

Vendo, de certo, minha aflição, o nobre deus Pã trotou para bem próximo de mim pois pude ouvir o som macio de suas patas a se aproximarem. Depois, com sua voz serena cujo hálito recendia a eucaliptos, me falou ao ouvido como uma amante que sussurra na madrugada.

"Filhinho!" Disse ele "Estou aqui para ti e nada te tocará! Vê, lá em cima da torre, a Grande Mãe te tem em alta consideração e acaba de te abrir todas as portas de seu reino. Não és qualquer mortal! Vê! Agora!"

"Mas, meu senhor!" Argumentei. "Tenho as vistas derrotadas por tamanha luz maravilhosa de nossa deusa tão amada. Nada posso ver neste momento com estes olhos já mortos!”

E então Pã, acariciando-me no coração, disse com uma voz que retumbava em meu peito e me arrancava vagas de lágrimas incontroláveis:

"Aqui, filhinho, não se enxerga apenas com o corpo, se enxerga também com a alma!"

Neste momento ouvi uma outra melodia, ainda mais fenomenal, que descia das imensidões do céu e parecia penetrar por meu cérebro abrindo caminho por todo meu ser e tocando meu próprio espírito. Era ela, a Grande Mãe, que agora, de seu ninho argênteo, me falava.

"Moranus! Tu agora és Moranus! E tua arte ainda te vai ser ensinada. Abre tua mente neste instante pois te darei todos os paraísos e todos os infernos. Nada mais te será suficiente no mundo dos homens e, muito embora tu vás ter de viver entre eles, tu também não será apenas suficientemente um homem. Tu serás o homem dos homens! Serás menos que eu e eu serei menos que tu! Eu estarei em ti e tu estarás em mim e, em meu nome tu espalharas na terra dos templos cerrados a palavra da grande ciência dos sábios. Te chamarão de louco, de falso profeta, de bruxo e de mago. Mas tu riras deles e terás poder para lançar-lhes ou não as chamas dos abismos pois aí está Pã e ele te levará, agora, já, à presença de teu primeiro mestre, Baal Zebulb, o senhor das moscas dos tempos proféticos. Abre, pois, estes olhos da tua alma; que são eles agora os únicos que te servirão aqui!"

Diante de ordem tão imperiosa meu único gesto foi o de abrir minhas novas percepções; ao que, de todos os lados, ouvi sons de alegre festividade. De repente a tudo eu via com um resplandecente ar de alvura. Tudo se me parecia renovado e até mesmo as cores do mundo não eram mais as mesmas. Ao meu redor hordas de animais fantásticos dançavam e cantavam ao som da flauta feérica do deus Pã. Aqui, etéreas fadas e ninfas esvoaçantes lançavam seus raios furta-cor contra um sol esverdeado; ali duendes e gnomos, junto com ciclopes e unicórnios executavam manobras de uma dança ancestral e perdida no tempo. Ogros, basiliscos e centauros disputavam lugares próximos a mim e até mesmo a terrível acromântula, se não dançava, pelo menos estava quieta em seu lugar nas sombras. Intimidada talvez por um grupo de majestosos diabretes que desfilavam e falavam apressadamente em um idioma hilariante, limitava-se a emitir estranhos silvos que faziam vibrar os dentes dos presentes. Até mesmo a vastidão escura que tentara insistentemente se opor à minha chegada ali, durante toda um minha vida, agora conspirava a meu favor e o terreno se encontrava vivo, pululante de presenças poderosas e ancestrais. Ao longe eu podia houvir o rugir dos hipopótamos e dos crocodilos a chafurdar nas lamas pútridas dos pântanos e ainda um som grotesco de hienas e chacais a caçar nos desertos distantes. Tudo era para mim tão alucinante, e tão belo, que tinha vontade de ajoelhar-me em louvor àquelas potestades da natureza pelas quais tanto ansiei em meus sonhos e nas minhas ações no mundo dos humanos. Foi para vê-las assim, de perto, e quem sabe compartilhar seus segredos, que gastei cada centavo que ganhei na vida com livros raros e obscuros; e viajens à lugares exóticos. Foi para estar neste mundo escondido que me aventurei em porões fétidos na empresa de ritos profanos. Agora eu chorava pois um universo de beleza inigualável se desdobrava para mim e nele eu era aceito como um pupilo, um aprendiz das feras do oculto.

Logo ouviu-se um estrondo tão terrível que toda a algazarra dos seres festivos e dançantes cessou abruptamente e a floresta e o templo mergulharam em sombras que antes não haviam. Voltei-me novamente para os deuses mortos e vi que eles, de costas para mim, e apenas com o poder de seus olhares rubros, faziam destravar a abrir o imensurável par de portais do mais escuro ébano jamais visto. As duas partes negras da entrada do templo estavam, em fim, se abrindo para dar passagem a mim e a meu guia através das esferas da sabedoria suprema.

O lado de dentro era de uma escuridão indescritível. Tão terrível era, e tão espessa, que tornou mais claros os próprios portais de madeira negra. E de lá senti bafejar em meu rosto como que o hálito de algo que estivesse morto.

Ouvi então a voz da grande mãe retumbar de algum lugar na imensidão escura à minha frente:

"Vão agora, pupilo e seu guia! Penetrem o primeiro estágio de um aprendizado de reis. Rápido! Thamuz, o embaixador, os espera para apresentá-los; e ele, sendo mais velho que o tempo, já não tem mais paciencia!"

Assim, em meio à nova algazarra de bandos de seres fantásticos de outros universos, adentrei o mundo maravilhoso das trevas na companhia reconfortante e segura do grande deus Pã que me ia indicando coisas preciosas espalhadas por todos os lados na escuridão.

Durante mil anos eu vivi em meio às potências de um Kósmos paralelo; e de suas mentes inconformadas e raivosas apreendi muito mais que qualquer ser jamais foi capaz. Foi nos abismos tenebrosos, mergulhando nas asas de criaturas ignóbeis, que conheci os segredos deste e todos os mundos. Na presença de mestres indizíveis, habitantes de fossos miasmáticos, eu labutei; e o fruto de meu trabalho e de meu esforço foi amplamente compensador.

Pisei no mundo dos homens novamente apenas no seculo III e, até o século XIX, ergui um império terrestre de ideais em nome de minha mãe. Muitas histórias colecionei e muitos homens eu trouxe à luz de minha causa, que é a causa dos titâs subterrâneos.

Sempre estiveram comigo os senhores sazonais, da natureza, aqueles desprezados e difamados pelas doutrinas oficiais e muitos deles, sobretudo nos anos setenta, tiveram a oportunidade de sentir o gosto da vingança no soerguimento de milhares de templos pagãos em torno do mundo.

Até hoje me contemplam os amigos dos bosques festivos. Posso vê-los em esquinas escuras e em fundos de bordéis. Posso vê-los correndo em quintais abandonados e estradas desertas. Às vezes escolho lugares ermos, na madrugada, para confabular com a deusa maior que ainda me orienta com respeito e ternura; e sempre com ela vem Pã, o meu amoroso guia.

Evito, no entanto, aproximar-me muito do templo onde tudo começou pois durante minha estada nos domínios da grande ciência, além de bons amigos e irmãos, fiz também infernais inimigos; criaturas invejosas de meu poder e intelecto que não exitariam em destroçar minha alma passando mesmo por cima da autoridade de minha mãe. Mesmo assim, de século em século, me esgueiro sorrateiramente até as bordas do mundo de onde posso ver os portais de ébano de Dharan-Tyr, na Swyrnea, e são poucas as vezes em que não posso avistar a madeira negra estremecendo com os impactos das potestades trancafiadas lá dentro, impacientes.
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Nota: A referência ao "Grande Deus Pan" é uma homenagem do autor ao grande escritor galês Arthur Machen; gênio das narrativas fantásticas cuja obra "The Great God Pan", que continua inexplicavelmente inédita no Brasil, figura entre as mais assustadoras de todos os tempos.

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