ACESSE O BLOG OFICIAL DO LIVRO "UM SALTO NA ESCURIDÃO"


PUBLICAÇÕES MAIS RECENTES

29.9.09

HENRY EVARISTO LANÇA "UM SALTO NA ESCURIDÃO"



UM SALTO NA ESCURIDÃO


Finalmente está a disposição dos amigos e admiradores do meu trabalho o primeiro livro de minha autoria. Em acordo com as novas tendências de publicação, acabo de me inserir no inovador projeto editorial do CLUBE DE AUTORES, uma editora que busca formar um novo tipo de público para um novo tipo de obra literária. Atuando junto principalmente à grande massa de novos escritores que buscam por uma iniciação no universo da literatura, a editora vem quebrando paradigmas e possibilitando a realização do sonho maior de centenas de autores em todo o país.

Os contos presentes na obra são bem conhecidos dos leitores da Câmara dos Tormentos porém possuem, desta vez, a característica de virem em papel, de verdade, srrsrssr!

Quero agradecer a todos os amigos e leitores que me incentivaram a dar mais este passo na minha carreira literária.


BLOG OFICIAL DO LIVRO:
www.livrodeterror.blogspot.com





28.9.09

VICTOR MELONI LANÇA "ANTOLOGIA DO ABSURDO"



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O escritor Victor Meloni acaba de lançar seu primeiro livro. Trata-se de um apanhado de seus contos já célebres no mundo virtual por serem obras de extremo valor literário dentro do cenário da atual literatura fantástica nacional. Com certeza esta obra constitui-se numa aquisição obrigatória para todo aquele leitor que se considere um admirador da litfan.

Texto promocional:

As linhas desta obra prezam pelo delírio de uma mente prenhe de idéias que foram paridas nas turbulentas águas dos contos fantásticos, lugar assaz pertinente para as elucubrações que opugnam aqueles que estão irremediavelmente tomados por este gênero literário. O autor, Victor Meloni, é uma destas criaturas, e se atreve a levar ao leitor o resultado das vozes que crepitam, com inquietante regularidade, em sua obsedada cabeça.


Siga o link para obter informações gerais e para adquirir a obra!

http://clubedeautores.com.br/book/4939--ANTOLOGIA_DO_ABSURDO_



26.9.09

SEMENTES DO MAL - Tânia Mara Souza

Esritora Tânia Mara Souza retorna às páginas emboloradas da Câmara dos Tormentos com um conto cruel, violento, viceral... Mais uma leitura obrigatória para os fãs da litfan! Boa leitura!


SEMENTES DO MAL

Tânia Mara Souza




Sim, ouçam-me mundanas e damas de vontade duvidosa, ouçam essa que vos fala em púlpito nefasto. Também eu conspurquei meu corpo e minha alma em pecado e devassidão, entanto, tivera comigo nos caminhos de ignomínia e desonra promessas de régia recompensa.

Mãe! Seria a mãe de um príncipe, herdeiro e guia para muitos, edificaria um reino para o rei dos reis, ao meu amado; enfim, na noite onde o silêncio imperava e horrores insinuavam-se entre as árvores, entregaria este tesouro e teria enfim a recompensa. Eu seria rainha.

Tampouco importava a dor que me sangrava por dentro nos últimos dias, podia senti-lo revirando minhas entranhas, ferindo-me com unhas pontiagudas... Meus pensamentos estavam fixos no triunfo. Cercavam-me, em sonhos mórbidos, vultos e portentos; podia senti-los ao meu redor, no cheiro ocre e nauseante surgia e desaparecia conforme a dor voltava.

Eis então, era chegada a hora. Gritei ao meu amado e mestre que viesse receber a oferenda, o filho esperado, a herança, o caminho da nova era. Ouviu a Terra uma ópera crescente, como orquestra insana surgiam lamentos profundos, cantigas mórbidas. Uma fina camada de suor cobria minha pele quase translúcida, entre gemidos de dor e espera, vislumbrava faces cruéis nos recantos sombrios da casa abandonada onde, como animal, eu procurara abrigo. Eram vultos, brisas mórbidas, mãos que se estendiam em jubilo e depois se recolhiam. Faltava-me às vezes o ar perante a densa angústia que se espalhava, ouvia então o choro de anjos meninos e sentia como se fora ali, entre as paredes mofadas, o nascer de toda solidão

A dor tornara-se insuportável e expeli uma massa disforme de carne e massa que grunhia e debatia-se. Vi com horror a espinha retorcida, a pele disforme e nebulosa, de um rosto sem face abriu-se um único olho, amarelo e purulento, tomado pelas mais doentias infecções, entre as pálpebras necrosadas surgiam dentes lisos e brilhantes. Arfei, a voz faltou-me e com as poucas forças que me restavam tentei afastar-me da criatura que lançava na noite vagidos horripilantes. Arrastando-se pelo chão imundo e sangrento, debatia-se em busca de ar, balançando inúmeros braços cobertos por pêlos cinza. Ah, o horror. Eis que chegara o rei e seu séquito e minha promessa não fora cumprida. Fora eu impura para tão nobre senhor.

Seu olhar ferveu em ódio e de um movimento brusco, feriu-me com unhas pontiagudas, lacerou meu ventre até que uma mistura de carne e sangue espalhou-se e para delírios e risadas dos convivas, a criaturinha recém parida lançou-se esfomeada aos meus dilacerados membros até ser levada com eles.

Eu fora inutilizada, a mulher em mim morrera para sempre. Este castigo eu merecera por minha inaptidão. Sigo viva para cumprir meu destino, suja, maltrapilha, maldita; caminho em busca da noiva perfeita, ainda não era chegada a hora do príncipe, porém, será no ventre de uma jovem como vós, perdida em eterna noite de sombras, que o meu senhor terá abrigo e, enfim, seu reino será real.

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Nota da autora: este conto é uma obra de ficção, não traduz minhas crenças ou opiniões; qualquer semelhança com nomes, fatos ou pessoas reais é mera coincidência.

16.9.09

O PALHAÇO - Lino França Jr.

Escritor Lino França Jr. presenteia nossos leitores com um conto assustador sobre uma criatura paradoxal; o palhaço representa um grande terror nas infâncias de milhares de pessoas quando deveria ser apenas uma figura de alegria e entretenimento. Reviva seus momentos de pavor de palhaços com mais este texto obrigatório da literatura fantástica nacional que a Câmara traz para você! Boa leitura!




O PALHAÇO

Lino França Jr.


Henrique nem esperou o pai estacionar direito o automóvel. Abriu a porta traseira do veículo e saiu correndo para o portão de entrada da casa do primo Mateus.

Em todos os aniversários do primo, Henrique se divertia muito. A algazarra já era imensa nos jardins da residência do parente. O garoto já mirou de longe um grande número de crianças, além da presença de mágicos, bailarinas e palhaços, muitos palhaços, para animar a festa.

Depois de cumprimentar os primos e os tios, Henrique correu pro meio da bagunça. Como sempre, participava de todos os jogos e brincadeiras de forma entusiasmada junto com as demais crianças. De repente, algo lhe chamou a atenção. Um dos palhaços estava num canto, sozinho e deslocado dos demais. O bufão olhava para o amontoado de crianças barulhentas e apenas ficava parado fazendo malabarismos com quatro bolas coloridas nas mãos. O garoto encarou o palhaço que parecia sentir o olhar de Henrique, e então devolveu aquele olhar. O garoto fez um aceno e deu um sorriso para o palhaço que não o retribuiu, apenas continuou a jogar as bolas para o ar mecanicamente. Sequer um sorriso surgiu no rosto da figura de cabelos vermelhos, cara pintada e roupas exageradamente coloridas.

O garoto ficou sem graça com a falta de reação do palhaço, mas virou-se e continuou brincando com as demais crianças.

Após determinado tempo, Henrique teve aquela velha sensação de que alguém nos observa. Parou por um momento com a divertida correria atrás dos outros garotos e olhou pra trás. Não viu o palhaço. Ao se virar, encarou a perturbadora visão. O tal palhaço estava na porta da cozinha do casarão fazendo seus malabarismos, mas em vez das quatro bolas coloridas, os objetos que subiam e desciam em sincronia, eram quatro pequenas cabeças ensangüentadas. O menino aperta os olhos pra tentar reconhecer aqueles rostos. Não demora muito pra identificá-los. Além da sua cabeça, o horripilante palhaço brinca calmamente com os crânios de seu pai, sua mãe e sua irmã caçula. Henrique eleva o olhar para o palhaço que ameaça um sorriso, mas nesse instante, o primo Mateus o segura pelo braço, fazendo-o saltar de susto. Henrique desperta do transe e volta a procurar a figura medonha. De frente à porta, lá está o palhaço brincando monotonamente com as bolas coloridas.

A festa continua, mas Henrique não consegue mais se divertir. As horas passam, canta-se o parabéns, corta-se o bolo, e a festa chega ao seu fim.

Ao entrar no carro dos pais, o garoto percebe a chegada de alguém atrás de si. O palhaço com a mão cheia de balões amarrados por barbantes, oferece um deles a Henrique. O garoto estende a mão pra apanhar o presente, mas o que vê no lugar do fio é uma serpente negra com a boca escancarada, pronta pra dar o bote. O garoto puxa a mão rapidamente e entra no carro dando um grito de pavor. Os pais e a irmã olham para o palhaço sem nada entender, pois em sua mão nada mais há além das singelas bexigas multicoloridas.

Ao chegar em casa, Henrique sobe as escadas apressado em chegar ao seu quarto. Tranca a porta e liga a televisão num canal qualquer. Tenta fechar os olhos esperando o sono, mas a visão do terrível palhaço continua a povoar seus pensamentos. Com muito custo, o garoto acaba cedendo ao cansaço e adormece. O sono é interrompido com o som das janelas do quarto batendo violentamente num vai e vêm devido ao vento cortante da madrugada gelada. Henrique levanta-se e vai até a janela para fechá-la. Ao olhar pra rua, parado do outro lado da calçada está o palhaço de seus pesadelos. Nas mãos, o estranho ser leva um enorme facão manchado de sangue. O rosto continua sem expressão alguma, apenas a maquiagem carregada que agora está toda disforme, como se seu rosto tivesse sido queimado e derretido. O olhar da figura na rua fulmina os olhos de Henrique que fecha a janela rapidamente e corre em direção ao quarto dos pais. Na cama do casal, apenas dois corpos inertes repousam sob o edredom empapado em sangue. O garoto ainda acende a luz para constatar o inevitável. As cabeças dos pais foram decepadas e levadas de lá. Henrique abafa um grito enquanto um cachorro lá fora, uiva alto fazendo os pêlos do braço do garoto arrepiarem-se.

Na ponta dos pés, e sentindo as lágrimas descendo pela face, o garoto cruza o corredor em direção ao quarto da irmã. Torcendo pra não ter a mesma horrenda surpresa. Henrique abre a porta do quarto lentamente. Pra seu alívio, a irmãzinha não está na cama. O garoto segue pelo corredor sem acender as luzes. Lá fora o cão volta a soltar um horrível uivo. O irmão chama baixinho o nome de Sara, na esperança de encontrar a irmã há tempo de fugir dali. Consegue chegar à sala, e desesperadamente corre os olhos pelo sofá e pelo chão buscando a irmãzinha ainda com vida, mas nada encontra. Bate a mão na maçaneta da porta da sala, buscando a garagem. Um relâmpago ilumina o lugar, seguido de um trovão que explode no céu negro. O sangue de Henrique gela ao ver na luminosidade do raio, a figura nefasta do palhaço com o facão ensangüentado numa das mãos e na outra a pobre Sara, suspensa no ar pelos cabelos presos pela enorme mão do invasor. Ao ameaçar uma corrida pra tentar salvar a irmã, o palhaço num movimento rápido, degola a cabeça da garotinha, fazendo o corpinho infantil bater com força no chão gelado. Henrique estanca a corrida sem acreditar no que vê. Outro raio cruza o firmamento e o garoto assiste o palhaço assassino abrir a porta da garagem pra ganhar a rua. O monstro vira-se pro garoto congelado pelo medo e lhe presenteia com um sorriso sinistro, exibindo uma porção de dentes podres na boca. O hálito quente e pútrido chega às narinas de Henrique. O palhaço levanta a mão, segurando pelos cabelos quatro pequenas cabeças. E mais uma vez o garoto as reconhece: seu pai, sua mãe, sua irmã Sara, mas desta vez não é a sua a quarta, mas sim de seu primo Mateus. O palhaço joga uma a uma as pequenas bolas para o ar e inicia seu malabarismo macabro em direção a rua, deixando Henrique sozinho na calçada, quando a tempestade finalmente chega.

O IMPROVÁVEL YOU -KODDLACK - Victor Meloni

O escritor Victor Meloni, mestre das estruturas literárias complexas e profundas, marca presença na Câmara com um conto excepcional; desde já um clássico da literatura fantástica brasileira. Boa leitura!


O IMPROVÁVEL YOU-KODDLAK


Victor Meloni


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“...Ainda um beijo no teu corpo pálido
E aqueles lábios que já foram tão quentes – Meu Coração!Meu coração!”(Lord Byron)


O professor doutor You-Koddlak era um adepto do utilitarismo. O bem da maioria, se necessário, às custas da má sorte de uns poucos. E pragmático também. Diziam alguns que de maneira excessiva, inclusive. Talvez isso fosse parte da sua natureza escandinava, algo com o qual ele já nascera. De todo, o Sr. Koddlak, homem de ação, considerava que comentários pejorativos às suas posições ideológicas, na maioria das vezes eram fruto da ignorância daqueles que se davam ao trabalho de tanto. E ele não deixava de ter certa razão, afinal é difícil para intelectos pouco capazes, entender o posicionamento de um sujeito utilitarista. Não raras vezes, o julgavam insensível.

Koddlak cultivava certas virtudes como poucas pessoas são capazes. Acreditava piamente que a vida só pode ser gozada de maneira satisfatória caso a pessoa entendesse que o bem em si não há, está para ser feito, daí a necessidade ferrenha de se por em prática determinadas, mas grandes, virtudes. Estas norteavam sua vida, pois atendiam, e respondiam ao mesmo tempo, à sua visão utilitarista de mundo. Quando terminou seu doutorado em antropologia percebeu mais claramente o singular horizonte de conhecimento sobre a espécie humana que seus estudos construíram. Esses conhecimentos eram fundamentais para sua segurança. Conhecer, saber, o máximo possível a respeito do homem se tornava condição sine qua non para sua sobrevivência.

You-Koddlak trabalhava em uma conceituada universidade, como professor e pesquisador. Usufruía de todos os privilégios e oportunidades que a reputação destes cargos oferecia. Com distinção e louvor. Sua vida profissional e privada eram dois mundos diferentes. Praticamente ninguém sabia nada sobre seus hábitos. A não ser pequenos detalhes como endereço, telefone, e-mail. Ainda assim, esses dados eram usados somente em casos onde o contato se desse no âmbito profissional. Sobre seu passado, sabia-se que era natural da Noruega e fora, parece, casado. Sem filhos. Se havia algum parente, não dizia muita coisa sobre. Na verdade só argumentava que todos ficaram na Noruega. Era o máximo que permitia saberem. Alto, muito, era dono de um físico bem pouco ordinário. Peculiarmente atlético. Curioso, diziam as pessoas, é que ele nunca fora visto praticando exercícios físicos para justificar este último predicado. Apesar de não saberem exatamente sua idade, sua fisionomia parecia entregar algo perto dos quarenta e cinco aproximadamente.

Koddlak há muito percebera que destoava da maioria. Desde pequeno havia uma clara, às vezes gritante, diferença no seu desenvolvimento motor e cognitivo. Parecia estar anos a frente de seus colegas. Seus familiares e professores diziam que ali se encontrava um mini-gênio, um superdotado que precisava de um suporte educacional diferenciado do fornecido pelas instituições regulares. De fato era necessário, mas não foi o que aconteceu. Muito cedo também, Koddlak entendeu a origem de suas habilidades e percebeu que seria necessário trazê-las para a normalidade caso quisesse manter-se num certo anonimato. E foi exatamente isso o que fez. De repente passou a se comportar como as demais crianças, e sua comunidade acabou pensando que havia se enganado, que aquilo fora só um equívoco. You-Koddlak não passava de um garoto comum, como todos os outros.

Apesar de não ser um misantropo, o Doutor Koddlak não fazia nenhuma questão de desmentir esta aparência. Isto afastava as pessoas o suficiente para que sua privacidade fosse respeitada. E isto era importante, demais. Pois acontece que até mesmo os gênios estão à mercê de impulsos básicos que invariavelmente precisam ser atendidos. Caso contrario, com imprudente freqüência eles nos trairão. E isto era absolutamente inaceitável no caso de Koddlak. Seu cérebro reptiliano era exatamente igual ao dos “Ypsolones”. Justiça seja feita, o seu era muito mais voraz. Algumas de suas necessidades básicas não podiam ser adiadas por muito tempo. A “fome” era grande demais.

Amy soube disso, como tantas outras, da pior, ou no caso de Koddlak, da única maneira possível. Apesar de ser um sujeito de poucos amigos, You sabia ser extremamente sedutor. Não só pela erudição que transbordava, e pelo biótipo estereotipado de macho dominante. As mulheres comentavam que, uma vez na linha de ação de seu olhar, era muito difícil quebrar o “feitiço”.

Amy não o quebrou. Foi seduzida com uma propriedade assustadoramente competente. Assim era You-Koddlak.

Amy e Koddlak se conheceram em um dos bares que este freqüentava. Os bares eram escolhidos aleatoriamente. O encontro, para You, não foi por acaso. Não. Amy já havia sido escolhida há algum tempo. No entanto, todas as circunstâncias a levaram acreditar no contrário, ou pelo menos não desconfiar.

Durante horas os dois conversaram, beberam, dançaram, se divertiram como Amy provavelmente nunca havia feito com outro homem. Estava certa que aquela era uma daquelas situações perfeitas, surreais, onde encontramos, apenas quando não estamos procurando, nossa alma gêmea. You, obviamente, sabia disto tudo. E alimentou todas as expectativas, todas as crenças inebriantes de Amy.

Passaram-se mais três semanas de encontros e desencontros. You-Koddlak era paciente, precisava ser. Mas um certo instinto gritava, impaciente por ser atendido. A força de sua vontade era cada vez mais insuportável e Koddlak viu que não poderia mais adiar. Seria mais perigoso se continuasse adiando. Era preciso fazer logo, enquanto era possível ser feito da maneira “civilizada”.

Koddlak morava a cerca de 5 km da universidade, numa área de mata nativa. Uma reserva florestal. Tinha permissão para viver ali. Há alguns anos conseguiu essa autorização intermediada pela reitoria da universidade junto aos órgãos responsáveis pela preservação daquela região. Já havia levado Amy algumas vezes a sua casa. Ela era uma Vênus platinada. Belíssima. Explorava sua sensualidade com extremo bom gosto. De família tradicional e influente, Amy era, como se diz nos círculos machistas, um “sonho de consumo”.

Naquela noite, ela seria isso mesmo. Consumo.

Chegaram ao chalé por volta de duas horas da manhã de domingo. Amy estava relativamente embriagada. Ela notou que, estranhamente, Koddlak estava sóbrio, muito, apesar de ter bebido bem mais do que ela. Mesmo depois de já terem feito amor várias vezes, ela estava sempre na expectativa de sensações inéditas, pois You nunca fora repetitivo. Sua energia era fora do comum. Seu desejo chegava a “cheirar”. Amy não sentia, mas sabia que havia um aroma não captado pelos seus sentidos normais. E foi exatamente assim que aconteceu. Amy tivera outra relação inexplicável. Como se aquele sexo fosse uma arma capaz de destruir qualquer resistência, jogando no mais profundo limbo tudo aquilo que ela pensava saber sobre. Quando os dois já se recuperavam, deitados uma ao lado do outro, nus, Koddlak disse:

- Qual a tua opinião sobre mitos, lendas, folclore, essa coisa toda?

Amy não entendeu a relação, o porquê daquela pergunta inusitada. Pensou que You faria algum tipo de brincadeira. Tomaria uma atitude jocosa, ou algo parecido e usaria a deixa para se amarem novamente.

- Oras, o mesmo que todas as pessoas adultas, racionais. É só uma forma que alguns têm, ou tinham, de explicar o mundo. Os fenômenos naturais, essa coisa toda. Você como antropólogo sabe muito bem disso.

Embora o argumento de Amy fosse sério, sem nenhuma brincadeira, ela fez uma expressão de criança peralta enquanto respondia.

- E se eu lhe disser que alguns, aliás, os mais assustadores, não são lendas?

- O quê? Os mitos?- Eu diria que você está parecendo um garoto bobo querendo assustar a menina de quem gosta só para impressioná-la. Mas já vou adiantando, já estou super impressionada com você. Não precisa mais.

Com um sorriso aristocrático no rosto, Amy achou que tinha dado a palavra final e continuou:

- Quer saber? Estou morrendo de fome! O que há para comermos?

Quando ela ia se levantando para se dirigir à geladeira, Koddlak continuou:

- Eu também. Com muita fome, mais do que posso suportar. Por isso, escute bem o que vou lhe contar. É bom que você saiba o que vai acontecer, e por quê.

Naquele instante Amy notou que o ar estava pesado. Uma tensão angustiante tomara conta daquele quarto. A atmosfera tornou-se hostil, para seu desconforto.You estava sentado na cama, com o corpo arqueado, os braços cruzados e apoiados sobre as coxas. Sua cabeça pendia para baixo e era impossível ver seu rosto.

- Koddlak, o quê está havendo? Estou ficando assustada. É sério.

- Todas disseram coisas parecidas. Parece que há um discurso inconsciente para este tipo de situação, só esperando para pular boca afora.

- You...

- Chega! Agora escute. Você deve, pelo menos, saber. Dei este “presente” a todas. Durante todos esses anos. Mais anos do que é possível permitir. Mais tempo do que é humano aceitar.

- Eu vou...

Amy ainda tentou, sim tentou, mas Koddlak a interrompeu:

- Lykanthropos. Era assim que Heródoto se referia a nós. Plínio, Plauto, Ovídio. São vários os historiadores antigos que citavam-nos em suas obras. Obviamente, somos muito mais antigos que isto.

Amy começara a chorar. Nem mesmo havia percebido que estava. Não sabia bem porquê, mas sentia um terror inominável tomar-lhe. E Koddlak continuou:

- Na França nos chamam de Loup-Garou... Na Alemanha, Werwolfe... No meu país...

Um suspense esmagador cobria a atmosfera daquele ambiente. Amy queria correr, não importava se entendia ou não o que estava se passando. Medo! Ele nos avisa que devemos correr, ou lutar. Se quisermos sobreviver, é isto. O medo de Amy dizia à ela: Corra! Lutar não era a coisa certa a fazer, ela sabia. Era a coisa mais estúpida, na verdade. Todavia, correr não era possível. O medo que a aconselhava, a enregelava também. E seu corpo não obedecia. A única coisa que escutava era a sua freqüência cardíaca convulsivamente acelerada e a voz do seu interlocutor.

- Em meu país, Amy, nos chamam de You-Koddlak. Independente do lugar, entretanto, não passamos de histórias fantásticas, geralmente contadas para aquietar crianças, fazê-las obedecer aos pais, caso contrário apareceremos e...

Um som gutural saiu da direção de You. Amy não acreditava que um ser humano fosse capaz de emitir um barulho tão infernal. Acontece que Koddlak não era exatamente humano, e sim o mais próximo que Amy conheceria do inferno, em vida.

Aquele barulho, aquele som aterrador, teve um efeito ao mesmo tempo sufocante e libertador em Amy. Imediatamente ela se pôs a correr, alucinadamente. O quarto de You ficava no andar de cima do chalé. Amy desceu as escadas, que davam acesso à este, aos pulos. Passou pela sala de estar de maneira tresloucada avançando furiosamente em direção à porta. Ao abri-la, uma sombra gigante irrompeu em seu caminho, e sua fuga terminou em um baque violento contra o que parecia ser uma parede formada por membros longos e musculosos.

- A psiquiatria diz existir uma doença na qual a pessoa acredita realmente ser um animal. Age como um animal. Geralmente este animal é um lobo, daí o termo médico licantropia. De fato, há inúmeros casos relatados e documentados. Mas lhe garanto que não é o meu. Como você já está percebendo.

Ao se concentrar com mais clareza em Koddlak, Amy viu que não se tratava mais do homem que ela conhecera há algumas semanas. Sua voz estava completamente alterada. Lembrava vagamente algo humano. O timbre fornecido lembrava o som de algo duro sendo arranhado com violência. Seu corpo estava tomado por um pêlo espesso e negro, e ele ia aos poucos se apoiando sobre os quatro membros. Como um quadrúpede. No instante que dura entre o abrir e fechar de olhos de um piscar, Amy estava de frente com um enorme cão negro. Um lobo descomunal que lhe mostrava presas dilacerantes. Seu rosnado encheria de horror qualquer coisa que estivesse viva.

Amy estava pálida, incapaz de fugir. Mesmo que fosse, seria inútil. O resultado daquele instante era inexorável, ela sabia. Com a voz ainda mais perturbadora, o You-Koddlak, ou como Amy havia conhecido sua vida toda em histórias fantásticas, o Lobisomem, falou:

- O que vai acontecer você já sabe. Agora o “Por quê”. Nós precisamos nos alimentar, como qualquer criatura viva. Desde o mais simples microorganismo, até o organismo mais complexo. É uma das verdades absolutas da natureza. A única diferença é o alimento. Diferentes espécies consomem diferentes tipos de alimentos. Simples assim.

Um silêncio irregular continuou o discurso do monstro. Amy, incrédula, sentiu um alívio insólito naquele momento. Parecia que o mundo se congelara naquele breve instante (ela sabia que seria breve, muito breve) para acalmá-la. Amy, então, fechou os olhos. E não mais os abriu.

*****

As buscas continuaram por algum tempo, até a polícia orientar a família que não havia mais nada a fazer, a não ser esperar. Apesar de não ser comum, havia alguns casos de familiares que sumiam por anos a fio, sem dar uma noticia, e depois apareciam. Retornavam para a família como se nada houvesse acontecido. Em todos esses casos a família preferia manter sigilo sobre as motivações da pessoa. E a policia só podia se resignar com aquilo. Koddlak, em seu interrogatório, disse que a última vez quer vira Amy, os dois passaram uma noite agradável, e que ela estava feliz, muito feliz. Disse, inclusive, que ela passara a noite anterior ao seu sumiço em seu chalé, mas que não quisera dormir lá. Falou que ia para casa e que mais tarde telefonaria. Ele achava que o relacionamento dos dois estava caminhando para algo mais sério, contou à polícia. Como bom pragmático, aquilo soara perfeitamente objetivo para ele, considerou ao final do interrogatório.

Alguns anos depois, Koddlak encontrava-se em um dos bares que costumava freqüentar quando foi interpelado pelo irmão de Amy,Otávio:

- Doutor You-Koddlak, me desculpe, sei que há muito este assunto está encerrado para o senhor, mas...

Antes de terminar sua pergunta, o rapaz foi interrompido pela criatura num tom solene:

- Meu jovem Otávio, nunca poderei responder a sua questão. Ninguém nunca poderá. As respostas estão com Amy, apenas com ela. E, onde quer que ela esteja, nossos corações estarão batendo juntos, no mesmo ritmo. Como se nosso sangue fosse um só, misturado para sempre no amor, e na dor.

Esta foi a ultima vez que um dos familiares de Amy tentou falar dela com Koddlak. Eles consideraram ter entendido a idiossincrasia do renomado professor.

***

Na mesma noite, após o irmão de Amy ter ido embora, Koddlak inicia o diálogo:

- Uma mudança na direção do olhar costuma ser o suficiente para se ver com mais clareza!

- Perdão, o que disse?

- Antoine de Saint-Exupery... Na verdade foi ele quem disse, eu só me apropriei de sua sabedoria, pois me parece que é isto o que está acontecendo aqui.

- Então estou “olhando” para direção errada, hein Senhor..?

- Koddlak, You-Koddlak.

Sara fitou os olhos de Koddlak, profundamente, e profundamente selou seu destino.

14.9.09

ALEISTER CROWLEY E A CONTRACULTURA - VITOR CEI







SATANISMO

Texto republicado. Publicação original: 09/03/2007. Boa leitura!



A primeira declaração oficial na qual se reconhecia a existência do satanismo produziu-se na corte em 12 de Julho de 1680, em Paris, durante o reinado de Luís XIV, quando Madame Montespan, amante do rei, reconheceu que efectuava missas negras consagradas ao Diabo. Para não perder os favores do rei não hesitou em sacrificar crianças recém-nascidas na celebração das missas negras e consagrar o seu sangue a Satanás.

O próprio corpo nu da favorita do real servia de altar nos sacrifícios. Os povos e as tribos mais antigas do mundo, e muito especialmente os persas, acreditavam na existência de um Deus bom e de um mau. Com o passar do tempo, os Judeus foram sensivelmente influenciados por estas crenças entre os anos 331 a.C. e 538 a.C. Nessa época, a antiga Palestina, ou Judeia, fazia parte do enorme império persa, que era duo teísta, e a judaica, claramente monoteísta.

O resultado desta união foi a introdução da ideia da existência de outro deus maléfico, adversário do Deus benéfico.

Tudo o que se relaciona com o reino do mal deve ser observado do ponto de vista filosófico. Existem verdadeiros especialistas do tema do Diabo, como o investigador Jean Wier, que , na consequência da constatação de outros eruditos na matéria, considera que o reino do Diabo está organizado como se de um batalhão se trata-se.

Existe um chefe supremo de todos os Diabos chamado Lúcifer ou Satã, ente maléfico por excelência. Junto ao todo poderoso Satã encontra-se uma série de ajudantes e servos, que formam a sua corte e sub videm em:

Rei................................Lúcifer Príncipes.......................72 diabos maiores
Legiões.........................1111 diabólicas
Cada legião................... 6666 diabos menores

O Diabo tem uma filosofia autenticamente mercenária e os seus «favores especiais» são concedidos em troca do sacrifício de um ser vivo, que na maioria das ocasiões, é um animal. Dependendo das intenções desejadas, os animais sacrificados são brancos ou pretos; a sua cor está relacionada com o tributo que tenha de pagar; os brancos são para angariar, conseguir, obter coisas; os pretos são para abandonar, eliminar, exterminar

Uma vez obtido o sangue fresco e o cálice cheio do líquido vital, procede-se à sua consagração de oferenda ao Diabo com invocações como estas: Hoc est meum Belzebu, Lúcifer ou Satã, ao mesmo tempo que o conteúdo do cálice diabólico rega o corpo da neófita. Entretanto, os adeptos recitam salmos enquanto giram em volta do altar humano.




MANIFESTAÇÃO DO SATANISMO


O satanismo, como filosofia , surgiu da suposta rejeição da Natureza por Deus, por ser impura e imperfeita. Mais tarde, tudo o que a Igreja rejeita e condena é aproveitado pelo Diabo, que se serve disso e o explora, por Satã é o «principie deste mundo». É ele que nos faz ter uma vida terrestre sem preocupações, uma vida de bens imediatos, sem nunca pensar hipotética , e ainda por demonstrar, vida ulterior.

Pelo contrário, a Igreja Católica move-se num mundo cinzento e postula a ideia da dor, do sofrimento, da resignação e a esperança de que, através da morte , se aceda a uma vida espiritual melhor. Esta dicotomia criou o bem e o mal e a única arma que a Igreja tem para contrapor à força da vida alegre e diabólica é a ameaça divina de fechar a porta do reino do céu aos seguidores do satanismo. Muitas foram as pessoas que , não se sentindo completamente identificadas com o Deus bom, monoteísta, judeu-cristão, o rejeitaram e se inclinaram para adorar o seu rival: Satã.

Os seus seguidores prometeram-lhe amor eterno, servilismo humano e espiritual em troca de lhes facultar riquezas e poder sobre o resto dos seres humanos. Estas pessoas criaram métodos para entrar em contacto com ele e organizaram e sistematizavam determinados ritos de adoração ao Diabo. Constitui-se assim uma forma de magia negra conhecida vulgarmente por satanismo, que engloba, de facto, todos os libertinos e transgressores das proibições da Igreja.

A liturgia do satanismo deu origem à celebração das missas negras, as quais são, essencialmente, actos ritualísticos esotérico-religiosos de oferta da vida ao Diabo através dos sacrifícios. São orientados para a obtenção de poderes sobrenaturais para situar o homem à altura dos seres superiores, isto é, converterem-se em autênticos seres diabólicos pelo facto de o deu espírito estar possuído pelo Diabo.

O satanismo manifesta-se em todo o seu esplendor através da celebração das missas negras. De facto, este é um ritual praticado assiduamente desde o século VII, consistindo em copiar as missas cristãs, colonizar o rito cristão, mas com uma simbologia totalmente inversa.

A missa negra, no entanto, tem variantes na sua encenação e a sua oferenda de consagração é dirigida a uma divindade maléfica. Os seus actos consistem em repetir fundamentalmente os mesmos gestos simbólicos e fazê-los completamente ao contrário dos efectuados na missa cristã.

A consagração do vinho é substituída pelo sangue sobre o altar satânico constituído pelo corpo nu de uma mulher, de preferência virgem, a qual se vai iniciar no culto satânico. Esse sangue humano e o espírito da pessoa sacrificada são oferecidos e consagrados em corpo e alma ao Diabo.

O conjunto de ritos e invocações dirigidas ao rei das forças maléficas é presidido por um bode, que simboliza o Diabo, e a missa negra costuma ser oficiada por um padre renegado, ou um sumo sacerdote satanista, que vai convenientemente paramentado com uma batina negra revestida com emblemas demoníacos. Na actualidade, o mais poderoso sumo sacerdote satânico, mais conhecido por Papa negro é o Anton Szandor LaVey fundador da Igreja satânica, sedeada em São Francisco (Califórnia).



As missas negras e o satanismo
GUILLES RAYS, O DIABO EM FORMA DE GENTE


Um caso interessante é de um nobre bretão chamado Gilles de Rays (1404-1440), companheiro de Joana d´Arc. Quando a Donzela de Orleães, o grande modelo de Gilles , foi acusada de feitiçaria e queimada na fogueira, o mundo deixou de fazer sentido para ele.

Desapontado, recolheu-se nas suas propriedades e tornou-se um fervoroso devoto e um dos mais terríveis discípulos de Satanás.

As crónicas do seu processo dão conta de 140 crianças terem sido por ele e pelos seus servos sacrificadas em rituais satânicos realizados na cripta do seu castelo de Tiffauge.



OS DEMÔNIOS DE LOUDUN


No auge do combate e da perseguição movidos às bruxas e aos hereges, muitos dos aspectos da personalidade humana até então contidos e refreados manifestaram-se com alguma violência. Os conventos de religiosas deram exemplos de ser incubadoras perfeitas para esse tipo de fenómenos.
Urbain Grandier, um padre de mentalidade liberal e bastante notável, foi vitima deste tipo de situação quando entre 1634 e 1635 as freiras do convento de Loudun desenvolveram ataques de histeria e lascívia motivados pelo facto de desejarem o padre.
Grandier não tardou a ser acusado de satanismo, de ter enfeitiçado as freiras, e acabou por ser queimado vivo.



AS MISSAS NEGRAS DO ABADE GUIBOURG


A missa negra como perversão do rito católico, popularizou-se no século XVII. Tornou-se um espectáculo com grande número de entusiastas, nos tempos em que reinou Luís XIV. Uma das missas negras foi organizada pelo abade Guibourg para Athénais de Tonnay-Charente, marquesa de Montespan, futura amante do Rei-Sol, Luís XIV. Possuída pela obsessão de tornar-se rainha, a marquesa quis através de uma missa negra afastar todos os obstáculos que pudessem surgi-lhe à frente.

O seu corpo desnudado serviu de altar a Guibourg. O abade disse a missa de acordo com o rito católico, tendo consagrado a hóstia sobre os órgãos genitais da marquesa. A sua ajudante, a Cathérine Montvoisin, também conhecida por La Voisine, trouxe para a celebração uma criança de 2 anos, que fora comprada à sua mãe.

Foi então que Guibourg invocou demónios, cortou a garganta à criança que se encontrava sobre a barriga da marquesa de Montespan e recolheu o seu sangue num cálice misturado com vinho e ambos beberam e por fim tiveram relações sexuais.
No fim da celebração o padre entregou à marquesa um saco com os restos da hóstia, das vísceras e do sangue da criança.

No ano seguinte à missa negra realizada a marquesa tornou-se amante do rei, chegando a dar à luz sete filhos deste.





Fonte: (conteúdo retirado na íntegra)


NOTA DO BLOG
:
A Câmara dos Tormentos não possui ligações com nenhuma corrente filosófica ou doutrina religiosa. Todos os textos de não ficção publicados aqui são fruto estritamente de interesses científicos.

8.9.09

O OCASO DE HAES-NORYAN - HENRY EVARISTO


O OCASO DE HAES-NORYAN
(Um conto delirantista)

Henry Evaristo


Haes-Noryan apreciava paisagens abertas. Por isso, no dia do fim de sua vida, subiu ao cume da mais alta montanha de seu reino e lá sentou-se em meio à neve e aos raios multicoloridos de seu último por do sol. Vestia sua melhor roupa e ornamentara sua pele com pinturas e artefactos da cultura de seu povo.

Ficou apenas parado durante muito tempo. Tantos sentimentos suprimiam-lhe as palavras e então ele calou impotente diante de toda a força daquelas imensidões. Sentia o vento invadindo seu corpo, como adagas agudas que penetravam invasoras por seus poros, levando a frieza para todos os recônditos mais ínfimos. E aquele vento, que vinha de plagas tão distantes, o tornava uno com toda a natureza.

Ergueu sua cabeça pesada para sentir no rosto os movimentos do mundo e as luzes do horizonte o atingiram em cheio iluminando-lhe os olhos castanhos, deixando-os à mostra para quaisquer dos seres do ar que por ventura vagassem por ali. E assim ficou, por séculos e séculos de um tempo que só para ele existia. E por ele passaram tantas eras quanto as que eram conhecidas pelos deuses.

Do peito de Haes-Noryan brotaram então violentos espasmos de um desespero incontrolavel pois, no meio de todos os tormentos que diante de seus olhos desfilavam, em cada uma das eras tantas que reconhecia, lá ele se via. E via os seus, aqueles que lhe eram tão caros. Via os rumos perdidos que tomou na vida, as chances perdidas e as bondades desperdiçadas. Com as mãos crispadas ele atingia o solo com tamanha força que seus ossos enregelados estalavam.

“Ah, minha paz! Para onde foste tão cedo?” Gritou ele.

Mas o vento parecia responder com um sibilar profundo que soprava dos ventres das montanhas:

“Eis tua sina! Agrada-te dela!’.

Como fantasmas horrendos que enxameavam no firmamento, ele avistou os vultos impuros que o aguardavam. E pôde ver suas carrancas medonhas cujas línguas venenosas ressonavam cantos profanos para muito além da abóbada celeste.

“Oh, cânticos infernais! Isso, Isso! Entoai o meu destino!”

E Haes-Noryan já não era mais o mesmo. Estava velho; todo o tempo de sua vida se esvaíra. Todo o seu mundo ruíra, e apenas criaturas ígneas pareciam saltitar por sobre os escombros daquilo que fora tão bom, formoso e límpido.

“Minha inocência! Onde te perdeste nessa vida?”

Mas como a neve ao seu redor era cada vez mais carmesim, e já se findara o tempo das elucubraçoes, ele se ergueu. Foi cambaleando até a borda do precipício. Suas roupas largas, dos tempos em que fora rei, pareciam rodopiar em torno do seu corpo depreciado.

Lá, no limite do mundo, parou. Sentindo a dor lhe consumindo além de qualquer possibilidade de rendenção. E seus olhos, que antes refletiam o por do sol, se tornaram negros como os dos melros.

Haes-Noryan elevou seus braços aos céus, e emitiu seu derradeiro grito; seu lamento profundo que foi ecoar por todas as terras desconhecidas desta e de outras esferas.

“Ah, quantos mundos criei!” Gritou para a neve e para o vento. “A quantos dei formas tão minhas!” “Ah, tanto amor vertido por estes universos!”

Mas o vento e a neve não respondiam; eram o seu castigo, e lhe fustigavam violentamente. À beira do abismo ele olhou para os lugares da terra. E viu as crianças brincando nas vilas e nas cidades; viu as carruagens e os automóveis; os bares e prostíbulos, o sexo e o amor. Ele viu as vidas, as mortes, as desgraças e os milagres.

“Eis! Por entre estas montanhas titânicas posso ver os que brincam e os que choram! Ah, meu coração, quanta dor tu ainda comportas para assistires esta humanidade que evolui sem ao menos imaginar-te aqui, agora, neste rincão assombrado por estes ventos sem fim que te querem arrastar a alma inteira para lugares malsãos!"

Haes-Noryan, seu rosto estava crispado, sua pele ressecara, e sua velhice chegara antes da hora. Com o cenho grave, viu toda a felicidade que perdera um dia; todas aquelas que lhe tiraram os homens e as mulheres; e as que ele mesmo pôs por terra. Ai, que eram como um reflexo que se espraiava pelas superfícies monstruosas das montanhas como uma projeção infernal das cenas torpes de sua vida. E não cessavam, jamais cessavam. Ao contrário, aqueles sons e imagens no firmamento se tornavam cada vez maiores, cada vez piores.

Oh, meus amores! Minhas mães, minhas mulheres! Perdoai-me! E perdoai-me os que foram meus amados e meus odiados!

Neste momento Haes-Noryan viu se formar por entre as nuvens, exército de sombras negras. As mais pavorosas abominações que qualquer olho suportaria ver. Todas avançavam para ele, com seus dentes e suas garras. A luz obscurecera e já não havia mais resquício do ocaso multicor de outrora, quando elas vieram despejando-se do céu como miríades de diabretes fumegantes; invadindo tudo, chorando sem parar. Tão dilacerantes eram seus lamentos que Haes-Noryan desesperou-se com elas. E arrancava seus cabelos e suas roupas mordendo seus braços à rasgar-lhes as carnes com os próprios dentes!

Assim ele foi erguido, elevado aos céus revoltos onde jaziam seus horrores. Sob seus pés iam se formando nuvens vermelhas com o sangue que lhe escorria dos ferimentos. E nas bordas daquelas nuvens, milhares de coisas aladas, com asas monstruosas e negras, se reuniam a sorver o líquido pegajoso. Danadas elas eram, e ferozes, e vorazes. Enlouquecidas pela especiaria rubra, atacavam-se mutuamente, rolando umas por sobre as outras como hordas de ratazanas; suas bocarras empapadas emitindo esgares pavorosos pelo firmamento.

Subindo até alturas imensuráveis Haes-Noyan foi arrastado. E onde as feras o tocavam, arrancavam suas carnes; forçavam suas patas para dentro de seu corpo, até alcançarem seus ossos, agarravam ali, e era por onde o mantinham suspenso nos ares.

Nenhum homem viu o destino de Haes-Noryan. No céu e na terra uivos desconhecidos ecoaram pelo mundo por várias décadas. E os jardins jamais foram os mesmos em lugar algum. Pois Haes-Noryan foi então toda a tristeza no rosto de uma amante; toda a dor no seio de uma mãe; toda a aflição no coração de um filho. Haes-Noryan foi toda a angústia na alma dos velhos e dos inválidos. Toda a fome dos desvalidos e a vilania dos insanos.

Tudo isso ele carregava no semblante quando desapareceu deste mundo subindo eternamente a um cosmo negro. E mesmo quando passou por entre as nuvens malsãs, e a tormenta lhe arrancou as peles do rosto, seu aspecto era grave, soturno, raivoso e triste.

A ÁRVORE DA ENCRUZILHADA - LUCI LOPES



Luci Lopes


Se você percebesse que aos dezesseis anos iria ser morta por algo sobrenatural, acreditaria? E se acreditasse, contaria para alguém ou pediria ajuda? Mas quem, em nome de Deus, acreditaria em você?

Tédio. Essa era a emoção dominante que Maria sentia enquanto fazia a maldita prova de inglês. Não é que não tivesse estudado, ou que a prova estivesse difícil, apenas ela não tinha interesse em fazer. Um após o outro, seus colegas entregaram a prova com pressa de ir embora, até que finalmente só restou ela e o professor na sala. O homem se remexia impaciente olhando-a de um jeito que deixava claro que cogitava tomar a prova e mandá-la embora. Maria não se importava. Sentia-se até perversamente satisfeita em irritar o professor. Demorou o quanto pôde até que, no limite do próprio tédio, entregou a prova.

Quando saiu da sala percebeu que devia ser a última aluna na escola. O relógio da igreja, ao longe, batia com um som melancólico de sino antigo indicando que eram dez horas da noite. Era um curso noturno, desses que os adolescentes fazem na ilusão de que fará diferença em seu inexistente currículo. Maria começou a descer lentamente uma rua completamente deserta enquanto se encolhia de frio. Lá em cima nuvens pesadas pareciam esperar apenas que ela estivesse longe de qualquer abrigo para derramar a chuva sobre a cidade. Ela ergueu o olhar para a rua e seus passos hesitaram um pouco. Havia algo de sinistro naquele silêncio, naquela rua deserta, como se ela estivesse andando por uma cidade fantasma. Seu coração se contraiu de medo por um segundo e então relaxou. Maria não era supersticiosa.

Já próximo à rua em que morava a chuva finalmente caiu, suavemente, em pingos esparsos. Ela apressou o passo e protegeu-se por um instante sob uma algaroba na esquina de sua rua, seguindo então para casa com passos apressados. Alguns instantes depois teve a impressão de ouvir passos atrás de si. Virou-se mecanicamente para trás, mas não viu ninguém. Seguiu em frente; o barulho dos passos continuou. Ela parou novamente e os passos pararam com ela. Decidiu aliviada que se tratava do eco de seus próprios pés e continuou. Um instante depois, por pura teimosia, ao ouvir o mesmo barulho de passos ela parou. Dessa vez os passos continuaram. Maria virou-se rigidamente e seus olhos vasculharam a rua em busca dos pés que faziam esse barulho, mas não havia nada. Estava absolutamente sozinha na rua.

Começou a andar cada vez mais rápido tentando não correr, mas sem conseguir evitar olhar para trás. E foi então que viu; ou melhor, não viu. Porque não havia nada lá. Mas alguma coisa estava atravessando a rua e chegando à calçada. Ela percebia-lhe a silhueta invisível e embora dissesse a si mesmo que isso não era possível, o pânico a dominou e a fez correr para casa. A coisa continuava avançando e agora estava a apenas três casas da sua. Suas mãos tremiam tanto que ela não conseguia abrir a fechadura simples do portão. Aquilo estava a duas casas agora. Maria se desesperou; tentou pular o portão e ele abriu de repente com tal ímpeto que ela quase caiu. Não se preocupou em fechá-lo; correu para a porta e então teve que brigar com a fechadura. Era uma dessas portas antigas que tinha uma pequena portinhola na altura do rosto. A coisa havia chegado à sua calçada. Maria empurrou a portinhola, aliviada por encontrá-la aberta, e abriu a porta por dentro. Entrou depressa e teve que fazer um esforço inumano para não batê-la com toda força. Sua família estava na sala distraída com a televisão e mal a olhou quando entrou; a expressão assustada, as mãos tremendo.

Jogou os cadernos sobre o sofá e virou-se lentamente para fechar a portinhola. E então se sentiu sozinha no mundo, cercada pelo mais absoluto horror, porque aquilo que ela não podia ver estava lá, na portinhola, olhando para ela. Um barulho ensurdecedor ecoou quando a pequena porta foi fechada violentamente, fazendo sua família pular de susto e Maria percebeu que, tomada pelo pânico, havia batido a portinhola por impulso. As reclamações de sua mãe a seguiram até a cozinha, mas ela as ignorou. Sentou à mesa e permaneceu muito branca e imóvel enquanto sua mente vagava por histórias terríveis que ouvira quando criança. Demônios, almas penadas, encruzilhadas...

Recordou subitamente da voz da avó alertando-a que nunca, jamais, se abrigasse sob uma árvore que estivesse numa encruzilhada. Tais árvores eram abrigos para almas penadas e demônios e aquele que ousasse, sobretudo à noite, se abrigar sob uma delas poderia sofrer um fim terrível. Maria deixou escapar um riso baixo e histérico enquanto sua mente visualizava a árvore onde, por poucos instantes, estivera abrigada. Percebeu surpresa que sua rua era o braço direito de uma encruzilhada. A árvore ficava exatamente na esquina entre a rua onde morava e a outra, que descia a noventa graus da sua. E do outro lado dessa rua central, à esquerda, o outro braço da cruz seguia fazendo esquina com um cemitério. Durante a vida toda ela passara ao largo daquela algaroba, sem jamais parar sob ela. Até aquela noite...

Olhou ansiosa para a família desejando contar sobre a experiência assustadora que acreditava estar vivendo, mas não teve coragem. O que iria dizer? Que vira algo que não podia ser visto? Que aquilo a seguira até em casa? Loucura, ninguém acreditaria nela. Nem ela conseguia acreditar em si mesma.

Não conseguiu dormir. Ficou escutando os roncos da mãe e os movimentos das irmãs com uma sensação de terror que lhe gelava os ossos. Ao longe ouviu o sino da igreja indicar que era meia-noite. Quando a última badalada tocou, ela não se surpreendeu quando sentiu seu colchão afundar como se outro corpo exercesse pressão sobre ele. Quis chamar pela mãe, mas estava paralisada. Alguma coisa começou a pressionar sua garganta como se mãos se fechassem sobre ela. Maria sentiu sua cabeça afundar mais no travesseiro. Lembrou então de um livro de terror que havia lido uma vez, 666 – O Limiar do Inferno, onde o demônio conseguia destruir três vidas porque, embora cada um dos personagens percebesse que havia algo errado acontecendo, nenhum deles tinha coragem de contar para o outro com receio de serem expostos ao ridículo. Ela havia rido desses personagens, mas agora percebia que fizera a mesma coisa. Tentou emitir qualquer som que pudesse chamar a atenção de suas irmãs, nas camas ao lado da sua, mas a pressão agora era tão forte que ela não conseguia respirar. No fim, o que restou não foi o medo e sim o desejo instintivo e desesperado de respirar, até que seu corpo desistiu e afundou na escuridão.

Na manhã seguinte quando encontraram seu corpo rígido e frio e chamaram o único legista da cidade, o homem, ainda morto de sono e mal-humorado, declarou após um exame superficial que ela havia morrido de parada respiratória, seguida de parada cardíaca por hipoxemia. E abandonando o corpo no necrotério foi tomar um café resmungando consigo mesmo que os jovens não eram mais resistentes como antes.

3.9.09

A MALDITA CHOUPANA DOS DELÍRIOS - Rogério Silvério de Faria


A MALDITA CHOUPANA DOS DELÍRIOS

Rogério Silvério de Faria




(Um conto de Terror Delirantista e Fantasia)


Foi escrevendo amarguradamente seu livro que nunca seria publicado, lá naquela choupana afastada, perto do Pântano da Coruja Corcunda, que Terêncio verificou com assombro que as ígneas forças criativas de seus delírios eram melhores que as forças imanentes do destino, destino que os Deuses Sombrios forjaram e lhe infligiram ainda no útero aquoso de sua mãe, hoje falecida como uma rosa pisoteada pelos cascos de fogo do cavalo da morte.

Filho de uma família de proletários desiludidos refugiara-se como poeta que era nos sonhos e devaneios cheios de aventuras insólitas, ao completar seu quadragésimo primeiro ano, após anos de fracassos e tribulações no insosso palco da vida cotidiana

Terêncio era sincero, sensível e incompreendido, e quando mostrava a alguém da vida prosaica seus escritos fabulosos, esse alguém o chamava de louco, néscio ou lunático.

Tentara ser feliz no amor. Amou por doze meses a bela e virginal Dandara, mas esta, catequizada pelos maledicentes e detratores de Terêncio, sucumbira nas areias movediças do ciúme, e desde então o solitário viu a alma e o amor de Dandara evaporar como o perfume dourado dos cabelos de Afrodite, deusa-mãe dos amantes e dos poetas malogrados.

Terêncio era um sujeito desajeitado para as coisas prática da vida. Seus mundos eram aqueles dos devaneios criados após leituras e mais leituras de livros antigos e estranhos, nos espaços interestelares das linhas e entrelinhas.

Certa tarde triste de outono, ao crepúsculo, sob fina garoa, Terêncio largou tudo, sua vida e seu destino, refugiando-se como valente eremita no Pântano da Coruja Corcunda, e lá tentaria pintar com palavras o desassossego de não poder sonhar acordado sem culpa, bem como a vitória que era ingressar e viver e contar a todos a beleza do mundo maravilhoso do delírio, as aventuras dos devaneios mais loucos e febris. Escreveria um livro, portanto. Um livro maravilhoso onde todos os sonhadores do mundo pudessem beber o licor sagrado das palavras esfuziantes e alucinógenas, tecidas no manto crucial do delírio poético.

Passou a comer apenas mel e gafanhotos, bebendo a água tépida de um córrego que descia rumorejante e límpido do morro até o pântano onde estava a choupana.

A angústia de um homem terrivelmente solitário e triste diante do absurdo da condição humana, é cruz que se carrega com denodo, mormente os poetas que não enterraram seus sonhos no cemitério dos dias sempre iguais.

E Terêncio escreveu febrilmente sobre os delírios que tinha, desde tenra infância, quando era uma criatura feliz e sem medos. E chorou por duas noites porque vira que o seu mundo não era aquela podridão asquerosa que tentaram lhe impingir quando se tornara adulto na vida física, numa cidade cinzenta onde apenas se conjugava os verbos comprar e vender.

Houve uma noite na solidão aterradora daquela choupana em que Terêncio escreveu tanto em seu caderno, mas tanto, tanto... Que ele viu que sua obra era um romance autobiográfico, e ele, Terêncio, foi transportado como um anjo sobre nuvens douradas num céu plácido de estrelas de luzes iridescentes que o acalmavam tanto quanto o olhar hipnoticamente amoroso de sua já morta mãe, quando ela o embalava no colo, nas noites escuras da infância onde a fome roia toda a família de poucos recursos, naquele bairro cinzento nos arrabaldes da cidade sem esperança.

Foi transportado em vida, isto é, foi levado da vigília para o delírio. Uma assunção terpsicórea e alucinante, uma subida ao mundo delirante sem fronteiras.

No último delírio em que se perdeu Terêncio atravessou o estranho mundo de Swyrnea. Swyrnea havia sido criado por um outro poeta delirante e febril, habitante de longínquas e acres terras de Pindorama.

Foi muito além de Swyrnea que Terêncio conheceu Shyrla Máris, em Kthunbulkthur, reino vizinho da Swyrnea.

Filha do mago Sorianus de Klapanthyzyr, Shyrla Máris fora raptada por Kolga Salba, o mago viajante interdimensional, e somente Terêncio, o ungido, o valoroso campeão escolhido, poderia salvá-la das garras do mago negro, versado na Ciência da Serpente do Descenso, nascida do pus das sete chagas da cauda do Demônio.

Bebendo na cabaça sagrada a seiva violácea das árvores mortas de Krizumne, plantadas no Bosque dos Sátiros Mancos, e com ajuda da Magia Luminosa de Soranius, Terêncio despertou seu verdadeiro ser delirante, e então assumiu seu nome verdadeiro, Asariel Wareh Kareh, guerreiro e mago neófito das Hostes da Luz. Asariel Wareh Kareh, portador da magnífica espada flamejante!

Com a ajuda de Soranius e seu discípulo favorito, o inquieto Hevahrystus (ambos os poetas que sonhavam acordados no mundo da vigília, mas que eram magos e guerreiros no mundo do delírio, e, portanto profetas da Magia Luminosa), todos partiram na grande aventura em busca da princesa raptada, Shyrla Máris, a virgem de olhos cor de âmbar e seios tentadores, princesa cujo encanto faz sonhar até mesmo os demônios mais ferozes do Inferno. Shyrla Máris, aquela cujos olhos lembravam os doces olhos de Dandara.

No caminho encontraram o andarilho Lion Nardus, delirante também do mundo dos acordados, sempre empunhando um machado de guerra cuja lâmina não brilhava mais que seus olhos negros. Também encontraram a valente amazona Déia Thuam, hábil no arco e flecha, e a feiticeira do Bem Magna Victória. E então seguiram todos até a fortaleza de Kolga Salba, no topo enevoado da Montanha da Serpente do Descenso.

Montados em seus voadores Yrazakzais, animais meio libélulas meio cavalos, com rostos de leões mansos, eles chegaram até a fortaleza do misterioso e temido mago negro Kolga Salba.

Asariel Wareh Kareh e seus amigos guerreiros lutaram contra os homens-morcegos Drynomaths, fiéis servos de Kolga Salba.

A batalha foi cruel e decisiva. Asariel quase chorou quando viu morrer Lion Nardus e Hevahrystus sob as garras e caninos dos terríveis e fétidos Drynomaths. Lion Nardus e Hevahrystus talvez tivessem perecido porque foram abruptamente interrompidos em seus devaneios, em suas casas, no mundo da vigília... mas também podem ter morrido subitamente na vida física, o que de fato era desastrosamente a mesma coisa. Lion Nardus e Hevahrystus morreram na batalha, não sem antes matar vários homens-morcego. Fim igualmente triste tivera Déia Thuam, que também não morreu sem antes fincar flechas no coração apodrecido de dúzias de Drynomaths. Magna Victória, todavia, mesmo ferida, viveu para entoar preces aos Deuses Luminosos até o fim de seus dias nas Terras Delirantes.

No final, houve a batalha mística entre a Luz e a Sombra, Sorianus versus Kolga Salba, e este último, ferido de morte pela Magia Luminosa emanada do cetro místico de Sorianus, enveredou por um dos portais interdimensionais, e hoje o feiticeiro se refugia no Mundo dos Pesadelos, jurando voltar para vingar-se de todos.

Por vinte anos Terêncio ou Asariel Wareh Kareh viveu ao lado da princesa dos olhos cor de âmbar, filha de Sorianus, o sábio de hirsuta barba. E houve muitas festas nos reinos delirantes. E o vinho azul do reino de Kthunbulkthur foi servido a todos. E toda manhã, quando Terêncio acordava de seu delírio, anotava e escrevia febrilmente sobre tudo o que ocorrera durante os devaneios.

Eram trechos e mais trechos narrando suas aventuras nos devaneios, como Asariel nas dimensões alucinógenas de seu ego mais sombrio e delirante.

* * *

Dez malditos anos se passaram antes que, num dia de forte chuva, um aventureiro, certo poeta perdido e solitário de nome Stephen Passioncraft, encontrou a choupana abandonada perto do pântano; em seu interior havia várias ossadas humanas além do próprio esqueleto de Terêncio (vestido com andrajos puídos de tonalidade ambarina), este sentado espartanamente com uma caneta na mão diante de um caderno amarelecido sobre uma escrivaninha coberta de pó e teias de aranhas.

Stephen Passioncraft arregalou os olhos de terror, pois reconhecera pelas vestes (um dólmã verde) num dos esqueletos o seu amigo nefelibata Júlio Leófitas, do qual supunha que havia morrido nas selvas escuras de Madagásgar.

Stephen derrubou da cadeira o esqueleto de Terêncio e sentou-se a ler o manuscrito, e entusiasmado, empunhou a caneta e continuou as aventuras delirantes nos mundos onde hoje reina soberano o príncipe regente Asariel Wareh Kareh, ao lado da filha de Sorianus , a princesa Shryla Máris dos olhos cor de âmbar.

E Stephen, depois de compreender que o delírio é uma benção mas também uma maldição, escreveu até cair morto de fome e cansaço, como ocorrera com Terêncio e os mil e um poetas delirantes que, cansados do tédio de uma vida insípida, refugiaram-se na choupana, e portanto nas Terras Delirantes, onde ainda vivem como guerreiros ou magos ou bardos errantes.

A maldita choupana dos delírios continua lá e continuará para todo o sempre, pois é sabido que continuamente haverá uma legião de poetas enlouquecidos de dor e solidão em busca de aventuras no mundo barbaramente perfeito que só o delírio pode criar, poetas enlouquecidos e solitários como este que acabou de escrever este estranho e insólito conto-delírio.

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A Rainha dos Pantanos - Henry Evaristo

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O CELEIRO, de Henry Evaristo

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