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28.5.09

CHARLES DICKENS, O GATO PRETO

A escritora paranaense, e musa das sombras, Celly Borges, volta à Câmara com mais um conto fantástico. Boa leitura!


CHARLES DICKENS, O GATO PRETO

Celly Borges


Katherine resolver deitar um pouco, afinal, estava exausta de limpar a casa a manhã toda. Chamou seu gato preto, Charles Dickens, para descansar com ela.

Dormiram parte da tarde. Quando Katherine despertou, ao seu lado Charles Dickens tomava banho, olhou para a dona com certa tristeza.

– Está com fome, não é, Charlie? – Ela afagou as orelhas do bicho. – Vou conseguir comida para você.

Katherine levantou cambaleando de preguiça – detestava dormir pela tarde, sempre acordava pior do que quando fora dormir. Saiu do apartamento e seguiu para a rua a procura de uma vítima.

Ela não tinha nenhuma preferência, mas o almoço não era para ela, e Charles Dickens sim, era exigente.

Andou até a livraria, a alguns quarteirões do seu prédio. Em frente à vitrine, parado, estava um rapaz, muito bonito por sinal.

Ela parou ao lado dele e se mostrou interessada em um livro em exposição.

– Queria muito ler este – e apontou para o volume. – Mas é caro demais!

– Um absurdo, realmente! – Ele falou bastante entusiasmado. Pronto. Ele tinha caído.

Ela abriu um lindo sorriso que ele retribuiu.

– Sou Katherine Brooks – lhe estendeu a mão.

– Sou Taylor Adams – e retribuiu o cumprimento com um sorriso.

– Estou procurando alguém forte que possa ajudar a levar minha pobre e velha mãe ao hospital.

– Bem, se você quiser, posso ajudá-la.

– Só se não for incomodá-lo.

– Claro que não!

– Vamos então, por aqui.

Os dois seguiram ao apartamento conversando sobre livros. Mas Taylor pensava na beleza da nova amiga. E talvez depois de levar a mãe dela ao hospital, ele poderia convidá-la para sair.

– Chegamos. Entre, vou buscar minha mãe – ela usou um tom de voz bastante suave.

Taylor foi até a sala, começou a olhar as fotos dispostas nas paredes. Bizarro, pensou. Eram imagens do chão, cama, e vários outros lugares sem pessoa alguma.

“Cada um com sua mania”, pensou talvez mesmo em voz alta.

Como Katherine estava demorando, ele resolveu conhecer o lugar. Olhou em volta. “Que sala mais bagunçada e suja”. Sentiu uma ponta de arrependimento de ter entrado ali. Mas antes que pudesse pensar em sair, já era muito tarde. Alguma coisa o atingiu em cheio na cabeça e tudo escureceu.

– Charlie, sua comida chegou, agora é só corta-la – ela sorriu e seus olhos transmitiam insanidade.

Com horrorosa precisão ela cortou a carne, separou uma parte para o gato e outra para guardar em potes no freezer.

– Charlie, coma meu pequeno bebê – ela acariciou as orelhas dele. – Enquanto isso vou me livrar dos ossos.

Ela deixou um pires com a carne para Charles Dickens e levou os restos para a lixeira em frente ao prédio.

Por vários dias Charles Dickens teria sua ração.

Algum tempo depois Katherine acordou com fortes batidas na porta.

– Já vou. Já vou – gritou calçando a encardida pantufa, com paciência absurda vestiu o roupão e seguiu para a porta.

– Pois não? – perguntou com voz suave.

– Senhora, somos da polícia...

– Oh, aconteceu alguma coisa?

– Ainda não sabemos. Mas alguns vizinhos seus disseram sentir um cheiro muito forte vindo do seu apartamento. E pelo jeito eles têm razão.

Katherine continuava olhando como se nada estivesse acontecendo.

– Teremos de inspecionar seu apartamento.

– Claro, sem problemas – ela deu passagem a eles.

Os policiais entraram e o cheiro realmente estava insuportável. Eles tentaram se proteger colocando as mãos no nariz. Um policial foi direto à cozinha, abriu o freezer e ficou horrorizado com o que viu.

O outro policial, no quarto, não conseguiu agüentar e vomitou ao lado da pilha de carne humana apodrecida sobre um pires.

Enquanto isso, Katherine se sentou no sofá e acariciou Charles Dickens, enrolado do seu lado direito.

O policial que estava próximo ao freezer pegou o celular e discou um número, olhando de quando em quando para Katherine.

–... Imediatamente! – Foi a única palavra que ela conseguiu ouvir.

Alguns minutos mais tarde uma ambulância estacionou em frente ao prédio. Os enfermeiros entraram e levaram Katherine para o hospício, sem que ela contestasse.

– Katherine – começou o psiquiatra –, entenda, você tem uma terrível alergia a pelos de animais, você não pode e nem nunca teve um gato.

Ela foi mandada de volta ao quarto.

Katherine estava deitada na cama acariciando Charles Dickens, o gato preto.

– Você está com fome, não é meu bebê?

Em seguida um enfermeiro entrou. Mas não saiu.

23.5.09

O CORPORIFICADOR DE ALMAS

Apresentamos o extraordinário e assustador conto do escritor Afonso Luiz Pereira, sem dúvida um dos grandes nomes da nova literatura fantástica brasileira. Boa leitura!


O corporificador de Almas
Por Afonso Luiz Pereira

Sou agora um homem extremamente velho e a história que vou contar já se vai há muito no enrodilhar fechado do tempo. Nesta jornada, de 96 primaveras, em que chego acometido por lacunas intermitentes que me embaralham as lembranças recentes, me prendo, involuntariamente, às reminiscências mais antigas com vividez e vigor incomuns! Dizem que são coisas próprias da idade. Talvez! Mas foi no passado, na flor de minha mocidade, que tive de tomar uma importante “decisão” da qual até hoje não me arrependo, porém me envergonho de sobremaneira quando, às vezes, me pego a pensar nela e muito mais vergonha sinto em ter que deixá-la, a tal “decisão” que me refiro, registrada aqui neste escrito que me forço a produzir, assim, como uma forma catártica de aliviar os últimos dias que ainda me restam de vida.

Sem mais preâmbulos... ei-la, então!

O lorde inglês Edward T. Grenfell, meu primeiro e único senhor, foi um “corporificador de almas”, assim aprazia-lhe o título quando lhe convinha apresentar-se às raras pessoas que procuravam em suas “habilidades” o alívio, a paz, o remorso, uma dívida a ser paga ou qualquer outra demanda espiritual circunscrita de fórum íntimo e peculiar: faço alusões notadamente às pendências, abruptamente interrompidas, dos laços afetivos entre os vivos e os mortos.

Meu lorde não era bonito, no entanto, possuía linhas fisionômicas firmes que o destacavam da multidão. Tinha compleição austera, da qual eu jamais pude presenciar o menor sinal de medo, a não ser sob os efeitos sinistros daquela fatídica noite, objeto desta narrativa. Antes da fuga do compromisso conjugal da senhora Elisabeth, sua adorada esposa, meu senhor reunia à graça natural a esmerada elegância com que se vestia. Preocupava-se com a aparência de modo quase obsessivo para não ser ofuscado pela beleza da mulher com quem dividia as atenções da corte. Mas após o abandono da condessa, depois de um casamento de quase 15 anos, deixando-o em mãos apenas um mísero e deplorável bilhete de despedida, o homem tornou-se arredio as convenções sociais. Tornou-se incoerente, caprichoso, desleixado em seus trajes e, particularmente no que me dizia respeito, não perdoou o fato de ter me ausentado em viagem, na época da tragédia. Não disse isso claramente, porém seu comportamento doravante obtuso em relação à minha pessoa não deixou-me outra alternativa ao que pensar: creio que ele tinha em alta conta a influência de meus conselhos para tê-la dissuadido de cometer tal loucura.

E naquela noite, apesar de ser uma noite compacta e espessa, em que a lua cheia lançava sua imponente presença sob uma luz diáfana, estávamos acomodados na balouçante carruagem da família Grenfell , a caminho de uma região desértica, de formação arbórea densa, próximo a pequena vila de Gorleston, no condado de NortFork. A cansativa viagem se constituía, uma vez mais, em nova missão de corporificar a alma de uma mulher recém falecida que estava a atormentar as noites insones do marido. Na verdade, do pobre coitado pouco sabíamos, a não ser que aquele horrendo e misterioso homenzarrão, sentado à nossa frente, era um dos mais antigos e estimados serviçais de Sir Ernest George Knapton, amigo de infância de Lorde Edward. Não fosse esta forte relação de amizade, duvido muito que meu senhor, diante de seus problemas pessoais, se abalasse a vir até ali naquela cidadezinha costeira sem graça.

Otis Hensley, o viúvo, nos levou até um local ermo, afastado da vila, aonde havia enterrado a esposa. Uma fina neblina parecia se desprender do solo, que realçada pelo brilho da lua, imprimia ao ambiente uma atmosfera sinistra, soturna, que nos incutia medo. A cruz de madeira fixada na pequena elevação do barro preto, fofo, remexido há pouco tempo, fora fincada de qualquer jeito. Lorde Edward frente aos preparativos da corporificação saiu daquela letargia que o mortificara nas últimas semanas. A fisionomia, de súbito, ganhou novo alento. Pediu que eu e Otis desenterrássemos o caixão, mas não devíamos abri-lo. E assim o fizemos. O barulho da noite aziaga ficou entregue, por um breve momento, as pás em cavoucar a terra e aos pios das corujas que nos cercavam. Percebi que o homenzarrão estava aflito e com muito medo. Eu não! Já me acostumara a ver a forte magia negra, a invocação de demônios dos quais lorde Edward pedia ajuda! Desconhecia outro bruxo que o igualasse em relação à corporificação de almas.

O esquife mortuário de pinus, rudimentar na sua feitura, sem qualquer entalhe decorativo, não passava de uma enorme caixa retangular de tábuas dispostas construída grosseiramente pelo viúvo insone. Antes que lorde Edward me pedisse, já sabedor dos detalhes da invocação fúnebre, comecei a desenhar o pentagrama na terra em torno do caixão fazendo-o ficar bem no centro do símbolo antigo enquanto o bruxo vestia os paramentos apropriados para a cerimônia. Sob o olhar nervoso de Otis, fui até o caixão e, com um formão, fiz alguns buracos na tampa por onde o cheiro fétido me invadiu as narinas quase me levando a expelir o que me ia ao estômago.

Em seguida, fui até a carruagem, peguei um filhote de ovelha, levei-o até ao caixão e, de posse de um afiado punhal, sem hesitar, apliquei uma estocada, certeira, no coração do pobre animal sem que este tivesse tempo de emitir um único balido. O sangue do filhote escorreu abundante por cima do ataúde tosco e entrou pelos orifícios feitos na tampa. Enquanto isso, o bruxo Edward já com o livro dos mortos em mãos, envolto numa túnica preta de desenhos variados, entre eles o pentagrama realçado na altura do peito, se entregou a pronunciar uma série de ladainhas em língua desconhecida.

Torna-se imperativo dizer, a título de esclarecimento, que me abstenho, neste momento, de pormenorizar todos os procedimentos ritualísticos para levar a efeito, com sucesso, o “incorporamento da alma” porque não é este o escopo de minha narrativa. O importante aqui não são os meios e, sim, o resultado final. Apesar de seguirmos todo o processo da antiga arte oculta de animar os mortos, fomos surpreendidos pelo imponderável! Naquele momento, meu senhorio investiu-se do poder profano invocando alguma entidade demoníaca para que esta trouxesse do mundo das almas em trânsito a mulher de Otis. Antes mesmo que Lorde Edward desse por encerrada as ladainhas habituais e concluísse os últimos ritos da invocação, aconteceu algo que eu ainda não havia presenciado até então: o caixão começou a tremer! Pasmem! Começou a tremer violentamente fazendo ranger a madeira úmida! Pulei, sobressaltado, com todos os sentidos em alerta! Otis quase caiu desfalecido. Lorde Edward ficou boquiaberto com a situação incomum: algo lhe escapara do controle e tal fato não se afigurava nada promissor!

A tampa do esquife, de repente, num único tranco, foi arremessada para o lado tão violentamente que se despregou, sem impedimentos, como se pregada não estivesse! O medo começou a desenrolar os seus tentáculos pegajosos envolvendo subitamente minha mente e meu corpo quando eu vi as mãos cadavéricas, extremamente secas, que se firmaram nas bordas do caixão. E a julgar pela decomposição das mãos, das quais já se viam os ossos, conclui que se a mulher de Otis morrera há 3 dias, então, aquele defunto não era ela.

E a coisa se levantou!

Meus sentidos, jamais esqueci, receberam duas informações básicas e distintas, ambas igualmente aterradoras; primeiramente o impacto visual: aquilo que se levantou do caixão, se levantou só em pele e ossos. O corpo esquálido, descarnado pelo estado avançado de putrefação, brilhava sob a luz da lua de modo agressivo e grotesco porque nas áreas não cobertas pelo vestido amarrotado, como braços, ombros e o rosto, podiam-se ver claramente milhares de minúsculos movimentos aleatórios que emitiam leves cintilações: os vermes trabalhavam com vigor desfazendo a matéria do que outrora fora uma mulher. Depois, veio-me de encontro, numa onda implacável que parecia varrer o ar límpido, que cheirava a relva orvalhada, o odor fétido e pestilento emanado da morta. O fedor, o qual não disponho de palavras para descrevê-lo, causou-me tal impacto que minha garganta pareceu fechar-se e se não fosse meu estômago revolto em abrir caminho pelo vômito incontido talvez eu tivesse caído asfixiado em busca de um ar puro que não existia.

— Otis, esta não é a sua esposa! – ouvi lorde Edward afirmar olhando indisposto para o homenzarrão como se lhe exigisse uma explicação.

— Não... não... não, senhor... ela... me aparece todas as noites em meus sonhos porque diz que precisa falar com o senhor! Eu a encontrei boiando em um rio, próximo daqui! – disse um Otis trêmulo e horrorizado.

Antes que qualquer um de nós pudesse fazer algum comentário sobre tal revelação, a criatura morta levantou o braço ossudo e apontou o dedo ressequido e cartilaginoso, ainda gotejando sangue do filhote de ovelha, em direção de Lorde Edward! Meu coração quase susteve o ritmo, chegou a doer e inflar parecendo que iria explodir! Meu Lorde ficou lívido! Uma voz gutural, fina e rouca saiu da boca descarnada, sem lábios, onde mandíbulas e dentes mostravam-se desafiadoramente.

— Você... maldito!

De começo, nada entendi, todavia as minhas percepções foram atraídas para o vestido enegrecido, sujo e amarfanhado que mal cobria a defunta! Deu-se em meus pensamentos, gradativamente, os movimentos intricados de raciocínio que teimavam em subverter a verdade, que se impunha por si a sua plenitude, pois tal verdade implicava mais coisas do que eu gostaria de supor. Mas Lorde Edward, muito mais do que eu, sabia da relevância do peso daquele dedo esquelético inquisidor. Foi com surpresa que ouvi a voz tremida e abalada de meu senhor:

— Elisabeth!

O rosto devastado da morta, que já apresentava contornos visíveis da caveira que se tornaria, voltou-se em minha direção. Dois pontos luminosos, embutidos nas órbitas vazias, perscrutaram-me exigindo a atenção.

— Ele descobriu a nosso amor Edgar. Quando soube que eu ia me encontrar com você ele me asfixiou. Sim, é verdade! As mãos imundas de seu magnífico lorde me apertaram a garganta e não afrouxaram um momento sequer de remorso ou pena até que a morte me viesse de encontro.

O choque de saber que Elizabeth estava morta me atingiu forte fazendo com que minhas pernas tremessem e quase fui ao chão! As ocorrências nebulosas que cercaram a sua inexplicável fuga, agora, faziam sentido. Por isso que lorde Edward não me deixara ver o bilhete! Por isso que ela não dera notícias!

Os acontecimentos que se seguiram, a partir daí, atropelaram-se e tomaram um rumo inesperado, que ainda reverberam no âmbito de minhas sensações até hoje! Lorde Edward, já acostumado com os corpos putrefatos que se animavam das entranhas da terra, se recuperou da surpresa em tempo que lhe permitiu sacar uma pistola do colete interno de seu sobretudo enquanto nós, eu e Otis, ainda olhávamos estupefatos para o que restara da condessa. Quando me dei conta do que ia acontecer já era tarde demais. Meu lorde friamente atirou na cabeça do homenzarrão que não teve sequer tempo de pedir por misericórdia. Naquele instante eu sabia que também ia morrer! Tentei esboçar alguns passos para trás na tentativa de buscar refúgio na densidade da floresta, mas meu intento esbarrou na pistola imposta pelo braço determinado de meu senhor.

— Edgar, Edgar... não, não, não,... não ouse fugir como uma galinha assustada. Se você ainda vive, meu caro, é porque não disponho de tempo e nem paciência para ensinar outro serviçal que me auxilie em meu trabalho. Já estou providenciando um moço que parece promissor, mas ele ainda não está pronto para aceitar tais “serviços”.

— Meu Lorde eu...

— Cale-se! – Ele gritou tremendo-se todo de raiva. – Cale esta boca imunda, seu desgraçado! Como tiveste o desplante de me trair, hein? Como? Elisabeth há tempo que me recusava em suas obrigações de esposa! Como? Sou um lorde! Você não vê? Rico, famoso. E você? O que você é? Diga-me! Diga-me, seu desgraçado! Você não passa de um reles capacho que sempre lambeu a sujeira das minhas botas! Maldito! Maldito seja!

Nós, eu e lorde Edward, então, por incrível que possa parecer, nos consumimos em atenção um para com o outro, cada qual lançado em suas próprias motivações: eu em buscar uma saída para salvar a minha vida, ele entregue a sua cartase, vingativo, querendo desabafar o ódio que lhe corroia o íntimo. Esquecemos temporariamente a alma de Elisabeth presa aquele invólucro repulsivo. E quando ele conectou em seus pensamentos este pequeno, porém fatal, lapso de atenção, já era tarde demais. Elisabeth se aproximou sorrateiramente por de trás e o agarrou fortemente envolvendo seus pútridos braços em torno do peito e da garganta do lorde desonrado. O agarramento firme da morta em seu corpo lhe fez assustar-se de tal modo que apertou o gatilho da pistola involuntariamente deixando-a cair próxima de mim.

Bem... foi, naquele momento, que presenciei a cena mais grotesca no emaranhado de minhas lembranças: a luta desesperadora, furiosa, de lorde Edward na tentativa de livrar-se daquele abraço macabro. Seus pés tentavam, a todo custo, fincar-se no solo fofo no intento de posicionar-se contra o arrasto impiedoso da morta, porém seus esforços apenas provocavam sulcos profundos na terra preta que não lhe permitia o apoio.

— Você, agora, vai me acompanhar em meu novo lar, querido! – Ela sibilava no ouvido de meu senhor enquanto o arrastava resoluta para junto do caixão de pinus, ao lado do buraco escancarado à noite que se adensava.

Em dado momento, naquela confrontação de forças do homem e da morta, fui coagido a tomar partido de um deles. Espero que não me tenham como um covarde porque a “decisão” que tomei foi baseada num momento de puro horror. Lorde Edward, próximo do caixão, juntando todas as forças de que dispunha, sublevadas pelo desespero de ver-se enterrado vivo, conseguiu enfraquecer a determinação do arrasto de Elisabeth. Ele já estava prestes a desvencilhar-se do abraço mortal quando ela, com os olhos fulgurantes, de um brilho que cortava a noite, me pediu:
— Me ajude a levar este “infeliz” junto comigo para a eternidade. Venha!

Hesitei por alguns segundos horrorizado com a proposta bizarra, mas ela não deixou dúvidas e foi cruelmente incisiva. Jamais esquecerei a voz áspera e rouca que me impeliu para a “decisão”.

— Se você não me ajudar, eu juro pelos anjos e demônios que jamais terás um momento de sossego nesta vida porque eu transferirei todo o meu ódio dele para você!

Aquela intimação profética retirou-me da apatia me impulsionando à frente de um único pulo. Ouvi meu senhor gritar “não” desesperado várias vezes. Empurramos o condenado para o seu destino. Lorde Edward gritava, chorava, pedia perdão para Elizabeth e uivava como um animal ferido. Depois de alguns passos para trás, os dois deram com a borda de um dos extremos do esquife e caíram dentro dele. Seria até cômico se não fosse trágico a tentativa desesperada de lorde Edward de sair do caixão. Ele esperneava, assim como esperneia um porco quando se erra a facada no coração para matá-lo. O cheiro fétido que impregnava o ar, com certeza, ainda encontrava-se ao nosso redor, contudo, em face do acontecido, nada senti. Apenas cruzei os olhos com os de meu senhor e ali vi, pela primeira e única vez na vida, o que era o terror em estado puro manifestado pelo olhar humano. Os olhos de lorde Edward estavam escancarados como se inflassem e quisessem sair das órbitas molhadas pelo choro convulsivo.

Ela o abraçava forte, decidida, por debaixo do corpo dele.

— Pregue a tampa do caixão, Edgar! – exigiu a morta sem disposições no tom de voz que dessem margem à discussão.

Fui até o local onde estava a tampa do esquife e a peguei. A arma de lorde Edward estava caída no chão. Peguei-a também! Ao me aproximar do ataúde fúnebre onde a luta continuava desesperada apontei a velha pistola para a testa de meu senhor. Ele aquiesceu assentindo com o gestual de cabeça que lhe desse a libertação do sofrimento de ser enterrado vivo. Mas antes de apertar o gatilho, o rosto de caveira de Elisabeth se projetou a frente dos ombros dele e me fulminou com um olhar maligno de desaprovação.

— Não ouse, Edgar! Se queres ser um homem livre na paz de espírito, faça o que tem de ser feito!
Não sei como consegui, mas o fato é que me concentrei expulsando de minha percepção os gritos, o choro, o barulho do arranhar das unhas nas paredes internas do caixão e o lacrei com os velhos pregos enferrujados resgatados por ali perto. Feito o serviço, empurrei o precário caixão, de lado, para dentro da cova que emborcou e caiu com a tampa virada para baixo.

Não me arrependo da “decisão” que tomei porque, creio sinceramente, que agi diante de circunstâncias que talvez nenhum outro ser humano tenha se defrontado. Eu a ajudei e se não fosse minha intervenção provavelmente lorde Edward teria escapado de ultrajante sofrimento! Envergonho-me, sim, do que fiz, é bem verdade, entretanto quando os fios invisíveis da culpa começam a se imiscuir em minha mente, eu me agarro resoluto na única justificativa que me alivia a ansiedade: antes ele do que eu!

E de qualquer forma não passei incólume pelo acontecido!

Muito tempo se passou, como já o disse, mas ainda hoje, não raro, em noites em que o sono custa a me envolver, ouço nitidamente entre o barulhar peculiar dos montículos de barro preto que joguei no caixão de pinos úmido, o uivo lamentoso de lorde Edward e a risada discreta, abafada, rouca e vitoriosa de Elisabeth!

22.5.09

A CLAREIRA DOS ESQUECIDOS - Terceira parte

Leia o conto de Henry Evaristo

A CLAREIRA DOS ESQUECIDOS - Terceira parte


http://camaradostormentos.blogspot.com/2009/05/clareira-dos-esquecidos-terceira-parte.html

11.5.09

O CELEIRO

Leia o novo conto de Henry Evaristo

O CELEIRO

Clique no link:

http://recantodasletras.uol.com.br/contosdeterror/1579941

4.5.09

O CELEIRO

Leia o conto A LONGA ESPERA DE LEONARD antes desse!


O CELEIRO

Henry Evaristo

Ele ficava na parte mais alta da velha fazenda, distante da estrada. E mesmo a despeito de sua decrepitude mantinha a imponência por suas dimensões. Era uma silhueta aterradora recortada contra o horizonte; e jazia quieto em sua solidão escura com suas portas entreabertas e suas janelas arruinadas.

Ainda lembro de cada uma das estranhas sensações que aquela construção abandonada e imersa nas sombras me transmitira em meus tempos de criança. Era como um fantasma a rondar meus passeios pela velha estrada que conduzia à propriedade dos Baxter.
Sempre ouvira falar das coisas que aconteceram naquele lugar. Na escola os garotos costumavam contar relatos assustadores sobre ele. Diziam que o velho dono da fazenda enfrentara um monstro naquelas terras, sozinho. E diziam mais: Que as florestas em torno da propriedade eram infestadas de lobisomens!

Eu acreditava nisso! E, em verdade, não tinha como desacreditar. Constantemente ocorriam boatos de coisas pavorosas que apareciam por ali, à noite.

Elma Sander, uma viúva, afirmara certa vez que fora atormentada por uma "sombra preta e larga" que a acompanhava de dentro da mata. A história se espalhou. Mas foi somente quando a menina dos Williams desapareceu que homens resolveram entrar na floresta pra caçar qualquer coisa que podesse ser a responsável. Nada jamais foi encontrado.

Mas os acontecimentos continuaram ao longo de toda a minha infância. Diziam também que o velho dono da fazenda dos Baxter estava internado no manicômio municipal e, quem o via, e ficava perto dele, podia sentir que havia algo de errado.

Nas fazendas em torno da cidade eram freqüentes os ataques inexplicados a animais de criação; e os fazendeiros da região podiam contar coisas escabrosas sobre o que viram ao longe na floresta, em suas caçadas.

Numa madrugada de dezembro, próximo do dia do natal, subi ao telhado da casa de meus pais, sozinho, para observar o bosque que se iniciava ao final de nosso terreno. Sempre fui atraído por estas coisas insólitas, arrepiantes, e posso confessar que naquela noite fiquei realmente arrepiado. Não vi nada de fato; nada além das estrelas veladas que pareciam me vigiar de um céu opaco de inverno e da agitação das folhas das velhas arvores do bosque sacudindo ao sabor do vento cortante. Foram apenas impressões que me assolaram mais que veementemente. Como a de subitamente sentir um cheiro diferente no ar da noite. Um odor exótico, mas tão insipiente que não me foi possível definir sua natureza. Menino curioso que era, de andar por aquelas matas observando tudo, só me veio à mente o aroma que se desprendia dos eucaliptos que dominavam a floresta nas vezes em que eu, andando por ali, pisoteava acidentalmente suas folhas caídas.

Por volta das três da manhã, e não tendo avistado absolutamente nada de anormal pelas redondezas, decidi que era hora de entrar em casa. Porém, ao descer do telhado pela lateral que ia dar nos fundos do quintal notei algo incongruente com minha solidão. Ao tocar os dormentes da escada, pude sentir e ver que estavam sujos, umedecidos com algo pegajoso e marrom. Como se alguém, com as mãos sujas de lama, os tivesse tocado há poucos instantes.

Ao por os pés no chão de terra, meus olhos vaguearam por todos os lados. A escuridão dos fundos do terreno não permitia divisar nenhuma forma que por ali pudesse estar a se esconder. Se fui observado naquela madrugada, nunca descobri. Mas entrei em casa com a nítida sensação de que escapara por pouco de algo terrível e me tranquei em meu quarto coberto dos pés à cabeça por meus lençóis de solteiro. Passei o restante das horas escuras ouvindo ruídos estranhos do lado de fora da casa, mas atribuí-os todos ao medo e à minha fértil imaginação de adolescente.

Na manhã seguinte rondei a propriedade em busca de marcas no chão e as encontrei! Imensas pegadas de algum animal pareciam circular a casa e se aproximar da escada que levava ao telhado onde eu estivera. Mas como poderia avisar a meus pais sem me denunciar como um garoto fujão? Calei, portanto. E nunca mais fiquei sozinho na noite, fora de casa. Tranquei minhas portas e janelas sempre, todos os dias após o cair do sol. Para me tranqüilizar, guardei na última gaveta de minha escrivaninha de estudante um pesado bastão de baseball.

Lembro nitidamente, alguns anos mais tarde, da noite em que o velho Baxter morreu no hospício municipal. Os cães das redondezas não deixaram ninguém dormir com seus latidos e uivos tenebrosos. E todos se reuniram no andar de baixo trocando olhares nervosos até o dia amanhecer. Em minha mente infantil imaginava que ninguém além de mim soubesse o que estava acontecendo, tampouco acreditava que os outros pudessem imaginar que não fosse algo de ruim. Mas observei que papai, um homem sempre precavido, não permitiu em nenhum momento que nos aproximássemos das janelas e portas da casa, e não deixou que ninguém erguesse nenhuma das cortinhas para olhar o lado de fora. Foi a primeira vez que vi minha mãe chorar.

Poucos dias depois fomos transferidos, eu e meus irmãos, para uma escola da capital aos cuidados de nossos avós paternos. Sentimo-nos pesarosos devido o distanciamento de nossos pais, de nossas coisas e de nossos amigos. Era como um findar precoce de nossa infância dourada passada até então inteiramente no confins da fazenda, do campo, da natureza. Mas, ao mesmo tempo, não podíamos disfarçar o alívio que sentíamos em estarmos em fim longe daquele rincão estranho e habitado por coisas que jamais deveriam ser entre nós.

Ao longo de toda a minha vida colecionei relatos e notícias de jornais vindas de minha cidade natal. E via em matérias jocosas e sensacionalistas, sobre as coisas estranhas que lá ocorriam, uma perturbadora certeza de realidade. A imagem do velho celeiro dos Baxter, o lugar onde alguém um dia enfrentou a fera, nunca saiu de minhas memórias e jamais deixou de assombrar minhas noites de pesadelo. Muitas vezes pensei em retornar, mesmo depois da partida de meus velhos pais para o plano mais elevado, mas as responsabilidades da vida diária nunca me permitiram.

Hoje, velho e retirado de minhas utilidades como cidadão, dedico meu tempo a cuidar de meus netos. Tive uma vida boa e farta, mas, quando deveria ter esquecido as abominações que povoaram minha infância, é que me encho de recordações que são ao mesmo tempo deliciosas e pavorosas. Não ligo para o que os jovens de minha casa falam de mim aos sussurros. Chamam-me velhinho lunático, mas sei que não o fazem por mal. É que jamais, em toda minha vida, permiti que nenhum de meus filhos ou os filhos deles se postassem próximo a janelas ou portas, e nem erguessem as cortinas para olhar o lado de fora, em noites de lua cheia.

2.5.09

A CLAREIRA DOS ESQUECIDOS - Terceira parte


A CLAREIRA DOS ESQUECIDOS
Terceira parte

Henry Evaristo


Primeiro senti náuseas, depois um formigamento que percorria todo meu corpo. Só então veio o cheiro, o terrível cheiro que me pôs de pé novamente!

Era como o odor de animais mortos, largados em alguma ravina, meio imersos em poças de sangue coagulado. Nada menos que isso poderia descrever o horror que penetrava por minhas narinas.

Quando sentei-me na cama, completamente atordoado, não via nada diante de mim além de minha própria agonia. Só o correr do tempo me fez capaz, novamente, de discernir o ambiente ao meu redor. A escuridão não se fora e, lá fora, as trevas da noite grassavam ainda mais. Tudo era silencio e imobilidade. Mas havia algo no quarto que se movia. Uma sombra retilínea, como a de um homem muito alto que, como um lagarto, se esgueirasse verticalmente pelas paredes.

Fiquei apenas sentado, olhos fixos na aparição, em meio ao cheiro de morte asquerosa; e ela guiou meu olhar movendo-se de cima para baixo até alcançar o alto do guarda-roupa. Ali, desgrudou-se da superfície áspera em que estava e pousou, ta qual um pássaro agourento, sobre o móvel. Havia então outra criatura ao seu lado. E ainda outras pousadas no chão! Como estranhas e monstruosas feras aladas, elas pareciam confabular, e soltavam piados horrendos quando queriam se fazer entender. Às vezes olhavam para mim, com seus olhos terríveis, e eu podia entender que algo malévolo motejava em suas entonações.

Jamais me tocaram, aqueles primeiros que surgiram, ou mesmo se dirigiram a mim diretamente. Eram como predadores inteligentes que analisavam a presa e todas as suas possibilidades. Olhavam para mim, para a cama e depois para todos os lados. Em meio à escuridão, pude ver que se vestiam com roupas escuras, estranhas; feitas com algum tecido que me era desconhecido. Não eram todos altos como o que viera pelas parededes e, dentre os cinco ou seis que por meu quarto passaram naquela noite, pude notar que alguns eram de estatura igual ou inferior à minha.

Aos poucos eles iam se reunindo em meio às sombras de um canto do guarda-roupa, como ratos agrupados num nicho de esgoto. Seus grunhidos eram agudos e mórbidos, como os de alguns tipos de coruja. Seus olhos, arredondados e amarelados, como os de algumas aves.

De repente, todos de uma vez se voltaram para a porta do quarto. Dali vinha algo. E, em meio ao meu horror extremo, vi ceder a entrada sob terrível força descomunal. Vindo abaixo a peça de madeira, irrompeu um ser dos mais terríveis pesadelos. Algo ave, algo homem, algo morcego. Uma fera saltada das mais profundas fendas do inferno. E o cheiro maldito que a tudo infestava, era dele que emanava.

Dirigindo-se a mim, impossibilitado de me mover, aquela coisa se aproximou com um som de garras que raspavam o soalho. E tudo terminou bem rápido.

Com uma de suas mãos...ou patas, ela me estendeu um livro. E depois, antes de desaparecer levando consigo seus asseclas demoníacos, disse me olhando nos olhos:

“Homem, se queres vingar aqui, toma! Lê! E nos Serve! Se não...”

E assim desapareceu como se nunca ali estivera.

Fiquei sozinho com meu horror, com minhas impressões alucinadas, com meus nervos destruídos. E assim veio a manhã do terceiro dia.


(Continua)

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