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8.9.09

O OCASO DE HAES-NORYAN - HENRY EVARISTO


O OCASO DE HAES-NORYAN
(Um conto delirantista)

Henry Evaristo


Haes-Noryan apreciava paisagens abertas. Por isso, no dia do fim de sua vida, subiu ao cume da mais alta montanha de seu reino e lá sentou-se em meio à neve e aos raios multicoloridos de seu último por do sol. Vestia sua melhor roupa e ornamentara sua pele com pinturas e artefactos da cultura de seu povo.

Ficou apenas parado durante muito tempo. Tantos sentimentos suprimiam-lhe as palavras e então ele calou impotente diante de toda a força daquelas imensidões. Sentia o vento invadindo seu corpo, como adagas agudas que penetravam invasoras por seus poros, levando a frieza para todos os recônditos mais ínfimos. E aquele vento, que vinha de plagas tão distantes, o tornava uno com toda a natureza.

Ergueu sua cabeça pesada para sentir no rosto os movimentos do mundo e as luzes do horizonte o atingiram em cheio iluminando-lhe os olhos castanhos, deixando-os à mostra para quaisquer dos seres do ar que por ventura vagassem por ali. E assim ficou, por séculos e séculos de um tempo que só para ele existia. E por ele passaram tantas eras quanto as que eram conhecidas pelos deuses.

Do peito de Haes-Noryan brotaram então violentos espasmos de um desespero incontrolavel pois, no meio de todos os tormentos que diante de seus olhos desfilavam, em cada uma das eras tantas que reconhecia, lá ele se via. E via os seus, aqueles que lhe eram tão caros. Via os rumos perdidos que tomou na vida, as chances perdidas e as bondades desperdiçadas. Com as mãos crispadas ele atingia o solo com tamanha força que seus ossos enregelados estalavam.

“Ah, minha paz! Para onde foste tão cedo?” Gritou ele.

Mas o vento parecia responder com um sibilar profundo que soprava dos ventres das montanhas:

“Eis tua sina! Agrada-te dela!’.

Como fantasmas horrendos que enxameavam no firmamento, ele avistou os vultos impuros que o aguardavam. E pôde ver suas carrancas medonhas cujas línguas venenosas ressonavam cantos profanos para muito além da abóbada celeste.

“Oh, cânticos infernais! Isso, Isso! Entoai o meu destino!”

E Haes-Noryan já não era mais o mesmo. Estava velho; todo o tempo de sua vida se esvaíra. Todo o seu mundo ruíra, e apenas criaturas ígneas pareciam saltitar por sobre os escombros daquilo que fora tão bom, formoso e límpido.

“Minha inocência! Onde te perdeste nessa vida?”

Mas como a neve ao seu redor era cada vez mais carmesim, e já se findara o tempo das elucubraçoes, ele se ergueu. Foi cambaleando até a borda do precipício. Suas roupas largas, dos tempos em que fora rei, pareciam rodopiar em torno do seu corpo depreciado.

Lá, no limite do mundo, parou. Sentindo a dor lhe consumindo além de qualquer possibilidade de rendenção. E seus olhos, que antes refletiam o por do sol, se tornaram negros como os dos melros.

Haes-Noryan elevou seus braços aos céus, e emitiu seu derradeiro grito; seu lamento profundo que foi ecoar por todas as terras desconhecidas desta e de outras esferas.

“Ah, quantos mundos criei!” Gritou para a neve e para o vento. “A quantos dei formas tão minhas!” “Ah, tanto amor vertido por estes universos!”

Mas o vento e a neve não respondiam; eram o seu castigo, e lhe fustigavam violentamente. À beira do abismo ele olhou para os lugares da terra. E viu as crianças brincando nas vilas e nas cidades; viu as carruagens e os automóveis; os bares e prostíbulos, o sexo e o amor. Ele viu as vidas, as mortes, as desgraças e os milagres.

“Eis! Por entre estas montanhas titânicas posso ver os que brincam e os que choram! Ah, meu coração, quanta dor tu ainda comportas para assistires esta humanidade que evolui sem ao menos imaginar-te aqui, agora, neste rincão assombrado por estes ventos sem fim que te querem arrastar a alma inteira para lugares malsãos!"

Haes-Noryan, seu rosto estava crispado, sua pele ressecara, e sua velhice chegara antes da hora. Com o cenho grave, viu toda a felicidade que perdera um dia; todas aquelas que lhe tiraram os homens e as mulheres; e as que ele mesmo pôs por terra. Ai, que eram como um reflexo que se espraiava pelas superfícies monstruosas das montanhas como uma projeção infernal das cenas torpes de sua vida. E não cessavam, jamais cessavam. Ao contrário, aqueles sons e imagens no firmamento se tornavam cada vez maiores, cada vez piores.

Oh, meus amores! Minhas mães, minhas mulheres! Perdoai-me! E perdoai-me os que foram meus amados e meus odiados!

Neste momento Haes-Noryan viu se formar por entre as nuvens, exército de sombras negras. As mais pavorosas abominações que qualquer olho suportaria ver. Todas avançavam para ele, com seus dentes e suas garras. A luz obscurecera e já não havia mais resquício do ocaso multicor de outrora, quando elas vieram despejando-se do céu como miríades de diabretes fumegantes; invadindo tudo, chorando sem parar. Tão dilacerantes eram seus lamentos que Haes-Noryan desesperou-se com elas. E arrancava seus cabelos e suas roupas mordendo seus braços à rasgar-lhes as carnes com os próprios dentes!

Assim ele foi erguido, elevado aos céus revoltos onde jaziam seus horrores. Sob seus pés iam se formando nuvens vermelhas com o sangue que lhe escorria dos ferimentos. E nas bordas daquelas nuvens, milhares de coisas aladas, com asas monstruosas e negras, se reuniam a sorver o líquido pegajoso. Danadas elas eram, e ferozes, e vorazes. Enlouquecidas pela especiaria rubra, atacavam-se mutuamente, rolando umas por sobre as outras como hordas de ratazanas; suas bocarras empapadas emitindo esgares pavorosos pelo firmamento.

Subindo até alturas imensuráveis Haes-Noyan foi arrastado. E onde as feras o tocavam, arrancavam suas carnes; forçavam suas patas para dentro de seu corpo, até alcançarem seus ossos, agarravam ali, e era por onde o mantinham suspenso nos ares.

Nenhum homem viu o destino de Haes-Noryan. No céu e na terra uivos desconhecidos ecoaram pelo mundo por várias décadas. E os jardins jamais foram os mesmos em lugar algum. Pois Haes-Noryan foi então toda a tristeza no rosto de uma amante; toda a dor no seio de uma mãe; toda a aflição no coração de um filho. Haes-Noryan foi toda a angústia na alma dos velhos e dos inválidos. Toda a fome dos desvalidos e a vilania dos insanos.

Tudo isso ele carregava no semblante quando desapareceu deste mundo subindo eternamente a um cosmo negro. E mesmo quando passou por entre as nuvens malsãs, e a tormenta lhe arrancou as peles do rosto, seu aspecto era grave, soturno, raivoso e triste.

A ÁRVORE DA ENCRUZILHADA - LUCI LOPES



Luci Lopes


Se você percebesse que aos dezesseis anos iria ser morta por algo sobrenatural, acreditaria? E se acreditasse, contaria para alguém ou pediria ajuda? Mas quem, em nome de Deus, acreditaria em você?

Tédio. Essa era a emoção dominante que Maria sentia enquanto fazia a maldita prova de inglês. Não é que não tivesse estudado, ou que a prova estivesse difícil, apenas ela não tinha interesse em fazer. Um após o outro, seus colegas entregaram a prova com pressa de ir embora, até que finalmente só restou ela e o professor na sala. O homem se remexia impaciente olhando-a de um jeito que deixava claro que cogitava tomar a prova e mandá-la embora. Maria não se importava. Sentia-se até perversamente satisfeita em irritar o professor. Demorou o quanto pôde até que, no limite do próprio tédio, entregou a prova.

Quando saiu da sala percebeu que devia ser a última aluna na escola. O relógio da igreja, ao longe, batia com um som melancólico de sino antigo indicando que eram dez horas da noite. Era um curso noturno, desses que os adolescentes fazem na ilusão de que fará diferença em seu inexistente currículo. Maria começou a descer lentamente uma rua completamente deserta enquanto se encolhia de frio. Lá em cima nuvens pesadas pareciam esperar apenas que ela estivesse longe de qualquer abrigo para derramar a chuva sobre a cidade. Ela ergueu o olhar para a rua e seus passos hesitaram um pouco. Havia algo de sinistro naquele silêncio, naquela rua deserta, como se ela estivesse andando por uma cidade fantasma. Seu coração se contraiu de medo por um segundo e então relaxou. Maria não era supersticiosa.

Já próximo à rua em que morava a chuva finalmente caiu, suavemente, em pingos esparsos. Ela apressou o passo e protegeu-se por um instante sob uma algaroba na esquina de sua rua, seguindo então para casa com passos apressados. Alguns instantes depois teve a impressão de ouvir passos atrás de si. Virou-se mecanicamente para trás, mas não viu ninguém. Seguiu em frente; o barulho dos passos continuou. Ela parou novamente e os passos pararam com ela. Decidiu aliviada que se tratava do eco de seus próprios pés e continuou. Um instante depois, por pura teimosia, ao ouvir o mesmo barulho de passos ela parou. Dessa vez os passos continuaram. Maria virou-se rigidamente e seus olhos vasculharam a rua em busca dos pés que faziam esse barulho, mas não havia nada. Estava absolutamente sozinha na rua.

Começou a andar cada vez mais rápido tentando não correr, mas sem conseguir evitar olhar para trás. E foi então que viu; ou melhor, não viu. Porque não havia nada lá. Mas alguma coisa estava atravessando a rua e chegando à calçada. Ela percebia-lhe a silhueta invisível e embora dissesse a si mesmo que isso não era possível, o pânico a dominou e a fez correr para casa. A coisa continuava avançando e agora estava a apenas três casas da sua. Suas mãos tremiam tanto que ela não conseguia abrir a fechadura simples do portão. Aquilo estava a duas casas agora. Maria se desesperou; tentou pular o portão e ele abriu de repente com tal ímpeto que ela quase caiu. Não se preocupou em fechá-lo; correu para a porta e então teve que brigar com a fechadura. Era uma dessas portas antigas que tinha uma pequena portinhola na altura do rosto. A coisa havia chegado à sua calçada. Maria empurrou a portinhola, aliviada por encontrá-la aberta, e abriu a porta por dentro. Entrou depressa e teve que fazer um esforço inumano para não batê-la com toda força. Sua família estava na sala distraída com a televisão e mal a olhou quando entrou; a expressão assustada, as mãos tremendo.

Jogou os cadernos sobre o sofá e virou-se lentamente para fechar a portinhola. E então se sentiu sozinha no mundo, cercada pelo mais absoluto horror, porque aquilo que ela não podia ver estava lá, na portinhola, olhando para ela. Um barulho ensurdecedor ecoou quando a pequena porta foi fechada violentamente, fazendo sua família pular de susto e Maria percebeu que, tomada pelo pânico, havia batido a portinhola por impulso. As reclamações de sua mãe a seguiram até a cozinha, mas ela as ignorou. Sentou à mesa e permaneceu muito branca e imóvel enquanto sua mente vagava por histórias terríveis que ouvira quando criança. Demônios, almas penadas, encruzilhadas...

Recordou subitamente da voz da avó alertando-a que nunca, jamais, se abrigasse sob uma árvore que estivesse numa encruzilhada. Tais árvores eram abrigos para almas penadas e demônios e aquele que ousasse, sobretudo à noite, se abrigar sob uma delas poderia sofrer um fim terrível. Maria deixou escapar um riso baixo e histérico enquanto sua mente visualizava a árvore onde, por poucos instantes, estivera abrigada. Percebeu surpresa que sua rua era o braço direito de uma encruzilhada. A árvore ficava exatamente na esquina entre a rua onde morava e a outra, que descia a noventa graus da sua. E do outro lado dessa rua central, à esquerda, o outro braço da cruz seguia fazendo esquina com um cemitério. Durante a vida toda ela passara ao largo daquela algaroba, sem jamais parar sob ela. Até aquela noite...

Olhou ansiosa para a família desejando contar sobre a experiência assustadora que acreditava estar vivendo, mas não teve coragem. O que iria dizer? Que vira algo que não podia ser visto? Que aquilo a seguira até em casa? Loucura, ninguém acreditaria nela. Nem ela conseguia acreditar em si mesma.

Não conseguiu dormir. Ficou escutando os roncos da mãe e os movimentos das irmãs com uma sensação de terror que lhe gelava os ossos. Ao longe ouviu o sino da igreja indicar que era meia-noite. Quando a última badalada tocou, ela não se surpreendeu quando sentiu seu colchão afundar como se outro corpo exercesse pressão sobre ele. Quis chamar pela mãe, mas estava paralisada. Alguma coisa começou a pressionar sua garganta como se mãos se fechassem sobre ela. Maria sentiu sua cabeça afundar mais no travesseiro. Lembrou então de um livro de terror que havia lido uma vez, 666 – O Limiar do Inferno, onde o demônio conseguia destruir três vidas porque, embora cada um dos personagens percebesse que havia algo errado acontecendo, nenhum deles tinha coragem de contar para o outro com receio de serem expostos ao ridículo. Ela havia rido desses personagens, mas agora percebia que fizera a mesma coisa. Tentou emitir qualquer som que pudesse chamar a atenção de suas irmãs, nas camas ao lado da sua, mas a pressão agora era tão forte que ela não conseguia respirar. No fim, o que restou não foi o medo e sim o desejo instintivo e desesperado de respirar, até que seu corpo desistiu e afundou na escuridão.

Na manhã seguinte quando encontraram seu corpo rígido e frio e chamaram o único legista da cidade, o homem, ainda morto de sono e mal-humorado, declarou após um exame superficial que ela havia morrido de parada respiratória, seguida de parada cardíaca por hipoxemia. E abandonando o corpo no necrotério foi tomar um café resmungando consigo mesmo que os jovens não eram mais resistentes como antes.

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