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26.6.09

OS OSSOS DO MUNDO - Para Michael Jackson


Olá. Neste momento vou abrir um parêntese nas atividades normais da Câmara dos Tormentos para publicar uma homenagem que fiz ao artísta Michael Jackson falecido na tarde de ontém nos EUA. Por que faço isso? Por que MJ foi simplesmente o artista mais importante e famoso do mundo e sua morte equivale às de ícones como John Lennon ou Mahatma Gandhi e atinge diretamente toda uma geração de pessoas em todo o planeta. Jackson foi um formador cultural, com seu talento excêntrico e sua concepção artístia ímpar foi o grande revolucionário da cultura pop, esta na qual todos nós vivemos inseridos até hoje; pode-se dizer que MJ foi o inventor dos anos 80!
Eu estava lá, nos anos 80 e vi tudo. Eu dancei e me contorcí ao som de suas canções, eu usei luvas e sapatilhas! E ensaiei exaustivas horas até conseguir imitar da melhor forma possível os trejeitos do rei. Fui um fã sim, ardoroso, até meados de sua carreira, quando suas excentricidades saltaram para fora do mundo artístico e foram atingir outras áreas de sua vida pessoal. Mas não foi por isso que passei de fã à admirador, foi simplesmente por que sua música, à partir do disco BAD, já não me agradou tanto.
Em fim, esta é minha homenagem. Foi feita com grande emoção e com um indescrítivel sentimento de perda da juventude.

Fiquei velho, o mestre morreu.

Henry Evaristo
Rio Branco/Ac, 26/06/2009


OS OSSOS DO MUNDO
(Para Michael Jackson)

Henry Evaristo


A minha luta para ser artista iniciou pelo Michael Jackson. Para dançar sua música, num concurso de "O dançarino mirim mais engraçadinho", eu subi no palco pela primeira vez na vida. Dancei como louco naquela noite, e eu era muito engraçadinho mesmo... Ganhei o concurso e me fizeram dançar tanto que quase perdi os sentidos determinada hora. Mas ganhei! E eu tinha sapatilhas, luvas, óculos, jaqueta...tudo do MJ! Era um ícone já naquela época de 1983. Depois é que ele ficou da minha cor...Como numa premonição, eu fui um imitador pálido do rei de ébano.

Depois, durante toda a minha adolescencia, ele foi importante para mim. Até o album BAD. Depois, minha vida mudada, mudaram tmbm meus gostos musicais. Mas nunca deixei de acompanhar a carreira do Jacko. A cada novo lançamento, de disco ou de filme ou de clipe, lá estava eu comprando revistas, fitas vhs e albuns de vinil.

Vieram as mudanças físicas, drásticas. Mas, mesmo assim, mesmo diante do estranhamento das atitudes do astro, continuei lá, acompanhando tudo. Não mais como um fã ardoroso, mas como um grande admirador e respeitador.

Vieram os albuns dos anos 90. Trabalhos infinitamente inferiores aos dos anos 70 e 80; reflexos da crise que tirou hoje sua vida. Vieram as denúncias, acidentes estranhos, comportamentos bizarros, aberrações sexuais. Ainda assim, minha visão sobre o rei totalmente técnica (como musico que sou) permanecia inabalável: Era um rei decaído, mas ainda assim majestático; na verdade, maj-estático.

Creio que lhe cabiam as culpas que lhe imputaram, sim, creio que sim. Mas, apesar de tudo, minha admiração por seu talento único como criador, como músico, cantor e compositor, não se alterarou durante estes 27 anos que o acompanhei. Hoje se acabou, expirou, deixou de ser, se extinguiu um dos ingredientes que participaram da minha própria formação cultural, egresso que sou da cultura pop e new wave dos anos 80. Hoje se foi para sempre um dos maiores artistas da história da humanidade, resultado de um talento natural extraordinário que foi extraído para o mundo físico, e forjado a ferro e fogo, por um pai violento e dominador que é provavelmente o primeiro culpado por sua posterior destruição psicológica e sua degradação física.

Vá Jacko, vá mesmo além. Vá até onde você possa reencontrar a pureza de sua arte primeva, aquela sem nódoas, sem feiúras, com a qual você maravilhou milhões de pessoas ao redor deste planeta.

Ficamos nós aqui, com as lembranças que nos iluminam os olhos e nos acendem os corações, para continuarmos balançando ao som de Thriller e Billy Jean; e mostrando aos nossos filhos como nosso tempo era bom, mostrando pra eles o seu lado positivo e certo, e como você foi importante para o mundo inteiro pelo que você criou.

Não sei se vai encontrar Deus onde você vai, mas pode ser que esbarre com Ray Charles ainda tateando pelo meio do caminho; e com tantos outros monstros do olimpo dos deuses da música humana, talvez monte uma banda, e substitua os pavorosos sons dos trovões das tempestades por acordes menores e solfejos acutíssimos ecoando além do horizonte.

Moveste os ossos do mundo. Moverá agora outras esferas.
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N. do A.: Este artigo foi escrito no momento em que as emissoras de tv anunciavam a morte de Michael Jackson, no fim da tarde do dia 25 de junho de 2009.

Assista ao clip de Childhood, canção onde o cantor fala de si mesmo de forma sincera e emotiva:






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25.6.09

OS PORTAIS DE ÉBANO - versão revisada

De Henry Evaristo

24.6.09

OS PORTAIS DE ÉBANO - REVISADO


OS PORTAIS DE ÉBANO


Henry Evaristo



Diante dos portais de ébano de Dharan-Tyr, na Swyrnea, eu caí subjugado pelo poder dos deuses mortos. E suas vestes azuladas roçaram meu rosto como se proferissem enigmas etéreos.

A tarde que se findava nas distâncias do horizonte trazia-me em ventos cálidos sentimentos de regozijo por me encontrar, depois de tantos anos de sofrimentos e dúvidas, ao alcance das vistas daquelas excelsas potências.

De minh’alma uma torrente de emoções brotou quando, ao longe, ouvi como que o solfejar de uma velha flauta que me sugeria a aproximação de um ente querido dos mundos oníricos. E dos bosques escuros avançavam agora ventos que traziam lamurientas vozes de coisas perdidas e insanas que vogavam sem rumo.

Para mim então marchou a criatura das matas; seus cascos bipartidos estalando no chão de mármore ao alcançar os limites do titânico templo com a orla da vegetação. Os deuses, obedecendo ao comando de uma senhora em vestes prateadas uniram-se em coro para saudar o novo visitante. Suas obediências eram para a nobre dama que, postada no alto da mais alta torre da fortaleza inexpugnável, cantava melodias inebriantes levadas ao longe pelos ventos dos bosques.

"Oh, sagrado Pã! Te bem-dizemos e nos regozijamos em tua augusta presença. Tu que saltas pelos ermos do mundo e com teu solfejar encantas demônios! Vem agora! E serve de guia para este que se arrojou de seu próprio universo seguro para aventurar-se nestas plagas perigosas. Protege-o! Zela por ele como por tua deusa, pois assim ela o conclama lá do alto de sua morada de luz! E mostra-lhe os segredos pelos quais ele tanto aspirou."

Dizendo isso, tempo em que eu me quedei tremendo de excitação, os deuses mortos voltaram-se diretamente para mim e a luz vinda da torre me cegou instantaneamente. O horror tomou conta de meu ser e um grito se me desprendeu da garganta.

Vendo, de certo, minha aflição, o nobre deus Pã trotou para bem próximo de mim e pude ouvir o som macio de suas patas a se aproximarem. Depois, com sua voz serena cujo hálito recendia a eucaliptos, me falou ao ouvido como uma amante que sussurra na madrugada.

"Filhinho!" Disse ele "Estou aqui para ti e nada te tocará! Vê, lá em cima da torre, a Grande Mãe te tem em alta consideração e acaba de te abrir todas as portas de seu reino. Não és qualquer mortal! Vê! Agora!"

"Mas, meu senhor!" Argumentei. "Tenho as vistas derrotadas por tamanha luz maravilhosa. Nada posso ver neste momento com estes meus olhos já mortos!”

E então Pã, acariciando-me no coração, disse com uma voz que retumbava em meu peito me arrancando lágrimas incontroláveis:

"Aqui, filhinho, não se enxerga apenas com o corpo, se enxerga também com a essência e a inconsciência!"

Neste momento ouvi outra melodia, ainda mais fenomenal, que descia das imensidões do céu e parecia penetrar por meu cérebro abrindo caminho por todo meu ser e tocando meu próprio espírito. A Grande Mãe agora me falava.

"Moranus, tu agora és Moranus! E tua arte ainda te vai ser ensinada. Abre tua mente neste instante pois te darei todos os paraísos e todos os infernos. Nada mais te será suficiente no mundo dos homens e, muito embora vás ter de viver entre eles, tu também não será apenas suficientemente um homem. Serás o homem dos homens! Serás menos que eu e eu, menos que tu! Eu estarei em ti e tu estarás em mim. Em meu nome tu espalharas na terra dos templos cerrados* a palavra da grande ciência dos sábios. Te chamarão de louco, de falso profeta, de bruxo, diabo e mago...Dirão que andas com os demônios! Mas tu riras deles e terás poder para lançar-lhes ou não às chamas dos abismos. Pois aí está Pã, nesta hora, e ele te levará já à presença de teu primeiro mestre, Baal Zebulb, o senhor das moscas dos tempos proféticos. Abre, pois, estes olhos da tua alma; que são eles agora os únicos que te servirão!"

Diante de ordem tão imperiosa meu único gesto foi o de abrir minhas novas percepções; ao que, de todos os lados, ouvi sons de alegre festividade. De repente a tudo eu via com um resplandecente ar de alvura. Tudo se me parecia renovado e até mesmo as cores do mundo não eram mais as mesmas. Ao meu redor hordas de animais fantásticos dançavam e cantavam ao som da flauta feérica do deus Pã. Aqui, etéreas fadas e ninfas esvoaçantes lançavam seus raios furta-cor contra um sol esverdeado; ali duendes e gnomos, junto com ciclopes e unicórnios executavam manobras de uma dança ancestral e perdida no tempo. Ogros, basiliscos e centauros disputavam lugares próximos a mim e até mesmo a terrível acromântula, se não dançava, pelo menos estava quieta em seu lugar nas sombras; intimidada talvez por um grupo de majestosos diabretes que desfilavam e falavam apressadamente em um idioma hilariante, limitava-se a emitir estranhos silvos que faziam vibrar os dentes dos presentes. Também a vastidão escura que tentara insistentemente se opor à minha chegada ali, durante toda uma vida, agora conspirava a meu favor e o terreno se encontrava vivo, pululante de presenças poderosas e ancestrais. Ao longe eu podia ouvir o rugir dos hipopótamos e dos crocodilos a chafurdar nas lamas pútridas dos pântanos e ainda um som grotesco de hienas e chacais a caçar nos desertos distantes.

Tudo era para mim tão alucinante, e tão belo, que tinha vontade de ajoelhar-me em louvor àquelas potestades da natureza pelas quais tanto ansiei em meus sonhos e nas minhas ações no mundo dos humanos. Foi para vê-las assim, de perto, e quem sabe compartilhar seus segredos, que gastei cada centavo que ganhei na vida com livros raros e obscuros; e viajens à lugares exóticos. Foi para estar neste mundo escondido que me aventurei em porões fétidos na empresa de ritos profanos. Agora eu chorava pois um universo de beleza inigualável se desdobrava para mim e nele eu era aceito como um pupilo, um aprendiz das feras do oculto.

Logo ouviu-se um estrondo tão terrível que toda a algazarra dos seres festivos e dançantes cessou abruptamente; e a floresta e o templo mergulharam em sombras que antes não haviam. Voltei-me novamente para os deuses mortos e vi que eles, de costas para mim, e apenas com o poder de seus olhares rubros, faziam destravar e abrir o imensurável par de portais do mais escuro ébano jamais visto. As duas partes negras da entrada do templo estavam, em fim, se preparando para dar passagem a mim e a meu guia através das esferas da sabedoria suprema.

O lado de dentro era de uma escuridão indescritível. Tão terrível era, e tão espessa, que tornou mais claros os próprios portais de madeira negra. E de lá senti bafejar em meu rosto como que o hálito de algo que estivesse morto.

Ouvi então a voz da grande mãe retumbar de algum lugar na imensidão escura à minha frente:

"Vão agora, pupilo e seu guia! Penetrem o primeiro estágio de um aprendizado de reis. Rápido! Thamuz, o embaixador, os espera para apresentá-los; e ele, sendo mais velho que o tempo, já não tem mais paciencia!"


Assim, em meio à nova algazarra de bandos de seres fantásticos de outros universos, adentrei o mundo maravilhoso das trevas na companhia reconfortante e segura do grande deus Pã. Aqui e ali, me ia indicando coisas preciosas espalhadas por todos os lados na escuridão.

Durante mil anos eu vivi em meio às potências de um cosmos paralelo; e de suas mentes inconformadas e raivosas apreendi muito mais que qualquer ser jamais foi capaz. Foi nos abismos tenebrosos, mergulhando nas asas de criaturas ignóbeis, que conheci os segredos deste e todos os mundos. Na presença de mestres indizíveis, habitantes de fossos miasmáticos, eu labutei; e o fruto de meu trabalho e de meu esforço foi amplamente compensador.

Pisei no mundo dos homens novamente apenas no seculo III e, até o século XIX, ergui um império terrestre de ideais em nome de minha mãe. Muitas histórias colecionei e muitos homens eu trouxe à luz de minha causa, que é a causa dos titâs subterrâneos.

Sempre estiveram comigo os senhores sazonais, da natureza, aqueles desprezados e difamados pelas doutrinas oficiais e muitos deles, sobretudo nos anos setenta, tiveram a oportunidade de sentir o gosto da vingança no soerguimento de milhares de templos pagãos em torno do mundo.

Até hoje me contemplam os amigos dos bosques festivos. Posso vê-los em esquinas escuras e em fundos de bordéis. Posso vê-los correndo em quintais abandonados e estradas desertas. Às vezes escolho lugares ermos, na madrugada, para confabular com a deusa maior que ainda me orienta com respeito e ternura; e sempre com ela vem Pã, o meu amoroso guia.

Evito, no entanto, aproximar-me demasiado do templo onde tudo começou pois durante minha estada nos domínios da grande ciência, além de bons amigos e irmãos, fiz também infernais inimigos; criaturas invejosas de meu poder e intelecto que não hesitariam em destroçar minha alma passando mesmo por cima da autoridade de minha mãe. Mesmo assim, de século em século, me esgueiro sorrateiramente até as bordas do mundo de onde posso ver os portais de ébano de Dharan-Tyr, na Swyrnea, e são poucas as vezes em que não posso avistar a madeira negra estremecendo com os impactos das potestades trancafiadas lá dentro, impacientes.



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N. do A.: A referência ao "Grande Deus Pan" é uma homenagem ao grande escritor galês Arthur Machen; gênio das narrativas fantásticas cuja obra "The Great God Pan", que continua inexplicavelmente inédita no Brasil, figura entre as mais importantes da história da literatura fantástica.

*A expressão refere-se aos templos do mundo cristão com suas portas sempre fechadas, impedindo a entrada dos fiéis na hora em que não é conveniente.



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15.6.09

VAMPIROS DE MONDELLE


VAMPIROS DE MONDELLE
Henry Evaristo

Na pequena vila de Mondelle é crença corrente que aquele que morre sem batismo, e assolado pelas malignidades da floresta em meio à selvageria da natureza, irá invariavelmente retornar à vida como um ser demoníaco; uma besta feroz que buscará primeiro manter contato com seus parentes e amigos mas depois passará também a assolar toda a comunidade para saciar sua recém adquirida necessidade pela carne e o sangue alheios.

No LUNIS DAËMONIUM*, o místico europeu Moranus Malgred narra o insólito episódio ocorrido nesta localidade no ano do senhor de 1518.

Naquele tempo Mondelle contava com uma população máxima de 20 famílias estabelecidas em choupanas de pedra incrustadas numa região constantemente açoitada por nevascas e ventos violentos. Isolada das localidades vizinhas por centenas de quilômetros de montanhas intransponíveis que abrigavam densas florestas escuras.

Numa certa noite de inverno, quando a temperatura beirava os 10 graus negativos, e o vento cortante penetrava a carne dos incautos como a adaga gélida de algum assassino louco, um homem voltou terrivelmente doente de uma caçada que tentara empreender sozinho. Aventurara-se para além das montanhas mais próximas, numa região onde ninguém jamais ousava se aventurar.

Após três dias perdido ele reapareceu cambaleando pelas ruas da vila, indo depois bater à porta de Denethor, o lider.

A algazarra, rompendo o silencio da madrugada, atraiu a curiosidade dos moradores guiando-os à casa onde o estranho homem procurara abrigo. Lá encontraram uma figura como jamais esperariam. O homem forte e viril que partira há três dias retornara pálido e transtornado. Sua roupa parecia flutuar em torno do corpo; a pele estava lacerada nas extremidades das mãos e em torno dos lábios. Seus olhos eram circundados por olheiras profundas e cobertos por vasos dilatados e vermelhos. Os dentes enegrecidos quebravam-se com facilidade e toda a pele estava coberta por manchas intumescidas que exalavam um odor pútrido. As mãos estavam encarquilhadas, com os dedos encolhidos como se dominados pela artrite; e de suas pontas projetavam-se unhas anormais, enormes e amareladas.

Na manhã seguinte, o doente foi levado à casinha de pedra bruta onde vivia com a mulher e a única filha. Por duas semanas convalesceu, e levou a vila às raias da loucura.

Com o cair da noite corria à janela do quarto e lá ficava imóvel olhando fixamente para algum ponto além das montanhas. Às vezes fitava a entrada da floresta e, sempre que estava assim, sua familia jurava que ele conversava discretamente com alguém. A menina, de 15 anos, o ouvira certa feita, ao entardecer. Parecia implorar em murmúrios alguma coisa para algo que certamente se encontrava do lado de fora da casa.

Havia noites, no entanto, que as coisas iam muito além dos limites daquele estranho lar e a vila inteira não podia dormir por causa dos horríveis gritos que o homem emitia. Como um lunático, ou coisa que o valha, ele simplesmente gritava, coisas ininteligíveis, para o lugar onde a floresta erguia-se como uma muralha escura e sinistra contra o céu revolto.

Nestas noites sua mulher precisava prendê-lo no quarto do casal onde ele, em seus acessos de fúria, despedaçava tudo o que encontrava. Davam-lhe água por debaixo da porta, deixavam comida, mas ele não tocava em nada e raramente ingeria qualquer tipo de alimento. Jamais era visto pelos outros moradores. Somente seus lamentos, ecoando através das madrugadas, eram o testemunho de que ainda existia sobre a face da terra.

No comércio da vila, a esposa queixara-se com algumas velhas conselheiras sobre o fato de que o marido não a procurava mais e que, na verdade, a evitava a todo o custo. Não esqueceu de mensionar o fato de que mesmo quando era preciso trancafiá-lo, ainda assim, no meio da noite, podia jurar vê-lo parado à porta do quarto onde ela fingia dormir junta à filha. E estremeceu ao revelar que não mais via nele o seu companheiro de outrora; não via nada se não o esconderijo de alguma coisa maligna prestes a irromper. Entre lágrimas incontidas, disse às anciãs que sentia isso todas as vezes em que podia ver o brilho de seus olhos atravessando a escuridão do quarto da menina como se estudasse as duas deitadas na cama; mas não com o olhar de um pai cuidadoso e sim com o semblante das feras perigosas.

Certa vez, tomada de medo e tristeza, a esposa teve um rompante de desespero. Agredida severamente ao tentar conter o marido que esmurrava loucamente as pedras ásperas da janela, resolveu sair da casa e procurar o alvo de toda a atenção doentia do homem. Deu a volta na propriedade imersa na escuridão e parou na frente da janela de onde ele espiava, pálido e com olhos vítreos, o inicio da floresta. O viu então erguer a mão e, com o indicador em riste, apontar para a escuridão além. Com um movimento rápido da cabeça, seguindo a orientação do companheiro, a mulher olhou. E começou a gritar.

Saindo da floresta e já a pouca distancia, vinha uma criatura correndo pelo campo na direção da casa. Uma fera negra que se arrastava pelo solo semi-encoberta por um par de asas imensas que a faziam saltitar na noite fria. Era muito alta e exalava um odor terrível de terra e carne em decomposição. Uma monstruosidade suja que se aproximava inexoravelmente.

Nada restou à mulher a não ser fechar os olhos e encolher-se sobre si mesma, ajoelhando-se com as mãos na cabeça. A coisa parou diante dela, e depois aproximou-se tanto à ponto de ouvir-lhe as preces; a hedionda respiração emitindo jatos de vapor branco em contato com o ar frio. Com a cabeça baixa, e os olhos semiserrados, a mulher viu que as patas do ser assemelhavam-se às dos pássaros; mas, escuras e ressequidas como as dos roedores, possuíam terríveis garras de águia.
Pôde também sentir o hálito fétido que brotava da boca demoníaca. E quase desfaleceu quando gotas de alguma substância pegajosa lhe caíram sobre os cabelos castanhos.

De súbito, um grito agudo ecoou do interior do quarto logo acima. A filha do casal acordara e correra para junto de seu pai. A criatura então ergueu-se e, sem aviso, mergulhou para dentro da casa através da janela.

Foi o desespero da mulher que acordou toda a vila, não os primeiros gritos, quando a intervenção alheia talvez tivesse ajudado; mas sim os últimos, quando apenas dois corpos dilacerados eram os ocupantes da fria casa de pedra.

Com tochas nas mãos e em roupas de dormir, os outros moradores de Mondelle depararam-se com a cena escabrosa do lado de dentro. Pai e filha jaziam no chão do quarto revirado. Tinham sinais de mordidas de animal por todo o corpo mas nenhum dos terríveis ferimentos vertia uma só gota de sangue.

Encontraram a esposa nos arredores da cidade, completamente insana. Enviaram-na depois para Lyniard, uma cidade maior, onde trancafiaram-na numa casa de loucos. Ali morreu, pouco tempo depois, ao tentar escapar de sua cela para fugir de algo que se esgueirava pelas paredes. Estava então acometida de uma estranha doença que lhe causava manchas pelo corpo e um terrível mal cheiro.

Quanto ao povo da vila, manteve-se em resoluto silencio. Nem uma palavra jamais foi dita a nenhum forasteiro sobre o assunto. Mas todos souberam exatamente o que ocorrera à malfadada familia do caçador. Jamais pairou a menor dúvida de que sua morte se dera ainda no interior da floresta maligna, e nem tampouco a respeito de que tipo de criatura infernal aquilo que retornara estava se tornando quando resolveu se rebelar e foi exterminado.

Mesmo sem explicar absolutamente nada a quem quer que fosse, uma muralha foi erguida nos limites de Mondelle; algo que pudesse dar esperanças aos moradores de que as feras diabólicas do bosque não mais iriam tentar intervir em suas vidas pacatas.

Houve ainda um outro motivo para a construção, às pressas, da enorme barreira de pedras e madeira; ela ocorreu logo após começarem os relatos da aparição de uma estranha mulher que parecia espreitar pelos arredores depois do entardecer.

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* LUNIS DAËMONIUM = Livro imaginário

Este conto foi escrito em meados dos anos 90. Fazia parte do romance PEGAR UM VAMPIRO VIVO, cujo projeto foi abortado há mais de dez anos. Hoje, 15/06/2009, reencontrei este trecho manuscrito em um velho caderno e o disponibilizo agora para os amigos de minha obra.



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Leituras para esta publicação

1.6.09

O HORLA, de Guy De Maupassant

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Depois de muito tempo de pesquisas, finalmente a Câmara pode oferecer a seus leirtores mais este conto clássico e obrigatório. Escrito pelo mestre Maupassant, O Horla é um dos contos mais impressionantes deste gênero; um dos mais importantes textos de literatura fantástica de todos os tempos. Um presente para os amigos das sombras. Boa leitura!



O Horla

Guy de Maupassant

8 de maio. Que dia lindo! Passei a manhã toda deitado na relva, na frente de casa, sob o enorme plátano que a encobre toda. Gosto desta região, de viver aqui, pois aqui estão velhas recordações, aquelas raízes profundas e delicadas que prendem o homem ao solo onde seus antepassados nasceram e morreram, que o ligam às idéias e costumes do lugar e também, à comida às expressões locais, ao cheiro da terra do próprio ambiente.


Adoro a casa onde cresci. Das janelas, vejo o Sena, correndo ao lado do jardim, no outro lado da estrada, quase atravessando minhas terras, o grandioso e extenso Sena, que vai a Rouen e a Havre, apinhado de barcos que passam para lá e para cá.


Lá embaixo, a esquerda, está a grande cidade de Rouen, com seus telhados azuis e pontiagudas torres góticas. Estas últimas são incontáveis, largas ou estreitas, dominadas pela espiral da catedral e cheias de sinos que tocam no ar azul de belas manhãs, enviando até minha casa seu doce e distante tinido, canção de metal que a brisa impele em minha direção, ora forte, ora débil, conforme a intensidade do vento.


Como a manhã estava agradável!Lá pelas onze horas, uma longa fila de barcos. puxados por um rebocador do tamanho de uma mosca, que mal conseguia resfolegar enquanto soltava espessa fumaça, passou em frente a meu portão.


Depois de duas escunas inglesas. com a bandeira vermelha ondulando ao vento, passou um magnífico barco brasileiro de três mastros, todo branco, muito limpo e lustroso. Saudei-o, sem saber bem por quê, a não ser que a visão do navio deu-me grande prazer.


12 de maio. Tenho estado um pouco febril nos últimos dias e sinto-me doente, ou antes, desalentado.De onde vêm essas misteriosas influências que transformam a alegria em desânimo e a autoconfiança em acanhamento? Poder-se-ia quase dizer que o ar, o ar invisível, está cheio de forças incompreensíveis, cuja presença misteriosa temos de suportar. Acordo com a melhor disposição, sentindo vontade de cantar. Por quê? Desço até a beira da água e, de repente, depois de andar um pouco, volto para casa infeliz, como se uma desgraça estivesse esperando por mim. Por quê?Seria um calafrio que me passou pela pele e abalou meus nervos, deixando-me desanimado? Seria a forma das nuvens, a cor do céu ou dos objetos ao redor de mim tão inconstante, que perturbou meus pensamentos, quando passaram diante de meus olhos?Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem querer, tudo o que manejamos sem sentir, tudo o que encontramos sem ver claramente, tem rápida, surpreendente e inexplicável influência sobre nós e nossos sentidos e, através destes, em nossas idéias e até em nosso coração.


Como esse mistério do Invisível é profundo! Não podemos compreendê-lo com nossos sentidos miseráveis, olhos incapazes de perceber o que for muito grande ou muito pequeno, esteja muito perto ou muito longe: nem os habitantes de uma estrela, nem os de uma gota de água. Nem com ouvidos que nos enganam, pois transmitem-nos as vibrações do ar em notas sonoras. São fadas que realizam o milagre de mudar essas vibrações em sons e, por meio dessa metamorfose, fazem surgir a música que transforma o silencioso movimento da natureza... nem com o sentido do olfato, menos aguçado que o de um cão... nem com o sentido do paladar, que mal percebe a idade do vinho!Como seria bom se tivéssemos outros órgãos que realizassem outros milagres a nosso favor! Quantas coisas novas poderíamos descobrir a nossa volta!

16 de maio. Positivamente, estou doente! E estava tão bem no mês passado! Estou com febre, horrivelmente febril, ou melhor, em um estado de debilitação febril, que faz a alma sofrer tanto quanto o corpo. Tenho, continuamente, a horrível sensação de perigo iminente, o receio de alguma futura desgraça ou da morte próxima. Pressentimento que é, sem dúvida, o acesso de uma doença ainda desconhecida, que germina na carne e no sangue.

17 de maio. Acabo de consultar o médico, pois não conseguia mais dormir. Ele disse que o pulso estava rápido, os olhos, dilatados, os nervos, à flor da pele, mas que não encontrou sintomas alarmantes. Devo tomar algumas duchas e brometo de potássio.

25 de maio. Nenhuma mudança! Meu estado é realmente estranho. Quando a noite se aproxima, sou invadido por uma incompreensível sensação de intranqüilidade, como se a noite escondesse alguma catástrofe ameaçadora. Janto às pressas e então procuro ler, mas não compreendo as palavras e mal distingo as letras. Caminho de um lado para outro da sala, acabrunhado por uma sensação confusa de medo irresistível, medo do sono e medo da cama.

Lá pelas dez horas subo ao quarto. Assim que entro dou duas voltas à chave e ponho a tranca na porta. Tenho medo... de quê? Até há pouco, não tinha medo de nada... Abro os armários e olho embaixo da cama. Escuto... o quê? Não é estranho que uma simples sensação de mal-estar, a má circulação, talvez a irritação de um filamento nervoso, uma ligeira congestão, um pequeno distúrbio no imperfeito e delicado funcionamento de nosso mecanismo vivo, possa transformar o mais despreocupado dos homens em melancólico e em covarde o mais valente?

Vou para a cama e espero o sono como um homem que espera o carrasco. Com medo, espero sua chegada, o coração bate e as pernas tremem e todo o corpo tem calafrios debaixo do calor das cobertas, até que adormeço de repente, como alguém que mergulhasse em uma poça de água estagnada a fim de afogar-se. Não o sinto vir como antigamente, este traiçoeiro sono que está perto de mim, vigiando-me e que vai agarrar-me pela cabeça, fechar meus olhos e aniquilar-me.

Durmo... bastante tempo... talvez duas ou três horas... Então um sonho... não... um pesadelo apossa-se de mim. Sinto que estou na cama, dormindo... Sinto e sei disso... e sinto também que alguém se aproxima, olha-me, toca-me, sobe em minha cama, ajoelha-se sobre meu peito, toma meu pescoço entre as mãos e o aperta... aperta com toda a força a fim de estrangular-me.

Luto, dominado por aquela terrível sensação de impotência que nos paralisa durante os sonhos. Tento gritar... mas não consigo. Quero mover-me... não consigo. Faço os mais violentos esforços, respiro fundo, para tentar virar-me e derrubar essa criatura que está me esmagando, me sufocando... não consigo!

E, então, acordo de repente, tremendo e banhado em suor. Acendo uma vela e descubro que estou sozinho. Depois dessa crise, que acontece todas as noites, finalmente caio no sono e durmo em paz até de manhã.

2 de junho. Meu estado de saúde piorou. O que está acontecendo comigo? O brometo não está adiantando de nada e as duchas não produzem resultado. As vezes, a fim de ficar bem cansado, embora já esteja bastante fatigado, vou dar um passeio na floresta de Roumare. Costumava pensar que o ar fresco, leve e suave, impregnado do cheiro de ervas e folhas, instilaria sangue novo em minhas veias e daria nova energia a meu coração. Enveredava por uma larga estrada de caça e então seguia na direção de La Bouille, por uma estreita trilha entre duas fileiras de árvores de uma altura descomunal, que formavam um espesso teto de um verde quase negro entre o céu e eu.

Um repentino arrepio percorreu-me a espinha, não de frio, mas um estranho arrepio de agonia. Apressei o passo, apreensivo por estar sozinho na floresta, estupidamente amedrontado sem razão, por causa da completa solidão. De repente pareceu-me estar sendo seguido, que havia alguém nos meus calcanhares, perto, bem perto de mim, próximo o bastante para tocar-me.Voltei-me precipitadamente, mas estava só. Nada vi atrás de mim, exceto a larga trilha reta, vazia, cercada de altas árvores, horrivelmente vazia; à minha frente também se estendia a perder de vista, parecendo sempre a mesma, terrível.

Fechei os olhos. Por quê? Comecei a rodar como pião, bem depressa. Quase caí e abri os olhos: as árvores dançavam ao meu redor e a terra girava. Fui obrigado a sentar-me. E, então, que idéia estranha! Não sabia de mais nada. Saí para a direita e voltei à avenida que me conduzira ao centro da floresta.

2 de junho. Passei uma noite horrível. Vou partir por algumas semanas, pois sem dúvida uma viagem me fará bem.

2 de julho. Voltei, completamente curado e ainda fiz ótima viagem. Fui ao Mont-Saint-Michel, que ainda não conhecia.

Que vista, quando se chega a Avranches como eu, quase no fim do dia! A cidade está sobre uma colina e fui conduzido ao jardim público, nos limites da cidade. Dei um grito de assombro! Uma enorme baía estendia-se diante de mim, até onde os olhos alcançavam, entre duas colinas que a neblina impedia de serem vistas. No meio dessa imensa baía, sob um claro céu dourado, erguia-se uma estranha colina, sombria e pontiaguda, no meio da areia. O sol acabara de se pôr e, no horizonte ainda flamejante, aparecia o contorno do fantástico rochedo com um fantástico monumento em seu cume.

Quando raiou o dia, fui para lá. Como na noite anterior, a maré estava baixa e vi diante de mim a admirável abadia, cada vez mais próxima. Depois de andar algumas horas, alcancei a enorme massa de rochas sobre a qual se localiza a cidadezinha, dominada pela grande igreja. Depois de subir a rua íngreme e estreita, entrei no mais admirável edifício gótico já construído para Deus na terra, grande como uma cidade, cheio de salas de teto baixo que parecem enterradas sob abóbadas e de grandiosas galerias sustidas por delicadas colunas.

Entrei nessa gigantesca jóia de granito, leve como renda, coberta de torres, com esguios campanários de escadas em caracol, que erguem as estranhas cabeças eriçadas de quimeras, de demônios, de animais fantásticos, com flores monstruosas, para o céu azul durante o dia e negro à noite, e são ligados por arcos finamente entalhados.Quando cheguei ao ponto mais alto da abadia, disse ao monge que me acompanhava:

Padre, como devem ser felizes aqui!

Ao que respondeu:

- Venta muito, monsieur!

Começamos a conversar, enquanto assistíamos à subida da maré, que corria pela areia, e parecia cobri-la com uma couraça de aço.

O monge contou-me histórias, todas as velhas histórias do lugar, lendas, nada mais que lendas.

Uma delas impressionou-me bastante. Os camponeses, aqueles que fazem parte do lugar, dizem que à noite podem-se ouvir vozes nas areias e depois duas cabras balindo, uma com voz forte, a outra com voz fraca. As pessoas incrédulas afirmam que é apenas o grito das aves do mar, que às vezes parecem balidos e, outras, lamentos humanos. Todavia, pescadores que se atrasaram para voltar juram ter encontrado um velho pastor vagando, entre uma maré e outra, pelas areias ao redor da cidadezinha. Traz a cabeça totalmente coberta por um manto e é seguido por um bode com cara de homem e uma cabra com cara de mulher, ambos com longos cabelos brancos, falando sem parar e discutindo em uma língua desconhecida. Calam-se de repente e começam a balir a plenos pulmões.

- Acredita nisso? - perguntei ao monge.

- Não sei ao certo - retrucou.

Continuei:

- Se existem outras criaturas na terra além de nós, como ainda não as conhecemos e por que vocês ainda não as viram? Como é que eu ainda não as vi?

Respondeu:

- Será que vemos a centésima milésima parte do que existe? Olhe aqui, aí está o vento, a maior força que existe na natureza, que derruba homens e edifícios, destrói penhascos e joga grandes navios contra os rochedos, o vento que mata, que assobia, que suspira, que ....... já o viu? Pode vê-lo? Apesar disso, no entanto, ele existe!

Calei-me diante desse raciocínio tão simples. Aquele homem era um filósofo ou, talvez, um tolo. Não saberia dizer qual, exatamente, por isso fiquei quieto. O que dissera, eu já havia pensado muitas vezes.

3 de julho. Dormi mal. Certamente há alguma influência febril aqui, pois meu cocheiro está sofrendo exatamente como eu. Ontem, quando voltei para casa, notei que estava muito pálido e lhe perguntei:

- O que tem, Jean?

- Não consigo repousar, e as noites devoram meus dias. Desde que partiu, monsieur, parece que estou enfeitiçado. Entretanto, os outros criados estão todos bem. Estou com muito medo de ter outro ataque.

4 de julho. Estou de novo doente, pois meu antigo pesadelo voltou. A noite passada, senti alguém inclinando-se sobre mim e sugando minha vida por entre meus lábios. Sim, estava sugando-a de minha garganta, como uma sanguessuga. Depois, levantou-se, saciado, e acordei, tão cansado, esmagado e fraco que não conseguia mover-me. Se isso continuar por mais alguns dias, viajarei novamente.

5 de julho. Será que estou louco? O que aconteceu a noite passada é tão estranho que perco a cabeça só de pensar!

Trancara a porta, como faço todas as noites, e, tendo sede, bebi meio copo de água, notando, por acaso, que a garrafa de água estava cheia até o gargalo.

Fui para a cama e passei por um de meus sonhos terríveis, do qual acordei cerca de duas horas depois, com um choque ainda maior.

Imagine um homem adormecido sendo assassinado e que acorda com uma faca no pulmão e cuja respiração está arquejante, coberto de sangue, que não consegue mais respirar, está quase morrendo e não compreende... aí está.

Tendo recuperado os sentidos, senti sede novamente, por isso acendi uma vela e fui até a mesa onde estava a garrafa de água. Ergui-a e virei-a sobre o copo, mas nada saiu. Estava vazia! Completamente vazia! A princípio não consegui entender absolutamente nada. Mas, de repente, tive uma sensação tão horrível que precisei sentar-me, ou melhor, caí numa cadeira! Saltei da cadeira e olhei à volta, sentei-me de novo, tomado de espanto e medo, em frente à garrafa de cristal. Encarava-a, tentando adivinhar, e minhas mãos tremiam. Alguém bebera a água, mas quem? Eu? Eu, sem dúvida. Só poderia ter sido eu. Nesse caso era sonâmbulo. Vivia, sem saber, a misteriosa vida dupla que nos faz pensar que talvez existam duas criaturas dentro de nós ou que um ser estranho, incompreensível e invisível, anima nosso corpo cativo que o obedece como a nós e mais do que a nós, quando nossa alma está entorpecida.

Quem entenderá minha terrível agonia? Quem entenderá a emoção de um homem, são de espírito, completamente acordado, cheio de bom senso, que procura através do cristal de uma jarra um pouco de água que desapareceu enquanto dormia?

Fiquei nessa posição, até o dia surgir, sem me arriscar a voltar para a cama.

6 de julho. Estou ficando louco. Mais uma vez todo o conteúdo da jarra de água foi tomado durante a noite... ou melhor, eu o bebi!Mas será que sou eu? Sou eu? Quem poderia ser? Quem? Oh, meu Deus! Estou ficando louco? Quem me salvará?10 de julho. Acabo de passar por surpreendentes experiências. Decididamente, estou louco! Todavia...

A 6 de julho, antes de ir para a cama, coloquei vinho, leite, água, pão e morangos sobre a mesa. Alguém bebeu, eu bebi, toda a água e um pouquinho do leite, mas o vinho, o pão e os morangos não foram tocados.

Em 7 de julho, repeti a mesma experiência, com os mesmos resultados, e em 8 de julho não deixei água nem leite, e nada foi tocado.

Por fim, 9 de julho, deixei sobre a mesa apenas água e leite, tomando o cuidado de envolver os frascos em musselina branca e de amarrar as tampas. Esfreguei os lábios, a barba e as mãos com grafita e me deitei.Um sono irresistível se apossou de mim, seguido de um terrível despertar. Não me movera, não havia marcas de grafita nos lençóis. Corri até a mesa. A musselina ao redor dos frascos estava intacta. Desamarrei as tampas, tremendo de medo. Toda a água fora bebida, assim como o leite! Meu Deus! Preciso partir imediatamente para Paris.

Paris, 12 de julho. Devo ter perdido a cabeça nos últimos dias. Devo ser joguete de minha imaginação exacerbada, a menos que seja realmente sonâmbulo ou que tenha estado sob o poder daquelas influências até agora sem explicação, chamadas sugestões. Em todo caso, meu estado mental chegava às raias da loucura, e vinte e quatro horas em Paris bastaram para restaurar meu equilíbrio.

Ontem, depois de resolver alguns negócios e fazer algumas visitas que instilaram em minha alma ar novo e revigorante, terminei a noite no Théâtre-Français. Estava sendo apresentada uma peça de Alexandre Dumas, filho, e sua imaginação ativa e poderosa completou minha cura. É certo que a solidão é perigosa para as mentes ativas. Precisamos de homens que saibam pensar e conversar. Quando ficamos sozinhos por muito tempo, povoamos o espaço com fantasmas.

Pelos bulevares, voltei ao hotel muito bem-humorado. No meio dos empurrões da multidão, pensava, não sem uma ponta de ironia, em meus terrores e conjeturas da semana anterior, porque acreditara (sim, acreditara) que uma criatura invisível vivia debaixo de meu teto. Como nosso cérebro é fraco, como se assusta à toa e é induzido a erro por um pequeno fato incompreensível!

Em vez de dizer apenas: "Não entendo porque não conheço a causa", imaginamos imediatamente mistérios terríveis e forças sobrenaturais.

14 de julho. Festa da República. Passeei pelas ruas, entusiasmado com os fogos e as bandeiras, como uma criança. Ainda assim, é tolice ficar alegre em data marcada, obedecendo a um decreto do governo. O populacho é um imbecil rebanho de carneiros, de uma paciência estúpida ou com uma revolta feroz.

Digam-lhe: "Divirtam-se", e o povo se diverte. Digam-lhe: "Vão lutar com o vizinho", e o povo vai e luta. Digam-lhe: "Votem pelo imperador", e o povo vota pelo imperador. Então digam-lhe: "Votem pela República". e o povo vota pela República.

Os que dirigem o povo também são estúpidos, só que, ao invés de obedecer aos homens, obedecem aos princípios que só podem ser estúpidos, estéreis e falsos, pela simples razão de serem princípios, isto é, idéias consideradas como certas e imutáveis, neste mundo, onde não se tem certeza de nada, já que a luz é uma ilusão, já que o barulho é uma ilusão.

16 de julho. Ontem vi uma coisa que me deixou muito preocupado.

Jantava em casa de minha prima, Mme. Sable, cujo marido é coronel no 76° Batalhão de Caçadores, em Limoges. Estavam lá duas jovens, uma delas casada com um médico, Dr. Parent, especialista em doenças nervosas e que dá muita atenção às notáveis manifestações causadas pela influência do hipnotismo e da sugestão.

Contou-nos com alguns detalhes os maravilhosos resultados obtidos por cientistas ingleses e médicos da escola de Nancy, e os fatos que expôs pareceram-me tão estranhos que me declarei completamente incrédulo.

- Estamos prestes a descobrir um dos mais importantes segredos da natureza, isto é, um dos mais importantes segredos nesta terra, pois certamente existem outros, de outra espécie de importância, lá em cima, nas estrelas - disse ele.

- Desde que o homem começou a pensar, desde que conseguiu expressar e anotar os pensamentos, tem-se sentido próximo a um mistério inacessível a seus sentidos incompletos e imperfeitos. Procura, então, suprir a ineficiência dos sentidos por meio do intelecto. Enquanto o intelecto manteve-se em um estágio rudimentar, as aparições dos espíritos invisíveis assumiam formas comuns, embora assustadoras. Daí surgiu a crença popular no sobrenatural, as lendas das almas penadas, fadas, gnomos, fantasmas, posso mesmo dizer, a lenda de Deus, pois nossa concepção do artífice-criador, seja qual for a religião que no-la transmitiu, é certamente a mais vulgar, estúpida e inacreditável invenção que já saiu do cérebro amedrontado dos seres humanos. Nada é mais verdadeiro do que o dito de Voltaire: "Deus criou o homem à Sua imagem, mas o homem pagou-lhe na mesma moeda". Entretanto - continuou o Dr. Parent -, há cerca de um século, os homens parecem pressentir algo novo. Mesmer e outros conduziram-nos a uma trilha inesperada e, principalmente nos últimos dois ou três anos, conseguimos resultados realmente surpreendentes.

Minha prima, também muito incrédula, sorriu, e o Dr. Parent disse-lhe:- Gostaria que eu tentasse fazê-la dormir, madame?

- Sim, certamente.

Ela sentou-se em uma poltrona, e ele começou a olhá-la fixamente, como se quisesse encantá-la. Comecei a sentir-me pouco à vontade, com o coração batendo e uma sensação sufocante na garganta. Vi os olhos de Mme. Sable tornarem-se pesados, a boca crispar-se e o peito arfar. Em dez minutos estava dormindo.

- Fique atrás dela - disse-me o médico.

Sentei-me atrás dela. Pôs um cartão de visitas entre as mãos dela e lhe disse:

- Isto é um espelho. O que vê nele?

Ela respondeu:

- Vejo meu primo.

- O que ele está fazendo?

- Torcendo o bigode.

- E agora?

- Está tirando uma fotografia do bolso.

- Fotografia de quem?

- Dele mesmo.

Era verdade. A fotografia fora-me entregue no hotel aquela noite.

- Como é a foto?

- Ele está em pé, com o chapéu na mão.

Enxergava, pois, naquele cartão, naquele pedaço de papelão branco, como se olhasse através de um espelho.

As jovens ficaram assustadas e exclamaram:

- Chega! Já chega!

Mas o médico ordenou a Mme. Sable:

- Levante-se amanhã às oito horas, vá visitar seu primo no hotel e peça-lhe cinco mil francos emprestados que seu marido está precisando e que exigirá da senhora quando partir para a próxima viagem.

Depois disso, o médico acordou-a.

Na volta ao hotel, fui meditando sobre essa curiosa sessão. Enchia-me de dúvidas, não quanto à absoluta e sincera boa-fé de minha prima, pois conhecia-a como a uma irmã desde criança, mas quanto a um possível truque da parte do médico. Não teria, talvez, um espelho escondido na mão, mostrando à jovem adormecida, ao mesmo tempo que mostrou o cartão? Os mágicos fazem coisas desse tipo.

Cheguei ao hotel e fui para a cama. Esta manhã, mais ou menos às oito e meia, o criado de quarto acordou-me e disse-me:

- Mme. Sable pede para vê-lo imediatamente, monsieur.

Vesti-me às pressas e fui recebê-la.

Sentou-se um tanto preocupada, de olhos baixos e, sem erguer o véu do chapéu, disse-me:

- Caro primo, vim pedir-lhe um grande favor.

- Que favor, minha prima?

- Não quero pedir-lhe, mas tenho de fazê-lo. Preciso urgentemente de cinco mil francos.

- O quê? Você?

- Sim, eu, ou melhor, meu marido pediu-me para consegui-los.

Fiquei tão atônito que gaguejava as respostas. Perguntava-me se ela não estaria zombando de mim, juntamente com o Dr. Parent, se tudo não seria apenas uma bem ensaiada farsa. Olhando-a atentamente, entretanto, todas as minhas dúvidas desapareceram. Estava trêmula de desgosto, pois essa atitude lhe era penosa, e percebi que a garganta lhe travava os soluços.

Sabia que era muito rica, por isso continuei:

- Como? Seu marido não tem cinco mil francos à disposição? Vamos, pense. Tem certeza de que ele a encarregou de consegui-los?

Hesitou alguns segundos, como se fizesse grande esforço de memória e respondeu:

- Sim... sim, tenho certeza.

- Ele lhe escreveu?Hesitou novamente e refletiu. Percebi a tortura de seus pensamentos. Não sabia. Sabia apenas que tinha de conseguir comigo cinco mil francos emprestados para seu marido. Assim, mentiu:

- Sim, escreveu-me.

- Rogo-lhe que me diga quando ele o fez. Não falou sobre isso ontem.

- Recebi a carta hoje pela manhã.

- Pode mostrá-la para mim?

- Não... não... continha assuntos íntimos... coisas muito pessoais... Queimei-a.

- Então seu marido está endividado?

Hesitou mais uma vez e murmurou:
- Não sei.

Disse-lhe sem cerimônia:

- No momento não posso dispor de cinco mil francos, cara prima.

Deu um grito, como se estivesse sentindo alguma dor e disse:- Oh, suplico-lhe, rogo-lhe que os consiga para mim...

Parecia perturbada e juntava as mãos como a implorar-me! Sua voz mudou de tom. Chorava e gaguejava, inquieta e dominada pela ordem irresistível que recebera.

- Por favor, imploro-lhe... se soubesse o que estou sofrendo... preciso do dinheiro hoje.

Fiquei com pena:

- Você terá daqui a pouco, juro.

- Obrigada, obrigada. Agradeço-lhe muito.

- Lembra-se do que aconteceu em sua casa ontem à noite? - continuei.

- Sim.

- Lembra-se de que o Dr. Parent fez você dormir?

- Sim.

- Muito bem então. Mandou que viesse procurar-me esta manhã e pedisse cinco mil francos emprestados. Neste momento, você está obedecendo a essa sugestão.

Refletiu por alguns momentos e respondeu:

- Mas é como Se meu marido precisasse deles...Durante uma hora tentei convencê-la, sem conseguir. Quando se foi, procurei o médico. Estava de saída, ouviu-me com um sorriso e disse:

- Acredita, agora?

- Sim, não tenho outra saída.

- Vamos à casa de sua prima.Ela já estava meio adormecida em uma espreguiçadeira, vencida pelo cansaço. O médico tomou-lhe o pulso, observou-a por algum tempo, com a mão erguida em frente aos olhos dela. Sob a irresistível influência de sua força magnética, fechou os olhos. Quando adormeceu, o médico disse:

- Seu marido não precisa mais dos cinco mil francos. Deve, portanto, esquecer que os pediu emprestado a seu primo e, se ele tocar no assunto, não entenderá de que se trata.

Acordou-a. Peguei a carteira e disse:

- Aqui está o que me pediu esta manhã, cara prima.

Ficou tão surpresa, que não me atrevi a insistir. Contudo, tentei fazê-la lembrar-se do que acontecera. Negou energicamente, achando que me divertia às suas custas e, no fim, quase perdeu a paciência.

Pronto! Acabo de chegar e não consegui almoçar, pois essa experiência deixou-me completamente abalado.

19 de julho. As pessoas a quem contei essa aventura riram-se de mim. Não sei mais o que pensar. Diz o sábio: "Pode ser!"

21 de julho. Jantei em Bougival e passei a noite em um baile de barqueiros. Decididamente, tudo depende do local e do ambiente. Seria muita tolice acreditar no sobrenatural quando se está na Île de la Grenouilliére... mas, e no Mont-Saint-Michel?... e na Índia? Somos terrivelmente influenciados pelo que nos rodeia. Na semana que vem, voltarei para casa.

30 de julho. Voltei ontem para casa. Tudo vai bem.2 de agosto. Nada de novo. O tempo está esplêndido e passo os dias a olhar o Sena.

4 de agosto. Desavenças entre os criados. Alegam que à noite os copos são quebrados nos armários. O criado acusa o cozinheiro, que acusa a costureira, que acusa os outros dois. Quem é o culpado? Só alguém muito esperto poderia dizer.

6 de agosto. Desta vez não estou louco. Eu vi... eu vi... não posso mais duvidar... eu o vi!As duas horas, em pleno sol, passeava entre as roseiras... entre as rosas de outono que começam a cair. Quando parei para olhar um géant de bataille, com três rosas esplêndidas, vi perfeitamente a haste de uma das rosas perto de mim inclinar-se, como se uma mão invisível a forçasse a quebrar-se, como se estivesse sendo colhida! Então, a flor ergueu-se, seguindo a curva que a mão teria feito ao levá-la até a boca e permaneceu suspensa no ar, sozinha e imóvel, terrível mancha vermelha, quase diante de meus olhos. Em desespero, corri para agarrá-la. Nada achei, ela desaparecera! Fiquei com muita raiva de mim mesmo, pois um homem sério e razoável não deveria ter tais alucinações.

Mas seria uma alucinação? Voltei-me para olhar a haste e encontrei-a imediatamente, na roseira, quebrada de pouco, entre duas rosas que continuavam no galho. Voltei para casa, bastante perturbado, pois estou certo agora, como certo estou da alternância entre o dia e a noite, de que existe perto de mim uma criatura invisível, que vive a leite e água, pode tocar objetos, pegá-los e mudá-los de lugar, sendo, portanto, dotado de natureza material, embora seja imperceptível a nossos sentidos. Vive como eu, debaixo de meu teto...

7 de agosto. Dormi tranqüilamente. Ele bebeu a água da garrafa, mas não perturbou meu sono. Pergunto a mim mesmo se não estarei louco. Agora mesmo, passeando ao sol à beira do rio, tive dúvidas quanto a minha sanidade. Não dúvidas vagas como as que tive ultimamente, mas dúvidas absolutas e precisas. Já vi gente louca e conheci alguns loucos que são inteligentes, lúcidos, até mesmo perspicazes em tudo, exceto em um ponto. Falavam pronta, clara e profundamente sobre todos os assuntos, até que, de repente, a mente ia de encontro aos escolhos de sua loucura, partia-se ali e se dispersava e debatia naquele mar furioso e terrível, cheio de ondas agitadas, de neblina e pés-de-vento, que se chama Loucura.

Com certeza eu deveria pensar que estava louco, completamente louco, se não estivesse consciente, não conhecesse perfeitamente meu estado, não o analisasse com a mais completa lucidez. De fato, devo ser apenas um homem racional, sofrendo uma alucinação. Deve ter surgido em minha mente algum distúrbio desconhecido, um dentre aqueles que os fisiólogos modernos tentam observar e confirmar. Esse distúrbio deve ter causado profunda brecha na minha mente e na seqüência lógica das idéias. Fenômenos semelhantes acontecem nos sonhos que nos levam a imaginar coisas irreais, sem nos causar surpresa, porque o aparelho de verificação, nosso órgão de controle está adormecido, enquanto a faculdade da imaginação está acordada e ativa.

Não é possível que uma das imperceptíveis unidades do teclado cerebral tenha ficado paralisada em mim? Alguns homens perdem a lembrança de nomes próprios, de verbos ou números, os simplesmente de datas, como conseqüência de algum acidente. A localização de todas as variações de pensamento já está estabelecida atualmente. Por que, então, seria surpreendente se minha faculdade de controlar a irrealidade de algumas alucinações estivesse temporariamente adormecida?

Pensava em tudo isso, enquanto andava pela beira da água. O sol brilhava intensamente sobre o rio e tornava a terra agradável, enchendo-me de amor pela vida, pelas andorinhas cuja agilidade sempre encanta meus olhos, pelas plantas à beira do rio, de cujas folhas o farfalhar é um prazer aos ouvidos.

Aos poucos, entretanto, uma indefinível sensação de mal-estar se apossava de mim. Parecia que uma força desconhecida estava me entorpecendo e detendo, impedindo-me de seguir adiante e chamando-me de volta. Senti aquele penoso desejo de voltar que nos oprime quando deixamos um doente querido em casa e somos tomados por um pressentimento de que piorou.

Assim, voltei contra a minha vontade, certo de que encontraria alguma má noticia à espera, talvez uma carta ou telegrama. Não havia nada, e fiquei mais surpreso e inquieto do que se tivesse tido outra visão fantástica.

8 de agosto. Ontem, passei uma noite horrível. Não se mostra mais, porém, sinto-o perto de mim vigiando-me, olhando-me, penetrando-me, dominando-me, e mais temível quando se oculta dessa forma do que se manifestasse sua presença constante e invisível através de fenômenos sobrenaturais. Entretanto, consegui dormir.

1 de agosto. Nada, mas estou com medo.

10 de agosto. Nada. O que acontecerá amanhã?

11 de agosto. Nada ainda. Não consigo ficar em casa com este medo pairando sobre mim e estes pensamentos na cabeça. Vou embora.

12 de agosto. Dez horas da noite. O dia todo tentei partir e não consegui. Gostaria de realizar este simples e fácil ato de liberdade - sair -, entrar em meu carro e partir para Rouen... e não consigo. Por que razão?

13 de agosto. Quando somos atacados por certas doenças, todas as molas de nosso corpo parecem estar quebradas, todas as nossas energias, destruídas, todos os nossos músculos, relaxados. Nossos ossos amolecem como carne, e o sangue vira água. Estou tendo essas sensações em minha existência moral de modo estranho e angustioso. Não tenho mais força, coragem, autocontrole, nem mesmo o poder de exercer minha vontade. Não tenho mais vontade de nada, mas alguém a tem por mim e eu lhe obedeço.

14 de agosto. Estou perdido. Alguém possui minha alma e a domina. Alguém ordena todos os meus atos, todos os meus movimentos, todos os meus pensamentos. Não sou mais nada, exceto espectador escravizado e amedrontado de tudo o que faço. Quero sair, não posso. Ele não quer, e assim permaneço, trêmulo e perplexo, na poltrona onde ele me mantém sentado. Desejo apenas levantar-me e me animar, mas não posso! Estou preso à cadeira, e esta adere ao chão de tal maneira que não existe força capaz de mover-nos.

De repente, sinto que devo, preciso ir ao fundo do quintal colher morangos e comê-los, e lá vou eu. Colho os morangos e como-os! Meu Deus! Meus Deus! Deus existe? Se existe, libertai-me! Salvai-me! Socorrei-me! Perdão! Piedade! Misericórdia! Salvai-me! Quanto sofrimento! Que tormento! Que horror!

15 de agosto. Então era desse modo que minha pobre prima se encontrava, e era controlada, quando veio pedir-me os cinco mil francos emprestados. Estava sob o poder de uma estranha vontade que entrara dentro dela, como outra alma, como outra alma parasita e dominadora. Será que o mundo está para acabar?Mas quem é ele, este ser invisível que me governa? Este ser irreconhecível, este pirata de raça sobrenatural?Existem, então, seres invisíveis! Por que não se manifestaram desde o começo do mundo, precisamente como fazem comigo? Nunca li nada parecido com o que acontece em minha casa. Oh, se pudesse deixá-la, se pudesse ir embora, fugir e nunca mais voltar! Estaria salvo, mas não posso.

16 de agosto. Hoje consegui escapar por duas horas, como um prisioneiro que, por acaso, encontra a porta da masmorra aberta. De repente, senti que estava livre e que ele estava muito longe; assim, dei ordens para atrelar os cavalos o mais depressa possível e partir para Rouen. Como é agradável conseguir dizer a um homem que nos obedece:

- Vá... a Rouen!

Mandei parar em frente à biblioteca e pedi que me emprestassem o tratado do Dr. Hermann Herestauss sobre os habitantes desconhecidos do mundo antigo e moderno.

Ao voltar para o coche, pretendia dizer: "Para a estação!", em vez disso gritei... não disse, gritei, tão alto que os passantes voltaram-se: - Para casa! - e caí para trás, na almofada do carro, tomado de angústia. Ele voltara a me encontrar e retomara a posse de mim.

17 de agosto. Ah, que noite! Que noite! E contudo parece-me que devia alegrar-me. Li até a uma da manhã! Herestauss, doutor em Filosofia e Teogonia, escreveu na história da manifestação todos esses seres invisíveis que pairam em volta dos homens ou com quem os homens sonham. Descreve sua origem, domínio, poder, mas nenhum se assemelha ao que me assedia. Pode-se dizer que, desde que começou a pensar, o homem pressente um novo ser, mais forte, seu sucessor neste novo mundo e que, sentindo sua presença e não conseguindo prever a natureza desse mestre, criou toda uma raça de seres ocultos, de vagos fantasmas, nascidos do medo.

Depois de ler até a uma da manhã, sentei-me à janela aberta, a fim de refrescar a fronte e os pensamentos, no ar calmo da noite agradável e quente. Como teria apreciado semelhante noite em outros tempos!Não havia lua, mas as estrelas lançavam sua luz no céu escuro. Quem habita esses mundos? Que formas, que seres vivos, que animais existem lá em cima? O que sabem os pensadores naqueles mundos distantes que não sabemos? O que podem fazer, e nós não? O que vêem que não conhecemos? Será que um deles, algum dia, atravessando o espaço, aparecerá na Terra para conquistá-la, exatamente como os escandinavos cruzaram o mar a fim de conquistar nações mais fracas do que eles?

Somos tão fracos, tão indefesos, tão ignorantes, tão pequenos, nós que vivemos nesta partícula de lama que gira em uma gota de água!Adormeci assim, sonhando no fresco ar da noite, e depois de dormir cerca de três quartos de hora abri os olhos sem me mexer, acordado por não sei que confusa e estranha sensação. A princípio não vi nada, mas de repente tive a impressão de que uma página do livro que ficara aberto sobre a mesa virou-se sozinha. Nenhuma aragem passara pela janela, por isso, surpreso, esperei. Depois de uns quatro minutos, eu vi, eu vi, sim, vi com meus próprios olhos, outra página levantar-se e cair sobre as outras, como se um dedo a tivesse virado. A poltrona estava vazia, parecia vazia, mas sabia que ele estava lá. Sentado em meu lugar e lendo. Com um pulo, o pulo furioso de um animal selvagem enraivecido, que salta sobre o domador, atravessei a sala para agarrá-lo, estrangulá-lo, matá-lo! Porém, antes que pudesse alcançá-la, a cadeira virou-se como se alguém tivesse fugido de mim... a mesa balançou, a lâmpada caiu e se apagou e a janela fechou-se, como se um ladrão tivesse sido surpreendido e fugido noite afora, fechando-a atrás de si.

Então ele fugira. Tivera medo, medo de mim!Mas... mas... amanhã... ou mais tarde... algum dia... conseguirei agarrá-lo e esmagá-lo contra o chão! Às vezes os cães não mordem e estraçalham o dono?

18 de agosto. Estive pensando o dia todo. Sim, vou obedecer-lhe, seguir seus impulsos, realizar seus desejos, mostrar-me humilde, submisso, covarde. Ele é o mais forte, mas há de chegar a hora...

19 de agosto. Eu sei... eu sei... eu sei tudo! Acabei de ler o seguinte, na Revue du Monde Scientifique: "Curiosa noticia chega-nos do Rio de Janeiro. Loucura, uma epidemia de loucura, comparável à loucura contagiosa que atacou a população da Europa, na Idade Média, está, neste momento, grassando na província de São Paulo. Os habitantes, aterrorizados, abandonam suas casas, dizendo que estão sendo perseguidos, possuídos, dominados como gado humano por seres invisíveis, mas tangíveis, uma espécie de vampiro, que se alimenta da vida deles enquanto estão dormindo, e que, além disso, bebe água e leite, sem aparentemente tocar nenhum outro alimento."O professor Pedro Henrique, acompanhado por vários médicos, foi à província de São Paulo, a fim de estudar a origem e as manifestações dessa surpreendente loucura, no local, e propor ao imperador as medidas que lhe pareçam mais cabíveis para fazer com que a população recupere a razão."Ah! ah! lembro-me agora daquele belo navio brasileiro de três mastros que passou em frente às minhas janelas, subindo o Sena no dia 8 de maio passado! Achei que parecia tão formoso, tão branco e brilhante! Aquele Ente estava a bordo, vindo de lá, onde sua raça se originou. E me viu! Viu minha casa, também branca, e saltou do navio para terra. Oh, céu misericordioso!Agora sei, posso adivinhar. O reino do homem acabou, e ele chegou. Ele, que era temido pelo homem primitivo, ele, que padres preocupados exorcizavam, que feiticeiras evocavam em noites escuras, sem tê-lo visto aparecer, a quem a imaginação dos senhores provisórios do mundo emprestavam todas as monstruosas ou graciosas formas de gnomos, espíritos, gênios, fadas e almas familiares. Depois dos conceitos imprecisos baseados no medo primitivo, homens mais sensíveis anteviram-no mais claramente. Mesmer o pressentiu, e, há dez anos, médicos descobriram, com precisão, a natureza de sua força, antes mesmo que ele a exercesse. Divertiram-se com essa nova arma do Senhor, o domínio de uma vontade misteriosa sobre a alma humana que se tornara escrava.

Chamaram-no de magnetismo, hipnotismo, sugestão... sei lá! Vejo-os divertindo-se, como crianças imprudentes, com essa força terrível! Ai de nós! Ai dos homens! Ele chegou, o... o... como se chama... o... Imagino que está gritando seu nome e não consigo ouvi-lo... o... sim... está gritando... estou ouvindo... Não consigo... Ele o repete... o... Horla... ou,... o Horla... ele chegou!Ah! O abutre devorou a pomba, o lobo devorou o cordeiro, o leão devorou o búfalo de chifres pontiagudos. O homem matou o leão com a flecha, com a espada, com a pólvora. Mas o Horla fará do homem o que fizemos do cavalo e do boi: objeto, escravo e alimento, só porque é sua vontade. Ai de nós!

Contudo, às vezes, o animal revolta-se e mata o homem que o subjugou. Eu também gostaria de... serei capaz de... mas preciso conhecê-lo, tocá-lo, vê-lo! Os cientistas afirmam que os olhos dos animais, sendo diferentes dos nossos, não distinguem os objetos da mesma forma que nós. E meus olhos não conseguem distinguir esse recém-chegado que me oprime.

Por quê? Agora me lembro das palavras do monge do Mont-Saint-Michel: "Será que vemos a centésima milionésima parte do que existe? Veja, lá está o vento, a maior força da natureza, que derruba homens e edifícios, desenraiza árvores, faz o mar erguer-se como montanhas de água, destrói penhascos e joga grandes navios contra as ondas. O vento que mata, que assobia, que suspira, que ruge... já o viu? Consegue vê-lo? Contudo, ele existe".

E continuei a pensar: "Meus olhos são tão fracos, tão imperfeitos, que nem mesmo distinguem corpos sólidos, se estes forem transparentes como o vidro! Se não houver um papel prateado atrás de um vidro em meu caminho, colidirei com ele, da mesma forma que um pássaro, voando para dentro de uma sala, bate a cabeça contra a vidraça". Existem mil coisas que enganam o homem e o induzem ao erro. Por que haveria de ser surpreendente o fato de não conseguir perceber um corpo desconhecido que a luz consegue atravessar?Um novo ser! Por que não? Com certeza estava destinado a vir! Por que deveríamos ser os últimos? Não o distinguimos mais do que todos os outros criados antes de nós! Isso acontece porque sua natureza é mais perfeita, tem o corpo mais apurado e mais bem acabado que o nosso, tão fraco, de construção tão desajeitada, atravancado de órgãos que estão sempre cansados, sempre tenso como um mecanismo muito complicado, que vive como planta e como animal, nutrindo-se com dificuldade de ar, ervas e carne, máquina animal vitima de doenças, má-formação, decadência; arquejante, mal-regulado, simples e extravagante, originalmente malfeito, obra ao mesmo tempo grosseira e delicada, esboço irregular de uma criatura que poderia tornar-se inteligente e grandiosa.

Somos apenas alguns, tão poucos neste mundo, da ostra ao homem. Por que não poderîa haver mais um, uma vez passada a época que separa as sucessivas aparições de todas as espécies diferentes?Por que não mais um? Por que não, também, outras árvores com flores imensas e esplêndidas, perfumando regiões inteiras? Por que não outros elementos além do fogo, ar, terra e água? Existem quatro, só quatro, amas-secas de seres diferentes! Que pena! Por que não existem quarenta, quatrocentos, quatro mil? Como tudo é pobre, mesquinho e miserável! Produzido de má vontade, construído irregularmente, inabilmente feito! Ah, o elefante e o hipopótamo, que graça! E o camelo, que elegância!Mas a borboleta, dirão, uma flor voadora? Sonho com uma tão grande como cem universos, com asas cuja forma, beleza, e movimentos não consigo nem mesmo exprimir. Porém a vejo... esvoaça de uma estrela a outra, refrescando-as e perfumando-as com a aragem leve e harmoniosa de seu vôo! E as pessoas lá em cima olham-na quando passa em um êxtase de prazer!

O que está acontecendo comigo? É ele, o Horla, que me persegue e que me faz pensar essas tolices! Está dentro de mim, está se transformando em minha alma. Pretendo matá-lo! 19 de agosto. Vou matá-lo. Eu o vi! Ontem, sentei-me à mesa e fingi escrever com bastante atenção. Sabia muito bem que viria rondar-me, bem perto de mim, tão perto que, talvez, conseguisse, tocá-lo, agarrá-lo. E então... então eu conseguiria a força do desespero. Teria as mãos, os joelhos, o peito, a fronte, os dentes para estrangulá-lo, esmagá-lo, morde-lo, fazê-lo em pedaços. E o aguardava com todos os sentidos alerta.Acendera as duas lâmpadas e as oito velas de cera sobre a lareira, como se com toda essa luz pudesse descobri-lo.

À minha frente, estava a cama, a velha cama de colunas de carvalho; à direita, a lareira; à esquerda, a porta, fechada cuidadosamente, depois que a deixei aberta algum tempo, a fim de atrai-lo; atrás de mim, estava o guarda-roupa, muito alto, com o espelho diante do qual fazia a barba e me vestia todos os dias e no qual costumava ver-me de relance, da cabeça aos pés, toda vez que passava diante dele.

Fingia estar escrevendo a fim de enganá-lo, pois ele também me vigiava e, de repente, senti... tinha certeza de que estava lendo por cima de meu ombro, que estava lá, roçando minha orelha.

Levantei-me com as mãos estendidas e virei-me tão depressa que quase caí. Quê! Bem? Estava claro como se fosse o meio-dia, mas não conseguia ver meu reflexo no espelho! Estava vazio, claro, profundo, cheio de luz! Só que minha imagem não estava refletida nele... E eu, eu estava na frente do espelho! Examinei o grande e claro espelho, de cima a baixo, olhei-o com olhos vacilantes. Não ousei aproximar-me, não me arrisquei a fazer um movimento sequer, sentindo que ele estava ali, mas que novamente me escapara, ele cujo corpo imperceptível absorvera meu reflexo.

Como eu estava amedrontado! E então, subitamente, comecei a ver-me através de uma névoa no fundo do espelho, uma névoa que parecia um lençol de água. Parecia-me que a água escorria mais clara a todo momento. Era como o fim de um eclipse. O que quer que ocultasse minha imagem não parecia possuir contornos definidos, mas uma espécie de transparência opaca que ia clareando aos poucos.Afinal, consegui distinguir meu reflexo completamente, como acontece todos os dias quando me olho no espelho.

Eu o vira! O horror dessa visão ficou comigo e, mesmo agora, faz-me tremer.20 de agosto. Como poderia matá-lo, se não consegui agarrá-lo? Veneno? Mas ele me veria misturá-lo à água, e então teria nosso veneno algum efeito em seu corpo impalpável? Não... não há dúvida sobre isso... Então... então...21 de agosto. Chamei um ferreiro de Rouen e encomendei venezianas de ferro para meu quarto, iguais às que alguns hotéis de Paris têm no andar térreo, para impedir a entrada de ladrões, e ele também vai fazer-me uma porta de ferro. Estou parecendo covarde, mas não me importo!10 de setembro. Rouen, Hotel Continental. Está feito... está feito... mas será que está morto? O que vi deixou-me a mente completamente abalada.

Bem, ontem, depois que o serralheiro colocou as venezianas e a porta de ferro, deixei tudo aberto até a meia-noite, embora estivesse esfriando.

De repente, senti que ele estava lá, e uma alegria, uma louca alegria apossou-se de mim. Levantei-me silenciosamente e andei algum tempo de um lado para outro, para que ele não suspeitasse de nada. Tirei as botas e calcei os chinelos despreocupadamente, fechei as venezianas de ferro, fui até a porta, tranquei-a rapidamente com um cadeado e guardei a chave no bolso.Percebi de súbito que ele se movia nervosamente a minha volta, que, por sua vez, estava amedrontado e ordenava-me que o deixasse sair. Quase lhe obedeci. Em vez disso, entretanto, com as costas contra a porta, abri-a apenas o suficiente para poder sair de costas e, como sou muito alto toquei a esquadria com a cabeça. Estava certo de que ele não tinha conseguido escapar e deixei-o fechado sozinho, completamente sozinho. Que felicidade! Conseguira prende-lo. Então corri para baixo, para a sala de visitas que ficava embaixo do meu quarto. Peguei os dois lampiões e despejei todo o querosene no tapete, na mobília, em toda parte. Toquei fogo e fugi, depois de trancar cuidadosamente a porta.

Escondi-me no fundo do quintal, em uma moita de louros. Como parecia demorar! Tudo estava escuro, silencioso, imóvel, sem a mais leve brisa, sem uma estrela, somente camadas de nuvens, que não se podia ver, mas que pesavam, oh, como pesavam, em minha alma.

Fiquei esperando, olhando para a casa. Como demorava! Começava a pensar que o fogo se apagara sozinho, ou que ele o extinguira, quando uma das janelas do andar térreo cedeu sob a violência das chamas e uma longa, suave, acariciante e rubra língua de fogo subiu pela parede branca e envolveu-a até o telhado. O clarão atingiu as árvores, os galhos e as folhas, e um arrepio de medo também os invadiu! Os pássaros acordaram, um cachorro começou a uivar, e pareceu-me que o dia estava nascendo! Quase imediatamente, duas outras janelas se arrebentaram e vi que toda a parte de baixo da casa era apenas uma fornalha incandescente. Um grito, horrível, estridente, de partir o coração, um grito de mulher, soou dentro da noite, e duas janelas do sótão se abriram! Esquecera-me dos criados! Vi os rostos apavorados e os braços agitando-se freneticamente.Tomado de pavor, comecei a correr para a cidade, gritando:

- Socorro! Socorro! Fogo! Fogo!

Encontrei algumas pessoas que já vinham correndo e voltei com elas.

Nessas alturas, a casa não era mais que uma horrível e imponente pira funerária, monstruosa pira funerária que iluminava tudo, pira funerária onde homens ardiam, e ele também estava sendo queimado. Ele, ele, meu prisioneiro, o novo Ser, o novo Senhor, o Horla!De repente, o telhado desabou entre as paredes, e um vulcão de chamas voou até o céu. Pelas janelas abertas naquela fornalha, vi as chamas disparando e pensei que ele estivesse lá, naquele forno, morto.

Morto? Talvez?... Seu corpo? Não seria seu corpo, transparente, indestrutível pelos meios que conseguiam matar os nossos?E se ele não estivesse morto?... Talvez só o tempo tenha poder sobre esse Ser Invisível e Terrível. Qual a razão desse corpo transparente e irreconhecível, esse corpo pertencente a um espírito, se também tem de temer doenças, fraquezas e ruína prematura?Ruína prematura? Todo o terror humano tem aí sua origem! Depois do homem, o Horla. Depois daquele que pode morrer todo dia, a toda hora, a todo momento, de qualquer acidente, veio o que morreria apenas na hora, no dia e no minuto apropriado, porque tocara os limites de sua própria existência!Não... não... sem dúvida... não está morto... Então... então... acho que terei de me matar!...


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