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PUBLICAÇÕES MAIS RECENTES

29.11.08

O DEGHAMMON (Primeira parte)

Este é um dos vários contos do escritor Henry Evaristo que jazem inacabados. Este ano a terceira e última parte deste trabalho deveria ter sido publicada entre setembro e outubro mas até o presente momento não foi possível ao autor finalizá-la a contento. No entanto, considerando o bom número de apreciadores da idéia central da obra, em grande parte difundida nos meios internéticos pelo escritor Rogério Silvério de Farias (fã confesso da entidade sobrenatural das colinas de Hazsdan), resolvemos publicar as duas partes existentes numa tentantiva de contribuir para despertar no escritor o ânimo para que ele nos entregue o quanto antes a finalização do trabalho. Boa leitura!










O DEGHAMMON


(Primeira parte)

Um conto de Henry Evaristo

Em uma região isolada do mundo, onde a presença do homem ainda hoje é inusitada e efêmera, há uma estrada que leva aos pés de uma montanha íngreme e gelada; Lá, pára abruptamente como se impedida de avançar por alguma força avassaladora que a transforma radicalmente em um pequeno caminho incrustado na pedra que vai subindo até se perder na altura imensurável.

Ao redor desta montanha estende-se, como um oceano misterioso e inescrutável, um profundo bosque de pinheiros cujas copas estão constantemente recobertas por uma espessa camada de neve. Uma e outra, montanha e estrada, dormem solitárias em seu mundo gelado e não recebem nem gostam de receber visitas. O bosque silencioso e escuro é sua única companhia e o ballet das folhas e dos galhos dos pinheiros, açoitados pelo vento cortante, é o único movimento aceitável. Chuvas constantes mantêm a atmosfera úmida, mas a lama que se forma está sempre imaculada por que não há nenhuma vida animal que lhe possa imprimir marcas. Em silêncio e mantendo-se escondida, no entanto, há ali uma força indescritível e malévola.

Homens estranhos, vindos de algum lugar para além da montanha e dados a uma cultura de sortilégios e outras práticas mágicas, construíram a estrada há milênios, pois precisavam dela para transitar com suas mercadorias escusas. Mas a mudança das eras e a chegada de um inimigo terrível os fizeram desaparecer da região para sempre a deixando abandonada e só pelos séculos vindouros. Antes, porém, um terrível conflito se deu neste lugar e o sangue jorrou abundante pelas matas e colinas alcantiladas emprestando a tudo um odor de mal-agouro; um presságio de eras malditas banhado nos fluidos de antigos conjuradores. Não houve sequer uma alma para se salvar da violência daqueles dias e, exauridas as vontades e as vidas, com o declínio do bem, o bosque mergulhou no mais profundo esquecimento. O inimigo, vencedor incólume, descansou e esqueceu-se de si mesmo perdendo-se depois no tempo tal qual o urso pardo que ali hibernava em outras épocas quando o sol ainda não se tornara tão cinzento.E o oponente devorador ficou tão quieto que o próprio mundo se esqueceu dele.

Então a floresta se calou, e assim também a estrada e a montanha; e o silêncio, tão comum e repetitivo, passados mil anos, tornou-se a única verdade conhecida.

No entanto, na noite do primeiro milênio, a consciência coletiva do bosque, da estrada, dos pinheiros e da montanha percebeu uma alteração em suas verdades. Uma outra inteligência, conhecida de velhas eras, começou a se esgueirar pelos ermos, escondendo-se por trás das árvores na neblina, errando aqui e ali, perscrutando o ambiente. Uma força irresistível emanava daquela nova presença e toda a existência da região se abalou.

Diante da ameaça, a consciência do bosque, da estrada, dos pinheiros e da montanha sentiu-se impelida a reagir. De tudo tentou para dominar a vontade alienígena, mas estava impotente frente ao poder indescritível; aturdida com tão grande afronta a sua soberania. Ventanias vieram; nevascas, tremores de terra, mas nada foi capaz de afugentar a entidade obscura que tentava se apossar de tudo.

O tempo passou. Impotente, a consciência do bosque, da floresta, da estrada e da montanha aceitou a autoridade de um poder maior que o seu e um silêncio angustiado se fez onde antes havia uma calma milenar. O inimigo dos homens de outrora estava de volta.

Na primeira madrugada do século XXI todo o existir daquele lugar antigo encolheu-se e resignou-se a dar passagem a uma aberração que estava solta no mundo e os moradores da cidade mais próxima, a mil quilômetros de distância, inquietaram-se com os gritos pavorosos emitidos pelos animais da região. No momento em que o horror saltou dos confins do bosque para o meio da estrada escura todos os cães uivaram num lamento que congelou o sangue nas veias de quem ouviu. Os ânimos se acirraram e antigas contendas, há muito sufocadas, vieram à tona e foram às vias de fato. Ataques violentos tomaram conta da noite da cidade e, nos hospitais, doentes terminais e depressivos deram cabo da própria vida. À polícia, impotente e despreparada, coube a tarefa de tentar conter as ondas de ódio súbito que congestionavam a linha de chamadas de emergências enquanto, nos hospícios, lunáticos dilaceravam, à dentadas, as veias dos próprios pulsos.

No meio da estrada solitária dois olhos de um vermelho-sangue prateado reluziram nas trevas enquanto um corpo imenso e negro erguia-se nas patas traseiras e começava a caminhar lentamente em direção à cidade. Seu intuito era alcançar regiões um pouco mais movimentadas, pois, definitivamente, seu período de ócio terminara. Ainda que, para um alívio a muito ansiado, o hóspede que foram obrigados a aceitar os estivesse abandonando, o bosque, os pinheiros, a montanha e a própria estrada sentiram uma imensa tristeza por saber que ele estava agora indo novamente espalhar maldades entre os homens.

18.11.08

AS ABOMINAÇÕES DE YONDO

A Câmara dos Tormentos apresenta mais um grande clássico da literatura fantástica. Do mestre Clark Ashton Smith, numa tradução primorosa de Renato Sutana, feita pela primeira vez no Brasil por sugestão do moderador da Câmara, historiador e escritor Henry Evaristo, nos chegam das vastidões do além-mundo, AS ABOMINAÇÕES DE YONDO. Boa leitura!





As abominações de Yondo

Clark Ashton Smith




A areia do deserto de Yondo não é como a areia de outros desertos, pois Yondo é aquele que está mais próximo dos extremos do mundo; e estranhos ventos, provenientes de um golfo que nenhum astrônomo jamais sondou, esparramaram sobre os seus campos devastados a poeira cinzenta de planetas corroídos, as cinzas negras de sóis extintos. As montanhas escuras e ovaladas que se elevam de sua superfície escavada, rugosa, não lhe pertencem de todo, pois algumas são asteróides caídos, meio sepultos na areia abismal. Algumas coisas vieram rastejando dos espaços inferiores, nos quais os deuses de todas as terras decentes e bem ordenadas proíbem incursionar; mas não existem tais deuses em Yondo, onde vivem os gênios vetustos de estrelas abolidas e demônios decrépitos que perderam o lar com a destruição de infernos antiquados.

Foi no entardecer de um dia de primavera que emergi daquela interminável floresta de cactos na qual os inquisidores de Ong me haviam abandonado, e vi aos meus pés os começos cinzentos de Yondo. Repito: foi no entardecer de um dia primaveril; mas naquela mata fantástica eu não encontrara o menor indício ou lembrança de primavera; e as elevações inchadas, fulvas, mortiças e meio podres através das quais eu abrira caminho não eram como os outros cactos; antes, exibiam formas tão abomináveis que mal se poderia descrever. O próprio ar pesava com os odores estagnados da decadência; e liquens leprosos manchavam com freqüência cada vez maior o solo negro e a vegetação castanho-vermelha. Víboras verde-claras erguiam suas cabeças de cactos prostrados e me observavam com olhos de um brilho ocre, destituídos de pupilas ou pálpebras. Essas coisas me inquietaram durante horas; e desgostaram-me os fungos monstruosos, dotados de apêndices descoloridos e cabeças infirmes, de repulsiva cor malva, que brotavam dos lábios úmidos de fétidos poços; e as ondulações sinistras que surgiam e desapareciam sobre a água amarela quando me aproximei não pareciam encorajadoras para alguém cujos nervos ainda estavam tensos de indizíveis torturas. Então, quando até mesmo os cactos manchados e doentios se tornaram escassos ou nanicos, e veios de areia cinzenta serpenteavam entre eles, comecei a suspeitar de quão enorme fora o ódio que minha heresia despertou entre os sacerdotes de Ong e fiz idéia da extrema malignidade de sua vingança.

Não entrarei em detalhes quanto às indiscrições que me levaram – um desprevenido estrangeiro de terras distantes – de encontro ao poder desses mágicos e mistagogos temíveis, que servem a Ong, o que tem cabeça de leão. É doloroso recordar essas indiscrições e os pormenores de meu aprisionamento; e aquilo que menos quero lembrar são os estiradores de tripa de dragão cobertos com pó de diamante onde os homens são estendidos nus, ou aquele cômodo escuro, com janelas de seis polegadas junto ao chão por onde vermes gordos entravam às centenas, vindos de uma catacumba próxima. Basta dizer que, após terem gasto os recursos de sua medonha fantasia, meus inquisidores me trouxeram vendado, em lombo de camelo, durante horas incontáveis, para abandonar-me ao primeiro clarão da aurora naquela floresta sinistra. Estava livre, disseram-me, para ir aonde quisesse; e, como prova da clemência de Ong, deram-me uma côdea de pão áspero e uma garrafa de couro contendo água intragável, à guisa de provisão. Foi na tarde daquele mesmo dia que alcancei o deserto de Yondo.

Até então, eu não pensara em retornar, não obstante os terrores desses cactos apodrecidos ou as coisas malignas que viviam entre eles. Agora, parei, conhecendo as lendas abomináveis da terra para a qual viera, pois Yondo é um lugar aonde apenas uns poucos tinham ido de sã consciência e por vontade própria. Menos numerosos ainda foram os que retornaram – balbuciando acerca de horrores desconhecidos e estranhos tesouros; e a eterna paralisia que faz tremer os seus membros emaciados, junto com o brilho louco de seus olhos em sobressalto, por baixo de frontes e pálpebras descoradas, não serve de incentivo para os outros. Assim foi que hesitei no limiar dessas areias cinzentas e senti o tremor de um novo medo invadir-me as entranhas. Seria horrendo prosseguir, e horrendo retornar, pois eu estava certo de que os sacerdotes tinham se preparado para esta última eventualidade. Então, após um instante, continuei a andar, cantarolando baixo a cada passo, e seguido por alguns insetos de pernas compridas que encontrara entre os cactos. Esses insetos tinham a cor de cadáveres de uma semana e eram do tamanho de tarântulas; mas, quando me voltei e pisei no que vinha à frente, um cheiro mefítico se exalou, o qual me pareceu mais nauseante até do que a própria cor. A partir de então, passei a ignorá-los o mais que podia.

Com efeito, tais coisas erram horrores menores no meu infortúnio. À minha frente, sob um sol imenso, de um escarlate doentio, Yondo se estendia interminável, tal como a terra de um sonho de haxixe, contra o escuro do céu. Ao longe, na fímbria mais distante, jaziam aquelas montanhas ovaladas que mencionei; mas em meio estavam os horríveis vazios de desolação cinzenta e colinas baixas, desnudas, semelhantes a dorsos de monstros semi-sepultos. Lutando para avançar, avistei grandes poços onde meteoros afundaram, e jóias multicores que eu não saberia nomear brilhavam e cintilavam sobre a poeira. Havia ciprestes caídos que apodreciam junto a mausoléus arruinados, sobres cujos mármores manchados de liquens se arrastavam camaleões gordos levando pérolas reais em suas bocas. Escondidas pelas cristas mais baixas, havia cidades das quais sequer uma estela jazia intacta – cidades vastíssimas, imemoriais, desintegrando-se, de fragmento em fragmento, de átomo em átomo, para alimentar infinitos de desolação. Arrastei os membros exaustos de tortura através de vastos montes de ruínas que um dia foram templos imponentes; e deuses caídos franziam o cenho em meio ao arenito decadente ou miravam de entre o pórfiro despedaçado aos meus pés. Sobre tudo pairava um silêncio mau, interrompido apenas por um gargalhar satânico de hienas, um ciciar de cobras por entre as moitas de espinheiros mortos ou antigos jardins consumidos pela urtiga e pela fumária.

No topo de um dos muitos platôs em forma de monte, vi as águas de um lago estranho, insondavelmente escuro e verde como malaquita, das quais surgiam refulgentes depósitos de sal. Essas águas estavam muito abaixo de mim, numa abertura em forma de xícara, mas quase junto aos meus pés, sobre as encostas gastas pelas águas, havia montes daquele sal antigo; e compreendi que o lago nada mais era que os resíduos amargos e escassos de algum mar. Descendo, aproximei-me das águas escuras e comecei a lavar as mãos; mas havia uma ardência cortante e corrosiva naquela água salobra e imemorial, e logo desisti, preferindo o pó do deserto que me envolvia como um lento sudário. Decidi descansar por um momento; e a fome forçou-me a consumir parte da ração minguada e risível que os sacerdotes me deram. Era minha intenção prosseguir, se minhas forças o permitissem, e alcançar as terras ao norte de Yondo. Essas terras são desoladas, por certo, mas sua desolação é de um tipo mais comum do que aquela de Yondo; e sabe-se que certas tribos de nômades as visitavam ocasionalmente. Se a fortuna me favorecesse, eu poderia juntar-me a uma dessas tribos.

A ração escassa me reanimou; e, pela primeira vez em semanas das quais eu perdera a noção, ouvi o sussurro de uma débil esperança. Os insetos de cor cadavérica há muito deixaram de me seguir; e depois deles, a despeito do silêncio sepulcral e tétrico e dos montes de poeira de ruínas intemporais, eu nada encontrei que fosse tão horrível. Comecei a pensar que os terrores de Yondo tinham sido exagerados. Foi então que ouvi uma risota diabólica na colina acima. O som começou com uma subitaneidade aguda que me estarreceu para além de qualquer razão e continuou, indefinidamente, sem jamais variar numa nota sequer, tal como o riso de um demônio idiotizado. Voltei-me e vi a boca de uma caverna escura denteada de estalactites verdes, que eu não percebera antes. O som parecia vir de dentro da caverna.

Com uma atenção medrosa, olhei através da abertura negra. O riso tornou-se mais alto, mas por um instante nada vi. Finalmente, percebi um fulgor esbranquiçado na escuridão; então, com a velocidade de um pesadelo, uma Coisa monstruosa emergiu. Seu corpo era pálido, sem pêlos, em forma de ovo e volumoso como o de uma cabra prenha; e esse corpo era amparado por nove pernas trêmulas, com muitas junções, como as pernas de uma aranha descomunal. A criatura passou por mim, correndo até a margem da água; e vi que não havia olhos em sua face estranhamente oblíqua; mas duas orelhas compridas, em forma de facas, se elevavam de sua cabeça; e um focinho fino, rugoso, pendia sobre a boca, cujos lábios flácidos, abertos naquele gargalhar eterno, deixavam ver fileiras de dentes de morcego. Bebeu da água amarga, ácida, e então, satisfeita a sede, voltou-se e pareceu notar minha presença, porquanto o focinho rugoso se ergueu e apontou em minha direção, farejando alto. Se a criatura fugiria ou se intentava atacar-me nunca saberei; pois, sem poder suportar por mais tempo essa visão, pus-me a correr, as pernas tremendo, por entre as grandes elevações e as grandes jazidas de sal à margem do lago.

Totalmente sem fôlego, parei afinal e vi que não fora seguido. Sentei-me, ainda tremendo, à sombra de uma elevação, mas apenas para obter um breve descanso, pois aí começou a segunda dessas aventuras bizarras que me obrigaram a crer em todas as lendas insanas que ouvira. Mais estarrecedor do que aquela risota diabólica foi o grito que ecoou junto ao meu cotovelo, surgido da areia salina – o grito de uma mulher possuída por uma agonia atroz ou atacada por demônios. Voltando-me, deparei-me com uma verdadeira Vênus, de uma brancura perfeita, mas imersa até o umbigo na areia. Seus olhos, arregalados de terror, imploravam-me e suas mãos de lótus se estendiam num gesto de súplica. Saltei para junto dela – e toquei uma estátua de mármore, cujas pálpebras esculpidas estavam imersas numa sonho enigmático de ciclos extintos e cujas mãos estavam enterradas junto com a graça perdida dos quadris e das coxas. Novamente fugi, tomado pelo terror, e novamente ouvi o grito de uma mulher em agonia. Mas desta vez não me voltei para ver os olhos e as mãos suplicantes.

Subindo a longa encosta ao norte daquele lago maldito, tropeçando em meio às elevações de basalto e às arestas cortantes, recobertas por metais esverdeados, avançando por entre poços de sal ou sobre terraços esculpidos pelas águas evanescentes em éons ancestrais, fugi como um homem foge de um sonho sinistro a outro sonho numa noite demoníaca. Às vezes, soava um sussurro frio junto à minha orelha, que não era causado pelos ventos da fuga; e, olhando para trás, enquanto alcançava um dos terraços mais elevados, percebi uma sombra singular que corria no mesmo ritmo que a minha. Essa sombra não era a sombra de um homem, nem de um macaco, nem de nenhum animal conhecido; a cabeça era grotesca e alongada demais, o corpo demasiadamente arqueado, e eu não pude determinar se a sombra tinha cinco pernas ou se o que me pareceu ser a quinta era apenas uma cauda.

O terror me restituiu as forças; e só quando alcancei o topo da colina é que tive coragem de olhar para trás outra vez. Mas a sombra fantástica ainda me seguia passo a passo; e agora me chegava um odor curioso e nauseante, medonho como o odor de morcegos que tivessem pendido num matadouro em meio a montes de podridão. Corri por léguas, enquanto o sol vermelho se punha lá adiante, por sobre as montanhas dos asteróides, a oeste; mas, embora tivesse o comprimento da minha, a estranha sombra mantinha sempre a mesma distância atrás de mim.

Uma hora antes do pôr-do-sol, cheguei a um círculo de pequenos pilares que jaziam miraculosamente intactos em meio a ruínas que eram como uma vasta pilha de cacos. Ao passar por entre os pilares, ouvi um gemido, tal como o gemido de um animal feroz, entre a raiva e o medo, e vi que a sombra não me seguira para dentro do círculo. Parei e aguardei, conjeturando ter encontrado um santuário onde meu indesejável acompanhante não se atreveria a penetrar; o que a ação da sombra confirmou, pois a Coisa hesitou e então correu em volta do círculo, parando às vezes entre dois pilares; e por fim, sem deixar de gemer, fugiu e desapareceu no deserto, no rumo do sol poente.

Durante meia hora, não ousei me mexer; então, a iminência da noite, com todas as suas promessas de renovado terror, forçou-me a prosseguir desesperadamente em direção ao norte; pois agora eu estava bem no coração de Yondo, onde poderiam habitar demônios ou fantasmas que talvez não respeitassem o santuário das colunas intactas. Agora, enquanto eu avançava, a luz do sol mudava estranhamente; pois o globo vermelho próximo ao horizonte irregular afundava e ardia num cinturão de névoa miasmática, onde a poeira erguida de todos os templos e necrópoles destroçados de Yondo se misturava aos vapores aziagos que subiam para o céu, exalando de enormes golfos negros que jaziam para além da orla mais extrema do mundo. A essa luz, a vasta desolação, as montanhas redondas, as colinas serpenteantes, as cidades perdidas eram banhadas num escarlate fantasmal e escuro.

Então, do norte, onde as sombras se adensavam, veio surgindo a figura curiosa de um homem alto, inteiramente coberto por uma cota de malha – ou, antes, o que pensei ser um homem. Quando a figura se aproximou, produzindo ruídos pressagos a cada passo que dava sobre o solo coberto de cacos, vi que sua armadura era feita de bronze salpintado de verde; e um elmo desse mesmo metal, guarnecido de chifres espiralados e de uma crista, se elevava bem alto sobre sua cabeça. Digo sua cabeça, pois a escuridão aumentava, e eu nada podia ver claramente; mas, quando a aparição chegou mais perto, percebi que não havia face alguma por detrás da viseira do capacete bizarro cujos contornos se delinearam por um momento contra a luz evanescente. Então a figura passou e, chocalhando funestamente, desapareceu.

Mas, em seus calcanhares, antes que o pôr-do-sol se completasse, veio uma segunda aparição, dando incríveis passadas e parando quase junto de mim sob o crepúsculo vermelho – a monstruosa múmia de algum rei antigo, ainda coroado num ouro sem manchas, mas impondo ao meu olhar uma visão que mais do que o tempo ou os vermes haviam devastado. Bandagens partidas adejavam em torno às pernas de esqueleto, e, sobre a coroa cravejada de safiras e rubis alaranjados, alguma coisa negra se mexia e balançava horrivelmente; mas, por um instante, sequer sonhei com o que poderia ser. Então, no meio dela, dois olhos oblíquos e vermelhos se abriram e brilharam como brasas infernais, e dois caninos ofídicos cintilaram numa boca de macaco. Uma cabeça achatada, sem pêlos, disforme sobre um pescoço de extensão desproporcional abaixou-se, indizivelmente, e sussurrou ao ouvido da múmia. Então, com uma passada, o morto-vivo titânico encurtou pela metade a distância que nos separava, e de entre as dobras esfarrapadas do tecido mofado, um braço esquálido surgiu, e dedos descarnados, aduncos, carregados de gemas brilhantes, se ergueram e tentaram agarrar minha garganta.

De volta, de volta através de éons de loucura e terror, num vôo precipitado, vertical, corri e me afastei desses dedos que se erguiam sempre atrás de mim na escuridão; de volta, de volta para sempre, sem pensar, sem hesitar, de volta a todas as abominações por que passara, de volta, no espesso crepúsculo, às ruínas fragmentadas, inomináveis, ao lago assombrado, à floresta dos cactos malignos, e aos inquisidores cruéis e cínicos de Ong, que aguardavam o meu retorno.

(Tradução de Renato Suttana)

17.11.08

A VINGANÇA DE FERNANDO JUAN CUERVO

O lendário escritor sulista, mestre do horror nacional, Rogério Silvério de Farias, retorna à Câmara dos Tormentos com mais um conto exepcional e obrigatório para todos os seus fãs. Boa leitura!




A VINGANÇA
DE
FERNANDO JUAN CUERVO

Conto de Rogério Silvério de Farias




1. A estrada do medo!

Para a antiga e sombria cidade de Maremontes iam o caminhoneiro Robson e seu ajudante, um sujeito meio espantadiço e espalhafatoso chamado “Boca Tojo”. Levavam uma carga de melancias. Melancias especiais, cumpre salientar. Melancias recheadas de marijuana!

Haviam atravessado a rodovia 666, e agora seguiam por um caminho que era considerado um atalho, um caminho alternativo de pouco movimento.

O “possante” - era assim que Robson chamava seu velho caminhão. Boca Tojo, ex-garçom e vigia, fazia agora um “bico” com seu velho amigo, num “trabalho” arriscado, pois se os tiras descobrissem a “carga especial” enfiada através de pequenos furos nas melancias, furos estes feitos com uma furadeira elétrica, a dupla iria para a cadeia! Assim sendo, Boca era o acompanhante de Robson e o “chapa” para descarregar as “melancias doidonas”, como os dois as chamavam.

- É isso aí, Boca!...Se beber, não dirija! – disse Robson gargalhando sarcasticamente, bebendo uma latinha de cerveja e tragando um cigarro de maconha, uma verdadeira “.bomba” ou “tora”.

Boca Tojo, espevitado como sempre, estourou também numa ruidosa gargalhada, depois, bebendo avidamente uma lata de cerveja enquanto soltava baforadas de seu “baseado”, foi dizendo :

- Porra, “Chefinho”! E se a polícia rodoviária aparecer? E se ela nos parar e fazer o teste do bafômetro?

- Neste fim de mundo, aqui? Boca, estamos numa região desértica, praticamente. Isto aqui é como um atalho do inferno. Além disso, os tiras teriam que ter, além do bafômetro, também um “maconhômetro” especial pra nós dois!... – respondeu Robison, rindo. - Sabe, foi uma boa idéia termos seguido por este caminho pouco usado. Vamos chegar a tempo de entregar essas “melancias doidonas” ao chefão do tráfico em Maremontes e o maior ladrão da cidade, o Zena!

- Sabe o que os frentistas disseram para mim, no posto de gasolina? – falou Boca Tojo, despertando a curiosidade de Robson, na boléia.

-O quê, Tojo?

- Tinha um velhote manco muito estranho por lá. Me falou que esta maldita estrada que estamos seguindo recebeu o nome de “Estrada do Medo”, e que esta porra de região que estamos atravessando é...malassombrada!...Existe uma história ou lenda terrível sobre esta região...Os motoristas e caminhoneiros evitam passar por aqui. Sei que parecerá loucura, mas vou contar a estranha e assustadora história que o velho me contou...

“Havia, tempos atrás, um jovem motoqueiro chamado Fernando Juan Cuervo, descendente dos primeiros mexicanos que vieram para Maremontes no começo do século passado. Certa noite de lua cheia, quando Fernando Juan Cuervo passeava por esta rodovia com sua namorada em sua garupa, ambos foram atropelados por um caminhão. Margarita, a namorada de Fernando Juan Cuervo, teve a cabeça esmagada pelas rodas do caminhão, enquanto Fernando, cheio de ódio, morreu lentamente, provavelmente agonizando em busca de ajuda, pois o motorista bêbado fugira do local do acidente.

“Quando a polícia foi avisada e chegou ao local, só havia o corpo de Margarita, já em adiantado estado de putrefação, com abutres bicando a carne podre do corpo sem cabeça da morena. Cabeça, aliás, que sumira, provavelmente carregada e devorada por algum maldito coiote da região ou pelos próprios abutres.

“Fernando Juan Cuervo nunca foi encontrado. Dizem que ele morreu após ter se arrastado pela planície na vã busca de alguma casa onde os moradores pudessem ajudar, mas a região é deserta, não se encontram moradores por aqui. Assim, alguns levantaram a hipótese de que Fernando Juan Cuervo teria acabado morrendo de agonia e desespero enquanto se arrastava por ali, em busca de ajuda, e depois foi atacado por algum coiote ou cão selvagem ou devorado por algum abutre, que arrastaram sua carcaça.

“O povo falava horrores de Fernando Juan Cuervo, quando este era vivo. Havia indícios de seu envolvimento com drogas pesadas e alucinógenas, bem como sua paixão por livros de ocultismo e magia negra e certos rituais de necromancia e vudu, que aprendera em suas viagens de motocicleta pelo negro Haiti.

“Agora, me disse o velho, alguns acreditavam que o zumbi do motoqueiro Fernando Juan Cuervo, cheio de ódio e desejo de vingança, aparecia ao cair da noite, com sua motocicleta negra e infernal, para vingar-se de todos que passam por aqui... vingar-se especialmente dos caminhoneiros, mas também esperar pelo reencontro com alguém todo especial, o seu inimigo, aquele que atropelara e matara sua amada, a bela Margarita. Os caminhoneiros mais velhos e loucos deram um apelido assustador a esse desaparecido Fernando Juan Cuervo: “MORTOQUEIRO, O ZUMBI DO ASFALTO”!...O velho manco contou-me tudo isto, pois quando era criança conseguiu escapar vivo do “Mortoqueiro”, porém viu seu pai ser atropelado na estrada enquanto trocava um pneu furado. O “Mortoqueiro” feriu a perna do velho, por isto era manco”.

- Vá pro inferno, Boca Tojo! – grunhiu Robson, quase se engasgando com o gole da cerveja, e atirando de modo irritado a lata em direção a seu amigo, que a aparou com as mãos. Subitamente Robson ficara sombrio, como se lembrasse de algo, algo terrível.

Logo depois, houve silêncio dentro da cabina do caminhão, que seguiu ligeiro pelo asfalto. Robson buzinou e loucamente começou a fazer ziguezagues na pista asfaltada, bêbado, irrequieto e sobretudo sombrio.

2.O cão do inferno!

As névoas começaram a aumentar. O crepúsculo começava a sangrar no horizonte, como um poço de laivos de sangue de um cadáver esquartejado. A noite começara a cair, como uma mortalha.

- Chefinho, é melhor acionar os faróis, a porra da névoa começou a apertar, além disso daqui a pouco a noite escurece de vez tudo por aqui, nesta estrada dos infernos. Hoje vai ser noite de lua cheia, mas o luar será precário para diminuir tanta escuridão neste fim de mundo.

- Já acionei os faróis, Boca – disse Robson. – Deixe de ser cagão, homem!

A névoa à frente e a escuridão misturada com os poucos raios de luar davam um tom fantástico e infernal àquela estrada. Robson teve que diminuir a velocidade, já que o caminhão parecia estar transitando pela rodovia do inferno.

De repente um vulto negro surgiu à frente, entre as névoas turbilhonantes. Parecia um animal. Talvez um coiote, um lobo, embora seu aspecto fosse mais sinistro. Robson teve que pisar no breque, o caminhão guinchou feito um demônio ferido, os pneus fumacearam no asfalto negro, o cheiro de borracha se fez sentir.

- Filho da puta! – urrou Robson, manobrando o volante enquanto freava. – Parece um maldito cachorro!

Boca comentou:

- Sim, parece um cachorro preto no meio da névoa. Mas pode ser um coiote também. Está bem ali, cerca de 50 metros à frente do nosso caminhão!

- Pode ser um lobo ou cão selvagem mesmo...

- Sim, pode ser, chefinho!

Robson pegou do porta-luvas um revólver.

- Se for... O meu “trinta-e-oito” aqui vai dar um jeito; vou meter bala no rabo deste desgraçado que está nos fazendo perder tempo e dinheiro! Esta porra de carga de “melancia doidona” tem que chegar até amanhã de manhã, e não vai ser um vira-lata do inferno que vai me impedir de cumprir o tratado!...

Robson abriu a porta do caminhão e desceu com o revólver em riste. Boca também desceu. Ambos se posicionaram em frente ao caminhão estacionado naquela rodovia deserta e enevoada.

- Manda bala, chefinho! – disse Boca, olhando Robson fazendo mira com o revólver; o cão ou o que quer que fosse aquilo, estava parado em meio às névoas. Os olhos da estranha criatura eram vermelhos, Robson e Boca puderam ver. Parecia realmente um cão negro mesmo.

Balas foram descarregadas, quebrando o silêncio do lugar.

O cão preto fugira ao primeiro disparo, sumindo-se nas névoas, deixando para trás não um ladrar comum, mas algo similar a um regougar diabólico de uma hiena sarcástica das savanas negras do inferno.

Se mandou! – disse Boca. – Parecia mais uma hiena, essa coisa no meio das névoas.

- Hiena ou...um cão do inferno! Seja o que for, se essa porra de coisa aparecer de novo no meio da estrada, vou transformá-la em peneira! – disse Robson engatilhando o revólver.

3. Fogo nas névoas!

Ambos voltaram ao caminhão e deram partida. Continuaram a viagem. Cerca de menos de meio quilômetro à frente, o caminhão pifou.

- E agora essa? – gritou enfezado Robson.

- Puta que pariu! É foda pra caralho mesmo! E essa agora? Vamos averiguar o que foi, parece que não temos mais combustível, segundo o que vejo bem aí na sua frente, no painel...Porra, mas não faz pouco tempo enchemos o tanque no posto! O que será que houve, cacete? – disse Boca.

Desceram e foram averiguar. De repente ouviram um ronco de motocicleta. Alguém acelerava raivosamente uma motocicleta.

- Vem alguém pela rodovia, em sentido contrário ao nosso! – disse Boca.

- Não vou vacilar. Nesta região deserta, pode ser assaltante de carga! E hoje em dia, roubam até o nosso tipo de carga, Boca! – disse Robson, indo até a boléia e pegando novamente o revólver que guardara no porta-luvas, após atirar no “cachorro preto”.

Um vulto ao crepúsculo, um motoqueiro negro que vinha em alta velocidade, em meio às névoas, sob a fraca luminosidade da lua cheia. Passou como um relâmpago do inferno por perto de Robson e Boca, os dois tiveram que correr para o acostamento.

- Maluco, esse! – fez Boca.

- Esses motoqueiros andam mais “chapados” que nós dois, Boca! São uns demônios!

Foi nesse instante que Boca viu algo no asfalto, um rasto de combustível, o combustível do caminhão. O tanque provavelmente estava ou fora furado, e agora tinha deixado como que um rastilho de pólvora. E foi aí também que Boca compreendeu tudo. Boca pensou, raciocinou e concluiu. Era ele, sim...era ele, só podia ser!

- Chefinho, olha ali, eis o porquê do caminhão ter pifado!

Robson enfezou-se:.

- Caralho do Diabo! A porra do tanque de combustível fodeu de vez!

Novamente o ruído da motocicleta. O motoqueiro, misterioso e negro, vinha voltando. Boca gritou que era ele, o “Mortoqueiro”, o zumbi do asfalto.

A alguma distância do caminhão e do ponto onde estavam Robson e Boca, o motoqueiro, em meio às névoas e visto indistintamente, começou a acelerar a motocicleta, patinando o pneu traseiro, soltando fumaça e cheiro de borracha queimada no asfalto, até lançar uma pequena fagulha que incendiou o rastro de combustível que seguia até o gotejante tanque do caminhão de Robson.

Num instante, como um rastilho de pólvora, as labaredas correram rumo ao tanque do caminhão.

Robson ainda gritou, antes de ver o caminhão ir pelos ares, numa explosão infernal:

- Corra pra planície ao lado do acostamento, Boca! A porra desse caminhão vai explodir!

E assim os dois fizeram, ocultando-se atrás de um grande matacão ao lado da pista. As labaredas, como demônios, tinham seguido até o tanque do caminhão, que explodira e incendiou por completo, alastrando fogo nas névoas.

4.O zumbi do asfalto!

Após alguns minutos, Robson saiu detrás da rocha com seu amigo Boca. Robson gritou de raiva, olhando ora para o que restara do caminhão em chamas, ora para o motoqueiro ao longe, que empinou a motocicleta e veio em direção a eles.

- Esse filho da puta acabou com meu “possante” e nossa carga de marijuana! Vou mandar bala nesse miserável!

- É ele chefe , só pode ser ... “Mortoqueiro”, o zumbi do asfalto! Atira, chefe! Ele vem vindo pra nos atropelar! Mete bala nesse filho da puta, se for fantasma, não morre, se for vivo, morre e vai pro inferno!

Quando Robson apertou no gatilho, estremeceu. Somente agora ele percebera que havia gastado todas as balas no cachorro ou coiote que minutos atrás cercara o caminhão.

Robson atirou-se para o lado, arremessando o revólver contra o motoqueiro negro e sinistro, mas não conseguiu acertá-lo. Pois ele passara como um bólido. Foi ao cabo de alguns segundo que Robson percebeu que o motociclista sinistro, utilizando-se de uma corrente, laçara o pescoço de Boca e agora ia já longe arrastando o corpo do amigo. Boca foi arrastado por alguns metros, impiedosamente. Gritou muito antes de ter a cabeça arrancada. Depois a corrente foi solta, e o motoqueiro deu um cavalo de pau com a motocicleta e passou por cima do corpo de Boca, esmagando-o, aproveitando para dar um chute na cabeça decepada.

Robson olhava tudo atônito. Era ele, sim. O maldito descendente de mexicano, Fernando Juan Cuervo! O “Mortoqueiro”. O morto-vivo do asfalto!...

O terror de Robson aumento ainda mais quando viu que Cuervo, todo vestido de negro, com um capacete também escuro que lhe ocultava a face, empinou a motocicleta e veio lentamente em sua direção, como se saboreasse o desespero do caminhoneiro.

Cerca de vinte metros à frente de Robson, o “Mortoqueiro” retirou de sua jaqueta de couro negro um pingente, um berloque em que se via a foto de uma bela morena com uma flor nos cabelos negros...a flor que tinha um nome parecido com o seu...Margarita!

Robson reconheceu-a, mesmo de longe. E suas lembranças voltaram, até àquela fatídica noite em que, após fumar cinqüenta baseados e ficar totalmente doido, atropelara Fernando Juan Cuervo e sua amada Margarita, fugindo depois.

A vingança dos mortos é terrível, mas a dos mortos-vivos como Fernando Juan Cuervo é mais terrível ainda.

5. O “Mortoqueiro”ataca e mata!

Um calafrio de medo deslizou como uma lesma fria por sua coluna. Robson estava paralisado de terror, ali, no meio da pista, para onde voltara para olhar melhor, ao longe, o cadáver decapitado de Boca Tojo, atropelado e morto pelo sinistro Fernando Juan Cuervo, o “Mortoqueiro”.

Robson engoliu em seco quando viu o “Mortoqueiro” acelerar a motocicleta e vir em sua direção com um facão em riste, facão que ele sacara de uma bainha presa à sua perna.

Era tarde demais para escapar. Robson teve a cabeça decepada pela lâmina gélida que rebrilhou ao luar, úmida pelas névoas. O sangue tingiu a noite com a cor da violência e da morte. E quando a cabeça de Robson rolou pelo chão, o “Mortoqueiro” fez outro cavalo de pau e retornou, passando por cima, brandindo o facão, como se estivesse comemorando a vingança concluída. Os miolos de Robson salpicaram o asfalto, como um tempero do terror.

A lua cheia chegava, cintilando como um esférico espectro do Além. A névoa, como uma fumaça fantasmagórica, já diminuía e começava a desaparecer. Se alguém estivesse por perto, veria o cão negro do inferno que latiu e depois uivou sinistramente como um demônio louco dos abismos negros das sombras, aproximando-se da motocicleta e seu macabro piloto. Veria também, através da viseira negra do capacete do “mortoqueiro”, um sorriso diabólico de satisfação naquela caveira podre e vingativa que um dia tinha sido o rosto de Fernando Juan Cuervo.

A CRIATURA DO ENGENHO VELHO

O escritor Sergio Paulo De Mello Fonseca nos presentei com um dos contos sobre lobisomens mais interessantes da literatura brasileira. Boa leitura!


A CRIATURA DO ENGENHO VELHO

Sergio Paulo De Mello Fonseca





No início do século XVIII, a região Nordeste mostrava claramente na zona canavieira os sinais de decadência. A região, que no início da colonização portuguesa tinha recebido alguns progressivos estímulos da coroa e até merecido durante um bom período o interesse da presença estrangeira holandesa, estava perdendo a vez para as regiões do ouro. Os engenhos de açúcar característicos da região, começaram a se tornar onerosos e muitos por conta das dívidas dos donos, viraram terra de ninguém ou deixando os vilarejos que surgiam à sua proximidade, por conta de um possível intercâmbio comercial, com a árdua tarefa de prosseguirem com suas próprias pernas. Entre estes que foram abandonados estava o Engenho Velho. Foi engenho batizado com outro nome - nome que preservo - mas que no decorrer dos anos e com o abandono, tornou-se apenas o "Engenho Velho". A Casa Grande tornou-se morada dos animais silvestres, o mato cresceu, telhas caíram, vigas apodreceram resolutas. A vila próxima que surgiu à sua volta no seu período de esplendor, a poucas horas de Recife, conseguiu tornar-se relativamente próspera. Em 1728, já possuía uma boa centena de almas e muitas histórias. Entre algumas que se contavam, inclusive sendo encenada num palco da pequena praça no dia de Todos os Santos, com uma certa relutância do padre da região, era a história da Criatura do Engenho Velho, que passo neste momento a contar. Muitos adultos torciam o nariz para aquilo que parecia crendice. Mas durante quase uma década, oito moradores desapareceram inexplicavelmente. Todos adultos, sem nenhum motivo para fugir e quase nada deixando como prova. Apenas de um deles, o solitário João de Deus Oliveira, foi encontrada uma garrucha detonada e manchada de sangue num caminho que levava ao Engenho Velho. Todos eram homens e haviam desaparecido provavelmente nas horas que antecedem o nascer do dia e em pelo menos duas vezes, gritos de socorro verdadeiramente desesperados tinham ecoado pelos campos quase adormecidos. A vida continuava e a vila ia paulatinamente crescendo, atraindo quase sempre um viajante, um comerciante, um aventureiro. No início do mês de novembro, num dos períodos mais quentes do ano, chegou mais um visitante: José Alves Calhandra. Tinha 24 anos e uma grande vontade de se estabelecer no Brasil. Tinha dinheiro fácil; era único herdeiro de sua mãe viúva. Fez amizade rápido no lugar. Era bom de copo e quase imediatamente à sua chegada, tornou-se o assunto do lugar, sendo alvo durante as missas do assédio de quase todas as moças "casadoiras" da cidade.

Bem, numa noite de farra, tomou conhecimento da existência do Engenho Velho. Melhor, tomou conhecimento de que o lugar estava abandonado e sem esconder, com uma dose de exagerada euforia, disse que o ocuparia sem demora. Os mais chegados tentaram demovê-lo de tal idéia. Certamente haveriam dificuldades e além do mais, alguém lembrou de que todos os se aproximaram do Engenho Velho tinham desaparecido. Desnecessário dizer que José não ficou nem um pouco impressionado com aquela história. Era alguém vindo de um grande centro e não cairia fácil nessas crendices de um lugar meio perdido na colônia. Arrumou poucas coisas num alforje e com a montaria seguiu pela trilha do Engenho assim que amanheceu. Ficou impressionado com a beleza do lugar; a própria decadência promoveu que a flora se recuperasse um pouco, mas o caminho era perturbadoramente silencioso. Após algum tempo no caminho, foi divisando ao longe o complexo do Engenho. Até que chegou e começou sua pesquisa. Animou-se com o que encontrou. Apesar do abandono, encontrou salas e quartos amplos, enorme cozinha; em volta da casa, um razoável pomar de mangueiras, jambeiros e cajueiros. Uma senzala também considerável e uma cavalariça que mostrava a antiga opulência dos proprietários.. Bem... entre o caminho, a chegada e o reconhecimento da casa, o almoço à sombra de um cajueiro, o dia passou rápido e logo escureceu. José Alves estão à vontade naquele lugar que decidiu dormir ali. Iria se arrepender. Mas a noite prometia. A lua surgiu cheia... maravilhosa... iluminando os campos abandonados. Logo após verificar que a cavalgadura estava bem guardada e jantar decidiu dormir. Lua cheia e não sabia, mas era exatamente a lua ideal para a criatura do Engenho Velho. Às duas da manhã quase em ponto, sonhando talvez com o Engenho próspero, José foi acordado por um rugido tão pavoroso vindo dos campos próximos, que foi premiado com uma instantânea dor de cabeça. Atordoado, tentou pensar no que estaria acontecendo e logo pensou no cavalo alugado. Tropeçando na escuridão, correu até onde estava a montaria e a encontrou extremamente nervosa e mal tentou desamarrar a rédea, um outro urro ecoou pela madrugada, dessa vez bem próximo. Isso foi o suficiente para que o cavalo num salto saísse em desabalada carreira, fugindo. Estava miseravelmente só. Talvez nem tanto e pela primeira vez percebeu que não deveria ter menosprezado as orientações de quem conhecia o lugar. De mãos vazias correu de volta à varanda tentando uma visão mais privilegiada do que poderia estar acontecendo. A lua facilitou um pouco e acocorado por trás da pequena murada começou a percorrer com a vista os campos. Até pensou que poderia ser uma peça pregada pelos amigos da vila, mas o terceiro urro o chamou à realidade. Definitivamente aquilo era vindo de um ser animalesco. Ninguém conseguiria produzir aquele som. O coração estava aos pulos e, fosse o que fosse, estava conseguindo assustar-lhe. E ali, naquela trincheira improvisada, percebeu que, da casa abandonada, algo vinha entre saltos e corrida, fazendo vergar as canas selvagens, capim e erva. José preferiu não ver quem era aquele visitante veloz e procurou relembrar um lugar ali que efetivamente pudesse lhe servir de proteção. Pelas portas abertas da casa adentrou, esbarrando com força numa parede do segundo corredor, mas deixou a dor para depois e numa rota que foi mais comprida do que a que havia percorrido, como um raio mergulhou no chão e emburacou pelo portão da terceira cavalariça e encolhido atrás da portaria tentou ficar invisível, agachado e abraçando com força os joelhos. Um uivo ecoou pelo que percebeu ser dentro da casa abandonada e o medo gelou-o. Mentalmente amaldiçoou a luz da lua que indiferente penetrava tranqüilamente pelas frestas do lugar. Subitamente, escutou uma violenta pancada na porta da primeira cavalariça que ao impacto desabou. O senso de preservação e o medo o paralisaram. A audição apurou-se como de um animal e olhos saltavam da órbita, fruto de um medo que até aquele momento desconhecia. Percebeu pesadas passadas e uma respiração ofegante percorrendo a rua da cavalariça. De onde estava havia uma fresta entre as madeiras do portão. Postou-se lentamente diante daquele ponto de observação e esperou. O que viu, ultrapassou tudo o que sua imaginação poderia lhe dar e jamais esqueceu... Completamente indefeso e com o sangue correndo gelado nas veias, José Alves, se pudesse, deixaria de respirar. Pela fresta, e o pior, exatamente às poucos metros dele, surgiu um ser que só tinha escutado falar em histórias antigas ou de folclore em sua terra. Quase completamente cobertos de pelos, com membros definitivamente humanos, mas não podia dizer o mesmo da cabeça, que lembrava uma descomunal cabeça de cão e enormes presas que se sobressaíam de uma boca que se mostrava ainda sangrenta, a criatura tinha entre as garras da mão esquerda, um fragmento grande de carne, que tinha sido visivelmente arrancada. José colocou a mão na boca, quase mordendo os dedos de tanto pavor. Pior, a criatura cheirava o ar tentando localizar algo...tentando localizar sua presa... José Alves. Um urro ecoou pela cavalariça abandonada e pela misturas de odores daquele lugar, aquela criatura tinha dificuldade de localizar o que procurava e após alguns minutos diante dos olhos crispados de José, reiniciou sua corrida pela madrugada adentro. O medo que José sentia era tão grande que o rapaz não teve coragem de se mexer um centímetro. Nem perceber que os ruídos daquela indescritível criatura ficaram bem distantes causou sobre ele qualquer lenitivo.

O dia chegou e por volta das onze horas da manhã, o lugarejo viu adentrar um José Alves completamente diferente. Sujo, com os cabelos em total desalinho e com um olhar que marcou quem o viu. Silenciosamente e após trocar as roupas, que inclusive rasgou em inúmeras tiras, arrumou tudo. Os mais próximos estavam preocupados com o que havia acontecido. José desconversou e disse que coisas inadiáveis o esperavam em Coimbra, terra natal. Chamou-me em particular e me entregou um maço de papéis. Disse-me que tudo precisávamos saber estava ali, mas me fez jurar que só leria após sua saída do lugar. Confesso que sua expressão me convenceu. Já se vão mais de 16 anos que partiu e nunca mais voltou. O Engenho Velho continua abandonado. Cinco pessoas nesse período desapareceram sem deixar rastros. E todos fazemos de conta - talvez para nosso próprio bem - que a nossa vida continua absolutamente normal.

LÊ AGORA!

A Rainha dos Pantanos - Henry Evaristo

Virgílio - Henry Evaristo

UM SALTO NA ESCURIDÃO - Henry Evaristo publica seu primeiro livro

O CELEIRO, de Henry Evaristo

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