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27.9.08


O CULTO SATÂNICO DO ASMODEUS


Diego Santos




Desde minha adolescência venho estudando, obsessivamente, as redes intrincadas do ocultismo ocidental. Dentre meus escritores favoritos de Ciência Oculta estão Eliphas Levi, Lorde Papus, Aleister Crowley, Samael Weor, Conde Cagliostro, entre muitos outros. Minha biblioteca de compêndios mágicos é imensa, composta por mais de quinhentos livros – entre cópias e volumes originais. Nas paredes de meu apartamento espadas antigas, brasões e símbolos místicos ornamentais adornam o ambiente.

Em certo momento de minha vida como pesquisador fiquei abismado com determinada doutrina estudada pela Sociedade Teosófica de uma senhora chamada Madame Blavatski. Dizia esta doutrina que o mundo era regido, a cada era, por uma raça própria que vêm habitando o oeste do planeta desde sua concepção. Segundo os teosofistas, a atual raça de controle do mundo é a raça ariana, sob favônios da Era de Aquário.

O que eu havia aprendido com meu primeiro mestre, Senhor Fajro, ia contra aquela estranha teoria. E como eu havia chegado aos tomos teosóficos por saber que Madame Blavatski era ocultista, comecei a duvidar que os dogmas do templo das sombras eram realmente munidos de boa índole.

Meu segundo e atual mestre, Lorde Mandrágora, me indicou então um estudo avançado em sua própria biblioteca. Como ele iria fazer uma jornada religiosa em Stonehenge, pediu para que eu cuidasse de sua dantesca coleção de livros, que chegava a quase cinco mil volumes catalogados. Aproveitei a oportunidade da reclusão para fazer o maior ciclo de estudo de magia arcana de minha vida, e estava disposto a passar o tempo que fosse ali, até obter todas as respostas para as milhares de perguntas que há tantos anos rondavam minha mente.

A biblioteca de Lorde Mandrágora ficava em sua fazenda no município de Rio Bonito. Era um pavilhão enorme repleto de estantes que chegavam a três metros de altura. Em cada estante cabiam uns trezentos livros ou mais, e em cada uma delas havia uma pequena chapa de ouro exibindo uma letra. A coletânea estava toda dividida em ordem alfabética.

Acredito que todo tipo de livro religioso ou doutrinário tivesse ao menos uma cópia naquele lugar. Lá havia uma Bíblia Sagrada com todos os apócrifos em anexo, livros famosos como a Ciência Oculta de Rudolf Steiner, o Popol Vuth dos maias, o Livro de Ouro da Igreja Gnóstica do mexicano Fernando Moya, o Sagrado Manual de Magia Negra de Falcoy, o Necronomicon de Abdul al Hazred e a Bíblia Satânica de Anton Lavey. Mas livro verdadeiramente singular foi o que observei ao passar pela seção C, a estranha “Compilação Mágica do Culto do Asmodeus”, escrita em um idioma que, para mim, era quase desconhecido. Lembrava bastante os idiomas semíticos, talvez o hebraico, mas ainda assim, para mim, era algo de difícil compreensão.

Sentei-me em frente à gigantesca mesa de cedro que ficava no meio daquele salão oval, e abri este livro a fim de dedicar minha atenção a ele, ao menos nas próximas horas. À medida que o dia ia se extinguindo, a penumbra tomava a residência de Lorde Mandrágora com tal intensidade que mesmo à luz das luminárias era complicado ler as pequenas e garranchadas linhas das páginas do compêndio.

Sob a fraca luz que vinha das paredes as gravuras daquele livro me pareciam cabalísticas e enegrecidas por algum tipo de segredo jamais declarado. Uma dessas gravuras me chamou mais a atenção. Era uma espécie de círculo ovulado com centenas de símbolos geométricos – definitivamente lembrava mais um mapa do que um emblema com fins rituais.

Notei logo que aquele mapa tinha valores em escala equivalentes às medidas do próprio salão onde eu estava. Muitos traços e outras linhas curvadas no mapa representavam respectivamente, o posicionamento de certas estantes e as paredes do próprio recinto. Atrás da estante de letra “A” havia uma escada espiralada que só poderia ser encontrada após empurrar uma escrivaninha rudimentar de ferro.

Logo ao descer os primeiros degraus de escada percebe-se uma carreira de tochas apagadas pelas paredes. Com a ajuda de uma pederneira, fui acendendo os tocos de madeira, um a um. Mesmo assim, era praticamente impossível se contemplar o que havia a mais de três metros de distância, tamanha era a escuridão.

Quando terminei aquela seqüência de mais de cinqüenta degraus de pedra, notei que acabara de pisar em um solo incomum. Sob meus pés senti algo se quebrar. À medida que eu ia caminhando lentamente, outras partes daquele estranho chão iam se quebrando. Usei a tocha que estava na minha mão, aproximei a luz do fogo do piso, e observei, aversivo, o mais bizarro cenário que já tive de considerar em toda a minha existência: aquele lugar, que devia ter uma história secular de existência, era inteiramente coberto por ossos humanos.

Aterrorizado, decidi voltar pelo caminho de onde vim. Deixei a tocha no suporte de onde a havia retirado, e destrambelhado subi dezenas de degraus com velocidade. Porém, logo percebi que meu mais profundo anseio havia se concretizado. A passagem que permitia o acesso ao salão principal havia sido obstruída pela pesada escrivaninha de ferro. Tentei movê-la usando todas as minhas forças, mas logo admiti que o esforço era inútil.

Meu mestre ia demorar pelo menos uma semana para voltar de sua viagem, então aceitei, não muito temerário, que teria que encarar aquela jornada funesta pela câmara da morte que se estendia na passagem subterrânea, do contrário ficaria preso ali até meu total definhamento, aumentando o contingente de hóspedes do lugar.

Desci mais uma vez, cansado e sentindo falta de ar, e com a ajuda da tocha fui me guiando toscamente pelo caminho tortuoso de ossadas. Devo dizer que a luz da tocha praticamente não me isentava das surpresas que podia haver pelo caminho – apenas me ajudava, torpemente, a caminhar com alguma precisão por aquele corredor ancestral.

Para ampliar o meu pânico, senti que estava sendo seguido. Em algum lugar naquela escuridão ameaçadora um vulto vigiava-me, tendo as trevas como aliada. “Quem está aí?”, perguntei, mas obviamente não houve resposta. Logo conclui que estava sendo escoltado por algum tipo de entidade ectoplásmica – um espírito ou um demônio – pois apesar de ouvir com dificuldade seus movimentos, o vulto não fazia nenhum ruído ao pisar nos ossos podres que cobriam o chão.

Não vou mentir: senti muito medo. Talvez este tenha sido o dia em que eu mais senti medo em toda a minha vida, até então pacata. Mas o leitor há de convir que este tipo de situação melindraria até o mais forte dos corações. E conste que eu ainda não cheguei na pior parte – o momento em que encontro o Templo de Asmodeus.

Antes de chegar neste templo, ao sair da câmara dos ossos, tive de entrar em um cubículo estreito repleto de objetos que, até este momento, ainda não sei bem como explanar. Mas acredito que aquele lugar tenha servido como uma espécie de bazar para comercialização de itens rituais. Lá vi espadas, tarôs egípcios, e até uma estátua do deus Anúbis, que parecia ser feita de ouro. Aproveitei e peguei um cordão rústico com o Símbolo de Proteção de Falcoy, e coloquei no pescoço.

Subi então uma pequena escada de ferro, anexada à parede do bazar. Quando cheguei ao topo do assoalho qual foi minha surpresa ao dar de cara com um colossal salão sacramental, iluminado por centenas de velas pretas sobre suportes dourados. Em diversos pontos daquele lugar havia crânios humanos pendurados, símbolos estranhos tingidos com sangue nas paredes, altares com pedaços frescos de membros de seres vivos. Em um desses altares havia uma grande bacia acrílica cheia do que parecia ser vinho – mas antes mesmo de me aproximar do objeto, pude imaginar seu real conteúdo: uns seis litros de sangue, com olhos de todas as cores boiando em sua superfície.

Assustado, caí para trás. Minha tocha tombou da minha mão, e o fogo se extinguiu antes de tocar o solo. Felizmente havia a luz das velas pretas, mas a iluminação não era suficiente para dar a impressão de segurança. Porém, a esta altura, eu não poderia voltar sem antes reacender a tocha.

Caminhei até o centro do enorme salão, onde havia uma grande mesa de mármore com dezenas de placas de compensado suportando-a. Havia dezoito cadeiras, e cada uma apresentava uma placa de ouro no apoio para as costas, com o nome de um comensal que deveria participar dos jantares ali servidos. Era muito difícil ler um nome, pois o mesmo era minuciosamente talhado em baixo relevo dourado – e sob a baixa luz, identificar seu dono era impossível.

Peguei uma dessas cadeiras e a coloquei próxima à parede. Subi e tentei alcançar uma daquelas velas pretas. Esperava trazer minha tocha de volta a ativa usando o fogo da vela. Foi quando ouvi, a alguns metros dali, um estranho ruído. Parecia um guincho de um porco sendo sacrificado dentro da insuportável escuridão. Neste momento senti minha espinha congelar e todos os pêlos da minha nuca se arrepiarem. Demorou, mas finalmente percebi que estava mexendo com coisas erradas.
Notei que o fogo da vela, amarelo e vibrante, transmutou-se em uma cor azulada intensa, antes mesmo de tirá-la de seu suporte. Mesmo assim tirei a fonte de lua da parede, desci da cadeira, e tentei forçar minha vista o máximo que pude para identificar aquele que me ameaçava com sua indigesta invisibilidade. O silêncio era enfadonho letárgico.

Curioso, aproximei o fogo de néon da placa da cadeira onde eu estava sentado. Ou era eu o homem mais azarado do mundo ou fui vítima de uma terrível coincidência, pois a cadeira que eu acabara de usar pertencia ao próprio Asmodeus. E a partir desse momento tive certeza que a pessoa que me espreitava desde que eu entrei naquele santuário subterrâneo iria fazer de tudo para me convencer de que era a própria entidade sobrenatural chamada Asmodeus.

- Você pôs seus pés imundos em meu assento, mundano – disse a criatura submersa nas sombras. Sua voz não se assemelhava nem um pouco com o som da voz humana.

- Quem é você? – perguntei, forçando a vista para identificar o vulto – Você se julga Asmodeus?

O ser lançou uma cavernosa gargalhada, que fez o som ecoar por todo o recinto – Eu sou Asmodeus! Eu presido este culto há meio milênio, desde que as primeiras caravelas portuguesas ancoraram nas praias baianas. Agora você descobriu um segredo petrificado há séculos, que não pode ser revelado a meros mortais curiosos como você.

- Mas... eu não entendo... – dizia eu, enquanto tentava encontrar alguma solução para contornar aquele embate o qual já se tinha um vencedor declarado – porque meu mestre me enviou para cá? Porque um demônio secular como você vive debaixo da fazendo do meu mestre?

- Mandrágora é um mago pouco empelicado. Sempre foi assim – o vulto, recluso em um manto negro que parecia chacoalhar-se mesmo sem a presença do vento, aproximou-se aos poucos, até chegar próximo à grande mesa – acabou comprando esta mansão de um dos meus acólitos falecidos, sem saber que habitava sobre uma nódoa de plasma negro. Eu mesmo assassinei seu mestre há mais de um mês. Fui eu quem lhe mandou o telegrama, dizendo para que viesse para cá cuidar da biblioteca. E também fui eu quem influenciou seu coração a ler a “Compilação Mágica do Culto do Asmodeus”.

- Mas porque isso?

- Porque este é o destino reservado a todos os curiosos que lêem os livros errados. Você devia continuar lendo livros torpes de pseudomagos, devia ler jornais de candomblé, ou entrar para um maldito centro espírita. Mas não. Optou em descobrir a verdade. E a partir do momento que você leu a primeira página do demoníaco livro “o Sagrado Manual de Magia Negra” você vendeu sua alma para mim. Por Satã! É sempre tão fácil!

- Não havia nenhum tipo de conotação neste manual, indicando um possível acordo de imortalidade com...

- É claro que não, mundano estúpido! – o vulto se aproximou de mim, atravessando a mesa com seu corpo etéreo, e então pude ver parte de sua face – Não é assim que funciona. Mas há caminhos sem volta, no mundo carnal e no mundo espiritual. Porém, se você tivesse um raciocínio um pouco mais apurado, identificaria a loucura do autor do livro, Luciano Falcoy, e concluiria o risco em até mesmo folhear as páginas do volume.

- Mas eu vim para a biblioteca unicamente para pesquisar uma inocente teoria de regência de raças deste mundo. A velha Atlântida, a Raça Vermelha, e a atual raça branca...

- O que você chama de inocente, custou a tranqüilidade de milhões de judeus! Atrás das raízes da raça ariana, você acabou metendo as mãos e os olhos em livros errados – com um súbito movimento, o demônio lançou suas efêmeras mãos negras contra minha garganta, pressionando-a com uma violência abominável – e não há maneira de escapar. Vou encontrá-lo nos portões dos ermos desertos de Estigian, e farei com que sua existência eterna seja de imensa dor, ao lado de seu querido mestre.

Naquele minuto comecei a orar. Não para Deus ou para algum santo. Recitei uma antiga reza descrita no Sagrado Manual de Magia Negra, onde Falcoy explicava como afastar um demônio de grande poder usando seu Símbolo de Proteção.

Asmodeus, ou a criatura que se passava por ele, afastou-se teimosamente emitindo um guincho ensurdecedor – e aos poucos foi desaparecendo de vista enquanto se afastava em direção ao altar. Atabalhoado, corri em direção à tocha e a acendi com a ajuda de uma das velas, e sem pensar duas vezes fugi em direção à saída.

Até hoje, não sei de onde tirei forças para mover a escrivaninha de ferro e sair daquela câmara maldita. Também não faço idéia do tipo de criatura que enfrentei, e que outras criaturas participam do culto satânico que acontece sob as terras da fazenda do meu falecido mestre. Para confessar ao leitor, eu prefiro não saber.

E esta mensagem eu escrevo a todos os curiosos que quiserem descer pela escada em espiral sob a escrivaninha na biblioteca da mansão Mandrágora, na fazenda Novo Aeon, em Rio Bonito, interior do Estado do Rio de Janeiro. Não desça por aquela escada, pelo amor de Deus! Faça como eu, procure um emprego ou um estudo cientifico o qual se dedicar, mas jamais pesquise determinados livros os quais conclua, por inexperiência, tratar-se de uma farsa. Não julgue aquilo que não entende.

Divulgue esta mensagem para seus amigos e parentes por cartas, e-mails, ou...


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Este texto foi redigido pelo arquimago Vinicius “Arqueometrè” Vasconcelos, em 2001, poucos minutos antes de sua morte, ainda sem laudo oficial.






A MULHER DO CARRO PRATEADO

Nosso colaborador Pedro Pazzeli retorna com um conto de ficção-científica no melhor estilo anos 80. Boa leitura!




A MULHER DO CARRO PRATEADO


Por Pedro Pazzeli




Junto com a tempestade que começava a cair naquela tarde, ela chegou. Como uma rajada de vento que vem de surpresa, entrou no barulhento bar-restaurante à beira da estrada BR40, próximo à pequena rodoviária da cidadezinha no interior de Minas Gerais.


Cerca de duas dezenas de motoristas de caminhão, homens rudes que sempre ali almoçavam, congelaram seus gestos e seus olhares em pleno verão. Em seus corações, o sangue passou a correr mais veloz, com o calor do desejo queimando-os por dentro. Os ruídos cessaram. O tempo parou. Nem um talher batendo em um prato. Nem o barulho de uma respiração. Até o garçom, franzino, de bigodinho fino, braços abertos, com a bandeja em uma das mãos e o pano de limpeza em outra, virou um espantalho no meio do milharal. Todos haviam se transformado em estátuas. No ar, apenas aquele perfume mágico e maravilhoso que entrava com ela. Sobre sua pele morena e fresca, um lindo vestido, da cor vermelha quase púrpura, onde seios pequenos porém firmes e impetuosos, pareciam querer romper o fino tecido.


Dirigiu-se lentamente ao balcão sacudindo os cabelos cor da noite. Sua voz sensual e meiga disse uma frase:


-Uma xícara de café, por favor.


Como por encanto, aos poucos, todo o ambiente voltou a pulsar. Ouviu-se de novo o tilintar dos talheres, as vozes reiniciando conversas fúteis, as gargalhadas, o arrastar de mesas e cadeiras e o garçom voltando à vida. Ela pegou o café e se dirigiu a uma mesa vazia balançando os quadris atraentes, colocados sobre pernas perfeitas. Puxou uma cadeira e com a elegância de uma dama, se sentou.


Um vulcão entrou em erupção dentro do peito do rapaz que, sentado na mesa ao lado, esqueceu do refrigerante, armou-se de coragem e gaguejando investiu:


-De...dei...xa... que eu pago seu café.


O rosto delicado da mulher levantou-se lentamente mostrando um olhar doce, castanho e quente como a luz de dois faróis intimidando e cegando aquele jovem com seu brilho, mas aquecendo sua alma.


-Obrigada. Você é muito gentil! – soou o canto daquela ave frágil em meio a tantos cães das estradas - Como você se chama?


O coração dele veio até a boca, antes de responder: - Ricardo... e o seu?


- Marta Valéria. – respondeu aquela boca carnuda, dentes perfeitos e hálito de flores do campo.


- Lindo seu nome, faz jus à dona. O que faz aqui?


- Viajo. Viajo muito, e você? – devolveu.


Ele titubeou e meio sem graça, respondeu:


- Motorista de caminhão. – e antes que ela tivesse tempo de pensar, apressou-se em explicar:


- Mas não sou desses que brigam por qualquer besteira, jogam queda de braço, fumam seus cigarros fedorentos, ficam bêbados e arrumam confusão. Sou muito civilizado. E tentando justificar, completou:


- Só estou nessa vida porque fui mandado embora do meu outro emprego. Sou desenhista. De arquitetura, sabe? E também escrevo.


- Escreve?! – animou-se ela. – O que?


-Crônicas para um jornal de bairro. Como colaborador, sabe? Não pagam nada, mas meu nome tá lá toda semana.-disse tentando não demonstrar seu nervosismo com as mãos.


-Compreendo perfeitamente. – tranqüilizou ela. – Eu também escrevo.


-Escreve também?! O que? – animou-se ele, vendo uma identificação, antes difícil.


-Escrevo poemas.


-Ora, vejam só!. Adoro poesias! – disse ele, mesmo sabendo que mentia. Recite uma das suas para mim.


E ela recitou o mais belo dos poemas exaltando a vida, o amor, o céu e as estrelas. Conversaram por meia hora. Ela era culta e falava sobre tudo com desenvoltura.


-Você está viajando para onde, Marta?


-Vou em direção ao Nordeste.


-Coincidência. Eu também. Sul da Bahia, pra ser mais preciso. Podemos viajar juntos. Eu lhe dou uma carona em meu caminhão, se você não se importar. – ofereceu sorridente.


-Tenho carro.-disse ela apagando o sorriso dele. – Mas, sugiro que rodemos juntos pela estrada.-olharam-se fixamente por um tempo e ela levantou-se: - Já tenho que ir. Você vem?


Ele fez um sinal para o garçom e pagou a conta.


A chuva havia parado. Iam se dirigindo à saída, quando um brutamontes de quase dois metros de altura, parecendo um gorila, cheirando à cerveja, roupas amarrotadas e sujas, interceptou-lhes a saída, rosnando:


-Onde pensa que vai com essa belezoca, rapaz? Deixa um pedacinho pra gente!


Todo o local se transformou em um circo, onde dezenas de bocas gargalhavam estrepitosamente. Ricardo se sentiu um palhaço, e reagiu:


-Sai da nossa frente, imbecil!


A expectativa de uma tragédia congelou novamente o local. Até as moscas sobre o balcão do bar pararam. Centelhas voaram dos olhos dos dois homens. A mão do brutamontes, como uma luva de boxe, atingiu Ricardo, atirando-o porta afora. Seu corpo atravessou a calçada e caiu no meio da rua.


O agressor fez menção de ir acabar o que começara. Marta Valéria impediu o massacre interceptando o valentão, colocando a mão suave no ombro daquele ser meio homem meio animal. Era uma flor sendo colocada sobre uma pedra. O gorila deu um safanão na flor e fitou duramente a mulher. Todo o recinto acompanhava com olhares fixos e rostos boquiabertos como bonecos de cera esperando o fogo derretê-los. Ela reagiu encarando-o com um olhar tão poderoso que a montanha de músculos desmontou no chão e desmaiado lá ficou. O silêncio explodiu em mil gargalhadas. Era o último espetáculo do circo.


A jovem atravessou a porta, seguida pelo garçon e meia dúzia de freqüentadores do local, indo de encontro ao jovem caído em meio a uma poça de chuva. Ele ergueu a cabeça à sua aproximação e antes de olhar para aquele rosto angelical, viu os pés pequenos e inocentes como os de uma criança que corre pelos campos numa tarde de primavera. Levantou-se, pensando em tomar satisfações com seu agressor, mas antes que seu ímpeto se transformasse em ação, ela como que adivinhando, interferiu:


-Lembra do que me disse? ...que não era como os outros? Vamos embora. Meu carro é aquele ali. - apontou. Os que saíram do bar-restaurante aproximaram-se do veículo, curiosos. O carrinho, era uma beleza. Um modelo desconhecido.


-É importado? –perguntou. – Onde o conseguiu? Que beleza de conversível! Isto deve valer uma grana, menina!


-Foi presente de família. É maravilhoso. Me leva onde eu quero e nunca enguiça.


-Nossa, é um carro do outro mundo! Estou ansioso para rodarmos juntos. Serei seu segurança. – brincou Ricardo. - Ali está meu caminhão com uma carga de madeira.


Ela olhou o caminhão Scania e disse:


-Por certo nos separaremos em algum ponto da estrada. Quero dizer que foi muito bom conhecê-lo. Meus pais adorariam você. Vivem procurando um partido para mim.


O coração do rapaz deu pulos de alegria, ainda mais quando ela deu um rápido e delicado beijo nos lábios dele. A turma que estava à volta, aplaudiu, deixando-os envergonhados.
-Posso lhe telefonar?


-Não tenho telefone. – respondeu ela.


-E se eu lhe deixar o número do meu celular, você me liga? - ele insistiu entregando-a um cartão.
-Talvez. – disse sorrindo. - Vamos?


O carrinho, que ia na frente, era uma veloz libélula, leve e suave, destacando seu prateado sobre o cinza das estradas e o verde das encostas. O caminhão, logo atrás, era um dragão pesado com sua boca rugindo, cuspindo fumaça e arrotando cheiro de óleo diesel queimado. Os ventos açoitavam os cabelos da mulher fazendo com que Ricardo pensasse como eles deveriam ser espalhados sobre a cama dele.


A chuva recomeçou, a princípio fraca, depois ameaçadora. O nevoeiro surgiu. Raios riscaram o céu e trovoadas amedrontaram. O carrinho de prata fechou a capota e o caminhão ligou o limpador de pára–brisa. A chuva aumentava e o rapaz sentia a necessidade de diminuir a velocidade, enquanto o carrinho atingia velocidades cada vez maiores. O Scania cantava pneus nas curvas, tentando acompanhar o carro daquela mulher misteriosa. Rangiam os freios. Era impossível acompanhá-la. Ricardo buzinou tentando chamar a atenção da motorista para a próxima curva perigosa que era em “V”. Na velocidade em que iam, certamente perderiam o controle dos veículos, atravessariam a pista e se projetariam no abismo. Ele sentiu medo e conseguiu frear a tempo de parar no acostamento, antes da curva. Alarmado, viu a bólide reluzente cruzar a pista, se projetar no vazio, mas logo em seguida, abrir duas asas de metal e alçar vôo por sobre o abismo. Subia cada vez mais, as suas lanternas traseiras piscavam e sua buzina tocava numa saudação de adeus. Atrás do carro, uma esteira de luz saía como se ele tivesse propulsão a jato. Em meio à tempestade, a noite foi caindo enquanto aquele ponto prateado ia diminuído lentamente entre as nuvens carregadas. O rapaz tinha na mente um turbilhão de dúvidas: “Será que ela iria realmente procurá-lo?” “Seria Marta Valéria seu verdadeiro nome?” De tudo, sobrava apenas uma certeza: Aquele era mesmo um carro do outro mundo.


Engrenou a marcha e pôs novamente o caminhão em direção ao Nordeste.

O CASEBRE



O CASEBRE

De Oscar Mendes


A estrada interminável parecia carregar consigo a morte.

Às suas margens nenhum sinal de vida nos últimos quilômetros. Era como se a noite tivesse dominado todas as formas de vida existentes com sua escuridão.

A esperança era a de encontrar um restaurante, uma pousada ou uma residência qualquer onde aquele exausto motorista pudesse descansar.

Ele ardia em febre, fato esse denunciado pelos calafrios que lhe percorriam o corpo e pela sudorese que já tornava sua camisa desconfortavelmente molhada.

- Preciso descansar, tem que aparecer algum lugar por aqui, não é possível.

Seu estado realmente parecia ser grave e a escuridão da estrada somada ao mal estar generalizado que o acometia fazia com que seus olhos por diversas vezes se fechassem por frações de segundos. Um acidente parecia ser eminente.

- Vou encostar e dormir no carro mesmo, não agüento mais. – ao pensar nessa hipótese, como por encanto, uma débil luz se fez surgir logo adiante, do lado direito da estrada, em meio à escuridão.

Sem pensar duas vezes ele entrou com o carro pelo estreito caminho que levava até a casa, e em poucos instantes já estacionava a enorme pick up defronte à porta de entrada.

Ao descer ele pôde sentir o ar frio da mata contrastando com o calor do interior do carro. Seu mal estar pareceu aumentar com esse choque térmico e ele bateu à porta num misto de desespero e esperança.

O silêncio que tomava conta do local foi quebrado pelos lentos passos que, no interior da modesta casa, faziam ranger o assoalho. Logo a porta se abriu.

- Pois não meu fio, im que o preto véio podi ti ajudá? – atendeu amistosamente um senhor que, mesmo com a aparente idade avançada, não largava seu fétido cachimbo.

Disfarçando a náusea que aquele cheiro lhe causara o rapaz prosseguiu.

- Por favor meu senhor. Estava indo pra capital mas parece que a gripe me pegou de jeito, não estou me sentindo nada bem e precisava de um lugar para descansar essa noite. Se não for incômodo, o senhor não teria um quarto pra mim? Eu posso lhe pagar a estadia, se preferir. – respondeu o motorista com os braços cruzados no peito e batendo o queixo de frio.

- Ô meu fio, num carece de pagá nada não pro véio não. Tem um montão de quarto aqui, pode usá um, pode escoiê o que quisé. É difícir aparecê alguém pur aqui, fica a vontadi. Só tem um pobreminha, meu fio. Essa noiti vai tê festa aqui na casa do véio, ispero qui ocê num si incomode. Fora issu, num tem pobrema ninhum não. – prosseguiu o simpático senhor afastando-se de lado para que o pobre rapaz entrasse na sala iluminada somente pela luz de um lampião.

- Problema nenhum meu senhor, fico muito agradecido pela sua ajuda. Pode ficar tranqüilo que, nesse estado em que estou, acho que nem a bomba atômica será capaz de me acordar.

- Intão podi ficá a vontadi. – disse o ancião fechando a porta.

Não demorou praticamente nada para que o motorista se acomodasse em um dos quartos.
O cômodo empoeirado, a cama pouco confortável, a friagem que adentrava pelas frestas das paredes de madeira... nada parecia perturbar o pobre homem que acabou adormecendo mesmo com sua camisa encharcada de suor e sem coberta alguma.

As horas se seguiram envoltas pelo mais absoluto silêncio e escuridão.

Mas o tranqüilo sono do motorista não permaneceria assim por muito tempo. Num dado momento ele foi desperto pelo som de fortes batuques e uma monótona cantoria entoada por inúmeras vozes, como se fossem lamentos.

Ele se ergueu ligeiramente na cama e percebeu que lá de fora vinha uma débil luz, provavelmente de uma fogueira. Aguçou os ouvidos e atentou-se à melodia que era entoada. A melancólica melodia assemelhava-se, em certos momentos, a um choro de dor e tristeza.

- Meu Deus, é isso que chama de festa por aqui? Imagino como devam ser os velórios então... – resmungou ele afundando o rosto no colchão empoeirado.

Por alguns minutos sua mente acompanhou as diferentes melodias que eram entoadas, mas a exaustão do seu corpo falou mais alto e ele voltou a adormecer antes que ele se sentisse envolvido pela intensa tristeza que aquelas melodias carregavam.

Algumas horas se passaram e o motorista tremia ainda mais de febre na simplória cama. Sem saber se devido aos calafrios que atormentavam seu corpo ou por algum outro motivo, ele, já de barriga para cima, abriu lentamente seus olhos.

Mesmo debilitado pela enfermidade que o acometia, pulou na frágil cama ao perceber diversos vultos a rodeá-lo. Seus olhos se arregalaram, seu coração disparou e ele fez menção de se levantar, mas um mal súbito, como um forte golpe em sua cabeça, fez com que ele tombasse desacordado novamente.

O Sol já estava iluminando todo o casebre e raios de sua intensa luz penetravam por todo o aposento através das inúmeras frestas presentes tanto no teto quanto nas paredes, ainda assim o rapaz permanecia imerso no mundo de Morfeu.

Mas seu sono não prosseguiu por muitas horas além do raiar do astro-rei.

Assustado e com uma terrível dor de cabeça o motorista acordou com um forte cutucão nas costelas.

Novamente seus olhos se arregalaram e mais uma vez seu corpo pulou na débil cama.

- O que está acontecendo agora? – indagou ele ao observar o uniforme do sisudo homem de óculos escuros que o olhava com um cacetete nas mãos.

- O que faz aqui rapaz? Está tudo bem? – indagou ele firmemente.

- Ora essa, estava descansando. O dono da casa deixou eu passar a noite aqui. Acho que já estou melhor, a gripe parece ter passado, tirando essa dor de cabeça insuportável. – respondeu o motorista sentando-se na cama e apertando a cabeça com as mãos.

- O dono da casa? Você andou bebendo rapaz? – prosseguiu o policial gesticulando para que saíssem do aposento.

- Eu não bebo guarda, como disse, estava passando muito mal essa noite. E sim, o senhor simpático que me atendeu ontem à noite deixou que eu dormisse aqui. O dono da casa, presumo eu. – respondeu ele caminhando através da porta, seguido pelo policial.

Enquanto seguiam para fora, o motorista, já sentindo-se melhor e refeito do susto, estranhou a aparência abandonada da sala que atravessavam. Não conseguia se recordar direito dos pormenores da noite anterior, mas com certeza a sala não estava daquele jeito. Era uma casa abandonada.

- Olha rapaz. Lamento informar mas essa casa está vazia já a muitos anos. Antes mesmo de eu vir para essa região ela já estava assim. Quando ia rumo ao posto policial logo adiante na estrada estranhei o seu carro estacionado aqui e vim verificar, foi quando te encontrei. O que alguém, com um carrão como o seu, poderia estar fazendo num lugar como esse? Imaginei que se tratasse de alguém precisando de ajuda, ou alguma outra coisa qualquer, alguma ocorrência. Fiquei assustado quando te vi dormindo naquele quarto imundo, parecia estar morto. Realmente não sei como conseguiu. E vir parar aqui nesse lugar abandonado de noite, realmente você é corajoso, essa casa me dá arrepios nesse horário, de noite eu acho que nunca entraria aqui. O motorista coçava nervosamente a cabeça, sem entender o que estava acontecendo.

Realmente a casa estava em péssimo estado e causava mesmo arrepios, mas ele se recordava perfeitamente do amável sorriso do preto velho que o recebera amavelmente naquele lugar.

- Mas um senhor me recebeu aqui ontem quando cheguei, disso eu tenho certeza.

- Lamento, mas não tem ninguém morando aqui à anos, como já te disse. Quer tirar a prova? Vamos verificar o terreno, eu te acompanho. – convidou o policial rezando por uma negativa do rapaz diante da aparência tenebrosa do lugar.

- Tudo bem, vamos sim, preciso tirar essa cisma. Teve até uma festa aqui ontem à noite, com fogueira, batuques e tudo o mais. Lá atrás deve ter alguma coisa que prove isso. Não estou enlouquecendo.

- Certo, vamos verificar. – consentiu o policial já desconfiado da sanidade do forasteiro que seguia à sua frente.

Caminharam ao redor da casa lentamente verificando cada detalhe.

O policial olhava ao redor, ressabiado. O rapaz estava indignado pois não havia nenhum sinal da festa que ocorrera. Fogueira? Nada...

- Como isso é possível policial? Juro por Deus que acordei de noite com a música que o pessoal tocava e cantava. Deviam haver mais de vinte pessoas aqui pelo barulho que faziam e...

O rapaz cessou sua narrativa e seus passos ao sentir um arrepio na espinha que jamais imaginou poder sentir na vida.

Os olhos esbugalhados do policial comprovavam que ele não era o único a ver aquela sinistra cena: ao centro de um descampado logo adiante eles avistaram um pelourinho que vertia sangue fresco pelas frestas da madeira envelhecida...

LÊ AGORA!

A Rainha dos Pantanos - Henry Evaristo

Virgílio - Henry Evaristo

UM SALTO NA ESCURIDÃO - Henry Evaristo publica seu primeiro livro

O CELEIRO, de Henry Evaristo

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Henry Evaristo

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CÓDIGO PENAL - ARTIGOS 184 E 186


Art. 184. Violar direitos de autor e os que lhe são conexos:

Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.

§ 1º Se a violação consistir em reprodução total ou parcial, com intuito de lucro direto ou indireto, por qualquer meio ou processo, de obra intelectual, interpretação, execução ou fonograma, sem autorização expressa do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor, conforme o caso, ou de quem os represente:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.

§ 2º Na mesma pena do § 1o incorre quem, com o intuito de lucro direto ou indireto, distribui, vende, expõe à venda, aluga, introduz no País, adquire, oculta, tem em depósito, original ou cópia de obra intelectual ou fonograma reproduzido com violação do direito de autor, do direito de artista intérprete ou executante ou do direito do produtor de fonograma, ou, ainda, aluga original ou cópia de obra intelectual ou fonograma, sem a expressa autorização dos titulares dos direitos ou de quem os represente.

§ 3º Se a violação consistir no oferecimento ao público, mediante cabo, fibra ótica, satélite, ondas ou qualquer outro sistema que permita ao usuário realizar a seleção da obra ou produção para recebê-la em um tempo e lugar previamente determinados por quem formula a demanda, com intuito de lucro, direto ou indireto, sem autorização expressa, conforme o caso, do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor de fonograma, ou de quem os represente:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.

§ 4º O disposto nos §§ 1o, 2o e 3o não se aplica quando se tratar de exceção ou limitação ao direito de autor ou os que lhe são conexos, em conformidade com o previsto na Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, nem a cópia de obra intelectual ou fonograma, em um só exemplar, para uso privado do copista, sem intuito de lucro direto ou indireto.



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Matilhas - Henry Evaristo

O Lugar Solitário - Henry Evaristo

A Clareira dos Esquecidos (primeira parte) - Henry Evaristo

O OCASO DE HAES-NORYAN, de Henry Evaristo

EU REÚNO AS FORÇAS DOS ABÍSMOS , de Henry Evaristo

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