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5.10.09

FUNERAL EM FAMÍLIA - PEDRO MORENO

Escritor Pedro Moreno estréia como colaborador da CT com um conto de terror sobrenatural assustador. Boa leitura!



Funeral em Família


Pedro Moreno


São 21:00 e o silêncio é perturbador. Minha irmã está lá em cima provavelmente na terceira carreira de cocaína. E ainda achando que nós não percebemos o quê ela faz. Nós. Apesar de mamãe estar morta há 12 horas eu ainda não me acostumei com a idéia.

Mamãe fumava, bebia e frequentava a igreja aos domingos. Devo dizer que a igreja não a ajudou do câncer no pulmão e nem da cirrose que ela cultivava com litros e litros de uísque. Devo dizer que a única coisa que a igreja a ajudou era impedi-la de estar bêbada durante a missa. Mas mesmo assim ao final do ofício religioso o cigarro aceso era quase que instantâneo.

E hoje ela está imóvel e em um caixão branco com detalhes dourados e anjinhos carismáticos nos cantos. Seu rosto parece mais vivo quando morta do quê em vida. A maquiadora fez um trabalho fantástico com base no que mamãe poderia ser caso não tivesse começado a fumar aos 13.

Mas nada muda o fato de que se havia algum tipo de estabilidade em casa, hoje está morta. Mamãe começara a beber quando meu pai falecera, há três anos atrás. Com a morte de mamãe se enterra a causa da morte de meu pai. Mamãe nunca tocara no assunto e toda vez que era perguntada sobre o quê ele morrera ela dizia ataque cardíaco.

Ataque cardíaco não requer caixão fechado, igual ao que papai fora enterrado. E ,estranhamente, o caixão estava muito leve para um senhor que pesava 120 quilos.

Ouço passos na escada, pelo canto do olho vejo minha irmã descendo com todo o cuidado para não cair. Ela vai até a cozinha e fica por um bom tempo. Ao sair pergunta se eu não vou subir, digo que logo. Ela sobe a escada com mais dificuldade do que desceu e enfim solta um suspiro de alívio quando consegue chegar no quarto.

Fico algum tempo olhando para o rosto de mamãe. Repito comigo que não adianta, ela não vai levantar. Nunca mais.

No quarto eu desabo na cama e durmo.

Acordo no meio da noite com alguém no corredor. Provavelmente minha irmã pelo andar arrastado e sem vida. Ouço a porta dela fechando. Desde que minha irmã começou a usar drogas eu por precaução tranco minha porta para evitar furtos noturnos.

A hora passa e eu durmo. Sou acordado com um murro na minha porta, um soco firme que me assusta. Logo imagino o tipo de viagem que minha irmã está tendo. Grito para ela ir embora. Tudo fica em silêncio e outro soco acerta bem no meio da porta e desta vez quase racha a madeira. Eu espero ela ir embora e logo depois tudo volta ao silêncio.

Acordo às 3 da manhã e tudo está escuro lá fora, a casa já não emite os estalos de móveis quando estão esfriando. Não há barulho de grilos e não gatos miando lá fora. O silêncio chega a ser perturbador. Saio da cama em busca de água gelada. Abro o trinco da porta e desço a escada, tomo água direto da garrafa e enxugo a boca na manga da camisa.

Passo pela sala e observo por um tempo o caixão que jaz na sala. Um calafrio percorre meu corpo e meu coração palpita de forma que eu sinto o sangue passando e latejando os meus dedos e logo ficam dormentes. Minha mãe não está no caixão.

Não sei por quanto tempo eu fico paralisado, olhando para o cofre mortuário vazio onde então jazia minha mãe. Derrubei o copo de água e nem reparei no que fizera. Com o barulho eu ouço algo se movendo no andar superior da casa. Só pode ser a viciada de minha irmã tendo algum tipo de alucinação com o corpo de nossa mãe.

Subo as escadas em quatro passos e vou direto ao quarto de minha irmã, abro em um só golpe. O quê vejo foge da normalidade e fere para sempre minha alma.

Minha irmã está morta. Seu ventre está aberto da altura dos seios ao púbis, pedaços de seus órgãos internos estão por toda parte e por dentro resta apenas um vazio macabro e rubro. Há sangue espalhado por todo o lençol e pelo chão. Um cheiro agridoce permeia o ar e logo nauseado. Saio do quarto com o estômago revirando, no corredor eu vomito o quê nem havia comido. E fico por um tempo sentado em meu próprio conteúdo estomacal.

Levanto e olho de volta para o quarto há pedaços de seus intestinos mastigados pelos cantos. Que tipo de criatura perversa teria feito isso? Então me ocorre que é bem provável criatura tenha também atacado o corpo moribundo de minha mãe.

Desço as escadas, quando chego no último degrau vejo algo na cozinha Imóvel. Pego um vassoura e ataco o corpo sem hesitar.

Era minha mãe.

A vassoura acerta a lateral da cabeça, e quando desce vejo que é minha mãe que está na minha frente. Largo minha arma improvisada e a abraço. A possibilidade de minha mãe estar morta nem me ocorre. A abraço fundo e olho para seu rosto que está ensanguentado, imagino eu por causa da fratura que sofrera pelo impacto da vassoura, a abraço de novo e sinto uma dor aguda no meu pescoço.

O sangue quente escorre pelo meu pescoço e eu a empurro contra a pia da cozinha. Sua cabeça bate contra a torneira e abre um talho do tamanho de um punho fechado, fico horrorizado com a cena, porém ela se levanta como se nada tivesse acontecido, abre a sua boca e mostra seus dentes e se precipita a atacar-me de novo. Desta vez eu fujo.

Seus olhos estão amarelados e seu rosto bestial pede por sangue. Meu sangue. Corro até o jardim e o monstro que se tornara minha mãe fica em meu encalço. Tranco-me no quarto de ferragens e sinto a mão pesada desferindo golpes na porta. A cada batida mais perto da minha morte eu me encontro. Agarro uma foice e espero ela chegar.

São 6 da manhã, a polícia chegou junto dos legistas que ficaram horrorizados com a forma que encontraram o corpo de minha irmã e de minha mãe. Este último foi arrancado a cabeça fora e há inúmeras estocadas por todo o torso. Vejo a polícia olhando o tempo todo para mim e de um deles eu ouço a palavra que me acompanhará pelo resto de minha vida: Louco...

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