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20.4.09

CONHECER O MAL



CONHECER O MAL

De Henry Evaristo


Um amigo tinha na parede de seu quarto uma imagem do diabo. A primeira vez que a vi não pude conter um sorriso de desconforto; o sorriso daqueles que desdenham sem convicção. Pois, em verdade, diante de mim, diante daquela parede, o mundo parecia oscilar.
Meu amigo, estudioso da ciência dos sábios, disse-me que aquele sorriso era toda a minha formação cultural gritando de alegria diante da confirmação que tanto esperara. Era o êxtase do conjunto de todas as noções cristãs que me foram transmitidas desde o nascimento vislumbrando a comprovação final: A serpente ancestral existe de fato! Aquele quadro era real, não era uma mera imagem, não senhor! Era uma fotografia.

Nunca tive convicções religiosas. Sempre procurei manter a mente livre de dogmas de quaisquer espécie e aberta para todas as “coisas do mundo”. As aberrações não me surpreendiam; nem os milagres; nem as charlatanices. Nunca acreditei no Deus e no Diabo professados pelo cristianismo e pelas outras tantas crenças dos homens. Sempre tive a impressão de que tudo não passava de mera especulação de mentes inconformadas com o acaso que é a existência humana. Ledo engano! Vi o mal na superfície plana da parede dos fundos daquele quarto; sentei na cama e observei seus imensos cornos pontiagudos; vi suas mil faces e mil línguas e as formas como elas se espalhavam pela terra. E era tudo tão indescritível! As asas negras de morcego, as garras de leão...

Uma lágrima então rolou por minha face ante aquele ser cujos olhos pareciam emanar um poder abominável, mas avassalador. E creio que enlouqueci, pois rolei na cama, bati no peito com os punhos cerrados e arranquei-lhe tufos de pelos. De fato era insano quando me ajoelhei e louvei a besta com os braços erguidos e os olhos esbugalhados. Todo o Deus limpo que veio antes, quando antes tudo o que havia era o verbo, desapareceu; faltou-me todo o sentido do bem, da claridade, das coisas calmas e boas, da esperança e do amor. Desapareceram-me as nuvens e as promessas imaculadas e sobreveio no lugar de tudo o terrível caos de um abismo insondável onde somente habitavam as mais verdadeiras trevas do mal. No entanto tenho que confessar: Senti-me bem! Fiquei aliviado, pois entendi finalmente do que é feita nossa essência. Já desconfiava, é certo! Ora, se não, mostrem-me também uma foto do outro! Enquanto milhões aguardam inocentes o soerguimento de um deus hipotético que marchará desde as brumas do firmamento, como num romance de Tolkien, eu vi, diante de mim, um deus concreto. E ele trazia o mundo em seus olhos; trazia o sangue das guerras nas cores de seu corpo; e o cheiro podre da morte que fazia se espalhar pelo quarto. Espetadas em seus chifres havia milhares de crianças – aquelas renegadas pela misericórdia divina -, todas negrinhas, encaveiradas, mortas com seus estômagos inchados de fome. Ao redor daquilo parecia pairar um vento contaminado que agitava seus pelos castanhos. E as nuvens negras no céu ao fundo prenunciavam tormentas titânicas.
Havia dor, pavor, morte e ruínas naquela fotografia. Havia ganância nas muitas vítimas que o ser trazia e verdade no prazer que se sentia ao observar-se tudo aquilo. Não há bondade neste mundo, mas na maldade! Olhei as crianças mortas e as mães dementes espalhadas no chão; olhei as populações expostas ao vento radioativo cravadas em um canto. Todas estavam rindo junto com a besta e se havia caretas de diabos zombeteiros se esgueirando por entre as nuvens, era somente para divertirem-se com a danação do mundo.

Me quedei então extasiado: O diabo tinha o membro ereto e dele escorria o pus infecto das idéias políticas, das imposições e do controle social; do comunismo e do capitalismo. Seus cascos bi-partidos pisavam a terra onde as foices e os martelos se cruzavam e onde as massas brigavam desesperadas por um lugar decrépito sob um sol negro, o sol de satã; pois o mudo era dele e dele eram as coisas que moviam o mundo.

Súbito, em meio àquela embriaguez alucinada, ouvi uma imensa explosão às minhas costas. Voltando-me para onde estivera meu amigo vi que ele desaparecera. Havia no lugar um enorme buraco no chão de onde um fogo vermelho vertia abundante. Dentro dele, um vulto negro e largo emanava um odor fétido nauseante; uma coisa de muitos braços e pernas que queria se arrastar para fora, que guinchava como porco e vomitava impropérios. Vi uma serpente albina de duas cabeças se arrastar pela parede e depois cair sobre a cama. O sobrenatural! Oh, ele estava ali! Aquele ser asqueroso e bicéfalo trazia em suas escamas os sete nomes infernais que Grandier um dia agradou tentando inutilmente se livrar do marasmo de uma vida ordinária!

Olha! Maravilhas da terra! Senti um cheiro doce e de meus olhos escorreram lágrimas de sangue.

Meu amigo nunca existira; sempre fora do maligno aquilo que se esgueirava por trás de seus olhos. E então, afogado em horror e prazer, descobri que eu mesmo me tornara diferente. De minhas mãos brotaram pelos espessos, de meus dedos se projetaram magníficas garras letais e meus dentes humanos caíram cedendo espaço para enormes presas lupinas. Olhei para as chamas onde a criatura dançava, cheirei o enxofre que pairava no ar e feliz da vida mergulhei no inferno.

Antes, porém, olhei mais uma vez para as paredes em busca de uma fotografia do outro...



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