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20.12.06

ALGUÉM FAZ PARTE DA ESCURIDÃO

O contista Luciano Barreto estreía nas contribuições da Câmara dos Tormentos com um conto criativo e aterrador.
























Alguém faz parte da escuridão

por:Luciano barreto

Dois homens bebiam no bar. Um deles queria ira embora. E o outro não deixava. Falava que ainda era cedo. Que a noite iria melhorar, entre outras coisas.

— Estranho, meu primo paga! Se não pagar põe na minha conta que acerto com você, mês que vem. Vou embora. Vou aproveitar que ele foi ao banheiro. – o comerciante, atrás do balcão e percebendo que Mauro estava bêbado, concordou com o polegar empinado. Seu primo não sabia a hora de parar de beber. Então teve de usar este artifício.

Ele caminhou alguns metros e, trôpego, se aproximou da porta. Fazia sete graus naquela madrugada de quinta-feira. Vira a temperatura na praça central da cidade, antes de encher a cara no bar do estranho. Com imensa dificuldade começou a empreitada de procurar sua chave. O portão era somente empurrar, não necessitava de chave, já a porta não. O frio queimava suas orelhas e as roupas que usava não eram assaz. Uma calça jeans, uma camisa careca, um casaco surrado pelo tempo e um par de sandálias de borracha compunham seu traje naquela noite. A cada palavra que falava, junto com o som saía o vapor clássico das noites frias.

Após uma procura debalde, praguejou e sentou ao pé da porta. As bebidas que ingerira já estavam na garganta e queriam fazer o caminho inverso agora. Seus músculos estavam rígidos. A pele seca. Seu rosto já havia assumido um tom rubro devido à baixa temperatura da madrugada. Encolheu-se todo. A ânsia de vômito lhe rondando e mesmo assim um conhaque ali, naquele momento, seria algo aquecedor. Lembrou-se, então, que havia escondido a chave em uma planta, perto da porta. Sabia que se fosse para o bar do estranho, começaria a beber até o dinheiro acabar. E, por conseguinte, poderia perder a chave de sua pequena casa. Sendo assim a escondera no vaso da planta. Com dificuldade virou-se, ainda sentado, e começou a fuçar o vaso. Alguns segundos e nada! A chave não estava lá. “Onde estaria essa maldita chave?”. Ele pensou. Era uma chave prateada e redonda. O frio o açoitava com rigor. Fez um bico e o encostou à ponta do nariz. Sentiu seu nariz gelado. Era iluminado apenas por uma penumbra que provinha de uma lâmpada colocada acima da porta de sua casa. Um corredor ladeava sua casa. Nos fundos, um quintal com uma enorme árvore.

Mauro, então, iria dormir ali mesmo, ao relento. Já havia se entregado, quem sabe, a uma péssima noite de sono ou à morte. A morte pelo frio. Subitamente resolveu dar uma volta no quintal. A parte mais ao fundo – à noite – era muito escura. Possuía até os locais para colocar lâmpadas, os bocais presos à parede, mas nesses locais não existiam lâmpadas. “Contensão de despesas”, dissera uma vez ao seu primo que fora visitá-lo. Ele, andando a custo, começou a caminhar pelo corredor em direção aos fundos do quintal.

— Tô, muito chapado. Preciso parar com a bebida. Está escuro aqui. Ah, dane-se. Com certeza não preciso de luz. Eu sei exatamente onde está cada coisa nesse quintal. Com o salário que recebo, tenho a obrigação de andar nesta escuridão e andar bem.

No meio do quintal havia um enorme jambeiro. Nos dias de calor ele dava uma ótima sombra. Nos dias de chuva, uma ótima tapagem. Só nos dias de frio que ele não tinha muita utilidade. Seus grossos galhos retorcidos parecidos braços desvairados no ar. As folhas oblongas, como enormes línguas expelidas de uma boca insensata. Mauro, em seus dias de sobriedade, construíra uma escada de madeira acoplada ao tronco da árvore. Mas, com certeza, não iria subir aquela escada. Estava bêbado demais para tal tarefa. Então caminhou vagarosamente até perto do tronco. Encostou a mão no caule e tossiu algumas vezes. Iria bolçar a bebida ali mesmo, se precisasse. A escuridão era gigantesca. O tênue brilho da lâmpada incandescente sobre a porta do corredor não iluminava aquela parte do quintal e o tamanho da copa da árvore sobre quase todo o quintal impedia a passagem de qualquer luminosidade advinda de fora.

O frio ainda o incomodava. Sentou-se ao pé da árvore. Retirou do bolso do casaco, com um pouco de dificuldade, um maço de cigarros de filtros amarelos e um isqueiro que estava dentro da carteira junto aos cigarros. Rodou a pedra do isqueiro e surgiu a primeira faísca, mas não a chama. Rodou mais três vezes e só faíscas. O cigarro preso aos lábios e – por enquanto só a escuridão o tocava. Balançou o isqueiro e tentou novamente. As duas primeiras tentativas foram frustradas, contudo a terceira foi certeira. Encostou a chama no cigarro e puxou a fumaça com avidez. Mauro só queria dar uma talagada em qualquer conhaque barato naquele momento. Intuiu um barulho ao fundo. “Esses ratos são uma peste!” – falou ele em voz alta, ignorando o som. Lembrou-se de uma antiga música de um cantor muito conhecido e começou a assoviar sua melodia. A cada tragada sua face refulgia devido à luminosidade da brasa que ponteava o cigarro. Muitas folhas espalhadas no chão, secas e geladas, rolavam no meio da escuridão. Mauro sentiu algumas folhas em seus pés.

— Não adianta limpar. Elas caem e pronto! – disse, calmamente, olhando para a brasa do cigarro. Deu mais um trago e com a visão periférica viu algo na árvore. Engoliu seco. Virou-se de frente – ainda sentado – e deu outro longo trago segurando o cigarro com o indicador e o polegar direito. O foco do olhar era um dos galhos da árvore. Este trago fora para tentar iluminar o que vira há poucos segundos. Tragou demoradamente enquanto olhava para a árvore. A fumaça saía lentamente de sua boca quando disse:

— Deus do céu! – o cigarro caíra de sua mão e apagara-se em contato com as folhas. Ele começou, já trêmulo, a riscar o isqueiro para iluminar a árvore. Balançou-o e tentou de novo, apontando-o para um dos galhos da árvore. Depois que a chama produzida pelo isqueiro iluminou timidamente a árvore, ele balbuciou:

— Meu Pai do céu! – os olhos, arregalados, viram o corpo de um homem pendurado pelo pescoço em um dos galhos do pé de jambo. Os pés descalços apontando insanamente para o chão. O vento balançava debilmente o homem. Tentou levantar-se desesperadamente, mas um cão, que aparecera do nada, o vigiava. E ao primeiro movimento dele, o canino começou a rosnar medonhamente, em sua direção. Assim, ele voltou ao seu lugar de origem. “Que cachorro é esse?” – dissera para si mesmo. Tudo isso iluminado apenas pela chama do isqueiro. Numa mutação apavorante, começou a aparecer em volta do vira-lata pequenas chamas avermelhadas que corroíam sua carne num método invasivo, de fora para dentro. O animal gemia de dor. A corrosão continuou até o cão tornar-se uma forma redonda de cor vermelha, pairando no ar, recalcitrando à gravidade. Mauro olhava aquilo com horror. Seus olhos refletiam a cor vermelha que pairava a sua frente. Então o espectro vermelho começou a se locomover no ar. Rumou, lentamente, em direção a Mauro, que se encolhia cada vez mais junto ao largo tronco da árvore. Parou exatamente em frente ao rosto seu rosto. E em seguida começou a se deslocar para o corpo suspenso na árvore. O brilho do espectro iluminava o negrume do local. O homem acompanhava o movimento fugaz da matéria sobrenatural, que parou em frente ao corpo inerte do enforcado e englobou sua cabeça. A cena era insólita. O espectro irradiava uma luz avermelhada que deu possibilidade de Mauro ver o que acontecia no galho da árvore. O defunto, pendurado, balançando ao sabor do vento com um espectro avermelhado semitransparente englobando sua cabeça, qual uma touca disforme arriada até o pescoço. Em segundos, a coisa entrou pelas narinas do enforcado e, incrivelmente, o homem abriu os olhos resplandecendo um tom avermelhado, levantou os braços – antes pendidos – e retirou a corda do pescoço, a qual agora pendia sozinha, com um nó corrediço, do galho. A queda no chão foi equilibrada. O zumbi se aproximou do dono do imóvel. Os olhos luzindo a cor vermelha. Ao esticar o braço para o outro a fim de tocá-lo, este começou a ter a carne corroída pelo mesmo processo macabro do canino. Em questão de segundos o zumbi havia sumido, restando apenas o mesmo espectro avermelhado, porém agora um pouco maior; mais vultoso. Mauro tremia de frio e de medo. Mais medo que frio! Presenciara algo inexplicável e medonho.

O espectro pairou por segundos no ar, a sua frente, e repentinamente tomou a cabeça do espectador. Ele tentou – inutilmente – estapear a matéria gasosa que se aproximara, mas fora em vão. Suas mãos trespassavam a entidade vermelha. Quando sua cabeça foi tomada, não conseguiu respirar mais. Debateu-se por menos de um minuto.

Nesse minuto de sofrimento, ele viu um ser de mais ou menos uns noventa centímetros trajando uma túnica negra o olhando. A roupa tinha um cuculo que lhe escondia parte do rosto. Somente era possível ver, à luz vermelha da força letal, parte de um rosto desbotado e dentes pontiagudos vazando uma bocarra. O homúnculo com as mãos para trás; como se esperasse algo daquela situação. Em volta do pescoço e sobre a roupa negra, uma chave prateada e redonda pendurada em seu pescoço.

Depois que Mauro fechou os olhos e parou de se debater, o espectro entrou em suas narinas e ele reabriu os olhos, agora vermelhos. Subiu pela escada do tronco, lentamente. Equilibrou-se corretamente no galho. Abaixou-se, pegou a corda, colocou-a no pescoço, ajustou-a ao diâmetro de seu pescoço e olhou para o encapuzado, no chão. Este apenas meneou a cabeça em sentido positivo e o hospedeiro da entidade pulou do galho. Os sons foram característicos. A corda emitiu um baque surdo ao ser esticada. O galho rangeu um pouco e balançou. Algumas folhas secas caíram, o vento soprou forte e frio, o corpo de Mauro ainda balançava, porém agora na mais das assustadoras trevas.

Então a matéria vermelha desprendeu-se do mais novo cadáver, saindo por suas narinas e tornou a iluminar o local com seu brilho aterrador. Moveu-se em direção à pequena criatura de roupa preta e entrou no vão do capuz, sumindo em seu interior. A escuridão voltou a reinar e aquele pequeno e diabólico, ser era parte dela.

Lá fora, no frio da madrugada, se aproximava o primo de Mauro, extremamente bêbado. Tencionava reclamar com o parente e depois dormir em sua casa. Estava muito bêbado para voltar para a própria casa. Em pouco tempo entrou no quintal e bateu à porta algumas vezes. Depois chamou duas ou três vezes. Viu o vaso todo revirado. Um instinto o empurrou em direção aos fundos, atrás de seu primo. Ele só não sabia que alguém o esperava na escuridão. E esse alguém, definitivamente, não era Mauro.

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