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18.4.08

O SENHOR DO MEDO




O Senhor do Medo






Um conto de Jurandir Araguaia






Sempre nos visitava nas proximidades da meia-noite. Carregava, de nossa pequena e isolada vila, uma pessoa a cada seis meses. Era o suficiente para que se mantivesse vivo, conforme nos informara. Não precisava sugar todo sangue de uma vez. De forma essa que um indivíduo saudável duraria algum tempo antes de secar totalmente. Era um mito crer que os daquela estirpe podiam transformar qualquer pessoa em criatura da noite. O mais comum era hipnotizar um ou outro, fazendo com que a vítima realizasse seus desejos e atendesse aos seus caprichos. Dizia que um dia escolheria alguém para converter plenamente e substituí-lo naquela sina – havia de ser uma pessoa especial. Dizia haver uma lei: “cada morto-vivo só pode dar lugar a mais um”. A natureza devia equilibrar o caos. Afinal, se um grande número de predadores co-existir em um local, as presas podem sumir e a própria sobrevivência dos algozes terá termo. Eram mortais, como nós, mas sua extensa longevidade criou a ilusão de que eram eternos.

Apesar de nos visitar constantemente, deixando todos em alerta, não gostava de passar sustos. Misturava-se às pessoas nas ruas, saudava-as, conversava. Sua fisionomia, apesar da aparência humana, era marcante. Cabelos negros, crespos, compridos caindo pelos ombros. Olhos profundos e escuros. A pele muito clara deixava veias à mostra. Um rosto fino e queixo pontudo. Dentes brancos. Não mostrava as presas, exceto quando queria nos intimidar. Era um monstro amigo. Gostava de se mostrar jovem. Tinha poder e domínio sobre a forma que quisesse. Embora a manutenção da aparência lhe custasse muita energia – e um tanto a mais de vítimas. Se ficasse na forma pertinente, um velho, segundo contam os antigos, talvez o sangue de apenas uma vítima o mantivesse por um ou mais anos. Era um extremo sofrimento ao infeliz que lhe servia de refeição. Os pesadelos freqüentes, a sensação sempre presente da morte, o fim iminente eram torturas que a mente humana não suportava por muito tempo. Poupara o padre a nosso pedido, desde que esse prometesse não se reportar ao Papa.

As noites semestrais da entrega transformaram-se em festa. A comunidade inteira dirigia-se para a praça central. O escolhido, homem ou mulher, tinha seu nome inscrito para sempre nos livros da comunidade. Não é para menos, sua vida poupava os demais. A sobrevivência é a grande mola que move o homem.

A comunidade indicava três nomes. Deviam ser jovens e plenamente saudáveis. Daquela vez eu fui um dos indicados. As semanas que antecederam foram, para mim, de grande tortura. Se pudesse, fugiria para longe. Muitos o faziam, mas havia histórias. Contavam que o monstro mantinha diversas criaturas em alerta que o avisavam das pretensas fugas. Provavelmente ele os convertia em um lanche extra, de sorte que já houve períodos em que poupara vítimas – quem sabe tivesse eu tal ventura. Somente deixava a ilha quem autorizado fosse. Retinha o restante da família do viajante sob ameaça.

A cada vez que cruzava por mim, nas ruas, sentia-lhe dotado de uma energia estranha; uma sensação de vazio me dominava. Houve uma vez que me deparei com ele, sozinho na noite, em uma travessa. Aproximou-se lentamente. Seu rosto não se mostrava. Um capuz mantinha-o na escuridão:

- Juliano. Não é como te chamam? – sua voz soou cavernosa, mas mansa.

- Sim, respondi tremendo e suando frio.

- Já pensou em viver muito? Mais que qualquer mortal antes?

Engoli em seco aquela pergunta. Abaixei os olhos. Ele se aproximou. Fechei os olhos. Seu hálito podre alcançou-me. Quis desfalecer. Não via o seu rosto, apesar da proximidade. Duas faíscas vermelhas brilharam no que devia ser os olhos. Senti que sua boca se aproximava da minha.

- Juliano? – meu pai gritou do início da travessa. Voltei-me em um ímpeto.

- O que faz aí sozinho? – perguntou. Percebi que o monstro sumira sem que meu pai notasse.

Passei meus prováveis últimos dias me despedindo de todos, da floresta, do mar, da areia na praia. Os outros que me acompanhariam eram uma moça e um rapaz. Soube que ele urinava na cama à noite e tiveram que amarrá-lo para que não se matasse. Não sabia eu o que pensar direito. Desde que fora indicado, minha família cercou-me de cuidados. Era um tipo de lei que os indicados, na possibilidade de se despedir da vida, recebessem toda a atenção possível. Nenhuma conta ou taxa seria paga pela minha família durante mais de vinte anos. Era uma dádiva ter alguém escolhido no seio dos entes próximos.

A noite chegou. Durante o dia foi uma grande festa. Cantávamos e dançávamos até que a hora chegasse. Ele chegou voando do alto das nuvens. Realizava manobras no ar que a multidão aplaudia. Desceu no centro da Vila. Os instrumentos e o povo calaram-se. Eu e os outros estávamos perfilados. Banho tomado, longas roupas novas e aflitos. A garota parecia a mais segura. O monstro encarou cada um. Tocou em nossas faces e nos cheirou. Afastou-se. Girou sua capa e apontou o dedo em minha direção. Aproximou-se confiante. Em um ímpeto, saquei de uma estaca de madeira que escondera sob as largas e brancas vestes e que o padre havia preparado e benzido. A besta, surpreendida, recebeu minha firme estocada no coração. Soltou um horrendo grito. Agarrou-me pelos ombros, cravou-me ao pescoço suas presas, caiu ao solo contorcendo-se. Ele se esvaia em dor, um vapor saía dos poros.

- Minha maldição agora é sua! – disse antes de sumir. - Acha que não permiti que o fizesse? A herança deve ser conquistada à força. Você é digno. Seja feliz, meu filho! - Sobraram-lhe as roupas. A multidão e minha família ficaram atônitas. Alguém, em desespero, gritou:

- Vamos matá-lo! Será melhor que nos escravizarmos a outro monstro.

Muitos se lançaram em minha direção. Não sabendo a força que tinha, dei, seguindo um instinto, um salto que me lançou ao alto de uma casa próxima. A multidão parou assustada. Percebi que meus músculos tinham grande força. Minha visão um alcance incomparável. A audição afinadíssima. Sorri para a multidão e corri com grande agilidade para o castelo que herdei. Lá encontrei livros e anotações que deixara. Foram úteis. Aprendi sobre mim mesmo e minha sina. Renovei o acordo com a Vila e retorno a cada seis meses para carregar uma vítima com sangue doce e quente, um elixir que me mantém por vários meses de longa solidão...

Jurandir Araguaia

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