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18.8.09

O VISITANTE DO ESCURO - HENRY EVARISTO




O VISITANTE DO ESCURO

Henry Evaristo

Os livros eram a única companhia de Mendel no escritório da administração. Não gostava da sensação de solidão que o lugar impingia-lhe e muito menos da determinação da direção para que mantivesse as luzes externas apagadas a fim de surpreender algum invasor. Para diminuir a irritação pensava insistentemente no salário e nas horas extras que receberia com as quais poderia finalmente pegar um ônibus e ir passar o natal com seus filhos no estado visinho; ademais, era o segundo emprego emprego fixo que arranjava em mais de cinco anos; mas o primeiro no turno da noite.

Como se não lhe bastasse o fato de seu ofício macabro situar-se às margens de uma estrada que, à medida em que o sol se punha, ia se tornando cada vez mais perturbadoramente deserta, ainda lhe apetecia deveras a leitura de textos terríficos tais como A SOMBRA DO DESCARNADO e O ANDARILHO DA NOITE, ambos romances medonhos de seu escritor favorito, o canadense Norbert Durand.

Sua função era guardar o estabelecimento não permitindo a ação dos vândalos e ladrões de túmulos que vinham agindo desmesuradamente nos últimos dias desde que o vigia anterior demitira-se sem mais explicações. Para isso, a parede central da sala de madeira nos fundos do terreno contava com uma enorme janela que possibilitava uma visão privilegiada do lugar.

Naquela noite em específico as leituras apavorantes que fizera desde cedo o obrigaram, por volta das 23 horas, a cerrar as pesadas cortinas que ladeavam a vidraça de sua janela de vigília. É que a combinação entre os horrores que lia compulsivamente nas páginas amareladas e a visão das lápides imersas nas trevas da noite do lado de fora não estavam lhe fazendo bem aos nervos. Mais de uma vez tivera que interromper a leitura para, de lanterna em punho, dar uma olhada nas imediações por causa de estranhos ruidos que notara em meio ao gemido do vento invernal.

A primeira vez imaginara ter ouvido demasiados latidos de cães das redondezas e, lá fora, chegou mesmo a ter que espantar alguns que se aglomeravam em frente a um portão lateral. A entrada dava acesso diretamente para algumas covas simples no final do cemitério, onde o terreno entrava em franco declive ao se encaminhar para onde eram enterrados os indigentes.

A segunda interrupção em sua leitura foi provocada por sons distantes de batidas surdas que alguém parecia estar desferindo insistentemente em alguma superfície resistente. Às implicações desta possibilidade ele preferiu renunciar e resolveu não sair de dentro da saleta. Todavia, a partir daí, manteve-se involuntariamente alerta e não esqueceu de trancar bem a porta.

Estava quase que totalmente absorto novamente em seu passatempo quando, de repente, avistou com o canto do olho um vulto escuro passar correndo bem diante à janela. Ergueu-se de um salto e sacou o revolver. Tremia. Lentamente dirigiu-se até a porta, mas, logo depois, desistiu e resolveu dar uma espiada para fora através da vidraça.

Aproximou-se da superfície fria, e olhou.

Não avistou absolutamente nada e ficou cismando se não deveria parar de ler aquelas coisas por aquela noite. Foi quando o animal saltou da escuridão quase se chocando contra a janela. Mendel se jogou para trás e se deixou cair sobre a cadeira que ocupava antes. Por um momento sua visão se embaralhou de tanto medo. Depois viu, do lado de fora, um grande cão marrom, de orelhas em pé, que fitava para o lado de dentro ofegante e amedrontado. Arfava de tal maneira que era possível ver seus pelos se agitando sobre a pele. Imediatamente Mendel lembrou-se da passagem que as chuvas torrenciais da semana anterior haviam aberto num trecho do muro setentrional do cemitério. Elas não davam passagem a nenhum homem, mas poderiam ser perfeitamente caminho para um exemplar daqueles. Aquilo acalmou e retirou a aura de "coisa sobrenatural" que o cão já estava assumindo na mente afetada do pequeno vigia.

Porém, algo parecia estar brutalmente errado com a cena. Aquele animal estava mortalmente amedrontado e olhava alucinadamente para dentro do posto de vigília, para os olhos de seu único ocupante. E aproximou-se da janela, pouco antes de desaparecer na noite, como que a implorar que lhe abrissem a porta.

"É de grande porte, como um Mastiff." Pensou Mendel. "Do que teria medo afinal?".
Resolveu afastar o pensamento e voltar a sua leitura. O pobre bicho já deveria estar longe. Com certeza retornara para a estrada, pois o ouvira emitir um ganido curto em algum lugar oculto de sua visão. "Provavelmente arranhou o lombo" Pensou. "Ao se arrastar de volta pela passagem estreita por onde entrou".

Baixou novamente a cabeça e recomeçou. Desta vez, no entanto, demorou bastante a conseguir atingir o mesmo nível de concentração com que iniciara seu turno. A noite ao redor de seu posto assumira uma outra conotação em sua mente. Para ele aquele maldito cemitério bem poderia estar sendo visitado pela entidade que vagava por aquelas estradas. Dizia-se que já fora avistada centenas de vezes se escondendo pelas cercanias. Ninguém saberia dizer o que era, e ele mesmo não acreditava em assombrações. Muitos juravam que se tratava de um vampiro; outros a chamavam de demônio. E muitos sujeitos de fora já haviam visitado a região com suas máquinas para tentar encontrar alguma coisa concreta, mas nunca obtiveram êxito algum. Em fim, para Mendel, até aquela noite, as lendas locais nunca tinham tomando tanta consistência.

De sua cadeira de madeira, com os livros de Durand em sua frente, Mendel passou a imaginar o que faria se de repente a tal fera surgisse rosnando em sua janela. Como aquele estranho cão, ela o olharia nos olhos, mas depois, em vez de desaparecer, se jogaria contra o vidro até conseguir entrar para arrancar fora suas entranhas. Não pôde mais fitar aquele quadro negro; levantou-se, correu até as cortinas e as fechou depressa evitando a todo custo olhar para a escuridão do lado de fora. Tinha a todo momento a impressão de estar ouvindo um ganido de dor canino que viesse de algum lugar nos fundos do cemitério.

Depois foi até o banheiro. Precisava aliviar a bexiga da pressão que ali surgira. Abriu o zíper, segurou a ponta do cinto para não molhar e soltou o fluxo que lhe oprimia o baixo-ventre. Nem bem começara ouviu um baque violento contra a vidraça que o fez virar-se de súbito para fora do minúsculo compartimento; ato continuo, sacou sua arma e disparou aleatoriamente atingindo a única lâmpada que servia de iluminação para o lugar onde estava. A sala mergulhou imediatamente numa escuridão ainda maior do que aquela tão terrível que dominava o mundo do lado de fora. E Mendel ficou paralisado de medo.

O revolver tremia loucamente em sua mão. Seu instinto de sobrevivência lhe ordenava que disparasse contra qualquer coisa que se movesse à sua frente. E ele, com seus olhos contraídos de pavor, via pouco ou quase nada em meio a escuridão.

Mendel era novato. Naquela situação não lembrava mais do que lhe fora dito quando de sua contratação na semana anterior. Não lembrava do interruptor que acendia as luzes exteriores; não lembrava sequer do telefone na parede atrás da porta do banheiro. Lembrou-se, no entanto, e devido à urgência da luz, da lanterna guardada na última gaveta de sua mesa. Ia avançar para lá quando, de súbito, a vidraça estourou com um novo impacto, e se estilhaçou em mil pedaços cortantes que saltaram para o espaço interior com rapidez assassina. Fixaram-se em toda parte, espetando papéis em cima da mesa, rasgando as páginas amareladas dos livros de Durand e atingindo um dos olhos do vigia em desespero. Mas os estilhaços não adentraram o modesto escritório sozinhos. Em meio a nuvem mortal tombou inerte ao soalho de madeira uma massa meio disforme de carne lacerada e ossos.

Mendel jogara-se para o lado de dentro do banheiro após sentir o impacto do objeto cortante em seu olho esquerdo e agora estava dominado por uma dor aguda enquanto ficava cada vez mais banhado em sangue. Mesmo assim pôde notar que partes das cortinas que não haviam sido dilaceradas continuavam baixas e que, apesar do vento do lado de fora, não podia ver objetivamente o que havia por lá. Olhou para frente em direção ao cadáver ensangüentado que jazia a poucos metros de onde estava e reconheceu, por entre a turvação que afetava sua visão, o cão marrom que havia visto pouco antes. Estava comido, devorado parcialmente. Mendel percebeu que sua cabeça estava aberta e lhe faltavam coisas lá dentro. No entanto, alguns de seus membros ainda se moviam em espasmos curtos.

Lentamente tentou se locomover. Procurara fazer o mínimo de barulho possível, mas esbarrou em um monte de vidros quebrados que lhe abriram um corte profundo em uma das mãos. Ele gritou de dor, foi inevitável, e seu grito chamou a atenção da coisa que estava do lado de fora, pois os frangalhos das cortinas se ergueram até quase descobrir uma silhueta alta e magra que se recortava contra a fina luminosidade do nevoeiro que se formara com a chegada da madrugada.

Com o impacto que sofrera, Mendel perdera sua arma e tudo o que se passava por sua cabeça naquele momento era o fato de que não podia disparar contra aquilo que estava do lado de fora tentando entrar. E também não podia fugir no escuro sem nada enxergar que fosse muito além de uma nuvem vermelha em seus olhos.

Resignado, prendeu a respiração e esperou que a aparição se revelasse por inteiro conduzindo-o a um horrenda alvorada de medo e dor. Foi então que veio a voz e a visão que o enlouqueceram. Ao mesmo tempo em que os restos da cortina se ergueram e ele viu.

Do lado de fora, erguendo os restos de tecido que pendiam dos trilhos de alumínio logo acima da janela, estava um homem de terno - um terno simples, escuro, discreto; a vestimenta padrão com a qual enterravam os mais humildes da região. Tinha a pele amarelada e falou com uma voz que não parecia ser deste mundo:

"Estou com fome! Estou com fome! Dê-me meu cão!"

Mendel perdeu os sentidos e assim foi encontrado na manhã seguinte pelos zeladores. A polícia foi chamada e os agentes passaram muitos dias tentando entender o que se passara. Apesar dos danos na estrutura física do escritório e no corpo do funcionário, nada indicava a presença de uma segunda pessoa no local durante a noite em questão. Ele e o cadáver semi-devorado do cão foram encontrados a meio caminho dos fundos do cemitério, no lugar em que o terreno se tornava descendente e levava à ala onde eram enterrados os indigentes.

Pensou-se que o vigia enlouquecera de repente e causara tudo ao local e a si mesmo. Inclusive, num ato de extrema insanidade, teria matado e devorado o cão de rua. Argumentou-se que seus ferimentos teriam sido feitos pelo animal em desespero a lutar pela vida; mas quem quer que o visitasse em seu quarto acolchoado no sanatório municipal, e conseguisse observar mais detalhadamente, poderia jurar que as marcas que se espalhavam por seu corpo, em lugares que ele mesmo jamais poderia alcançar, eram de grandes dentadas humanas.

8 comentários:

Luiz Poleto disse...

Henry, muito bom conto! Passa uma sensação de solidão e desespero. Parabéns.

Victoria Magna disse...

Henry, eu acho que já havia feito um comentário sobre este teu conto. Eu o achei muito doloroso, muito tristonho do ponto de vista de um ser indigente. Mas, tu sabes detalhar bem esses efeitos lancinantes. Sucesso sempre!

Luciano Barreto disse...

Valeu, Henry. Já havia lido esse conto seu, mas é sempre bom revisitar as boas obras! Eu que não queria estar lá nesse horrendo plantão noturno! Abraço.

Lino França Jr. disse...

Caramba, Henry. Me fez lembrar os bons filmes de mortos-vivos. Ótimo conto.

Pedro Moreno disse...

Muito bom... Como faço para participar com um conto?

victor meloni disse...

Já havia lido este primor no RL. Fantástico, com todas as conotações que esta palavra pode carregar! Grande Henry!

melysande disse...

Arrepiante. Muito bom mesmo.

Luna disse...

Este foi o primeiro conto teu que li. Mas não penso ficar por aqui. Gostei da forma como descreves a situação e o ambiente envolto. O toque de mistério misturado com o terror é sem duvida bom.
Vejo que ainda me posso perder em mais leituras de contos da tua autoria.
Obrgd pelo comentário e abraços do Alentejo português!

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