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19.12.09

A LONGA ESPERA DE LEONARD














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Nas sombras da noite de uma fazenda isolada vaga uma criatura insana e mortal. Leonard Baxter, o solitário fazendeiro, terá que enfrentar o maior desafio de sua vida ao deparar-se com um ser inimaginável.

De forma rápida e concisa Henry Evaristo vai conduzindo o leitor por uma estória de horror e angústia cuja identificação com o heroi fica por conta de suas dificuldades em lidar com as questões da vida mas que resolve expurgar suas falhas tomando o caminho mais dificil numa situação de perigo sobrenatural.
(Gabriel Heinrich)


"Um conto muito bem engendrado, célere, e com um final surpreendente! Perfeito na imaginação e na narrativa."

(Paulo Soriano)


" Henry,vc fez meu sangue gelar (...) me assustou, é serio.Que tom macabro,acho que vou acender as luzes do quarto..."

(Hell)





A LONGA ESPERA DE LEONARD

Henry Evaristo



I
Leonard Baxter costumava vistoriar todas as trancas das portas de sua casa duas vezes por noite. Vivia só na sede da fazenda que herdara de seu pai desde que a esposa, Heather, falecera vitimada pelo câncer cerebral que a arrastara pelas sombras da loucura durante longos doze anos antes de vencê-la. Andava na casa dos sessenta anos e era um homem angustiado e destruído pela solidão e a saudade. Àquela altura de sua vida não tinha mais nenhum parente no mundo.


Naquela noite ele havia checado as fechaduras quatro vezes por que, desde cedo, estava vítima de uma estranha inquietação. Sem nenhuma explicação ou motivo aparente seu coração estava agitado, descompassado, causando uma sensação de ansiedade sufocante. Após as nove da noite a tensão se tornara tão forte que chegara a fazer, com os dentes, feridas dolorosas nas pontas dos dedos da mão esquerda. Seus olhos ardiam; Nada o agradava. Todas as posições eram incômodas. Tentou dormir, mas não conseguiu. Foi até a cozinha, mas a comida não passava pela opressão em sua garganta. Ligou a T.V mas sentiu um medo inexplicável do barulho do aparelho. Um pensamento tenebroso de que o som poderia fazer com que algo ruim se aproximasse de sua casa o fez desligá-lo e ficar quieto, quase imóvel, na penumbra da sala, esperando por algo que não poderia imaginar o que fosse. Às onze horas da noite se encontrava em um quadro tão deplorável de inquietação e excitação que respirava com dificuldade. Tudo o assustava. Os pequenos ruídos da noite assumiam uma conotação monstruosa e apavorante e as mais simples explicações cediam lugar para fantásticas e macabras conjecturas.


Assim a madrugada encontrou o velho solitário: Sentado à desgastada cadeira de balanço que fora de seu pai, com medo de mover-se por causa do barulho que o ato causaria; Contendo a respiração para não ser percebido e com o coração explodindo no peito fazendo todo o corpo tremer sob o efeito de um misterioso presságio. Um medo irracional enlouquecedor capaz de transformar um estremecimento numa das portas, causado pelo vento que soprava da floresta próxima, na ação de algum agente malévolo ou o estalar de um galho seco, sob as patas de um dos enormes mastiffs* que guardavam a propriedade, no som dos passos de algum animal mitológico avançando em direção a casa. Seu olhar se fixava na pequena janela de vidro, encoberta por uma fina cortina transparente, ao lado da porta da sala. Em dado momento achou que estava vendo um vulto largo parado, do lado de fora, na varanda. Lembrou-se que a cerca de dez ou vinte minutos os cães pareceram agitados, mas logo se aquietaram novamente. Ficou como estava, imóvel. Começava a sentir uma dor cansada no lado esquerdo do peito e tinha a impressão que sua mão esquerda estava começando a formigar. As batidas surdas do coração pareciam querer rebentar sua nuca. Tinha quase certeza que aquele estranho visitante noturno podia ouvir seu peito saltando e agitando sua carne por baixo da camisa trêmula. Não de caso pensado seu rifle de caça estava afixado mais alto na mesma parede em que encostara a velha cadeira e ao alcance de suas mãos; Porém, tinha medo de que as juntas de seus velhos ossos estalassem ao se erguer para alcançá-lo.


De olhos arregalados e com uma falta de ar crescente viu confirmar-se a existência de um vulto que se mexia lentamente do lado de fora. Ouviu o estalar da madeira do chão da varanda sob um peso que devia ser descomunal e notou que a porta estava tremulando tenuemente como se experimentada por algo que não queria ser percebido. Subitamente, para cúmulo de seu horror, o som forte de uma rachadura nova se abrindo no piso, chegando a seus ouvidos, trouxe com ela um ruído surdo, gutural e feroz; Um rosnar bestial que pareceu brotar da garganta de um demônio e espalhar-se por toda a casa, como um lamento de intensa dor que o fez perder os sentidos.


II

A consciência só lhe retornou às cinco da manhã e ele levou poucos segundos para recuperar a lembrança do que acontecera; Depois disso, seu coração saltou novamente no peito com uma pontada dolorosa e um frio que se espalhava do estômago para o corpo inteiro. Levantou a cabeça lentamente a procura do vulto que avistara na janela. Uma luz mortiça e fria banhava agora a sala inteira vindo do ponto em que deveria estar a vidraça e Leonard descobriu, com os olhos saltados nas órbitas, que no lugar não havia mais nada senão um enorme buraco, feito de fora para dentro, diante do qual jazia a cortina jogada ao chão onde ondulava suavemente ao sabor da brisa fria e úmida da manhã que chegava. Enquanto ele estivera sem sentidos a coisa estilhaçara o vidro para o observar inerte na cadeira.

III

Quando o dia chegou, pois a luz arrefece os terrores da noite, Leonard finalmente conseguiu levantar-se. Lentamente, e ainda com um medo terrível, retirou o rifle do suporte na parede e agarrou-o com força colocando-o entre si e o que quer que ainda estivesse andando por ali mesmo na claridade da manhã. Não quis saber de olhar os cômodos da casa. Foi em direção à porta da sala, destrancou-a e abriu. Viu primeiro um buraco na madeira do piso do lado de fora e, em sua borda dentada, pedaços ensangüentados de um couro duro coberto de pelos escuros e espessos. Depois observou que toda a extensão da varanda, seguindo uma linha vacilante desde a divisa com o chão de terra, onde havia uma escada de dois degraus, até chegar à porta, estava coberta de pegadas semelhantes às de um cão de grande porte. Depois foi até o quintal onde encontrou dezenas de outras pegadas iguais na terra úmida em volta da casa. Não conteve uma nova onda de arrepios ao imaginar que o estranho ser muito provavelmente estivera rondando o local desde cedo antes de se aproximar da vidraça; E sentiu um baque surdo no peito ao lembrar que chegara a sair no escuro para soltar e alimentar os cães por volta das sete e meia. Sua mente perturbada formulava mil imagens de uma face canina diabólica espiando para dentro de casa pelas janelas dos quartos do andar térreo.


Estas foram as conclusões a que Leonard chegou depois que observou o exterior de sua propriedade naquela manhã. Porém, ainda não havia visto tudo.


Nos fundos do terreno, perto do pequeno jardim que sua esposa cultivara em vida, e que ele mesmo assumira após sua trágica morte, encontrou os três cães da fazenda. Haviam sido terrivelmente mutilados por algo com uma fúria bestial inelutável. A coisa havia, ainda, levado consigo as cabeças e parte das vísceras dos Mastiffs de forma que, do lugar onde jaziam os restos mortais dos três animais, meio imersos em poças coaguladas, partia uma trilha de sangue e pequenos pedaços de carne que seguia em direção ao velho celeiro desativado que ficava numa área isolada e alta nos limites da propriedade. O pensamento de que o ser ainda podia estar lá, escondido, devorando em meio ao feno apodrecido as partes gotejantes de seus animais de estimação, fez o estômago vazio de Leonard revirar em náuseas.


A fazenda Baxter ficava distante das demais propriedades da região e a ausência de vizinhos próximos sempre fora uma qualidade exaltada por seus proprietários como uma justificativa de paz e silêncio. No entanto, agora, esta quietude e isolamento estavam cobrando um temeroso posicionamento. O prédio decrépito que era o velho celeiro, antes solitário no alto de sua colina cinzenta, representava agora o vórtice de todo o horror e foi com muito custo que Leonard tomou a decisão de aproximar-se dele sozinho.


Com extrema cautela, evitando pisar nos galhos e folhas espalhados no chão e esgueirando-se por entre os troncos das árvores que existiam no percurso, o velho avançou para o seu destino.

IV

A imensa porta estava aberta. A corrente que a mantinha firme no lugar fora arrancada e o cadeado retorcido num golpe violento que rebentara também as dobradiças e o caixilho. No chão podia-se ver claramente a trilha sangrenta avançando para a escuridão no interior onde dominava um silêncio mórbido; uma quietude nefasta rompida apenas pelo estranho farfalhar do vento frio nas folhas das árvores. No solo ensangüentado as moscas começavam a descobrir os pequenos pedaços de carne espalhados aqui e ali e zumbiam timidamente.


Leonard parou diante da grande entrada do celeiro e viu as trevas ameaçadoras do lado de dentro; Pareciam querer saltar de lá e agarrá-lo de tão pesadas e concretas. Já estavam ali antes, sempre estiveram, mas apenas existiam sós com elas mesmas. Agora tudo mudara e aquela escuridão tornara-se, repentinamente, o abrigo de uma coisa que estava se escondendo do dia; Algo que havia saltado de qualquer lugar macabro do universo e agora estava ali, ameaçando, intimidando, com promessas de dor, horror e morte.


Foi diante disso que Leonard perseverou quando deveria ter partido. Talvez o choque da noite anterior o tivesse enlouquecido a ponto de não pegar o carro e sair o quanto antes; A ponto de não pensar em usar o telefone para chamar a polícia em seu auxílio. Talvez o fato de sempre ter sido um grande covarde a esperar pelos outros tivesse algo a ver com sua atitude inusitada diante de tudo aquilo.


Assim o velho relógio de madeira marcou seis horas da tarde no interior da sede solitária da fazenda Baxter e as primeiras sombras da noite começaram a se insinuar por entre as árvores.


Leonard tinha a boca seca. Estava tonto e enfraquecido. Não comera nem bebera nada o dia inteiro. Não tomara banho, não trocara de roupa. Ainda estava de pé recostado ao tronco de um carvalho em frente à entrada aberta e escura do celeiro. O cheiro do sangue que vinha da trilha tornara-se ainda mais nauseante e o barulho das moscas intensificara-se aumentando ainda mais o seu mal-estar. Já sentira tanto medo que parecia não sentir mais medo algum e, quando as sombras cobriram tudo, ele baixou a cabeça pensando em Heather e na vida que deveria ter tido.


Foi um grito pavoroso que fê-lo estremecer novamente. Ergueu rapidamente a cabeça para a entrada do prédio e viu a sombra larga vir surgindo da escuridão, como alguma locomotiva enlouquecida e desgovernada, até parar de repente no limite da porta destruída. De lá, perscrutou-o com dois olhos amarelo-avermelhados que faiscavam em sua direção.


Leonard engatilhou a arma. Tinha esperança que a velha munição, carregada semanas antes, ainda detonasse. Pensou mais uma vez em sua esposa e sentiu como se o pensamento amortizasse o horror. Naquele momento não tinha mais medo, pelo contrário, estava cansado de esperar. Pelo menos aquilo se resolveria ali e não se arrastaria como mais uma pendência em sua existência. Não esperaria por ninguém para apresentar soluções por ele desta vez. Se a coisa o quisesse que viesse apanhá-lo.


"Este bicho que come seus semelhantes!" Pensou. Já tinha ouvido falar dele nos bares da cidade onde muita gente dizia já ter tido contato com alguma coisa horrenda que ficava rondando os homens durante as caçadas noturnas na floresta. Falavam no nome do juiz Gardner, mas apenas quando ele estava bem longe. Por sua vez, Leonard nunca tivera motivos para acreditar nas estórias e muito menos para lançar suspeitas sobre quem quer que fosse. Porém, nas últimas horas, o destino lhe dera todos os motivos do mundo para dar crédito a tudo que o povo falava. Estava ali, agora, sozinho com o caçador dos caçadores. Ao seu redor a noite, e no céu uma lua grande e prateada, eram as únicas testemunhas do que estava para acontecer.


Leonard Baxter disparou uma vez para o alto e prendeu a respiração quando o pesadelo demoníaco saltou da escuridão com as garras ensangüentadas estendidas para despedaçá-lo. Agora, ao invés de horror, tinha pressa.

V

Em 1990 o antropólogo alemão Karl Heinrich Heller visitou alguns países estrangeiros onde havia informações pertinentes à sua tese de doutoramento na conceituada Humboldt-Universität zu Berlin, o mais antigo centro acadêmico da capital germânica. Na América do norte foi até uma cidade do interior rural onde, num sanatório público, pôde entrevistar o paciente 176, supostamente de grande ajuda para suas pesquisas. Era já um ancião e fora levado à instituição por um grupo de moradores da cidade que o haviam encontrado vagando desorientado por uma estrada numa manhã há mais de dez anos. De sua vida dizia que nada lembrava e, com exceção de alguns momentos de tímida agitação, não demonstrava nenhum outro tipo de reação.


Seu passado pessoal tampouco interessava ao estudioso. Ele viajara de tão longe com tantos custos, e driblara o obstáculo da língua estudando tão arduamente, para falar de antropomorfismos e seres metamorfos. Mas todas as suas tentativas de arrancar alguma coisa, uma parte sequer que confirmasse as estórias fabulosas que ouvira a seu respeito na Alemanha, foram frustradas diante da letargia do ancião. De outras pessoas da região, dotada de vilas e pequenas cidades, ouviu boatos e especulações, mas do paciente no sanatório nenhuma palavra saiu. Nem mesmo diante da vasta literatura que lhe foi apresentada pelo doutorando abordando o assunto de diversas formas distintas como o estudo do padre Baring-gould, do século XVIII, e o Exemplar raríssimo do tratado sobre licantropia escrito em 1408 pelo ocultista austríaco Päl Wilhelm Von Sorian, intitulado “De Mancipium ex Luna”. O velho vivia imerso num mundo particular e silencioso. Seus únicos momentos de exaltação eram quando ouvia mencionarem a caixa de ferro que trazia trancada em baixo do braço desde que chegara ao manicômio e que nunca, por motivo algum, largara ou deixara alguém tocar. O antropólogo o indagou sobre o conteúdo, sobre o que havia acontecido, o que havia visto e, depois de um mês de exaustivas tentativas, o máximo que conseguira fora que o "louco" levantasse de repente a camisa do pijama deixando à mostra seu tórax muito branco onde cinco cicatrizes retilíneas se destacavam róseas sob uma camada grossa de pelos negros. Depois nada mais além do mais completo silêncio.


Na última tarde, pouco antes de deixar a hospedaria onde se instalara, Karl Heller recebeu um envelope lacrado com um selo do hospital. Dentro havia um bilhete e um embrulho feito com papel de jornal. Ele prontamente leu o escrito no bilhete antes mesmo de partir. Dizia apenas isto:


“Vá embora, doutor. Jamais falarei ao senhor ou a quem quer que seja. Não sou louco, mas vivi uma loucura sem precedentes. Tive meu momento de cuidar de mim. Agora, no fim de minha vida, quero que os outros cuidem de novo. Quero mesmo um bando de guardas vigiando minhas portas e janelas. No entanto, tenho aqui uma coisa para garantir o sucesso de seu trabalho. Aliás, tenho várias delas em minha caixa secreta; Até hoje me colocam sob uma expectativa que me é totalmente obscura e assombram minhas noites. Espero que não assombrem tanto as suas.
Adeus."


A mensagem acabava assim, sem nenhuma assinatura.


Na estrada para a capital do estado ficava a fazenda abandonada onde diziam que o velho que morava sozinho, de uma hora para a outra, enlouquecera devido ao isolamento e à tristeza um ano após a morte trágica da esposa. Karl parou o carro alugado na entrada coberta por capim e plantas trepadeiras, sentido o vento gélido que soprava da densa floresta circunvizinha. Era quase sete horas da noite e uma garoa espessa começara a cair prenunciando frio ainda mais intenso. Os faróis do carro semi-iluminavam a estradinha de terra que levava à sede da propriedade e, mais além, à uma tenebrosa construção imersa nas sombras do alto de uma pequena colina, que parecia ter sido um celeiro.


Por algum motivo achou que aquele era o momento propício para abrir o pequeno embrulho e cuidadosamente desdobrou o jornal que o cobria. Havia uma manchete que logo despertou sua atenção; Era do ano de 1980. Suas letras garrafais diziam: “Estranho animal encontrado morto na fazenda dos Baxter. Proprietário desaparecido." Não havia foto alguma.


Dentro do embrulho do jornal havia um caixa de palitos de fósforos tamanho grande. Heller a abriu. Primeiro seus olhos avistaram apenas uma coisa branca amarelada. Depois ele abriu mais a caixa removendo toda a parte de dentro e sentiu seus cabelos se eriçarem. Havia, no interior, uma imensa presa, maior que o dedo indicador de um homem adulto. Mas havia mais do que isso: No fundo da caixa, embaixo daquele artefato bizarro, jazia um enorme par de garras encardidas e pontiagudas amarradas cuidadosamente com um punhado de grossos fios de pelos negros.


Karl Heller tremeu na escuridão e no frio. Estava tão nervoso que mal conseguiu dar partida no motor do carro e olhava incessantemente pelo retrovisor. Seus anos de estudos sobre o tema o haviam tornado profundo conhecedor do ser que perseguia e temia; profundo a ponto de não mais conseguir ignorar a possibilidade mínima, por mais absurda que fosse, de sua real existência. Rapidamente trancou todas as portas e partiu voltando-se sempre para trás e para os lados; Para as florestas que margeavam a estrada deserta e escura que teria de percorrer sozinho até chegar à cidade e pegar o avião. Para o resto de sua vida lembrou-se das cicatrizes no peito do velho e se sentiu ameaçado.

VI

Em Dezembro de 1999 Karl Heller se surpreendeu ao chegar em seu apartamento em Düsseldorf vindo de um longo dia de debates e ministrações de palestras sobre rituais mágicos em culturas do velho mundo. Havia em sua caixa de correio uma correspondência com o timbre do Howard Jenkins Institute, o hospital norte-americano que visitara quase dez anos antes e onde obtivera o material que tanto o auxiliara em seu doutorado. Primeiro um pequeno bilhete em papel cartão especial comunicava formalmente o falecimento do paciente 176, o mais antigo da instituição, que sucumbira a um enfarte fulminante com mais de noventa anos; e terminava informando que, de acordo com o último pedido do falecido, o hospital encaminhara em anexo uma carta manuscrita juntamente com a enigmática caixinha de ferro do paciente legada ao doutor por escrito enviado à direção.


Heller sentiu o coração bater mais forte diante da perspectiva de, finalmente, estar recebendo as informações que implorara àquela sua tão inexpugnável fonte de tempos passados. Pensou que finalmente o maldito velho iria falar, depois de morto! E Foi com um nervosismo crescente e incontrolável que abriu o envelope.


“Caro senhor Heller, espero que tenha corrido tudo a seu favor em sua defesa junto a bancada analisadora de seu doutoramento. Saiba que admiro muito as belezas de seu país e, por toda a minha vida, esperei um dia poder conhecê-lo; Infelizmente até hoje o Pai celestial não me permitiu esta graça.


Escrevo esta pequena carta um dia depois que o senhor deixou o hospital pela última vez e vou guardá-la para que lhe enviem, lacrada, somente após minha morte, ou seja lá que outro destino a providência me reservar. Ainda assim não vou contar-lhe o que tive de enfrentar sozinho em minha velha fazenda. Tenho certeza que sabe muito bem o que era!


As pessoas desta cidade são muito simples, quero que entenda! E o que me aconteceu foge ao alcance de suas compreensões. A coisa toda acabou se tornando uma espécie de segredo coletivo de nossa pacata comunidade. Por isso, creio eu, todos com quem falou evitaram contar-lhe toda a verdade.


Veja bem! Estou velho e todo aquele horror deixou-me marcas incuráveis no corpo e na mente. Infelizmente apenas depois que o senhor se foi é que fui capaz de decidir que não poderia morrer sem que alguém mais, além de mim, pudesse comprovar a história.


Quero dizer que a manchete de jornal que lhe enviei não passou de um tremendo equívoco da imprensa local, pois o "estranho Animal" encontrado em minha propriedade não passava dos restos amontoados de meus três cães pastores somados à imaginação oportunista de algum vendedor de periódicos. O fato, aliás, foi desmentido na mesma semana pela mesma agência de notícias, para não causar alarde. Consideraram-me um louco desaparecido que devorava animais de estimação. Oh, Deus! A verdade é que vaguei desnorteado por esta estrada durante duas semanas; À noite escondia-me do que quer fosse subindo bem alto em alguma árvore. Mas não me entenda mal! Houve realmente uma coisa diabólica naquela fazenda! Foi dela que tirei as partes com as quais lhe presenteei. Dei-lhe seis tiros na cara com o rifle especial de meu pai, mas ela ainda conseguiu me alcançar antes de cair.


Em meu internato aqui neste hospital li discreta e secretamente tudo o que pude sobre o assunto - mesmo antes de o senhor me mostrar seus valiosos compêndios - e, felizmente, creio eu, a contaminação a que fui exposto resumiu-se ao aparecimento daqueles pelos mais espessos que o normal onde o monstro conseguiu me atingir com suas garras.


Senhor Heller, não estou mentindo! A criatura realmente existiu! Mandei-lhe a manchete sensacionalista para aplacar a sua ânsia, mas, se continuar querendo vê-la, aquela abominação, sua carcaça maldita ainda deve estar enterrada atrás do velho celeiro ao lado do poço onde a deixei!


Não sou louco, senhor! E o que quero em troca da minha verdade é que diga isso a quem interessar neste mundo!


Com respeito,
Leonard J. Baxter
Outubro de 1990.”


“P.S: Cuide bem de minha caixa, ela é herança de meu pai. Dentro encontrará alguns outros itens que, tenho certeza, vão lhe interessar deveras.”

VII

Às oito da manhã do dia seguinte o doutor Karl Heller embarcou em um vôo especial e, dois dias depois, estacionou o carro da Avis rent-a-car em frente à velha fazenda abandonada dos Baxter. Fizera de tudo para evitar, mas só conseguira chegar ao local depois das cinco da tarde pois antes estivera reunido com o diretor do Howard Jenkins Institute onde conversara sobre o paciente 176 e como tudo a seu respeito havia sido imbuido de uma estranheza mórbida. Mesmo sua morte solitária no apartamento que ocupava havia sido algo de extraordinário. Falecera às seis da tarde sob o que parecera ser a algazarra lamentosa de todos os cães das redondezas. Em dado momento o assustado diretor ousara revelar um pouco do que ia em sua cabeça. "Deus me livre!" Disse ele e continuou falando num tom nervoso. "Mas aquele velho tinha mesmo algo terrível a esconder. Mais de uma vez o surpreendi fazendo coisas reprováveis. Uma noite, perto do fim, posso até jurar que o ouvi rosnando como um animal dentro de seu quarto escuro."


O endereço da antiga fazenda era agora uma granja pertencente a uma indústria de enlatados e não foi fácil convencer os seguranças para deixá-lo entrar e escavar atrás de um dos criadouros, onde antes ficava o celeiro. Após quase uma hora de negociações e pedidos de autorização sua entrada foi finalmente liberada desde que acompanhado por dois dos seguranças. Era um inicio de noite de Domingo e não havia movimento algum no interior das novas instalações.


A área para onde Karl se dirigiu com os guardas ficava afastada do escritório e já começava a penetrar na floresta escura que circundava a propriedade. No caminho um dos acompanhantes quebrou o silêncio:


"O senhor é repórter?"-perguntou.


"Não! Por quê?"-Respondeu Heller.


"Oh, não é nada!"


"Bem!" Disse o outro enquanto acendia a lanterna. “É que alguns repórteres andaram rondando por aqui nas últimas semanas."


"Verdade? E por quê?" Perguntou o antropólogo sentindo uma rajada de frio súbita e inconveniente no coração.


“É que parece que o povo da cidadezinha ali a diante tem se queixado desta granja. Dizem que as nossas aves devem estar atraindo algum animal selvagem que está atacando as galinhas e outros bichos soltos nos quintais das residências durante a noite.


Karl Heller sentiu as pernas vacilarem. Não podia creditar no que ouvira. Por não saber o que dizer ficou calado, mas, de repente, todo o ambiente ao redor assumiu uma outra conotação, mais macabra e violenta.


Foi em meio a pensamentos atordoados, e divididos entre o fascínio e o horror, que, em fim, avistou, sobre a colina escura, por trás do criadouro abarrotado de aves adormecidas, o poço mencionado pelo velho Leonard.


"Ali!" Apontou. "Acho que o que procuro está ali!" E sua voz agora continha tons de euforia indisfarçáveis que causaram nos seguranças suspeitas de algo errado com aquele homem.


"Hei, Bors!" Disse um deles "Acho que este senhor procura algum tesouro que nossos patrões deixaram escapar."


Karl pretendia escavar um buraco pequeno e por isso trouxera consigo uma pequena pá metálica de pedreiro. Ajoelhou-se no chão bem ao lado do poço e depois mostrou o instrumento aos guardas como que pedindo uma última autorização. “Fique a vontade, senhor. Ninguém anda por aqui e nosso turno só encerra às seis da manhã.” Disse o segurança com a lanterna.


E então Heller começou a cavar sob o foco sinistro das lanternas dos guardas de segurança; Agradecido por eles estarem com ele, naquele lugar estranho e pressago, armados. A luz saltitante formava como uma ilha de claridade em seu entorno e contrastava ferozmente com a escuridão da floresta. Logo um amontoado de terra se formou ao lado de uma abertura de mais ou menos um metro e meio de comprimento na superfície do solo estranhamente solto e parecendo revirado recentemente. Era mais de sete horas quando Karl entendeu com um calafrio que, como em um pesadelo, não havia mais nada enterrado ali e, a partir deste momento, seus olhos não desviaram mais de dois segundos da orla da mata inundada pelo negrume da noite. Um pensamento insistia em se insinuar como serpente venenosa em sua mente “O velho não mentiu. Sei que não!”.


De repente ergueu-se num salto e começou a voltar para o carro apressadamente. Os guardas o acompanharam intrigados.


"E então, senhor? Encontrou o que queria?".


"O que era?" Indagou o outro.


O pátio da granja era bem iluminado e aqui e ali outros seguranças caminhavam em duplas ou trios. Poucos carros estavam estacionados e Karl podia ver alguns homens de jaleco branco trabalhando no escritório distante. Ele não falou nada até chegar a seu próprio veículo estacionado próximo à saída. Um dos guardas então o inquiriu mais uma vez enquanto desligava a lanterna.


“Afinal, senhor, se o senhor me permite, e já que o acompanhamos todo este tempo, o que procurava naquele matagal úmido”?


Mas Heller estava muito excitado e assustado naquele momento. Não conseguia pensar em mais nada além de uma frase que lembrava de um velho filme de terror que assistira nas madrugadas dos anos setenta. Quando deu partida no carro disse aos dois acompanhantes intrigados e frustrados:


"Escutem! Não andem por aí sozinhos. Desconfiem sempre desta floresta. Não dêem as costas para ela jamais! Entenderam? Tranquem as portas de suas guaritas à noite e mantenham suas armas sempre carregadas.”


"Ora, o que está dizendo? O que...”.


"Não brinquem com o que digo! Nunca! Isso pode...”.


“O que, senhor? O que? Que brincadeira é esta?" Irritou-se um dos guardas.


Então Karl deu marcha-ré e dirigiu para a saída. Não disse mais nada aos vigias. Queria dizer-lhes "Cuidado!", mas achou que isso só os confundiria mais e os faria realmente acreditá-lo louco.
A estrada estava escura e deserta como da primeira vez, mas agora quase podia sentir olhos malévolos expiando para ele de algum lugar entre as árvores. Ligou o rádio baixinho para ver se conseguia pensar em outra coisa, mas a pavorosa frase do filme insistia em tomar de assalto seus pensamentos a todo instante:


"Se não os matar direito eles voltam!"

VIII

O velho sentou numa pedra próxima à entrada de uma enorme caverna. Estava completamente nu, mas o frio intenso da manhã não o incomodava em absoluto. Todo o seu corpo era agora percorrido por um vigor que jamais sentira antes; Nem mesmo a duas ou três semanas atrás, quando precisara esforçar-se para cavar o caminho para fora da sepultura onde o haviam enterrado no cemitério municipal, e, mais tarde, para reabrir e fechar a cova rasa onde depositara a carcaça de um velho inimigo. A imensa ossada jazia agora, no fundo escuro da fenda gigantesca que adotara como lar, tal qual uma relíquia de um tempo cuja memória ia se apagando gradativamente com o passar dos dias. Cada vez mais eram os instintos primordiais que comandavam os movimentos e ações de seu corpo; Necessidades básicas comuns a todos os animais: comer e subsistir. Tinha um vago entendimento de que quando a escuridão chegava podia viver melhor. Assim, durante o dia permanecia inerte, recostado aos caules das grandes árvores ou deitado à sombra de alguma rocha coberta de limo nas profundezas da floresta úmida. Como que para cumprir seu destino, agora apenas esperava e esperava pelo cair da noite.
___________________________________


*- Mastiff é uma raça de cão bastante robusta e de grande ferocidade muito utilizada para proteção em residências e fazendas. (N. do A.)

2 comentários:

Afonso L. Pereira disse...

Grande Henry, já havia passado aqui outras vezes e tinha lido o título deste conto, mas ao rolar a folha do blog, percebi que a sua leitura exigiria um tempo maior de entrega pelo fato de realmente o texto ser longo. Por isso, hoje, com calma, fiz a leitura da narrativa já sabendo que não iria perder o meu tempo.

Aliás, 2 perguntas e uma constatação: quantos conto de lobisomem você escreveu?

Um fato curioso é que aqueles que eu já li do gênero licântropo de sua autoria como VIRGÍLIO e ALGO SEVAGEM, além do A CRIATURA DO ZOOLÓGICO e, por fim, este mesmo, A LONGA ESPERA DE LEONARD, é que todos eles versam sobre a licantropia, mas em nenhum momento narrativo, nenhum mesmo, pelo menos que eu me lembre, você cita as selvagens criaturas de LOBISOMENS, apesar que está explicitamente claro que se trata do mito referido. Fica claro que se assume aí um artifício literário interessante. Há alguma explicação para o fato?

E sobre A LONGA ESPERA DE LEONARD encontro-me novamente diante de uma ótima história de terror, no qual você soube dosar muito bem os pedaços narrativos dos pequenos capítulos no passado de Leonard e o presente narrativo do futuro doutor.

Se me lembro este conto já foi escrito há muito tempo, não ê? Acho que há até uma sequência, se não me engano.

Bem, pra finalizar, sem cair na repetência dos adjetivos que já lhe lancei por conta de seu estilo pessoal e ao mesmo tempo gótico de escrever, o conto é show de bola. Vale à pena investir o minguado tempo que dispomos na rede para ler uma história sua, meu bom.

Grande abraço e, de coração, um 2010 de boas realizações.!

Henry Evaristo disse...

Olá, Afonso. Primeiramente muito obrigado por seu comentário.

Sim, "A Longa Espera" foi escrito em 1996/97, porém, do conto original resta pouca coisa, depois de tantas mudanças. Este é um de meus poucos contos em que me dediquei a reescrever, editar, mudar parágrafos de lugar, até chegar a um resultado final que me agradasse. Ao longo dessas revisões, até mesmo personagens desapareceram da trama, outros mudaram de nome...em fim...

Recentemente escrevi uma espécie de epílogo, que na realidade não sei bem o que é, sobre esse conto. Se chama O CELEIRO. Acho que esses são todos de lobisomem, por enquanto...

Abraços!

LÊ AGORA!

A Rainha dos Pantanos - Henry Evaristo

Virgílio - Henry Evaristo

UM SALTO NA ESCURIDÃO - Henry Evaristo publica seu primeiro livro

O CELEIRO, de Henry Evaristo

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Criado por WITCH PRINCESS; indicado por Tânia Souza do Descaminhos Sombrios.

Blog indicado: MASMORRA DO TERROR


AVISO AOS ESPERTINHOS!

CÓDIGO PENAL - ARTIGOS 184 E 186


Art. 184. Violar direitos de autor e os que lhe são conexos:

Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.

§ 1º Se a violação consistir em reprodução total ou parcial, com intuito de lucro direto ou indireto, por qualquer meio ou processo, de obra intelectual, interpretação, execução ou fonograma, sem autorização expressa do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor, conforme o caso, ou de quem os represente:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.

§ 2º Na mesma pena do § 1o incorre quem, com o intuito de lucro direto ou indireto, distribui, vende, expõe à venda, aluga, introduz no País, adquire, oculta, tem em depósito, original ou cópia de obra intelectual ou fonograma reproduzido com violação do direito de autor, do direito de artista intérprete ou executante ou do direito do produtor de fonograma, ou, ainda, aluga original ou cópia de obra intelectual ou fonograma, sem a expressa autorização dos titulares dos direitos ou de quem os represente.

§ 3º Se a violação consistir no oferecimento ao público, mediante cabo, fibra ótica, satélite, ondas ou qualquer outro sistema que permita ao usuário realizar a seleção da obra ou produção para recebê-la em um tempo e lugar previamente determinados por quem formula a demanda, com intuito de lucro, direto ou indireto, sem autorização expressa, conforme o caso, do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor de fonograma, ou de quem os represente:

Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.

§ 4º O disposto nos §§ 1o, 2o e 3o não se aplica quando se tratar de exceção ou limitação ao direito de autor ou os que lhe são conexos, em conformidade com o previsto na Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, nem a cópia de obra intelectual ou fonograma, em um só exemplar, para uso privado do copista, sem intuito de lucro direto ou indireto.



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